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Curricularização da extensão na Epidemiologia Veterinária: conhecimento dos tutores e produção de vídeo sobre sanidade de pets não convencionais

Revista Agrária Acadêmica

agrariacad.com

doi: 10.32406/v8n2/2025/121-131/agrariacad

 

Curricularização da extensão na Epidemiologia Veterinária: conhecimento dos tutores e produção de vídeo sobre sanidade de pets não convencionais. Curricularization of extension in Veterinary Epidemiology: knowledge of guardians and video production on the health of non-conventional pets.

 

Juliana Karla Quirino Ramalho1, Sara Morais Pordeus1, Janine Miranda de Oliveira Tillmann1, Jacyara de Souza Fernandes1, Beatriz Cantalice de Melo1, Anuska Alves Coutinho Lins1, Thiago Ferreira Lopes Nery2, Sebastião André Barbosa Junior2

 

1- Discente do Curso de Medicina Veterinária – Centro Universitário UNIESP – Cabedelo/PB – Brasil. E-mails: julianaquirino410@gmail.com, sarapordeus89@gmail.com, janinetillmannmedvet@gmail.com, jacyara.vetjp@gmail.com, biacantalice07@gmail.com, anuska.coutinho@hotmail.com
2- Docente do Curso de Medicina Veterinária – Centro Universitário UNIESP – Cabedelo/PB – Brasil. E-mails: nerylf@gmail.com, sebastiaoandre.ater@gmail.com

 

Resumo

 

Objetivou-se com o presente relato descrever uma vivência de curricularização da extensão universitária na disciplina de Epidemiologia Veterinária e Planejamento em Saúde sobre o conhecimento de tutores e a produção de um vídeo extensionista sobre a sanidade de pets não convencionais. A vivência foi desenvolvida em duas etapas: a primeira a partir de um diagnóstico epidemiológico, que foi realizado através de um questionário virtual, e a segunda com uma intervenção, através da produção de um vídeo extensionista. O questionário virtual foi respondido por dez pessoas, metade do sexo feminino e a outra do masculino. A espécie de maior ocorrência foi constituída pelas aves. Metade dos tutores responderam que nunca levaram seus animais para consulta ao médico veterinário e apenas um tutor relatou a ocorrência de doenças em seus animais. O vídeo extensionista foi construído através de uma entrevista com um médico veterinário especialista em pets não convencionais. Conclui-se que os tutores têm uma falta de conhecimento em relação aos manejos sanitários e que estratégias de comunicação ajudam na difusão de informações sobre os pets não convencionais.

Palavras-chave: Animais Silvestres. Aves. Extensão Universitária. Pets exóticos. Tecnologia da Informação e Comunicação.

 

 

Abstract

 

The aim of this report was to describe an experience of curricularization of university extension in the discipline of Veterinary Epidemiology and Health Planning on the knowledge of tutors and the production of an extension video on the health of unconventional pets. The experience was developed in two stages: the first based on an epidemiological diagnosis, which was carried out through a virtual questionnaire, and the second with an intervention, through the production of an extension video. The virtual questionnaire was answered by ten people, half of them female and the other half male. The most common species was birds. Half of the owners responded that they never took their animals for consultation with a veterinarian and only one owner reported the occurrence of diseases in their animals. The extension video was created through an interview with a veterinarian specializing in unconventional pets. It is concluded that guardians have a lack of knowledge regarding health management and that communication strategies help in disseminating information about unconventional pets.

Keywords: Wild animals. Birds. University Extension. Exotic pets. Information and communication technology.

 

 

Introdução

 

A medicina de animais silvestres e exóticos é uma área que está em crescimento. Essa maior aproximação do ser humano com esses animais é consequência do crescimento dos zoológicos e centros de manejo, urbanização, saúde mental etc. Mas precisamos ter cuidado pois a ação do ser humano sobre o meio ambiente e sobre os animais silvestres e exóticos podem gerar consequências negativas como o aumento do tráfico de animais e o aumento de desastres naturais com influências antrópicas (BATISTA; LIMA, 2021).

As definições de animais silvestres e exóticos são as seguintes: animais silvestres são todos os animais que pertencem as espécies nativas, migratórias e quaisquer outras, que tenham seu ciclo de vida acontecendo dentro dos limites do território do nosso país; e os animais exóticos são todos aqueles que pertencem as espécies ou subespécies cuja distribuição geográfica não inclui o território brasileiro. No presente trabalho será utilizado o termo pets não convencionais por ser entendido como: todos os animais, diferentes do cão e do gato, domesticados e mantidos pelo homem com a finalidade, principalmente de animal de companhia, criados em residências e que compartilham vivências e interações com o ser humano (SILVA et al., 2022).

A proximidade dos seres humanos com os animais selvagens e silvestres não é uma realidade recente. A criação desses animais para fins de entretenimento e companhia faz parte da cultura humana desde a pré-história, passando pela cultura grega e romana até os dias atuais (FERNÁNDEZ et al., 2025).

Segundo pesquisa realizada em 2021, pelo Instituto Pet Brasil, o Brasil ocupa o 3º lugar no ranking mundial de países com mais pets com um total de 149,6 milhões de animais de estimação, ficando atrás apenas da Argentina e do México. Os cães lideram, com 58,1 milhões de animais, seguidos das aves canoras, 41 milhões, seguido pelos gatos, com 27,1 milhões, e por fim estão os peixes, com 20,8 milhões, e os pequenos répteis e mamíferos, com 2,5 milhões (IPB, 2022).

O mercado de pets não convencionais vem crescendo e com ele aumenta a exigência de profissionais capacitados para atendê-los, o que demonstra a necessidade de avanços no que diz respeito aos conhecimentos sobre esses animais nas mais diversas áreas da medicina veterinária (SOUZA et al., 2021). De acordo com Fernández et al. (2025), os pets não convencionais estão cada vez mais estabelecidos como um segmento do comércio global. Como exemplo, tem-se que a estimativa financeira em relação ao mercado legal de peixes ornamentais movimenta em torno de 15 a 20 bilhões de dólares por ano.

Criou-se a ideia, advinda do senso comum, de que animais exóticos não necessitem de cuidados relacionados à saúde e bem-estar, assim como os animais domésticos, o que é equivocado. Tendo como consequência a criação de animais exóticos sem o devido manejo e cuidado necessário ao bem-estar deles. Estes precisam dos mesmos cuidados, como consultas de rotina ao veterinário, manejo adequado, cuidados com alimentação e o ambiente em que habitam.

Essas informações mostram uma grande população dos pets não convencionais em nosso país e diante disso demanda por mais qualificação dos profissionais sobre o assunto na graduação e pós-graduação, além da demanda por mais espaços e estratégias para orientações aos tutores. Diante disto uma das estratégias para o trabalho de conteúdos e situações concretas envolvendo pets não convencionais na formação de estudantes da medicina veterinária foi a curricularização da extensão universitária.

De acordo com a resolução nº 7/2018, artigo 3º, do Ministério da Educação e Cultura e Conselho Nacional de Educação (BRASIL, 2018), a extensão universitária na educação superior é definida como:

 

“É a atividade que se integra à matriz curricular e à organização da pesquisa, constituindo-se em processo interdisciplinar, político educacional, cultural, científico, tecnológico, que promove a interação transformadora entre as instituições de ensino superior e os outros setores da sociedade, por meio da produção e da aplicação do conhecimento, em articulação permanente com o ensino e a pesquisa.”

 

A resolução formaliza a importância da Extensão Universitária na formação profissional com a proposta de sua curricularização, na qual 10% da carga horária dos cursos de graduação terão que ser constituídos por projetos de Extensão Universitária (BRASIL, 2018).

Somado aos aspectos apresentados, a produção acadêmica sobre pets não convencionais é escassa. Assim posto, objetivou-se com o presente relato de experiência, descrever uma vivência da curricularização da extensão universitária na disciplina de Epidemiologia Veterinária e Planejamento em Saúde sobre o conhecimento de tutores e a produção de um vídeo extensionista sobre os pets não convencionais.

 

Material e métodos

 

O presente estudo trata-se de um relato de experiência sobre uma vivência desenvolvida por um grupo de estudantes no contexto da curricularização da extensão na disciplina de Epidemiologia Veterinária e Planejamento em Saúde. A disciplina aconteceu no 3º período, turno noturno, durante os meses de fevereiro a junho de 2024, do curso de Medicina Veterinária do Centro Universitário UNIESP, localizado no munícipio de Cabedelo, Paraíba.

A vivência extensionista da disciplina foi desenvolvida através do projeto de extensão intitulado de: “Ações de educação em Saúde Única com criadores de pets domésticos, exóticos e animais de produção”. No presente estudo foi descrito a ação extensionista de um grupo de estudantes que participou da disciplina e que ficou responsável pela temática da sanidade dos pets exóticos. A ação extensionista foi dividida em duas etapas: uma etapa de diagnóstico epidemiológico e outra etapa de intervenção extensionista.

O diagnóstico epidemiológico foi realizado a partir da aplicação de um questionário com tutores de pets não convencionais maiores de idade e residentes no município de João Pessoa – PB. O questionário foi elaborado de forma virtual com auxílio da plataforma Microsoft Forms®. O questionário contou com 16 questões, como visto no quadro 1.

As perguntas inseridas no questionário tiveram como objetivo compreender a realidade dos tutores e de seus pets, a fim de identificar os aspectos positivos e negativos relacionados à saúde dos animais e as falhas que ocorrem no mercado veterinário, pela falta de profissionais especializados em animais silvestres, ou pelo menos, em pets não convencionais.

No momento que os tutores clicaram no link eletrônico para participar do questionário, antes do aparecimento das perguntas, era mostrada uma tela com a carta de apresentação mostrando informações sobre o Projeto Extensionista da disciplina de Epidemiologia Veterinária e Planejamento em Saúde, e as implicações da participação no questionário. Só após a concordância do tutor era que a página com as perguntas era mostrada.

 

Quadro 1 – Questionário virtual aplicado com os tutores de pets exóticos do município de João Pessoa – PB.
Questionário Virtual
Questão 1 – Informações sobre o tutor (Nome)
Questão 2 – Idade
Questão 3 – Gênero
Questão 4 – Quantos Pets Exóticos você possui?
Questão 5 – Informações sobre o Pet (Espécie)
Questão 6 – Nome
Questão 7 – Idade e tempo de convivência com o Pet
Questão 8 – Tem veterinário de exóticos na sua cidade?
Questão 9 – Seu Pet já teve alguma doença grave?
Questão 10 – Quando foi a última consulta veterinária?
Questão 11 – Qual a maior frustração que você teve, em relação aos cuidados de saúde?
Questão 12 – Como se mantém informado sobre questões de saúde específicas?
Questão 13 – Seu Pet proporciona algum tipo de benefício para a sua saúde mental ou emocional?
Questão 14 – Custos mensais (alimentação, veterinário, acessórios…)
Questão 15 – Considerando os aspectos avaliados, qual o seu nível de confiança na saúde e bem-estar do seu Pet exótico em relação a questões epidemiológicas?
Questão 16 – Escreva aqui alguma informação que você considera relevante sobre a sanidade do seu Pet.
Fonte: Elaborado pelos autores.

 

Posteriormente a realização do questionário virtual foi realizada uma entrevista com um médico veterinário especialista em pets não convencionais e realizada a produção de um vídeo extensionista sobre o assunto para ser disponibilizado para os tutores que participaram do projeto.

 

Resultados e discussão

 

Diagnóstico epidemiológico – questionário virtual

 

No total dez tutores participaram da pesquisa virtual, com idade entre 22 e 75 anos, sendo metade deles do gênero feminino (5/10) 50% e metade do gênero masculino (5/10) 50%. O tempo médio para conclusão do questionário foi de aproximadamente 17 minutos.

A espécie que predominou na pesquisa foram as aves, representando (7/10) 70% e (3/10) 30% eram compostos de roedores, coelhos e porquinhos da Índia. A idade dos pets variava de 2 meses a 6 anos. Todos os tutores que responderam à pesquisa, concordam que o pet proporciona algum tipo de benefício para a sua saúde mental ou emocional.

Sobre as espécies foram encontrados resultados semelhantes na literatura pesquisada: Souza et al. (2021) realizaram levantamento em fichas dos atendimentos clínicos a animais silvestres e exóticos ocorridos nos anos de 2018 e 2019 no Hospital Veterinário Universitário da Universidade Federal de Campina Grande, localizado na cidade de Patos-PB, e as principais espécies foram as aves (52,97%), mamíferos (44,32%) e os répteis (2,7%). Silva et al. (2022) realizou um questionário virtual com tutores de pets não convencionais na região de Salinas – MG. Os autores verificaram as aves como a espécie de maior ocorrência, com 53,1%, seguida pelos peixes correspondendo a 21,4%, mamíferos com 16,5% e por fim, os répteis representando 9%.

Santos (2022) realizou estudo sobre a casuística dos atendimentos realizados a animais silvestres e pets não convencionais, entre os anos de 2016 e 2020, no Hospital Veterinário da Universidade Federal da Paraíba, Campus Areia-PB. Foi verificado um total de 367 atendimentos no período da pesquisa, sendo 54,2% em aves, 25,3% em mamíferos, 20,2% em répteis e 0,3% em peixe. Stein (2022) aplicou um questionário virtual com 49 médicos veterinários associados à Associação Brasileira de Veterinários de Animais Selvagens (ABRAVAS), sobre as principais espécies atendidas pelos profissionais, e verificou que 63,3% dos entrevistados responderam que a classe mais atendida foi a das aves, seguida pela classe dos mamíferos, com 32,7%.

Grespan e Raso (2014) argumentam sobre a motivação para que a maioria dos tutores tenham preferência pelas aves se dê pela admiração pela beleza, inteligência, temperamento social e a capacidade de mimetizar sons. Silva et al. (2022) argumentam ainda que a preferência pelas aves é explicada pela maior facilidade de aquisição, até de forma ilegal, pelo tamanho do animal, facilidades de manuseio e manter em gaiolas.

Shukhova e MacMillan (2020), realizando pesquisa com tutores de pets não convencionais na Rússia, encontraram que dentre as principais razões para a criação desses animai foram: salvar a vida dos animais, tutor por acidente, busca por novas experiências e tutores que colecionavam os animais não convencionais.

No presente diagnóstico, a maioria dos tutores (8/10) 80% relataram ter conhecimento sobre a existência de médicos veterinários especialistas em pets não convencionais no município de João Pessoa – PB, porém metade dos tutores (5/10) 50% nunca levaram seus animais para consulta o profissional. O que pode justificar esse comportamento é que apenas (1/10) 10% dos tutores, relatou que seu animal apresentou uma doença grave.

Silva et al. (2022) verificaram que 57,5% dos tutores que participaram de sua pesquisa não receberam orientações sobre os manejos e questões sanitárias do seu pet não convencional. Segundo os autores, um dos principais motivos para a falta de informações e de os tutores levarem seus animais para consultas de rotina é a forma não legal de adoção e falta de registro do animal. Ratificando a importância desse argumento sobre à legalidade da criação dos pets não convencionais, Stein (2022) encontrou em sua pesquisa, com veterinários especialistas associados à ABRAVAS, que 60,5% dos animais atendidos pelos profissionais não possuíam origem legal.

O questionário virtual também permitiu verificar o quão diverso são os meios de comunicação e busca de informações sobre os pets exóticos utilizados pelos tutores, sendo em sites especializados (3/10) 30%, redes sociais (3/10) 30%, outros criadores (2/10) 20% e (1/10) 10% respondeu outros meios.

Souza et al. (2021) verificaram que muitos tutores quando iam para a consulta, não tinham informações suficientes sobre o correto manejo alimentar e/ou ambiental dos animais que mantinham como pets e não sabiam o quanto esse quesito é importante para a manutenção da saúde de suas aves, mamíferos ou répteis, sendo inclusive uma parcela dos casos atendidos relacionados à erros de manejo.

A última pergunta do questionário virtual foi relacionada a principal dificuldade que o tutor de pets exóticos do município de João Pessoa – PB tinha em sua rotina. Diante das respostas apresentadas, foi construído um diagrama com as principais palavras contidas nas respostas. A palavra mais repetida foi “Falta” mostrando o principal sentimento que os tutores relataram sobre a experiência de criar pets exóticos. Segue as respostas dos tutores (Quadro 2) e o Diagrama com a intensidade da repetição das palavras (Figura 1).

 

Quadro 2 – Quadro com as respostas dos tutores de pets exóticos do município de João Pessoa – PB para a pergunta: Qual a sua principal dificuldade?
Tutores
Respostas
Tutor 1
“Falta de informação;”
Tutor 2
“Não saber lidar e a falta de veterinários para ela;”
Tutor 3
“Pouco conhecimento e a falta de manejo ideal;”
Tutor 4
Não respondeu
Tutor 5
“Dificuldade em encontrar veterinários com alguma experiência em atendimento a coelhos;”
Tutor 6
Não respondeu
Tutor 7
“A dificuldade de achar vet para pets exóticos/silvestres;”
Tutor 8
“Baixa disponibilidade de serviço, tudo extremamente caro (1 hemograma é acima de 400 reais);”
Tutor 9
Não respondeu
Tutor 10
“Limpar as unhas dele;”
Fonte: Elaborado pelos autores.

 

Figura 1 – Diagrama com a sistematização das palavras mais escritas no questionário virtual. Fonte: Elaborado pelos autores.

 

A equação da falta de informação somado com a falta de profissionais especialistas em pets não convencionais associados a uma grande quantidade de informações promovidas pela internet e redes sociais é um alerta. Fernández et al. (2025) argumentam sobre a produção de vídeos para as redes sociais, que quanto mais exótica a espécie animal evidenciada, maior é a perspectiva de o vídeo alcançar mais visualizações, ou seja, se tornar um “viral”. Tal situação pode ser um processo negativo devido a visualização e compartilhamento de vídeos de forma acrítica, sem avaliação da veracidade das informações, que pode espalhar informações falsas sobre animais silvestres e selvagens.

Nekaris et al. (2013), realizando pesquisa sobre a produção de vídeos sobre animais não convencionais por canais no YouTube, relataram o exemplo de um vídeo sobre o Loris Lento (Slow Loris), no qual foi verificado uma grande quantidade de comentários das pessoas que achavam o animal bonito e tinham vontade de adquiri-lo. Quando na verdade, o Loris Lento, é um animal venenoso, e em cativeiro estará sendo exposto a uma situação de grande estresse.

Outro argumento interessante é a influência de livros e filmes no aumento na procura e aquisição de pets não convencionais. Nijman e Nekaris (2017) perceberam um aumento na popularidade da criação de corujas, como pet não convencional, na Indonésia. Essa popularidade aconteceu justamente devido a influência dos livros e filmes da franquia Harry Potter.

 

Intervenção – produção de vídeo extensionista

 

A intervenção foi realizada através da produção de um vídeo extensionista. O conteúdo do vídeo foi uma entrevista realizada com um Médico Veterinário especialista em clínica e cirurgia de pets não convencionais. A entrevista foi realizada no dia 06 de maio de 2024. A primeira pergunta da entrevista versou sobre a falta de profissionais médicos veterinários especialistas em pets não convencionais no município de João Pessoa – PB. O profissional entrevistado respondeu que a realidade da escassez de profissionais especializados não é exclusiva da cidade de João Pessoa, mas sim de todo o Brasil, existindo uma pequena quantidade de especializados na área, mesmo havendo uma alta demanda no mercado. Ele citou alguns colegas especialistas em pets não convencionais no município a fim de ajudar os tutores a encontrarem um profissional habilitado.

A segunda pergunta da entrevista foi sobre as principais doenças que acometem os pets não convencionais, em especial, as calopsitas e coelhos, em que os tutores relataram, em sua maioria, a não incidência de patologias graves. O médico veterinário especialista alertou sobre ocorrência de infecções subclínicas, como parasitas e outros agentes infecciosos, que não apresentam sinais clínicos nos animais, mas interferem na qualidade e expectativa de vida do pet. O especialista argumentou sobre as doenças que geralmente são adquiridas através da artificialização do habitat do animal, como nas gaiolas, citando as clamidioses, os micoplasmoses, as distorcias, problemas relacionados à reprodução, e neoplasias.

A terceira pergunta da entrevista foi sobre a frequência ideal para se levar o pet não convencional para uma consulta ao médico veterinário, visto que a maior parte dos tutores relatou nunca ter levado seu pet à uma consulta. O entrevistado explicou que é primordial ir ao veterinário assim que adotar/aquirir o animal pois a primeira consulta, será uma consultoria e esclarecerá as dúvidas sobre o manejo adequado do animal, levando em conta as necessidades da espécie, o ambiente em que será criado e sua nutrição adequada. O médico veterinário especialista recomendou a realização da primeira consulta e depois manter uma frequência de uma consulta a cada seis meses, de forma preventiva, visto que os animais que realizam avaliações semestrais correm menos riscos de desenvolver patologias.

Além disso, ao ser questionado, na quarta pergunta, sobre o interesse dos estudantes de graduação em medicina veterinária pela área de animais silvestres/pets não convencionais, o especialista explicou que no atual contexto está existindo um crescente interesse pela área, visto que existe uma grande quantidade de pets não convencionais e uma necessidade iminente de mais profissionais especializados na área. O especialista acrescentou que por ser uma área ainda pouco difundida, também há muito espaço para produção científica e desenvolvimento de estudos e novas temáticas.

O médico veterinário especialista também sanou as dúvidas acerca das vacinas disponíveis no mercado para os pets exóticos, a necessidade e obrigatoriedade de vacinação e vermifugação destes animais. Logo, explicou que algumas espécies precisam ser vacinadas para entrar no Brasil, mas para aquelas que se encontram no território brasileiro, existe uma dificuldade devido às doses, pois os imunizantes são vendidos em quantidades muito elevadas, não sendo viável comprar para dar a um animal e descartar o resto do produto. A exemplo das aves que precisam de apenas uma gota de imunizante via nasal, mas o produto é vendido em grande quantidade principalmente para o uso no contexto da avicultura.

Por fim, o médico veterinário especialista acrescentou que é de suma importância entender a epidemiologia das doenças, para saber o risco e a exposição do animal à doença naquele local, não havendo necessidade de vacinação em áreas não endêmicas. Quanto a vermifugação, é necessário administrar os vermífugos que já estão disponíveis no mercado, de forma preventiva, pois principalmente as aves em gaiolas, são muito acometidas por verminoses. E infelizmente, os tutores acabam levando seus animais ao veterinário quando a infestação já está alta, com quadros clínicos e/ou quando o animal apresenta sinais dos parasitas nas fezes.

A argumentação encontrada na literatura pesquisada foi semelhante a resposta do médico veterinário forneceu na entrevista. De acordo com Souza et al. (2021), a  consulta com um médico veterinário de animais silvestres logo que se adquire um pet não convencional, ou mesmo antes de adquiri-lo, pode suprir o tutor com informações acerca da espécie em questão que incluem sua alimentação ideal, o ambiente em que o animal deve viver, incluindo o tipo de substrato necessário, o tipo de gaiola, o tamanho, se pode conviver com outros da mesma espécie, horários de maior atividade da espécie, necessidade ou não de castração, material ou plantas que podem ser tóxicos, expectativa de vida, entre outros tópicos. Essas informações unidas ao atendimento clínico preventivo, diminuem consideravelmente o risco de doenças causados por erro de manejo e de acidentes com os animais.

Na pesquisa desenvolvida por Stein (2022), com 49 médicos veterinários associados à ABRAVAS, foi verificado que, os veterinários especialistas em animais silvestres e selvagens, estavam desenvolvendo suas atividades em 14 estados diferentes do Brasil, sendo uma grande parte localizada no estado de São Paulo, 40,6%, seguido por Santa Catarina, com 18.4%, e o Rio Grande do Sul, com 16,3% dos profissionais especialistas. Quanto ao grau de formação, a maioria dos profissionais tinham graduação, totalizando 69,4%, seguido por 20,4%, com pós-graduação nível doutorado, e 10,2%, com pós-graduação nível mestrado. Sobre o local de atuação dos médicos veterinários, foi observado que 55,1% atuavam em clínicas veterinárias, 26,5% em hospitais veterinários e/ou atendimento domiciliar, 20,4% em instituições de ensino, e 4% em laboratórios. Apenas uma pessoa trabalha com resgate de fauna, uma em centro de triagem de animais silvestres, uma em zoológico, uma em consultoria ambiental, uma em instituição de pesquisa, uma em organização não governamental e uma em centro de reabilitação de animais silvestres.

Silva et al. (2022) concluíram em sua pesquisa a necessidade de realização de serviços assistenciais e educativos para os tutores e seus pets não convencionais na região de Salinas-MG, no sentindo de implantar um dia específico de atendimento clínico e cirúrgico, e prestar orientações aos tutores no Complexo Veterinário do IFNMG (Campus Salinas-MG). Os autores destacam que essa proposta irá beneficiar aos tutores, mas também irá subsidiar a formação dos futuros profissionais médicos veterinários com mais conteúdos e vivências na área de animais silvestres, exóticos e pets não convencionais. Fernández et al. (2025) concluem no seu estudo que a educação sobre a criação de pets não-convencionais deve ser oferecida por autoridades competentes envolvidas na atividade, desde instituições de conservação e saúde animal, até profissionais autônomos, professores e até mesmo os responsáveis pela supervisão das condições comerciais. Detalhes sobre instalações, manejos, alimentação, comportamento, origem e sanidade devem ser apresentados no momento da aquisição dos animais.

De acordo com argumentação de Marques e Silva (2024), a população de animais não convencionais nas moradias dos brasileiros está aumentando, e consequentemente, há uma crescente demanda para serviços e produtos especializados na área, que implica uma crescente necessidade de médicos veterinários especializados na área. No currículo formal da Medicina Veterinária existe uma escassez de conteúdos básicos e aplicados para a formação desses profissionais. Outro problema em muitos casos é a não existência de hospitais e clínicas escolas com suporte para essas espécies nas faculdades e universidades. Dessa maneira, uma alternativa para se buscar conhecimentos nessa área é por meio de participação em ações e programas de extensão, eventos com a presença de profissionais especializados em animais silvestres, selvagens e pets não convencionais, visitas e estágios em instituições públicas ou privadas de proteção à fauna e estágios em clínicas veterinárias especializadas.

Tais argumentos trazem inspiração para cada vez mais proporcionar o aumento das atividades de ensino, pesquisa e extensão universitária sobre os pets não convencionais, tanto para uma melhor comunicação e orientação junto aos tutores dos animais, quanto para trazer mais conteúdos e oportunidades para a formação dos estudantes da medicina veterinária se aprofundarem na área.

 

Conclusão

 

Conclui-se que, a questão da sanidade dos pets não convencionais, é complexa e multifacetada e de acordo com a vivência do relato, pode-se observar que a maioria dos tutores não tem acesso a informações e orientações técnicas sobre a criação e sanidade dos pets não convencionais.  Outra lacuna é a escassez de profissionais médicos veterinários e serviços especializados na área para conseguir dar uma maior assistência e elaboração de estratégias de comunicação junto aos tutores. Logo a experiência da curricularização da extensão universitária na disciplina de Epidemiologia Veterinária permitiu uma aproximação dos estudantes de graduação com a área e a oportunidade de realizar uma intervenção no desenvolvimento de um vídeo extensionista que foi apresentado e entregue aos tutores que participaram do projeto.

 

Conflitos de interesse

 

Não houve conflito de interesses dos autores.

 

Contribuição dos autores

 

Juliana Karla Quirino Ramalho, Sara Morais Pordeus, Janine Miranda de Oliveira Tillmann, Jacyara de Souza Fernandes, Beatriz Cantalice de Melo e Anuska Alves Coutinho Lins – ideia inicial, realização do diagnóstico epidemiológico, intervenção e escrita; Thiago Ferreira Lopes Nery e Sebastião André Barbosa Junior – orientação para o diagnóstico epidemiológico e intervenção, correções e escrita final.

 

Referencias bibliográficas

 

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Recebido em 21 de novembro de 2024

Retornado para ajustes em 23 de maio de 2025

Recebido com ajustes em 25 de maio de 2025

Aceito em 4 de junho de 2025

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