Caracterização morfológica e agronômica de mamão regional (Carica papaya L.)

Revista Agrária Acadêmica

agrariacad.com

doi: 10.32406/v6n5/2023/66-75/agrariacad

 

Caracterização morfológica e agronômica de mamão regional (Carica papaya L.). Morphological and agronomic characterization of regional papaya (Carica papaya L.).

 

Ronaldo Lúcio de Lima Marques Filho1*, Daniel Felipe de Oliveira Gentil2

 

1*- Discente do Curso de Agronomia, Universidade Federal do Amazonas – UFAM, Campus Manaus – AM. E-mail: ronaldolmarkes@gmail.com
2- Docente do Curso de Agronomia, Universidade Federal do Amazonas – UFAM, Campus Manaus – AM. E-mail: dfgentil@ufam.edu.br

 

 

Resumo

 

O objetivo do trabalho foi caracterizar um acesso de mamão cultivado no Alto Solimões, Amazonas, identificando os descritores mais importantes para reconhecimento da variedade e descrevendo o acesso com base em suas características morfológicas e agronômicas. O trabalho foi composto por 30 plantas. Os dados qualitativos foram descritos, enquanto os quantitativos foram submetidos à análise estatística descritiva. Os resultados demonstraram que o acesso apresenta características peculiaridades, como pigmentação do caule púrpuro-médio, ausência de flores hermafroditas e coloração laranja-claro da polpa do fruto no ponto de maturidade horticultural. Assim, preservar esse acesso é fundamental, considerando a sua relevância comercial local e o seu potencial para futuros programas de melhoramento genético.

Palavras-chave: Variedade local. Sementes crioulas. Agricultura familiar.

 

 

Abstract

 

The aim of this study was to characterize a papaya variety grown in Alto Solimoes, Amazonas, identifying the most important descriptors for recognizing the variety and describing the variety based on its morphological and agronomic characteristics. The study consisted of 30 plants. The qualitative data was described, while the quantitative data was submitted to descriptive statistical analysis. The results showed that the variety has peculiar characteristics, such as purple-medium stem pigmentation, the absence of hermaphrodite flowers and the light orange color of the fruit pulp at the horticultural maturity point. Thus, preserving this variety is essential, considering its local commercial relevance and its potential for future genetic improvement programs.

Keywords: Local variety. Creole seeds. Family farming.

 

 

Introdução

 

O mamoeiro (Carica papaya L.) é uma planta tropical da família Caricaceae, cujo fruto é amplamente consumido devido ao seu sabor agradável e ao seu alto valor nutricional, já que possui elevado teor de vitaminas A e C, minerais, carotenoides e açúcares (TERRA et al., 2020; SANTANA; OLIVEIRA, 2022). A origem da espécie é provavelmente no Noroeste da América do Sul, na Bacia Amazônica Superior, onde sua diversidade genética é máxima (OLIVEIRA; COELHO, 2021).

As regiões do mundo que mais produzem mamão, estão concentradas na Ásia (57,4%), Américas (31,9%), África (10,5%) e Oceania (0,2%), sendo o Brasil o segundo país com maior produção (1.256.703 t), ficando atrás apenas da Índia (5.540.000 t) (FAOSTAT, 2021). O total da área produzida no Brasil, em 2021, foi de 28.495 hectares, concentrando a maior parte da produção (95,75%) nos estados do Espírito Santo (902 mil t) e Bahia (630 mil t) (ANUÁRIO HF, 2023). Segundo o IDAM (2021), o Estado do Amazonas registou uma estimativa de produção total de 22.583 t, com destaque para as regiões do Rio Negro/Solimões e Médio Amazonas com produção de 15.622 e 2.382 toneladas respectivamente. Os maiores produtores foram os municípios de Manacapuru (6.000 t), Itacoatiara (5.400 t) e Manaus (1.200 t) (IDAM, 2021).

As plantas dessa espécie têm altura variando entre 3 e 8 m, caule lactescente, cilíndrico, herbáceo e ereto, marcado por um conjunto de folhas glabras adensadas na parte apical, sistema radicular pivotante, flores masculinas, femininas ou hermafroditas, com coloração das pétalas entre branca e amarela, frutos do tipo baga, variando no formato de acordo com o tipo de flor (SILVA et al., 2021).

As cultivares de mamoeiro se dividem em dois grupos, Solo e Formosa, que possuem características distintas quanto ao tamanho e peso do fruto, sabor e coloração da polpa, entre outras (SANTANA; OLIVEIRA, 2022). Os frutos do grupo Solo são menores e podem variar entre 300 e 650 g de peso (OLIVEIRA; COELHO, 2021; SANTANA; OLIVEIRA, 2022); já os frutos do grupo Formosa, apresentam peso comercial entre 800 e 1600 g (EMBRAPA, 2009; DANTAS et al., 2013; OLIVEIRA; COELHO, 2021). No Brasil, foi desenvolvido pela Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, em parceria com as empresas Caliman Agrícola S/A e Pesagro-Rio, o híbrido UENF-Caliman 01, também conhecido como ‘Calimosa’, que apresenta frutos de tamanho, aroma e sabor intermediários aos frutos dos grupos Solo e Formosa (LUCENA, 2016). O mercado internacional tem preferência por variedades do grupo Solo, devido à sua capacidade de produzir frutos com características desejadas para exportação, tais como tamanho pequeno e polpa avermelhada (SANTANA; OLIVEIRA, 2022).

A União Europeia é o maior consumidor do produto brasileiro, seguida pelos Estados Unidos, com importações de 91,60% e 6,44% dos volumes exportados pelo país, respectivamente (ANUÁRIO HF, 2023). Entretanto, apesar da participação nas exportações, o Brasil possui um mercado interno expressivo, que absorve 96% do total da produção nacional (SANTANA; OLIVEIRA, 2022).

Segundo Silva et al. (2021), é importante ampliar os estudos de identificação de novos acessos de caricáceas no Brasil, o que pode contribuir para o desenvolvimento de novas cultivares de mamoeiro com características agronômicas para comercialização e com novas aplicações industriais. Todavia, ao longo dos anos, a ação humana vem restringindo a variabilidade genética, especialmente em substituição de variedades locais ou tradicionais por novas variedades comerciais melhoradas (CARVALHO et al., 2009). Essa redução da variabilidade pode colocar em risco a sustentabilidade da agricultura, além de interferir diretamente no processo evolutivo das espécies (SALOMÃO et al., 2010). Logo, a perda da diversidade genética acarreta a redução da capacidade de adaptação das plantas às alterações do ambiente, o que consequentemente ameaça à segurança alimentar da população e pode levar à extinção de espécies cultivadas (CARVALHO et al., 2009).

A caracterização consiste em registrar caracteres de espécies vegetais, permitindo uma melhor compreensão de sua diversidade genética, adaptabilidade e potencial de utilização, fornecendo informações valiosas sobre suas características visíveis e hereditárias (IPGRI, 2003). Os descritores são características ou atributos, mensuráveis ou subjetivos, de um acesso, aplicados na caracterização e na avaliação de coleções de germoplasmas para tornar suas propriedades morfológicas e agronômicas conhecidas (SALOMÃO, 2010). Portanto, são ferramentas indispensáveis para a compreensão da diversidade genética de uma espécie e para a elaboração de estratégias eficazes de conservação e melhoramento (SILVA et al., 2020).

No estado do Amazonas, em Benjamin Constant, foi constatada a existência de uma variedade local de mamão, cultivada por agricultores familiares, sendo bastante comercializada neste município e no município vizinho Tabatinga. Diante da importância dessa variedade para os agricultores locais e consumidores nos municípios citados, foi verificada a necessidade de descrever as suas características diferenciais, visando contribuir com ações de conservação e manejo fitotécnico. O objetivo deste trabalho foi de caracterizar este acesso de mamão regional.

 

Material e métodos

 

O trabalho foi conduzido em campo na Fazenda Experimental (02˚ 37’ 17,1” S e 60˚ 03’ 29,1” O) e em laboratório no Setor de Hortaliças e Plantas Ornamentais (03º 06’ 04,1’’ S e 59º 58’ 98,9” O), da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), em Manaus. O clima da região, de acordo com a classificação de Köppen, é do tipo Af – sem estação seca (ALVARES et al., 2013). O solo é ácido (pH 4,33) e da classe Latossolo Amarelo.

O acesso de mamão regional é tradicionalmente cultivado e comercializado no município de Benjamin Constant, e mantido no Setor de Hortaliças e Plantas Ornamentais/UFAM por meio de sementes.

O preparo da área foi mecanizado, por meio de roçagem e uma gradagem. A calagem, a adubação de plantio e a de cobertura (Tabela 1), seguiram as recomendações de Embrapa (2009). As covas (30 x 30 x 30 cm) foram abertas com enxadas, adotando o espaçamento 3 m x 2 m. Os demais tratos culturais e manejo fitossanitário seguiram as recomendações de Oliveira e Meissner Filho (2021).

As mudas foram formadas em sacos de polietileno de 25 cm x 16 cm, contendo três partes de terriço e uma de cama de aviário, com adição de duas sementes por recipiente. Quando as plântulas atingiram 5 cm de altura foi efetuado o desbaste, deixando apenas uma por recipiente. Aos 45 dias da semeadura, as mudas foram transplantadas para o local definitivo, quando apresentavam 40 cm de altura. O ensaio foi composto por 30 plantas, sem delineamento experimental.

No decorrer do cultivo, as seguintes características foram avaliadas, conforme IBPGR (1988): a) planta – ramificação, cor do caule, pigmentação do caule, cor do pecíolo da folha madura, altura da planta e diâmetro do caule no início da frutificação; b) inflorescência – tipo de flor, tempo para iniciação floral, número de nós até a primeira inflorescência, altura até a primeira inflorescência, cor do pedicelo da flor, número de flores femininas por inflorescência, cor da flor feminina, cor do tubo da corola da flor masculina e cor do lóbulo da corola da flor masculina; c) fruto em formação – altura até o primeiro fruto, número de frutos por axila e cor da casca; d) fruto maduro – formato do ápice, formato da base, formato, comprimento, diâmetro, massa fresca do fruto, formato e diâmetro da cavidade central, graus Brix, cor e massa fresca da casca, cor e massa fresca da polpa, número e massa fresca de sementes por fruto, e número e massa fresca de frutos por colheita.

 

Tabela 1 – Programa de adubação com base na análise de solo.
FASE
Cama de aviário (g/planta)
Uréia – 45% N (g/planta)
Superfosfato triplo – 40% P2O5
(g/planta)
Cloreto de potássio – 60% K2O (g/planta)
Bórax – 11% B (g/planta)
Plantio
2.000
80
90
0
0
1º mês
0
15
0
20
5,4
2º mês
0
15
30
20
0
3º mês
0
30
0
20
0
4º mês
0
30
30
20
0
5º ao 12º mês
0
306
105
270
5,4
Fonte: Embrapa (2009).

 

Os descritores do fruto no ponto de maturidade horticultural foram avaliados em cinco frutos no início do período de colheita. Entretanto, a massa fresca total de frutos/planta e número de frutos/planta corresponderão ao período de colheita de três meses.

Os dados das características qualitativas foram descritos e, quando apresentaram variações, foram calculadas as frequências percentuais. A análise estatística dos dados quantitativos foi descritiva (ASSIS et al., 2016), sendo obtidas médias, valores mínimos e máximos.

 

Resultados e discussão

 

Na avaliação dos descritores da fase vegetativa, 70% das plantas não apresentaram ramificações, enquanto o restante (30%) apresentou brotações laterais. Segundo Cruz (2021), estas ramificações ocorrem normalmente na espécie e devem ser removidas ainda quando pequenas, para evitar o atraso no crescimento da planta e facilitar o manejo cultural.

Em relação à coloração do caule, foram observadas diferenças significativas entre a parte basal e apical. Na parte basal, o caule apresentou coloração verde-clara, enquanto na região apical a coloração foi verde-médio. Esses resultados contrastam com os relatados por Silva et al. (2021), que observaram coloração verde-clara no ápice e verde-grisácea a acinzentada na base. Além disso, no acesso de Benjamin Constant, foram observadas manchas irregulares de coloração púrpuro-médio (Figura 1), com maior concentração no terço basal do caule. No terço médio, essas manchas apresentaram-se dispersas, enquanto no terço apical completamente ausentes.

Os pecíolos apresentaram coloração púrpuro-clara, exceto nas extremidades que possuíam coloração verde-clara. É importante ressaltar que Silva et al. (2021) mencionaram pecíolos com tonalidades verde-pálidas ou vermelhas em folhas maduras.

No início da fase de frutificação, aos cinco meses, as plantas do acesso avaliado apresentaram valor mínimo de 10,82 cm e valor máximo de 16,87 cm de diâmetro de caule, a 10 cm do solo. Esses resultados, são diferentes das observações feitas por Azevedo et al. (2016), que encontraram uma média de diâmetro do caule de 10,12 cm aos oito meses, a 20 cm do solo; e por Nobre et al. (2021), que relataram uma média de diâmetro do caule de 10,75 cm aos doze meses após o plantio.

Em relação à altura da planta, aos seis meses, foi observado valor mínimo de 265 cm e valor máximo de 432 cm. Esses resultados diferem dos dados relatados por Silva et al. (2014), que mencionaram altura média de 286 cm para a espécie aos sete meses; e por Azevedo et al. (2016), que registraram altura média de 191,32 cm para a espécie aos oito meses.

 

Figura 1 – Pigmentação do caule em planta do acesso de mamão proveniente de Benjamin Constant, AM.

 

Segundo Silva et al. (2021), alguns fatores podem influenciar nas medidas de altura e diâmetro do caule de plantas mamão. Quando ocorrem ventos intensos, elas apresentam diminuição no seu crescimento, na taxa de frutificação, na produtividade e na qualidade dos frutos; já espaçamentos mais adensados, resultam em plantas mais altas e com caules finos o que as tornam mais vulneráveis a danos causados pelo vento do que as plantas cultivadas em um espaçamento maior (SILVA et al., 2021).

Quanto aos descritores da inflorescência, 60% das plantas apresentaram flores do sexo feminino e o restante (40%) do sexo masculino, sendo ausentes plantas com flores hermafroditas. Portanto, a variedade é dioica. O mamoeiro apresenta diversos tipos de flores que determinam o formato e as características dos frutos, mas a identificação do sexo das plantas por meio da morfologia floral só pode ser feita após o início da floração, que ocorre comumente de três a quatro meses após o plantio (SILVA et al., 2021).

As flores masculinas surgiram 95 dias após a semeadura (DAS), enquanto as femininas surgiram somente aos 102 DAS. O tempo médio de iniciação floral (99 DAS) está próximo aos 90 dias, registrado para a espécie por Dantas et al. (2013), embora diferenças cronológicas possam ocorrer em virtude da variedade, condições ambientais, manejo, dentre outros fatores.

O número de nós até a primeira flor variou entre 18 e 30 nós, com a primeira flor aparecendo a uma altura média de 123 cm, divergindo de Dantas et al. (2013) e Silva et al. (2021), que relataram características de plantas do grupo Solo, onde as primeiras flores na cultivar Sunrise Solo aparecem entre 70 e 80 cm de altura, na Higgins a 80 cm e na Baixinho de Santa Amália entre 30 e 70 cm.

A cor do pedicelo das inflorescências, tanto masculinas quanto femininas, foi verde-clara. As flores masculinas estavam organizadas em inflorescências longo-pedunculadas, corroborando com os estudos de Silva et al. (2021). As flores femininas apresentaram pedicelos curtos, estando isoladas ou em grupos de 2 a 8 unidades, embora tenha ocorrido a abscisão da maior parte dos botões florais antes da antese, em concordância com Silva et al. (2021), que comentam em grupos de 2 a 3 flores por pedúnculo, embora não citem flores isoladas.

Nas flores masculinas, foi observado que os ápices das pétalas eram livres, enquanto as bases eram soldadas, formando um tubo estreito e longo; nas flores femininas, as pétalas eram totalmente livres até a parte inferior da corola, corroborando com Dantas et al. (2013). Em relação a coloração das pétalas, 72% das flores femininas apresentaram coloração branca e 28% de coloração branco-creme (Figura 2), concordando com Silva et al. (2021), que relata flores na coloração branca ou com tons amarelados. O tubo e lóbulos da corola das flores masculinas possuíam coloração branca.

 

Figura 2 – Flores do mamão proveniente de Benjamin Constant, AM: masculinas (A) e feminina (B).

 

Na avaliação dos descritores do fruto em formação, foi verificado que a inserção do primeiro fruto foi à altura média de 166 cm, divergindo de Dantas et al. (2013) e Silva et al. (2022), que relatam na cultivar Waimanalo a frutificação a 80 cm e na Kapoho Solo a 130 cm de altura. A quantidade de frutos por axila variou de 1 a 4 frutos. Os frutos em desenvolvimento apresentaram coloração verde-escura como característica comum a todas as plantas resultado, semelhante ao de Silva et al. (2021).

No ponto de maturidade horticultural, constatou-se que o formato do ápice é predominantemente mucronato (60%), seguido por cuspidato (32,94%) e acuminado (7,06%). No que diz respeito à base do fruto, observou-se que a maioria exibiu base achatada (77,65%), enquanto os demais apresentaram base deprimida (22,35%). Quanto ao formato do fruto, verificou-se a predominância do formato oblongo-elíptico (38,82%) (Figura 3), seguido por elíptico (37,65%), piriforme (11,76%), obovado (10,59%) e alongado (1,18%).

De acordo com Silva et al. (2022), o formato dos frutos comerciais do grupo solo varia entre piriforme a ovalado, divergindo do acesso de Benjamin Constant que possui o formato oblongo-elíptico predominante. Segundo Vasconcellos et al. (2021) e Dantas et al. (2013), frutos no formato piriforme resultantes de flores hermafroditas, com pouca cavidade ovariana, atingem preços mais elevados no mercado devido ao seu rendimento de polpa. A baixa incidência de frutos piriforme no acesso de Benjamin Constant, ocorreu devido à ausência plantas com flores hermafroditas.

A cavidade central do fruto é predominantemente estrela (47,1%) (Figura 3) a levemente estrela (35,3%) totalizando 82,4% dos frutos; os demais apresentaram formato angular (8,2%), geométrico (5,9%) e redondo (3,5%). Para Silva et al. (2021), o formato estrela e a cavidade ovariana pequena, são características agronômicas desejadas nos programas de melhoramento genético, tendo em vista que estes possuem maior valor comercial.

A cor da casca do fruto maduro é amarela-escura (55,2% dos acessos), amarela-escura para laranja (31,8%), amarela-médio (11,8%) e amarela (1,2%). Quanto à polpa, a maioria dos frutos apresentou coloração laranja-claro (58,8%), enquanto o restante foi amarela-escura para laranja (25,8%), amarela para laranja (9,4%), laranja-escuro (3,6%) e laranja-médio (2,4%). Segundo Vera e Vera (2015), em estudo com diversas variedades de mamão no Equador, observou-se predominantemente a coloração laranja-avermelhada na polpa dos frutos, divergindo dos resultados encontrados no acesso de Benjamin Constant, onde ocorreu a predominância de frutos com a polpa laranja-claro.

 

A

B

Figura 3 – Fruto proveniente de Benjamin Constant, AM, com formato predominantemente oblongo-elíptico (A) e cavidade central no formato estrela (B).

 

Nos descritores quantitativos do fruto no ponto de maturidade horticultural (Tabela 2), o acesso apresentou comprimento médio de 15,9 cm, sendo 20,3 cm o valor máximo e 11,0 cm o mínimo. Resultados próximos foram encontrados por Silva et al. (2022), que descreveu frutos comerciais do grupo Solo com medidas semelhantes de comprimento, sendo16 cm para a variedade Sunrise Solo e 15 cm para as variedades Kapoho e Waimanalo.

Quanto ao diâmetro do fruto e o diâmetro da cavidade central, foi verificado os valores médios de 10,1 cm e 6,8 cm. respectivamente. Resultados semelhantes foram encontrados por Silva et al. (2021), que descreveram frutos do grupo Solo, das variedades comerciais Sunrise Solo com 9 cm de diâmetro médio, THB com 8,7 cm e Mamão Ouro variando de 8 a 10 cm. Em relação ao diâmetro da cavidade central do fruto, Nobre et al. (2021) observaram resultados próximos ao estudarem 25 acessos diferentes de mamão, descrevendo valor médio de 6,09 cm para este descritor.

 

Tabela 2 – Descritores quantitativos do fruto proveniente de Benjamin Constant, AM, na fase de maturidade horticultural.
Descritores
Média
Mínimo
Máximo
Comprimento do fruto (cm)
15,9
11,0
20,3
Diâmetro do fruto (cm)
10,1
6,2
13,5
Diâmetro da cavidade central (cm)
6,8
3,8
9,5
Massa fresca do fruto (g)
675,8
185,1
1.110,0
Massa fresca da casca (g)
183,4
54,2
344,0
Massa fresca da polpa (g)
367,1
106,8
681,2
Massa fresca das sementes/fruto (g)
111,1
10,2
192,5
Número de sementes/fruto (und)
867,0
99,0
1.708,0
Brix da polpa (º Bx)
11,2
6,0
19,0
Massa fresca total de frutos/planta (g)
22.905
5.802
34.231
Número de frutos/planta (und)
35,47
10,0
59,0

 

A massa fresca do fruto variou entre 185,1 g e 1.110,0 g; a massa fresca da casca de 54,2 g a 344,0 g; e a massa fresca da polpa de 106,8 g a 681,2 g. Segundo Santana e Oliveira (2022), os frutos do grupo Solo possuem peso entre 300 g e 650g, enquanto Dantas et al. (2013) informam que os frutos do grupo formosa variam entre 800 g e 1600 g. Neste descritor, o acesso proveniente de Benjamin Constant apresentou características intermediarias entra o grupo Solo e Formosa.

A média de massa fresca de sementes por fruto foi de 111,1 g, enquanto a média de número de sementes por fruto foi de 867 unidades. Nobre et al. (2021) descreveram frutos com baixos conteúdos de sementes, variando entre 7,67 g e 14,10 g. Já Vera e Vera (2015) observaram frutos com altas densidades de sementes, média de 320 g por fruto.

Na concentração de sólidos solúveis (grau Brix) foi observado o valor médio de 11,2 ºBrix. De acordo com Vera e Vera (2015), em um estudo com 22 acessos de mamão da província de Manabí no Equador, foram descritos valores mínimos de 5 ºBrix e máximo de 12 ºBrix, divergindo do acesso de Benjamin Constant que possui ºBrix superior.

Quanto à massa fresca total de frutos por planta, observou-se o valor mínimo 5.802 g e valor máximo de 34.231 g, enquanto o número de frutos por planta registrou-se o mínimo de 10 e o valor máximo de 59. Nobre et al. (2021) descreveram variedades comerciais de mamão, com número de frutos mínimo de 3 e máximo de 53, sendo resultados similares ao do acesso de Benjamin Constant.

 

Conclusão

 

Os resultados obtidos demonstraram que o acesso de mamão proveniente de Benjamin Constant apresenta características peculiaridades, como a pigmentação do caule púrpuro-médio, a ausência de flores hermafroditas e a coloração laranja-claro da polpa do fruto no ponto de maturidade horticultural. Assim, preservar esse acesso é fundamental, considerando a sua relevância comercial local e o seu potencial para futuros programas de melhoramento genético.

 

Conflitos de interesse

 

Não houve conflito de interesses dos autores.

 

Contribuição dos autores

 

Ronaldo Lúcio de Lima Marques Filho – implantação e condução do ensaio, e escrita do texto; Daniel Felipe de Oliveira Gentil – orientação e supervisão do ensaio, e revisão do texto.

 

Agradecimentos

 

À Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (FAPEAM) pelo financiamento da pesquisa.

 

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Recebido em 31 de agosto de 2023

Aceito sem ajustes em 14 de novembro de 2023