Parasitologia clínica em animais de companhia não convencionais – diagnóstico e conduta terapêutica

Revista Agrária Acadêmica

agrariacad.com

doi: 10.32406/v9n4/2026/15-26/agrariacad

 

Parasitologia clínica em animais de companhia não convencionais – diagnóstico e conduta terapêutica. Clinical parasitology in non-conventional companion animals – diagnosis and therapeutic management.

 

Sandra Márcia Tietz Marques1, Anaïs Abreu da Silva2, Isabella Nicola Fülber2, Letícia Zortéa2, Isadora Ribeiro Garbinato2, Thayssa Barbosa Cândido2, Caroline Ströher de Souza2, Ana Carolina Contri Natal3, Victória Louise de Moraes Custódio3, Jacqueline Meyer3

 

1– Departamento de Patologia Clínica Veterinária, Faculdade de Veterinária – FAVET, Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS . E-mail: santietz@gmail.com
2– Estagiárias/Bolsistas, Núcleo de Conservação e Reabilitação de Animais Silvestres – PRESERVAS, FAVET/UFRGS . E-mail: anaisbrendadasilva5@gmai.com, isabellafulber@gmail.com
3– M.V., Programa de Pós-Graduação, FAVET/UFRGS .

 

Resumo

 

Esta investigação registra a presença de parasitos em animais de companhia não convencionais atendidos no Núcleo de Conservação e Reabilitação de Animais Silvestres nos anos de 2023, 2024 e 2025. Foram processadas no Laboratório de Helmintologia Veterinária da UFRGS amostras de fezes de 34 animais provenientes de nove Ordens: Anseriformes; Artiodactyla; Columbiformes; Erinaceomorpha; Galliformes; Lagomorfa; Psittaciformes; Rodentia e Squamata. A prevalência parasitária foi de 26,5% sendo identificados: Ascaris suum (mini-pig); Isospora spp. (galinhas domésticas, cobra-do-milho); Hymenolepis spp. e Syphacia spp. (ratos linhagem Wistar); Subulura spp., Amidostomum sp. e Strongyloides sp. (ganso doméstico); Capillaria spp. (galinha doméstica) e Paraspidodera spp. (porquinho-da-india). Paraspidodera spp. é relatado pela primeira vez no Rio Grande do Sul para Cavia porcellus; Subulura spp. e Amidostomum spp. são identificados pela primeira vez em ganso no estado e Isospora spp. é relatado em Pantherophis guttatus no Rio Grande do Sul. O controle sanitário baseado no tratamento anti-helmíntico seletivo nos animais parasitados foi executado.

Palavras-chave:  Helmintos. Pets não convencionais. Prevalência. Protozoários.

 

 

Abstract

 

This investigation records the presence of parasites in unconventional companion animals treated at the Wildlife Conservation and Rehabilitation Center in the years 2023, 2024, and 2025. Fecal samples from 34 animals from nine Orders were processed at the Veterinary Helminthology Laboratory of UFRGS: Anseriformes; Artiodactyla; Columbiformes; Erinaceomorpha; Galliformes; Lagomorpha; Psittaciformes; Rodentia and Squamata. The parasitic prevalence was 26.5%, with the following identified: Ascaris suum (mini-pig); Isospora spp. (domestic chickens, corn worm); Hymenolepis spp. and Syphacia spp. (Wistar rats); Subulura spp., Amidostomum spp., and Strongyloides spp. (domestic goose); Capillaria spp. (domestic chicken); and Paraspidodera spp. (guinea pig). Paraspidodera spp. is reported for the first time in Rio Grande do Sul for Cavia porcellus; Subulura spp. and Amidostomum spp. are identified for the first time in geese in the state, and Isospora spp. is reported in Pantherophis guttatus in Rio Grande do Sul. Sanitary control based on selective anthelmintic treatment of parasitized animals was carried out.

Keywords: Helminths. Unconventional pets. Prevalence. Protozoa.

 

 

Introdução

 

Os animais de estimação não convencionais são classificados em silvestres e exóticos. O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (IBAMA, 2020) descreve que animais silvestres são espécies nativas apresentando ciclo de vida total ou parcial em território brasileiro ou em águas jurisdicionais e os animais exóticos são definidos como espécies não nativas, cujo ciclo biológico ocorre integralmente fora do território nacional.

A popularidade de diferentes animais exóticos e silvestres como animais de companhia ou pet tem crescido no Brasil e a mudança neste perfil traz, além de necessidades educacionais, um novo risco à população, comumente são reservatórios de doenças zoonóticas, que representam 75% das doenças infecciosas emergentes. As aves lideram entre os animais de estimação não convencionais no Brasil com 27%, os répteis somam 13,8% (os quelônios são 6,5% e serpentes 4,6%) enquanto pequenos mamíferos ocupam a terceira posição com 11,5%, liderados pelos coelhos com 7,9% (ESTEVAM; JOB, 2016).

A diversidade de parasitos de espécies silvestres e exóticas permanece pouco explorada. Alguns gêneros parasitários se enquadram como zoonóticos e conhecer a dinâmica nestes pacientes como animais de companhia é fundamental para o manejo sanitário. A transmissão ocorre diretamente através da via fecal-oral, ou indiretamente por meio da ingestão de água e alimentos contaminados, podendo causar sintomas de diarreia, dores abdominais, perda de sangue nas fezes, emagrecimento e desenvolvimento de anemia. Dados de prevalência são importantes para monitorar a ocorrência de parasitos ao longo do tempo e compreender os riscos à saúde. O tratamento e a prevenção dessas infecções são importantes contribuições para a manutenção da saúde (RAUE et al., 2017).

Investigação de Marques et al. (2020a) avaliaram amostras fecais de pets não convencionais atendidos no Núcleo de Conservação e Reabilitação de Animais Silvestres (PRESERVAS) e registraram prevalência de infecção parasitária de 34,8% (8/23) para os helmintos Capillaria spp. em coelho e galinha doméstica; e Syphacia spp. em hamster e protozoários do gênero Eimeria em coelho doméstico e porquinho da índia.

O núcleo PRESERVAS da Faculdade de Veterinária da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) presta atendimento clínico e cirúrgico a animais silvestres de vida livre e como animais de companhia não convencionais. O cenário atual destes animais como de companhia demanda alta diversidade biológica e desafios clínicos específicos. Nesse cenário, o laboratório de helmintoses é essencial para realizar o diagnóstico e orientar o tratamento dessas enfermidades que comprometem a sanidade. Portanto, esta investigação objetiva determinar a prevalência parasitária em animais não convencionais como pets atendidos no PRESERVAS/UFRGS de 2023 até 2025 e através de exames coproparasitológicos orientar na terapêutica adequada para garantir a sanidade animal e a saúde pública.

 

Material e métodos

 

O Núcleo de Conservação e Reabilitação de Animais Silvestres possui ambulatório próprio para o atendimento dessas espécies e conta com a infraestrutura do hospital veterinário e de diversos setores da faculdade para a realização de exames complementares. As instalações contam com espaços diferenciados para as diversas espécies. Após a recepção e avaliação clínica, todos os pacientes passam por uma análise parasitológica detalhada. As amostras para o exame parasitológico de fezes (EPF) são obtidas por defecação espontânea: para animais internados, a coleta ocorre preferencialmente ao amanhecer para reduzir o estresse e a manipulação; para pacientes ambulatoriais, os tutores realizam a coleta domiciliar, com entrega no Laboratório de Helmintologia da FAVET/UFRGS em até 24 horas.

As amostras são submetidas aos métodos de Willis (princípio da flutuação com solução de cloreto de sódio, densidade de 1:20) e exame direto das fezes, macro e microscópico. Em alguns casos, as fezes passam pelo método de sedimentação espontânea (método de Lutz). Na presença de oocistos de coccídeos não esporulados, as fezes são submetidas à esporulação com solução de dicromato de potássio 2,5%, em estufa por até dez dias, para diferenciação dos gêneros Eimeria e Isospora (TAYLOR et al., 2017). No caso de qualquer resultado positivo, deverão ser realizadas coletas diárias desde o início do tratamento até que o exame apresente resultado negativo.

 A Tabela 1 lista as espécies de animais de companhia não convencionais avaliados para a presença de infecção parasitária nos anos de 2023, 2024 e 2025.

 

Tabela 1 – Espécies de animais de companhia (pets) não convencionais atendidos no PRESERVAS/UFRGS no período de 2023-2025 e submetidos à avaliação parasitológica no Laboratório de Helmintologia da Faculdade de Veterinária/UFRGS.
Ordem
Espécie estudada
Nome popular
Espécimes
Anseriformes
Anser anser Linnaeus, 1758
Ganso doméstico
1
Artiodactyla
Sus scrofa domesticus Linnaeus, 1758
Mini pig
1
Columbiformes
Zenaida auriculata Des Murs, 1847
Pomba de bando
2
Erinaceomorpha
Atelerix albiventris Wagner, 1841
Hedgehog
1
Galiformes
Gallus gallus domesticus Linnaeus, 1758
Galinha doméstica
10
Lagomorfa
Oryctolagus cuniculus Linnaeus, 1758
Coelho doméstico
6
Psittaciformes
Melopsittacus undulatus Shaw, 1805
Periquito australiano
2
 
Myopsita monachus Boddaert, 1783
Caturrita
2
 
Psittacila krameri Scopoli, 1769
Periquito de colar
1
 
Psittacula eupatria Linnaeus, 1766
Grande alexandre
1
Rodentia
Cavia porcellus Linnaeus, 1758
Porquinho da índia
3
Rattus norvegicus Berkenhout, 1769
Rato linhagem Wistar
2
Rattus rattus Linnaeus, 1758
Rato preto
1
Squamata
Pantherophis guttatus Linnaeus, 1766
Cobra-do-milho
1
 TOTAL
 34

 

Aspecto ético: Toda rotina de exames está assegurada pelo protocolo 20487/11, aprovada pelo Comitê de Ética no Uso de Animais (CEUA) da UFRGS. O descarte ético das amostras fecais segue as normas ambientais sobre os resíduos biológicos para evitar impactos à saúde pública e ao ecossistema.

 

Resultados e discussão

 

A taxa de positividade na detecção de parasitos por análise de fezes foi de 26,5% (9/34), com positividade em cinco Ordens: Anseriformes, Artiodactyla, Galiformes, Rodentia e Squamata. Paraspidodera spp. é relatado pela primeira vez no Rio Grande do Sul para Cavia porcellus; Subulura spp. e Amidostomum spp. são identificados pela primeira vez em ganso no estado e Isospora spp. é relatado em Pantherophis guttatus no Rio Grande do Sul.

A Tabela 2 mostra os animais atendidos e classificados por nome popular, os resultados de exames parasitológicos e o tratamento executado conforme protocolos do Preservas.

 

Tabela 2 – Animais atendidos e classificados por nome popular, os resultados de exames parasitológicos e o tratamento executado conforme protocolos no PRESERVAS/UFRGS no período de 2023-2025.
Nome popular
Número
Parasito (N+/Total)
Tratamento
Ganso doméstico
1
Subulura sp. Molin, 1860
Amidostomum sp. Railliet e Henry, 1909
Strongyloides spp.
Sulfametoxazol + trimetoprima 30-50 mg/kg, via oral, 2x ao dia por 8 dias
Mini pig
1
Ascaris suum Goeze, 1782
Fenbendazol 100 mg/ml, 1x/dia por 3 dias
Galinha doméstica
3
Cystoisospora spp.  Frenkel, 1977 (2/10)
Cystoisospora spp + Capillaria spp. Zeder, 1800 (1/10)
Sulfametoxazol + trimetoprima 30-50 mg/kg, via oral, 2x ao dia por 8 dias.
Levamisol 25mg/kg, 2 aplicações IM com intervalo de 15 dias
Porquinho da índia
1
Paraspidodera sp. (1/3)
Fenbendazol 20 mg/kg, via oral, 1x/dia por 5 dias.
Rato Wistar
2
Hymenolepis spp. + Syphacia spp. (2/2)
Fenbendazol 20 mg/kg, via oral, 1x/dia por 5 dias.
Cobra-do- milho
1
Isospora spp.
Sulfametoxazol + trimetoprima 15-25 mg/kg, via oral, 1x ao dia por 2 semanas.

 

Os registros de parasitos de animais não convencionais na literatura são poucos e pontuais nas espécies aqui registradas. Alguns gêneros parasitários se enquadram como zoonóticos e conhecer a dinâmica nestas populações que estão em contato direto com os responsáveis em seus lares é fundamental para o manejo sanitário. Relatos de prevalência são importantes para monitorar a ocorrência de parasitos ao longo do tempo e compreender os riscos à saúde para os animais de companhia e exóticos. O protocolo estabelece o tratamento parasitário e a realização de exames parasitológicos de fezes (EPF) diários sempre que o resultado se apresentar positivo e, portanto, continuar a investigação até a obtenção de resultado negativo. As características destas espécies singulares como animais de companhia e suas especificidades parasitárias são discutidas.

 

  1. Anser anser, Linnaeus, 1758

 

A criação de gansos domésticos é uma prática estabelecida em áreas rurais devido à abundância de água e pastagens. As linhagens domésticas são geralmente descendentes do ganso-comum ou do ganso-chinês. Gansos são excelentes sentinelas para a detecção precoce de patógenos no ambiente. Devido ao seu forte instinto territorial e grasnidos altos, os gansos são excelentes “cães de guarda”, usados até em segurança de presídios. No litoral sul do RS, o monitoramento é crucial devido às rotas de aves migratórias, que podem introduzir novas variantes de parasitos ou vírus nas criações caipiras.

O exame parasitológico do ganso doméstico, mantido em ambiente domiciliar, evidenciou ovos de nematóides ascarídeos do gênero Subulura que parasitam aves, lagartos e mamíferos, com mais de 60 espécies válidas registradas em todo o mundo. Amidostomum spp. e Strongyloides spp. afetam gansos e outras aves domésticas/silvestres/aquáticas, causando doenças que interferem no desempenho, produção e saúde geral, muitas vezes através de infecções mistas em sistemas de criação (ANDRADE SILVA et al., 2022).

Subulura spp. se localiza principalmente no ceco de aves e envolve hospedeiros intermediários (besouros, gafanhotos, baratas e cascudinhos) que ingerem os ovos e são posteriormente consumidos pelas aves. A patogenia corresponde a diarreia, inflamação no ceco e desnutrição (RAMOS et al., 2024). A distribuição geográfica é descrita no Hawaii, Egito, Sudão, Índia, Zimbábue, Iran, Marrocos, Arábia Saudita e Nigéria, além do Brasil. Caetano e Vieira (2015) registraram de forma inédita, a ocorrência de S. brumpti em galinhas no estado do Paraná através de necropsia em frangos de uma propriedade rural. Os ovos aparecem nas fezes em cerca de seis semanas após a infecção e são encontrados no sistema gastrintestinal de aves das ordens Anseriformes, Columbiformes e Galiformes. A ocorrência de Subulura spp. em gansos Anser cygnoides ou outras espécies de anseriformes no Rio Grande do Sul refere-se a parasitos cecais comuns em aves domésticas e silvestres. A presença de Subulura sp. foi documentada no estado do Piauí (COSTA; FREITAS, 1962) e em faisão-coleira (Phasianus colchicus) no estado do Rio de Janeiro (PINTO et al., 2004). São escassos os relatos globais, porém Larki et al. (2018) investigaram parasitos em patos domésticos no sudoeste do Iran e registraram Subulura spp. em 16,6% delas.

O gênero Amidostomum se instala no trato digestório de aves de hábitos aquáticos. Há registro da espécie A. anseris na literatura, porém através dos métodos parasitológicos investigados nestes animais, só é possível a identificação ao nível de gênero. A doença é conhecida como amidostomose ou gastrite verminótica dos gansos. A mortalidade é alta em animais jovens. O ciclo vital parasitário é direto e o hospedeiro definitivo elimina no meio exterior os ovos segmentados nas fezes, evoluindo para larva infectante que penetra na mucosa da moela e através de evolução se torna parasito adulto entre 12-21 dias de infecção. O período pré patente é rápido, isto é, de 2 a 4 semanas os ovos são liberados para encontrar novos hospedeiros. A patogenia estabelecida através de necropsias descreve: inflamação catarral e hemorragia, erosão, úlceras, descamação e alterações na camada muscular da moela, e a necrose tecidual se apresenta com coloração amarronzada, devido a mistura de pigmentos de sangue; é sintomática em gansos jovens e os animais adultos se tornam portadores assintomáticos. Os sinais clínicos que motivam a busca por atendimento veterinário incluem anorexia, anemia, emaciação e apatia, entretanto a diarreia não é um sinal evidente e comum (RAMOS et al., 2024).

Nematóides do gênero Strongyloides parasitam o intestino delgado de vertebrados. Além do ciclo de vida parasitário, geralmente considerado partenogenético, também pode apresentar uma geração facultativa de vida livre, composta por espécimes machos e fêmeas (VINEY, 2006). É uma infecção relativamente comum em animais selvagens, domésticos e seres humanos. Embora seja difícil generalizar, a prevalência de infecções por S. stercoralis em humanos costuma chegar a 5% em áreas endêmicas, geralmente concentrada em indivíduos mais jovens, com ocorrências ocasionais de prevalência mais alta. Fêmeas de Strongyloides spp. podem ser observadas no terço superior do intestino delgado de gansos (ANDERSON, 2000) e em quatro espécies de anseriformes em cinco zoológicos da Nigéria (OTEGBADE; MORENIKEJI, 2014). Os parasitos se instalam no intestino delgado causando enterites severas, diarreia e, em casos agudos, alta mortalidade, especialmente em aves jovens (RAMOS et al., 2024).

O controle parasitário em aves geralmente envolve uma abordagem dupla: tratamento curativo com a administração de vermífugos apropriados para tratar animais doentes. A outra abordagem recomendada são medidas preventivas nas práticas de higiene e manejo sanitário do ambiente onde os gansos vivem são cruciais para prevenir reinfecções. Isso pode incluir garantir um local ao ar livre com água limpa disponível e manejo adequado das fezes para interromper o ciclo de vida do parasito (RAMOS et al., 2024). O tratamento foi realizado com sulfametoxazol + trimetoprima 30-50 mg/kg, 2x ao dia, via oral, durante 8 dias (Tab. 2).

 

  1. Sus scrofa domesticus Linnaeus, 1758

 

O EPF identificou ovos de Ascaris suum. O estudo de Pereira et al. (2018) com suínos abatidos no Rio Grande do Sul registrou ascaridiose (21,4%) a partir da palpação das alças intestinais e corte das mesmas, para visualização do parasito. Os parasitos estavam no lúmen do intestino delgado, eram alongados, amarelados e mediam 30cm de comprimento. Produzem um grande número de ovos (de 200.000 a 1 milhão por dia/fêmea); em condições ideais, podem desenvolver-se até o estágio infectante e os ovos contendo larvas de terceiro estágio em 3 a 4 semanas. O ascarídeo suíno é zoonótico, tendo sido identificado em humanos de várias partes do mundo, particularmente naqueles em contato próximo com suínos e larva migrans visceral devido à migração de larvas. O controle não deve depender apenas de anti-helmínticos, mas também deve incorporar medidas sanitárias adequadas (BALLWEBER, 2026).

Embora sejam comercializados como “mini porcos”, esses animais não são uma espécie biológica distinta. Eles são o resultado de seleção genética e cruzamentos entre raças naturalmente menores ou linhagens desenvolvidas em laboratório (como o Göttingen minipig) para fins de pesquisa e companhia (AMPA, 2026).

O tratamento foi a base de fenbendazol, suspensão a 10% (100 mg/ml), 1x/dia por 3 dias consecutivos, misturado em ração umedecida. Sugerido para o responsável o esquema regular para o fenbendazol a cada 4 a 6 meses (Tab. 2).

 

  1. Gallus gallus domesticus Linnaeus, 1758

 

Foram detectados ovos de Capillaria spp. e oocistos de Isospora spp. A capilariose é a helmintose de maior interesse sanitário na medicina de aves, pois é prevalente em Psitacídeos, Passeriformes, Columbiformes, Galliformes e aves rapinantes. Marques e Bitencourte (2024) pesquisaram a diversidade parasitária em aves domésticas e silvestres nos anos de 2018, 2019, 2022 e 2023, através de exames de fezes e registraram a prevalência de 34,8% (78/224) e Capillaria spp. foi o mais prevalente (36%), concordando com Freitas et al. (2002) e Santos et al. (2015), seguido do protozoário Isospora spp. (35%) em galinhas. A prevalência de parasitos intestinais em galinhas caipiras criadas em regime extensivo na região metropolitana de Porto Alegre, RS foi investigada em 2016. Foram analisadas 112 amostras fecais de aves de 14 propriedades. Treze propriedades (92,9%) apresentaram aves parasitadas e a prevalência de parasitos foi de 55,4% (62/112) com ovos dos gêneros Capillaria, Heterakis, Ascaridia, Strongyloides, Strongyloidea e protozoários do gênero Eimeria.  Capillaria spp. foi o helminto mais prevalente com taxa de 78,6% (SIQUEIRA; MARQUES, 2016). Na capilariose, a infecção de forma leve ou moderada pode apresentar uma variedade de sinais inespecíficos. Em aves jovens, que tem menor resistência a outras infecções, a sintomatologia poderá ser evidente, emagrecimento, crescimento lento. Quando a capilariose se apresenta com grande quantidade de ovos pode ser fatal para galinhas.

O tratamento executado foi com sulfametoxazol + trimetoprima, 30-50 mg/kg por 8 dias, BID para o diagnóstico de coccidiose e levamisol 25mg/kg, 2 aplicações IM com intervalo de 15 dias para a ave que apresentava oocistos de Eimeria spp. e Capillaria spp. (Tab. 2).

 

  1. Cavia porcellus Linnaeus, 1758

 

Os nematóides pertencentes ao gênero Paraspidodera (Nematoda, Lauroiinae) são parasitos de roedores das famílias Caviidae, Dasyproctidae e Leporidae. No Brasil, três espécies de Cavia (C. fulgida, C. porcellus e C. aperea) foram citadas como hospedeiras para Paraspidodera uncinata (VICENTE et al., 1995, 1997). No Estado do Rio Grande do Sul, P. uncinata foi encontrada em Cavia aperea (n= 33), em Pelotas, RS, com prevalência de 88% (KRUGER; MULLER, 2006). Rocha et al. (2011) diagnosticaram Paraspidodera sp. parasitando Cavia magna (Rodentia, Caviidae) – preá, no Rio Grande do Sul, Brasil.  Alves et al. (2007) realizaram um levantamento sobre a prevalência e intensidade de infecção de endoparasitos em Cavia porcellus convencionais de linhagem “Short Hair” provenientes de biotérios de criação e experimentação do município do Rio de Janeiro e relataram a presença de Paraspidodera uncinata (34%). O tratamento instituído para os porquinhos da índia foi fenbendazol 20 mg/kg, cada 24 horas por 5 dias, via oral na ração (Tab. 2).

 

  1. Rattus norvegicus Berkenhout, 1769

 

Hymenolepis spp. e Syphacia spp. foram diagnosticados nos dois ratinhos. Ambos os roedores pertencem ao mesmo responsável que habita em apartamento. Rattus norvegicus é um hospedeiro sinantrópico comum de vários parasitos gastrointestinais, sendo frequentemente encontrado com infecções mistas por Hymenolepis spp. e Syphacia spp. Estes parasitos possuem alta prevalência em populações de ratos selvagens e de laboratório, com implicações tanto veterinárias quanto zoonóticas.

Franssen et al. (2016) investigaram helmintos em Rattus norvegicus de diferentes províncias e fazendas na Holanda e diagnosticaram através do conteúdo intestinal seis espécies de nematóides com destaque para Syphacia muris e Strongyloides spp.; e três espécies de cestódeos: Hymenolepis diminuta, H. nana e H.  fraterna. Fêmeas grávidas de S. muris saem ativamente do intestino do hospedeiro e depositam os ovos ao redor do ânus, após o que ocorre (auto)infecção e transmissão entre ratos por meio de limpeza e comportamento social. S. muris tem importância veterinária em relação a colônias experimentais de roedores.  A prevalência de espécies de Hymenolepis em ratos marrons capturados em fazendas foi de 63,3% e de 15,8% em ambientes urbanos. Em um estudo com ratos marrons a prevalência de H. diminuta foi 21,8%. H. nana e H. diminuta são helmintos cestódeos zoonóticos. H. diminuta é transmitido aos humanos pela ingestão de Tribolium confusum (besouro da farinha) com cereais infestados ou pela via fecal-oral. H. nana é transmitido por contato fecal-oral (ovos) ou pela ingestão acidental de hospedeiros intermediários que abrigam cisticercóides. As infecções por Hymenolepis spp. em humanos são geralmente assintomáticas, embora possam ocorrer fraqueza, dor de cabeça, dor abdominal e diarreia. O tratamento foi realizado com fenbendazol 20 mg/kg, via oral, a cada 24 horas, durante 5 dias (Tab. 2).

 

  1. Pantherophis guttatus Linnaeus, 1766

 

Atualmente, as serpentes são criadas como animais de estimação exóticos, abrigando numerosos parasitos gastrointestinais (zoonóticos). Segundo Jensen-Jarolim et al. (2015) o número de répteis em residências dobrou, no mínimo, na última década na Europa e nos EUA. No Brasil, os dados não estão determinados. O Instituto Robert Koch citou a Associação Alemã da Indústria de Animais de Estimação, afirmando que as compras de terrários aumentaram 6,1% em 2008, e 1,2% das residências alemãs possuem répteis (WOLF et al., 2014). Segundo levantamentos recentes, o Reino Unido mantém cerca de 1,1 milhão de répteis como animais de estimação, distribuídos em aproximadamente 1,1 milhão de residências (PANORAMA PET&VET, 2026). A compra de répteis é cada vez mais motivada pela tentativa de evitar animais de estimação com pelos potencialmente alergênicos, como cães e gatos. Consequentemente, os répteis são hoje considerados animais de estimação substitutos, estabelecendo uma relação mais próxima com o dono do que nunca. O número de residências com répteis nos EUA tem crescido ao longo do tempo, conforme tendências de humanização e diversificação da posse de pets (APPA, 2026).

O clássico estudo de Bovee (1962) detalha a descoberta de Isospora crotali em uma cascavel-diamante-oriental (Crotalus adamanteus) na Flórida, quando investigaram parasitos em seis espécimes de serpentes. O parasito foi encontrado em apenas uma de seis cascavéis analisadas, sendo o único coccídeo detectado em um levantamento mais amplo de mais de 200 cobras selvagens. As fases sexuais do ciclo de vida do protozoário ocorrem nas células epiteliais do jejuno da serpente e a formação dos esporozoítos acontece fora do hospedeiro com um tempo de esporulação de aproximadamente 17 horas (TELFORD, 1997). Greiner (2003) relatou Isospora spp. e Eimeria spp. em serpentes.

Condições de doenças multifatoriais são uma característica da medicina de répteis e, de fato, alguns pesquisadores acreditam que o estresse induzido por outras infecções é um pré-requisito para doenças parasitárias. Os coccídios são encontrados em todas as ordens de répteis e geralmente se alimentam, crescem e se desenvolvem em células epiteliais gastrointestinais, embora algumas possam viver em outros órgãos. Apesar de seus ciclos de vida envolverem a destruição de células hospedeiras, muitos coccídios não são considerados patógenos em seus hospedeiros répteis. No entanto, se um grande número for ingerido, o dano tecidual subsequente pode resultar em doença, que é mais provável de ocorrer em répteis em cativeiro (SCULLION; SCULLION, 2009).  Marques et al. (2020b) relataram Isospora spp. em serpente Bothrops pubescens no Rio Grande do Sul.

Wolf et al. (2014) destacaram que répteis exóticos se tornaram animais de estimação cada vez mais comuns em todo o mundo e são conhecidos por serem portadores de diferentes parasitos, incluindo alguns com potencial zoonótico. O controle de protozoários gastrointestinais é melhor alcançado prestando-se atenção à saúde geral da população de répteis. Isso inclui a observação meticulosa de mudanças de comportamento. Os períodos pré-patentes para a maioria dos protozoários parasitos de répteis são desconhecidos. O período recomendado para quarentena de répteis recém-chegados é controverso, com recomendações variando entre um e três meses. Durante a quarentena, os répteis devem ser submetidos a exames clínicos e fecais repetidos.

O tratamento foi realizado com trimetoprima + sulfametoxazol, 15-25 mg/kg a cada 24 horas, administrada via oral por 2 semanas, além de dosificar com uma solução eletrolítica balanceada que deve ser administrada por via oral (Tab. 2).

A comercialização de animais silvestres é uma atividade legalizada no Brasil, de acordo com a Resolução CONAMA N° 489 de 2018, que delimita a autorização do uso e manejo em cativeiro, da fauna silvestre e exótica, bem como autoriza a criação dos espécimes como animais de estimação. Logo, algumas espécies são comercializadas em estabelecimentos de pet shops.

Na psicologia, um animal de estimação é compreendido como um objeto de apego e afeto que desempenha papéis fundamentais na regulação emocional e na construção da identidade do indivíduo. Mais do que simples companhia, os pets são vistos como referências externas que ajudam a processar sentimentos internos e fornecem suporte social essencial. De acordo com a visão psicanalítica de Freud, o amor pelos animais é valorizado por ser incondicional e livre dos conflitos sociais e culturais inerentes às relações humanas.

 

Conclusão

 

Paraspidodera spp. é relatado pela primeira vez no Rio Grande do Sul para Cavia porcellus. Subulura spp. e Amidostomum spp. são identificados pela primeira vez em Anser anser no Rio Grande do Sul e Isospora spp. também é relato inédito em Pantherophis guttatus no Rio Grande do Sul. O presente trabalho amplia o conhecimento sobre a distribuição geográfica de parasitos nestas espécies e descreve os tratamentos anti-helmínticos aplicados.

 

Conflitos de interesse

 

Não houve conflito de interesses dos autores.

 

Contribuição dos autores

 

Sandra Márcia Tietz Marques – ideia original, execução dos exames parasitológicos, interpretação dos resultados, orientação, revisão bibliográfica, redação e revisão do artigo; Anaïs Abreu da Silva, Isabella Nicola Fülber, Letícia Zortéa, Isadora Ribeiro Garbinato, Thayssa Barbosa Cândido, Caroline Ströher de Souza, Ana Carolina Contri Natal, Victória Louise de Moraes Custódio, Jacqueline Meyer – coleta das amostras fecais, avaliação dos animais, exames clínicos, execução dos tratamentos e o manejo sanitário.

 

Referências bibliográficas

 

ALVES, L. C.; BORGESI, C. C. A.; SILVA, S.; COUTO, S. E. R.; MENEZES, R. C. Endoparasitos em cobaias (Cavia porcellus) (Mammalia, Rodentia, Caviidae) provenientes de biotérios de criação e experimentação do município do Rio de Janeiro, Brasil. Ciência Rural, v. 37, n. 5, p. 1380-1386, 2007. https://doi.org/10.1590/S0103-84782007000500025

AMPA. American Mini Pig Association. What Is An American Mini Pig? https://americanminipigassociation.com/mini-pig-education/what-is-an-american-mini-pig/

ANDERSON, R. C.  Nematode parasites of vertebrates: their development and transmission.  2nd ed., Oxford: CABI Publishing, 2000, 635p.

ANDRADE SILVA, B. E.; VILELA, R. V.; FREITAS, L. C.; PACHECO, R. C.; MENDONÇA, R. F. B.; ROSSI, R. V.; MALDONADO JUNIOR, A. Subulura eliseae sp. n. (Ascaridida: Subuluroidea), a parasite of Marmosa spp. from Amazon rainforest, Brazil. Journal of Helminthology, v. 96, e60, p. 1-10, 2022. https://doi.org/10.1017/S0022149X22000244

APPA. American Pet Products Association. Industry Trends and Stats. 2026. https://americanpetproducts.org/industry-trends-and-stats

BALLWEBER, L. R. Ascaris suum in Pigs. MSD Veterinary Manual. 2026. https://www.msdvetmanual.com/digestive-system/gastrointestinal-parasites-of-pigs/ascaris-suum-in-pigs

BOVEE, E. C.  Isospora crotali in the Florida Diamond-Back Rattlesnake. The Journal of Protozoology, v. 9, p. 459-466, 1962. https://app.myfwc.com/fwri/herp/HerpResults.aspx?RefNo=7931

CAETANO, D. L. F.; VIEIRA, F. E. G.  Primeira ocorrência de Subulura brumpti (Lopez-Neyra, 1922) Cram, 1926 (Nematoda) no ceco de Gallus gallus domesticus, L. no sul do Brasil. Arquivos de Pesquisa Animal, v. 1, n. 1, p. 1-4, 2015. https://www2.ufrb.edu.br/apa/component/phocadownload/category/16-ano-15-vol1?download=170:primeira-ocorrencia-de-subulura-brumpti-lopez-neyra-1922-cram-1926-nematoda-no-ceco-de-gallus-gallus-domesticus-l-no-sul-do-brasil

CONAMA. Conselho Nacional do Meio Ambiente. Resolução 489, de 26 de outubro de 2018. Define as categorias de atividades ou empreendimentos e estabelece critérios gerais para a autorização de uso e manejo, em cativeiro, da fauna silvestre e da fauna exótica. Brasília, DF, 2018, 7p. https://conama.mma.gov.br/

COSTA, H.M.A.; FREITAS, M.G. Alguns parasitos de animais domésticos dos Estados do Maranhão e do Piauí. Arquivos da Escola Superior de Veterinária do Estado de Minas Gerais, v. 14, p. 35-46, 1962.

ESTEVAM, G.; JOB, J. R. P. P. Animais exóticos domesticados com potencial zoonótico – revisão de literatura. Revista da Sociedade Brasileira de Clínica Médica, v. 14, n. 2, p. 114-20, 2016. https://docs.bvsalud.org/biblioref/2016/08/1259/142114.pdf

FRANSSEN, F.; SWART, A.; VAN KNAPEN, F.; VAN DER GIESSEN, J. Helminth parasites in black rats (Rattus rattus) and brown rats (Rattus norvegicus) from different environments in the Netherlands. Infection Ecology & Epidemiology, v. 6, n. 1, p. 1-14, 2016. https://doi.org/10.3402/iee.v6.31413

FREITAS, M. F. L.; OLIVEIRA, J. B.; CAVALCANTI, M. D. B.; LEITE, A. S.; MAGALHÃES, V. S.; OLIVEIRA, R. A.; SOBRINO, A. E. Parásitos gastrointestinales de aves silvestres en cautiverio en el estado de Pernambuco, Brasil. Parasitologia Latinoamericana, v. 57, n. 1 -2, p. 50-54, 2002. https//doi.org/10.4067/S0717-77122002000100012

GREINER, E. C. Coccidiosis in reptiles. Seminars in Avian and Exotic Pet Medicine, v. 12, n. 1, p. 49-56, 2003. https://doi.org/10.1053/saep.2003.127880

IBAMA. Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais e Renováveis. Diagnóstico da criação comercial de animais silvestres no Brasil. Brasília, DF, 2020, 56p.

JENSEN-JAROLIM, E.; PALI-SCHÖLL, I.; JENSEN, S. A.; ROBIBARO B, KINACIYAN T. Caution: Reptile pets shuttle grasshopper allergy and asthma into homes. World Allergy Organ Journal, v. 8, p. 1-4, 2015. https://doi.org/10.1186/s40413-015-0072-1

KRUGER, C.; MULLER, G. Helmintos em Cavia aperea Exerleben, 1777 (Rodentia: Caviidae) na região sul do Rio Grande do Sul, Brasil. In: XIV Congresso Brasileiro de Parasitologia Veterinária e II Simpósio Latino-Americano de Rickettsioses, Ribeirão Preto, 2006. Anais… Ribeirão Preto, SP: XIV Congresso Brasileiro de Parasitologia Veterinária e II Simpósio Latino-Americano de Rickettsioses, 2006.

LARKI, S.; ALBORZI, A.; CHEGINI, R.; AMIRI, R. A preliminary survey on gastrointestinal parasites of domestic ducks in Ahvaz, Southwest Iran. Iran Journal of Parasitology, v. 13, n. 1, p. 137-144, 2018. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC6019593/

MARQUES, S. M. T.; BITENCOURTE, G. C. Diversidade parasitária em aves domésticas e silvestres em reabilitação. Revista Agrária Acadêmica, v. 7, n. 6, p. 30-38, 2024. https://doi.org/10.32406/v7n6/2024/30-38/agrariacad

MARQUES, S. M. T.; MEYER, J.; BILHALVA, L. C.; FERNANDES, L. S.; NATAL, A. C. C; ALIEVI, M. M.  Avaliação parasitológica de serpentes das famílias Boidae, Elapidae, Pythonidae e Viperidae no sul do Brasil. Revista Agrária Acadêmica, v. 3, n. 2, p. 150-156. 2020b. https://doi.org/10.32406/v3n22020/150-156/agrariacad

MARQUES, S. M. T.; MEYER, J.; FERNANDES, L. S.; ALIEVI, M. M. Avaliação parasitológica de pets não convencionais atendidos em hospital universitário público em 2018 – relato de caso. Revista Agrária Acadêmica, v. 3, n. 3, p. 237-241, 2020a. https://doi.org/10.32406/v3n32020/237-241/agrariacad

OTEGBADE, A. C.; MORENIKEJI, O. A. Gastrointestinal parasites of birds in zoological gardens in south-west Nigeria. Tropical Biomedicine, v. 31, n. 1, p. 54-62, 2014. https://msptm.org/files/54_-_62_Morenikeji_OA.pdf

PANORAMA PET&VET. População pet no Reino Unido. Panorama Pet&Vet. 2026. https://panoramapetvet.com.br/populacao-pet-no-reino-unido/

PEREIRA, P. R.; CAPRIOLO, R. A.; HAMMERSCHMITT, M. E.; SONNE, L.; PAVARINI, S. P.; DRIEMEIR, D. Lesões intestinais em suínos abatidos no Rio Grande do Sul. Pesquisa Veterinária Brasileira, v. 38, n. 5, p. 823-831, 2018. https://doi.org/10.1590/1678-5150-PVB-5425

PINTO, R.M.; MENEZES, R.C.; GOMES, D.C. First report of five nematode species in Phasianus colchicus Linnaeus (Aves, Galliformes, Phasianidae) in Brazil. Revista Brasileira de Zoologia, v. 21, n. 4, p. 961-970, 2004. https://doi.org/10.1590/S0101-81752004000400034

RAMOS, R. V.; MENDES, T. M. F.; HOPPE, E. L.; BARROS-BATTESTI, D. M.; UETA, M. T.; ALLEGRETTI, S. M. Parasite infestations and infections of non-traditional pets and wild mammals: diagnosis and treatment. Brazilian Journal of Veterinary Parasitology, v. 33, n. 4, p. e017324, p. 1-9, 2024. https://doi.org/10.1590/S1984-29612024074

RAUE, K.; HEUER, L.; BÖHM, C.; WOLKEN, S.; EPE, C.; STRUBE, C. 10-year parasitological examination results (2003 to 2012) of faecal samples from horses, ruminants, pigs, dogs, cats, rabbits and hedgehogs. Parasitology Research, v. 116, p. 3315-3330, 2017. https://doi.org/10.1007/s00436-017-5646-0

ROCHA, A. G. S.; WERK, D. F.; RIBEIRO, A. V.; GALLAS, M.; SILVEIRA, E. F.  Paraspidodera sp. (Nematoda, Lauroiinae) parasita de Cavia magna (Rodentia, Caviidae) no Rio Grande do Sul, Brasil. In: XII Salão de Iniciação Científica, 2011. Anais… Porto Alegre, RS: PUCRS, 2011.

SANTOS, P. M. S.; SILVA, S. G. N.; FONSECA, C. F.; OLIVEIRA, J. B. Parasitos de aves e mamíferos silvestres em cativeiro no estado de Pernambuco. Pesquisa Veterinária Brasileira, v. 35, n. 9, p. 788-794, 2015. https://doi.org/10.1590/S0100-736X2015000900004

SCULLION, F. T.; SCULLION, M. G. Gastrointestinal protozoal diseases in reptiles. Journal of Exotic Pet Medicine, v. 18, n. 4, p. 266-278, 2009. https://doi.org/10.1053/j.jepm.2009.09.004

SIQUEIRA, G. B.; MARQUES, S. M. T. Parasitos intestinais em galinhas caipiras da região metropolitana de Porto Alegre, RS. PUBVET, v. 10, n. 9, p. 690-695, 2016. https://doi.org/10.22256/pubvet.v10n9.690-695

TAYLOR, M. A.; COOP, R. L.; WALL, R. L. Parasitologia Veterinária. 4ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017, 1052p.

TELFORD JUNIOR, S. R. Coccidian parasites (Apicomplexa: Eimeriidae) of the endemic Florida snake Tantilla relicta telford (Serpentes: Colubridae). Systematic Parasitology, v. 36, p. 17-25, 1997. https://doi.org/10.1023/A:1005759906933

VICENTE, J. J.; RODRIGUES, H. O.; GOMES, D. C.; PINTO, R. M.  Nematóides do Brasil. Parte IV: Nematóides de aves. Revista Brasileira de Zoologia, v. 12, Supl. 1, p. 1-273, 1995. https://doi.org/10.1590/S0101-81751995000500001

VICENTE, J. J.; RODRIGUES, H. O.; GOMES, D. C.; PINTO, R. M. Nematóides do Brasil. Parte V: Nematóides de mamíferos. Revista Brasileira de Zoologia, v. 14, Supl. 1, p. 1-452, 1997. https://doi.org/10.1590/S0101-81751997000500001

VINEY, M. E. The biology and genomics of Strongyloides. Medical Microbiology and Immunology, v. 195, n. 2, p. 49-54, 2006. https://doi.org/10.1007/s00430-006-0013-2

WOLF, D,; VRHOVEC, M. G.; FAILING, K.; ROSSIER, C.; HERMOSILLA, C.; PANTCHEV, N. Diagnosis of gastrointestinal parasites in reptiles: comparison of two coprological methods. Acta Veterinaria Scandinavica, v. 56, art. 44, p. 1-13, 2014. https://doi.org/10.1186/s13028-014-0044-4

 

 

 

Recebido em 30 de maio de 2026

Retornado para ajustes em 1 de setembro de 2026

Recebido com ajustes em 1 de setembro de 2026

Aceito em 8 de setembro de 2026

Dinâmicas espaciais e estatísticas da assistência técnica rural e dos sistemas de manejo do solo em Mato Grosso do Sul, Brasil

Revista Agrária Acadêmica

agrariacad.com

doi: 10.32406/v9n4/2026/1-14/agrariacad

 

Dinâmicas espaciais e estatísticas da assistência técnica rural e dos sistemas de manejo do solo em Mato Grosso do Sul, Brasil. Spatial dynamics and statistical analysis of rural technical assistance and soil management systems in Mato Grosso do Sul, Brazil.

 

Rafael Rossi1, Eloise Mello Viana de Moraes2, Alessandra Carla Sampaio de Souza3

 

1- Docente e Pesquisador no Programa de Pós-Graduação em Recursos Naturais na UFMS , Campus de Campo Grande, MS, Brasil. Líder do Laboratório de Pesquisas de Estatísticas Geográficas e Sustentabilidade – LAPEGS . E-mail: r.rossi@ufms.br
2- Docente e Pesquisadora no Programa de Pós-Graduação em Geografia na UFMS , Campus de Aquidauana, MS, Brasil. E-mail: eloise.mello@ufms.br
3- Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Recursos Naturais na UFMS , Campus de Campo Grande, MS, Brasil. E-mail: alessandra.sampaio@ufms.br

 

Resumo

 

O manejo e a conservação do solo constituem desafios estratégicos para a sustentabilidade da agricultura brasileira. O objetivo desse estudo foi investigar os padrões estatísticos e espaciais dos dados referentes à assistência técnica rural e a distintos manejos do solo nos municípios do Estado de Mato Grosso do Sul, Brasil. Foram analisados os cultivos convencionais, cultivo mínimo, sistemas sem preparo do solo, plantio direto e sistemas agroflorestais por meio de estatística inferencial, PCA, correlação bayesiana e estatística espacial. Os resultados evidenciaram forte associação entre manejos convencionais e menor relação entre práticas conservacionistas e assistência técnica rural. Conclui-se que aplicação de manejos sustentáveis depende de estratégias integradas à governança ambiental local.

Palavras-chave: Extensão rural. Governança territorial. Agricultura. Conservação ambiental.

 

 

Abstract

 

Soil management and conservation represent strategic challenges for the sustainability of Brazilian agriculture. This study investigated the statistical and spatial patterns associated with rural technical assistance and different soil management systems across municipalities in the state of Mato Grosso do Sul, Brazil. Conventional tillage, minimum tillage, no-tillage systems without soil disturbance, direct seeding systems, and agroforestry systems were analyzed using inferential statistics, Principal Component Analysis (PCA), Bayesian correlation, and spatial statistics. The results revealed a strong association among conventional management practices and a weaker relationship between conservation-oriented practices and rural technical assistance. The findings indicate that the implementation of sustainable management systems depends on integrated strategies linked to local environmental governance.

Keywords: Rural extension. Territorial governance. Agriculture. Environmental conservation.

 

 

Introdução

 

Há décadas o Brasil tem se preocupado com o manejo e a conservação do solo e da água. No âmbito da produção agrícola e agropecuária, dois sistemas se destacam nesse sentido: o Sistema Plantio Direto e os Sistemas Agroflorestais. O Sistema Plantio Direto, de forma suscinta, implica: o mínimo revolvimento do solo; a manutenção da palhada oriunda das culturas agrícolas anteriores sempre cobrindo o solo e; a prática de rotação de culturas, ou seja, não se trabalhar apenas com um ou dois tipos de culturas agrícolas (PASSOS et al., 2018).

Os Sistemas Agroflorestais, por sua vez, são sistemas de uso da terra mais complexos que incluem, de modo deliberado e com planejamento, componentes arbóreos ou arbustivos junto com cultivos agrícolas tradicionais, podendo ou não, ter a presença de animais em sucessão ou consórcio (SILVA, 2012).

Entretanto, dado a enorme extensão territorial do Brasil e suas desigualdades entre suas regiões e internas às suas regiões, as políticas públicas lidam com um enorme desafio em compreender o território no qual irão atuar, para que tenham mais chances de sucesso. O território, nesse aspecto, não diz respeito apenas à uma área, como um alvo que irá receber a ação das políticas.

Por outro lado, territórios são influenciados e, ao mesmo tempo, influenciam, de modo mediado, as ações políticas. O território implica alianças, contradições, desigualdades, dinâmicas de trabalho, de educação, enfim, dizem respeito ao uso das ações antrópicas junto com a identidade que lhes dá características (SANTOS, 2017).

O solo é um recurso natural multidimensional, sistêmico e processual. Isso significa que ele é muito mais do que apenas um somatório de suas propriedades físicas, químicas e biológicas. Solos saudáveis são responsáveis por uma série de serviços ecossistêmicos indispensáveis para a vida no planeta Terra, tais como: provisão de alimentos, fibras, madeira, biomassa; ciclagem de nutrientes; regulação climáticas; fornecimento de matérias-primas para indústria farmacêutica e de construção civil; regulação climáticas; filtragem e armazenamento de água (HARRIS et al., 2022).

Em face da complexidade do solo, precisamos de modelos igualmente sistêmicos e complexos que consigam se aproximar do movimento essencial, isto é, para além das aparências, desse recurso natural de suma relevância para agricultura e para a biodiversidade de inúmeros ecossistemas em distintos territórios.

Nosso objetivo foi investigar os padrões estatísticos e espaciais dos dados referentes à assistência técnica rural e a distintos manejos do solo: sem preparo do solo; cultivo convencional, cultivo mínimo; plantio direto e sistemas agroflorestais; nos municípios do Estado de Mato Grosso do Sul, Brasil. A abordagem estatística e espacial que propomos, pode contribuir com outras pesquisas em territórios distintos, bem como uma territorialização mais eficaz das políticas públicas preocupadas com o manejo e a conservação do solo e da água. Buscamos responder à seguinte pergunta: “Em que medida a assistência técnica rural está associada, estatística e espacialmente, à adoção de manejos conservacionistas do solo nos municípios de Mato Grosso do Sul?”

Desse modo, o presente artigo pretende contribuir, com a proposta sistêmica aqui em discussão, com os seguintes objetivos do Desenvolvimento Sustentável, elencados pelas Nações Unidas: 02 – Fome Zero e Agricultura Sustentável (Erradicar a fome, alcançar a segurança alimentar, melhorar a nutrição e promover a agricultura sustentável); 13 – Ação contra a Mudança Global do Clima (Adotar medidas urgentes para combater as alterações climáticas e os seus impactos) e; 15 – Vida Terrestre (Proteger, restaurar e promover o uso sustentável dos ecossistemas terrestres, gerir de forma sustentável as florestas, combater a desertificação, travar e reverter a degradação dos solos e travar a perda da biodiversidade).

 

Material e métodos

 

Inicialmente, os dados foram coletados a partir do Censo Agropecuário organizado e elaborado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, para o ano de 2017. As variáveis foram: Sem preparo do Solo: sistema que não utilizou gradagem e aração do solo; Cultivo Convencional: sistema produtivo que utilizou aração e gradagem do solo; Cultivo Mínimo: sistema produtivo que utilizou apenas a gradagem do solo; Sistema Plantio Direto: sistema produtivo em que o plantio é realizado em pequenos sulcos abertos no solo que está coberto de palha, não tendo a necessidade de aração ou gradagem e com a manutenção dos restos das culturas anteriores sobre o solo e; Sistemas Agroflorestais: sistema produtivo com componentes arbóreos, animais e culturas agrícolas (IBGE, 2017).

O entendimento de Assistência Técnica, por sua vez, diz respeito à assistência prestada ao estabelecimento rural por profissionais habilitados, como Engenheiros Agrônomos, Engenheiros Florestais, Médicos Veterinários, Zootecnistas, Engenheiros Agrícolas, Biólogos, Técnicos Agrícolas, Tecnologistas de Alimentos ou Economistas Domésticos, com a finalidade de transmitir conhecimento e orientar os produtores agropecuários (IBGE, 2017).

Os dados foram transformados em log (n +1) para diminuir assimetrias e manter padrões. As investigações estatísticas foram realizadas no software – open source – JASP (v. 0.95.4) e os procedimentos de mapeamento no software GeoDa (v. 1.22.0.21).

No âmbito da análise Inferencial Clássica, realizamos: Teste Shapiro-Wilk; Teste Levene; ANOVA com ω²; post-hoc de Tukey; Teste Kruskal-Wallis e post hoc de Dunn. Tais procedimentos foram necessários para respondermos à seguinte pergunta: “Existem diferenças estatísticas significativas entre os territórios?”

Para análise da Estrutura Multivariada dos Sistemas de Manejo, foi elaborada um Principal Components Analysis – PCA, com objetivo de responder à pergunta: “Qual a estrutura latente que organiza os manejos do solo?”

Já para Associação Probabilística e Incerteza realizamos Correlação Bayesiana e Bayesian Model Averaging com objetivo de respondermos: “Quais associações são plausíveis e o quão robustas elas são?”

Para a parte de Processos e Mecanismos realizamos uma Mediation Analysis para verificar por meio de quais mecanismos a Assistência Técnica influencia manejos de conservação do solo.

No âmbito da Estrutura e Dependência Espacial, foram realizados: mapeamento temático e Análise Espacial Empírica de Bayes para responder à pergunta sobre “como os padrões estão territorializados?”

 

Resultados e discussão

 

O Mato Grosso do Sul – MS, é um Estado brasileiro criado em 1974 (Figura 1). O MS possui 357.142,010 km2 de extensão territorial, com uma população de 2.757.013 pessoas e uma densidade demográfica de 7,72 habitantes por km2. Além disso o Índice de Desenvolvimento Humano é de 0,72 e um rendimento mensal domiciliar per capita de R$ 2.169. A economia é principalmente baseada no agronegócio da soja, carne e celulose. MS está dividido em 04 mesorregiões (divisões regionais): 1) CNMS: Centro Norte de MS; 2) LMS: Leste de MS; 3) SUDOMS: Sudoeste de MS e; 4) PSMS: Pantanais Sul-mato-grossenses.

 

Figura 1 – Localização do Estado de  Mato Grosso do Sul (MS), Brasil. Fonte: O autor.

 

O primeiro procedimento que aplicamos foi analisar as estatísticas descritivas dos dados coletados, com a aplicação do teste de Shapiro-Wilk para verificação da normalidade (Tabela 1).

 

Tabela 1 – Estatísticas descritivas.
 
SPS
CONV
CM
PD
ATEC
SAF
Média
5811
4534
4915
3451
5487
2394
Desvio Padrão
979.2
992.3
1154
1534
597.6
1060
Shapiro-Wilk
0.815
0.917
0.940
0.986
0.991
0.976
P-value of Shapiro-Wilk
< .001
< .001
.001
.523
.882
.133
SPS: Sem Preparo de Solo; CONV: Manejo Convencional; CM: Cultivo Mínimo; PD: Plantio Direto; ATEC: Assistência Técnica e SAF: Sistemas Agroflorestais.

 

Podemos observar, que SPS e ATEC apresentaram as maiores médias e SAF e PD (justamente os sistemas mais conservacionistas do solo) demonstraram as menores médias. O teste de Shapiro-Wilk revelou quebra dos pressupostos de normalidade para SPS, CONV e CM. Nesse sentido, para essas variáveis, optamos por aplicar um teste de Kruskal-Wallis para verificar se existem diferenças estatísticas ou não entre os grupos de dados. Para as variáveis PD, ATEC e SAF, verificamos que os pressupostos de normalidade não foram quebrados e, nesse caso, aplicamos a ANOVA.

No que se refere ao teste Levene que infere sobre a homogeneidade das variâncias, verificamos que, para todas as variáveis analisadas, houve um p-valor > 0,05; indicando que não há evidência de heterocedasticidade, de tal modo que as variâncias podem ser consideradas homogêneas entre os grupos.

Com esses resultados, pudemos prosseguir e verificamos com o teste de Kruskal-Wallis para SPS p-valor: 0.467 e Rank ε² de 0.033; para a variável CONV um p-valor de 0.832 e Rank ε² de 0.011. Isso significa que não existem diferenças estatísticas entre essas variáveis. Para a variável CM verificamos o p-valor de 0.025 e Rank ε² de 0.120 e, nesse caso, sim foi verificada a existência de diferença estatística. Com o objetivo de responder onde se encontra essa diferença apresentamos o post hoc de Dunn (Tabela 2).

 

Tabela 2 – Post Hoc de Dunn para a variável CM.
Comparação
z
Wi
Wj
rrb
p
pbonf
pholm
CNMS – LMS
2.290
52.59
34.76
-0.493
.022
.132
.110
CNMS – PSMS
0.091
52.59
51.64
0.018
.927
1.000
1.000
CNMS – SUDOMS
2.556
52.59
35.04
-0.431
.011
.063
.063
LMS – PSMS
-1.664
34.76
51.64
0.429
.096
.577
.317
LMS – SUDOMS
-0.043
34.76
35.04
-0.011
.966
1.000
1.000
PSMS – SUDOMS
1.755
51.64
35.04
-0.402
.079
.475
.317
CNMS: Região Central de MS; LMS: Região Leste; PSMS: Pantanal; SUDOMS: Região Sudoeste e Sudeste de MS.

 

Com o post hoc de Dunn realizado para a variável de Cultivo Mínimo – CM – percebemos que à primeira vista a mesorregião CNMS difere da mesorregião LMS e CNMS difere de SUDOMS. Contudo, após Bonferroni, nenhuma comparação permanece significativa, já que todas apresentaram um pbonf > 0,05. Ou seja: existem apenas diferenças de magnitude moderada entre CNMS vs LMS e CNMS vs SUDOMS.

Realizamos uma ANOVA para verificação da existência ou não de diferenças para a variável PD e obtivemos um p-valor de 0.004, o que indica que existem. No sentido de averiguar entre quais mesorregiões de MS essa diferença se manifesta, aplicamos um post hoc de Tukey (Tabela  3).

 

Tabela 3 – Post Hoc de Tukey para variável PD.
Diferença média
SE
df
t
ptukey
CNMS
LMS
787.0
485.3
75
1.621
.373
PSMS
659.1
648.2
75
1.017
.740
SUDOMS
-646.1
428.0
75
-1.510
.437
LMS
PSMS
-127.9
632.4
75
-0.202
.997
SUDOMS
-1433.0
403.7
75
-3.550
.004
PSMS
SUDOMS
-1305.2
589.6
75
-2.214
.129
CNMS: Região Central de MS; LMS: Região Leste; PSMS: Pantanal; SUDOMS: Região Sudoeste e Sudeste de MS.

 

Com os dados da Tabela 3, podemos inferir que apenas entre a mesorregião LMS vs SUDOMS existem diferenças estatísticas para a variável PD com um ptukey de 0.004. Na sequência, realizamos ANOVA para a variável ATEC e verificamos um p-valor de 0.728, indicando que não existem diferenças estatísticas entre as mesorregiões de MS para essa variável.

Com relação à variável SAF, verificamos um p-valor: 0.003 e, neste caso, realizamos post hoc de Tukey (Tabela  4).

Verificamos a existência de uma diferença entre as mesorregiões LMS vs PSMS com ptukey de 0,004. Com o objetivo de verificar a distribuição espacial de cada variável no Estado de MS, realizamos uma cartografia temática de quantis com 4 classes para cada variável.

 

Tabela 4 – Post Hoc de Tukey para a variável SAF.
Diferença média
SE
df
t
ptukey
CNMS
LMS
869.1
334.2
75
2.601
.053
PSMS
-666.4
446.3
75
-1.493
.447
SUDOMS
485.3
294.7
75
1.647
.359
LMS
PSMS
-1535.4
435.4
75
-3.526
.004
SUDOMS
-383.7
278.0
75
-1.381
.515
PSMS
SUDOMS
1151.7
405.9
75
2.837
.029
CNMS: Região Central de MS; LMS: Região Leste; PSMS: Pantanal; SUDOMS: Região Sudoeste e Sudeste de MS.

 

A cartografia temática, desse modo, se configura em um procedimento fundamental para a abordagem sistêmica, pois auxilia na visualização das variáveis em sua articulação para com os territórios (Figura 2).

 

Figura 2 – Distribuição espacial em quartis para cada variável.

 

Podemos dizer que, com relação à variável SPS, os valores mais altos de adoção desse tipo de manejo do solo estão territorializados nas mesorregiões CNMS e PSMS. Para a variável CONV, os valores mais altos se encontram na mesorregião CNMS e SUDOMS. Já os valores mais altos da variável CM se encontram nas mesorregiões PSMS, SUDOMS e CNMS. A Assistência Técnica – ATEC – apresentou valores mais altos em PSMS e SUDOMS. O Plantio Direto – PD – demonstrou valores mais altos em PSMS e LMS e, por fim, SAF apresentou os valores mais altos em SUDOMS e CNMS.

Com o objetivo de reduzir a dimensionalidade, realizamos um Principal Components Analisys – PCA que apresentou no teste Qui-quadrado um p-valor de 0.003. O PCA revelou que as variáveis CONV, SPS e CM constituem os maiores valores para definir o componente RC1. ATEC possui contribuição fraca a moderada e PD e SAF, não contribuem. Isso indica que, do ponto de vista da PCA, o componente principal de manejo do solo em MS é formado por manejo convencional com aração e gradagem, sem preparo do solo e cultivo mínimo.

Elaboramos um Path Diagram do PCA e um Bayesian Correlation Network Analysis (Figura 3).

 

Figura 3 – Path Diagram do PCA e Bayesian Correlation Network Analysis.

 

O path diagram (à esquerda na Figura 4) mostra as setas em verde e com maior espessura justamente para as variáveis CONV, SPS e CM e o bayesian correlation network analysis (à direita na Figura 4) explicita uma conexão forte em azul e com maior espessura justamente entre essas mesmas variáveis, confirmando os resultados da PCA. Com o objetivo de quantificar a associação entre as variáveis, incorporando a incerteza e tendo como base o arcabouço da inferência bayesiana, realizamos uma correlação bayesiana.

A correlação bayesiana com Kendall´s tau B, uma medida não paramétrica de associação que varia de -1 a +1. O BF10 (Bayes Factor) explicita a evidência dos dados a favor da hipótese de correlação em relação à hipótese nula.

Verificamos que SPS e CONV apresentam correlação moderada a forte, com evidência bayesiana muito forte. Já SPS e CM apresenta correlação moderada, porém com evidência bayesiana muito forte. Em contrapartida, PD não apresentou associação relevante com nenhuma das variáveis, tendo evidência moderada a favor da hipótese nula. Já as variáveis ATEC e SAF demonstraram associações fracas e evidências bayesianas limitadas.

A adoção de sistemas conservacionistas, entretanto, não deve ser compreendida apenas pela presença ou ausência de determinada prática. No Brasil, a expansão do Plantio Direto ocorreu de maneira expressiva, mas sua contribuição para a sustentabilidade depende da integração com outros princípios da agricultura conservacionista, como manutenção da cobertura do solo e diversificação das culturas (FUENTES-LLANILLO et al., 2021).

Os resultados até agora, dialogam entre si, tendo revelado um vínculo muito forte entre SPS, CONV e CM no Estado de MS. Com o objetivo de termos uma comparação entre vários modelos e não apenas um, realizamos um Bayesian Model Averaging – BMA –  para a variável SAF (como afirmamos anteriormente, trata-se de sistema agroflorestal, isto é, um tipo de manejo do solo e produção agropecuária extremamente sustentável) e a variável PD (Plantio Direto, também se configurando em um manejo do solo sustentável). A Tabela 5 apresenta os resultados dessa análise para a variável SAF.

 

Tabela 5 – Bayesian Model Averaging para variável SAF.
Intervalo de credibilidade – 95%
 
Coeficiente
P(incl)
P(excl)
P(incl|data)
P(excl|data)
BFinclusion
Intercept
1.000
0.000
1.000
0.000
1.000
SPS
0.500
0.500
0.306
0.694
0.441
CONV
0.500
0.500
0.474
0.526
0.902
CM
0.500
0.500
0.896
0.104
8.605
PD
0.500
0.500
0.297
0.703
0.423
ATEC
0.500
0.500
0.303
0.697
0.435

No BMA, como afirmamos, ao invés de trabalharmos com um modelo, trabalhamos com vários e verificamos sua probabilidade a posteriori. As variáveis podem entrar ou não em cada modelo. P(incl) e P(excl) dizem respeito à probabilidade a priori da variável entrar ou não no modelo. Nesse sentido, todas apresentam 0,5 o que indica que não favorecemos nem a inclusão, nem a exclusão de nenhuma variável. Já P(incl | data) e P(excl | data), se referem à probabilidade a posteriori, isto é, após a observação dos dados e se for > 0,5 existe evidência a favor da variável e se for < 0,5 existe evidência fraca contra a variável.

O BFinclusion, por sua vez, compara a evidência a favor da inclusão versus a exclusão. No que diz respeito aos dados da Tabela 5, a única variável que foi a mais importante do modelo diz respeito à CM (cultivo mínimo) com P(incl|data) de 0.896 e um BF de 8.605, indicando forte evidência a favor da inclusão e um efeito positivo. As demais variáveis apresentaram baixas probabilidades de inclusão e intervalos que incluem zero, o que pode indicar ausência de evidência forte de efeito.

Também realizamos um BMA para a variável PD (plantio direto) e os resultados estão apresentados na Tabela 6.

 

Tabela 6 – Bayesian Model Averaging para variável PD.
Intervalo de credibilidade – 95%
 
 
 
 
 
Coeficiente
P(incl)
P(excl)
P(incl|data)
P(excl|data)
BFinclusion
Intercept
1.000
0.000
1.000
0.000
1.000
SPS
0.500
0.500
0.305
0.695
0.439
CONV
0.500
0.500
0.358
0.642
0.558
CM
0.500
0.500
0.304
0.696
0.438
ATEC
0.500
0.500
0.412
0.588
0.701
SAF
0.500
0.500
0.228
0.772
0.295

 

De acordo com os dados da Tabela 6, observamos que a variável ATEC (assistência técnica) apresentou um P(incl|data) de 0.412, com um BF de 0.701, indicando uma evidência ainda fraca, com um efeito positivo, mas sem robustez. Para as demais variáveis, pode-se concluir que o BMA não revelou evidência robusta para a inclusão de nenhuma variável explicativa considerada, todas apresentando probabilidades posteriores de inclusão menores que 50% e BF menores que 1. Desse modo, o Plantio Direto em MS não está associado de modo forte às variáveis selecionadas, o que pode indicar tradição local e iniciativa dos próprios produtores rurais.

Entretanto, sabemos que a realidade trabalha de modo processual e por inúmeras dinâmicas no âmbito da adoção de práticas de manejo que garantam a conservação do solo e da água. É nesse sentido, que realizamos uma Mediation Analysis – MA, para descobrir como e por meio de quais processos uma variável pode influenciar outra. Realizamos uma MA colocando ATEC como variável preditora; SAF enquanto variável outcome e as demais variáveis enquanto mediadoras.

No âmbito dos Efeitos diretos de ATEC à SAF um p-valor de 0.522 e como efeitos totais um p-valor de 0.375, o que significa que, do ponto de vista estatístico, não há evidência de relação de Assistência Técnica sobre os Sistemas Agroflorestais. Todos os efeitos indiretos apresentaram um p-valor > 0,005.

Desse modo, nenhum dos caminhos mediacionais apresentou significância estatística. O efeito indireto via SPS foi pequeno e não significativo (β = 0,021; p = 0,815; IC95% [−0,158; 0,201]). De forma semelhante, não foi observada mediação por CONV (β = −0,201; p = 0,114; IC95% [−0,451; 0,049]) nem por PD (β = 0,024; p = 0,600; IC95% [−0,067; 0,116]).

O caminho indireto via CM apresentou uma estimativa positiva e próxima do nível convencional de significância estatística (β = 0,218; p = 0,058); contudo, o intervalo de confiança de 95% incluiu o valor zero (IC95% [−0,008; 0,444]), não permitindo confirmar a existência de mediação estatisticamente significativa. Em conjunto, esses resultados indicam que não há evidência empírica de que a relação entre ATEC e SAF seja mediada pelas variáveis SPS, CONV, PD ou CM.

Também realizamos uma Mediation Analysis colocando ATEC como preditora; SPS, CONV, CM e SAF como variáveis mediadoras e PD (plantio direto, sistema conservacionista de manejo do solo, como já explicamos anteriormente) como variável outcome. No âmbito dos Efeitos Diretos ATEC à PD um p-valor de 0.129 e como efeitos totais um p-valor de 0.040. O p-valor do efeito direto indica que, após o controle das demais variáveis incluídas no modelo, não há evidência estatística suficiente de que ATEC exerça um efeito direto sobre PD. Já o p-valor do efeito total indica que, quando não se controla pelos mediadores, ATEC apresenta uma associação estatisticamente significativa com PD.

A análise dos efeitos indiretos específicos também não revelou evidência de mediação estatisticamente significativa por meio de SPS (β = 0,108; p = 0,444), CONV (β = 0,205; p = 0,257), CM (β = −0,176; p = 0,161) ou SAF (β = 0,017; p = 0,638), uma vez que todos os intervalos de confiança de 95% incluíram o valor zero.

Em conjunto, esses resultados sugerem que, embora exista uma associação total entre ATEC e PD, tal relação não se manifesta por meio de efeitos diretos ou indiretos específicos claramente identificáveis no modelo proposto. Portanto, tanto SAF quanto PD, ambos manejos de conservação do solo e da água, não apresentam associação forte com ATEC, podendo indicar iniciativa própria dos produtores, influência de cooperativas ou tradição histórica local.

Desse modo, por meio da Análise Espacial Empírica de Bayes, é possível a criação de uma taxa e uma relação proporcional entre essas variáveis como presente na Figura 4.

 

Figura 4 – Análises Espaciais Empíricas de Bayes.

 

Os dados oriundos da Análise Espacial Empírica de Bayes são reveladores sobre a relação dos distintos manejos do solo para com a Assistência Técnica. As cores roxo e azul indicam regiões em que a variável evento supera, em termos proporcionais, a variável base. No que diz respeito ao Plantio Direto – PD, observa-se que a região leste, norte e centro-sul do estado apresentam municípios em que esse sistema de manejo do solo supera em termos proporcionais o oferecimento da ATEC. Para SAF isso ocorre, sobretudo, na região oeste e norte; já para SPS isso se manifesta, principalmente na região norte do Estado e; para CM, observamos que a região nordeste e sul apresenta municípios que superam a adoção desse sistema de manejo sobre, sempre em termos proporcionais, o oferecimento de ATEC.

Perante as análises estatísticas e espaciais elaboradas, os resultados convergem ao evidenciar que manejos do solo conservacionistas do solo em MS possuem estrutura territorial heterogênea e baixa associação com a assistência técnica rural. As estatísticas descritivas, inferenciais, multivariadas, bayesianas e espaciais apontam um padrão que se mantém no território: o cultivo convencional, estabelecimentos rurais sem preparo de solo e com cultivo mínimo formam um núcleo abrangente do sistema produtivo estadual. Por outro lado, as práticas conservacionistas desempenham posições ainda em transição do ponto de vista estatístico, espacial e, também, territorial (KPOVIWANOU et al., 2024).

A análise PCA e a rede de correlação bayesiana reforçam a interpretação esboçada acima, revelando que a maior parte da variância dos dados é explicada pelos manejos de cultivo convencional e mínimo, ou seja, que envolvem baixa complexidade. O Plantio Direto e Sistemas Agroflorestais, apesar de apresentarem maior complexidade ao sistema solo, no que se refere ao fluxo de energia e matéria, ainda representam sistemas produtivos em implementação e não abrangentes.

As análises inferenciais indicam que as diferenças territoriais observadas se concentram sobretudo nos manejos de menor complexidade operacional, enquanto os sistemas conservacionistas apresentam distribuição mais restrita e heterogênea. Essa configuração é reforçada pela Análise de Componentes Principais e pela rede de correlação bayesiana, que identificam um núcleo estrutural fortemente ancorado no cultivo convencional, no cultivo mínimo e nos sistemas sem preparo do solo, responsáveis pela maior parcela da variância observada no sistema produtivo estadual.

Em face desses resultados, podemos concluir que um desafio que se vislumbra em MS é a transformação dos sistemas conservacionistas do solo, como PD e SAFs, em estratégias integradas e sistêmicas com apoio mais forte e evidente da assistência técnica rural no interior dos distintos territórios que conformam o Estado. As análises espaciais, nesse aspecto, reforçam esse resultado e permitem aprofundar a leitura do território ao traduzirem visualmente padrões consistentes de concentração territorial dos distintos manejos do solo com hotspots e coldspots bem delimitados.

As análises espaciais empíricas de Bayes, por seu turno, explicitam diversos territórios de MS em que a adoção do PD e de SAF superam, em termos proporcionais, a oferta de assistência técnica, sugerindo a hipótese de que esses manejos do solo se originam e se influenciam por outras dinâmicas já existentes nos territórios como cooperativas, redes locais, tradição ou iniciativa própria dos produtores rurais. O território enquanto síntese de diversas dinâmicas de territorialização ao longo do espaço, não são apenas suporte físico das políticas, mas sim, elemento ativo e influenciador que condiciona, potencializa ou limita os seus impactos (ASPROOTH et al., 2023).

Para os Sistemas Agroflorestais, a literatura brasileira evidencia potencial para geração simultânea de diferentes serviços ecossistêmicos, embora sua distribuição e o próprio conhecimento científico sobre esses sistemas ainda sejam espacialmente desiguais entre os biomas nacionais (SCHULER et al., 2022). Essa heterogeneidade reforça a importância de compreender a adoção dos SAFs a partir das particularidades ambientais e territoriais.

Apesar dos avanços observados em determinados territórios de MS, os resultados evidenciam que a consolidação de manejos conservacionistas ainda depende de processos mais amplos de articulação institucional, difusão tecnológica e fortalecimento das capacidades locais. Nesse contexto, práticas como o Plantio Direto e os Sistemas Agroflorestais não devem ser compreendidas apenas como técnicas isoladas de manejo, mas como componentes de uma transição produtiva associada à agricultura regenerativa, à intensificação sustentável e às diretrizes contemporâneas de sustentabilidade no meio rural (ROSÁRIO et al., 2022; TRANCHINA et al., 2024).

Esse resultado é compatível com estudos que demonstram que a adoção de práticas agrícolas sustentáveis é influenciada por múltiplos canais de informação e aprendizagem. A extensão rural e a capacitação são importantes, mas a troca de conhecimentos entre agricultores, a participação em organizações e as redes locais também podem exercer papel relevante na adoção e manutenção de práticas agroflorestais (GROVERMANN et al., 2023).

A baixa associação espacial entre esses manejos e a assistência técnica sugere que a adoção dessas práticas pode estar vinculada à atuação de redes territoriais de cooperação, capital social local e experiências acumuladas pelos produtores rurais. Assim, a construção de políticas públicas territorializadas, integradas à extensão rural, à pesquisa e às estratégias de governança ambiental, torna-se fundamental para ampliar a difusão de sistemas produtivos mais resilientes, capazes de promover conservação do solo, segurança hídrica, mitigação das mudanças climáticas e maior sustentabilidade socioeconômica no espaço agrário sul-mato-grossense (ABDUL-SALAM et al., 2022).

A relação entre assistência técnica e adoção tecnológica pode, contudo, variar entre sistemas produtivos e territórios. Em propriedades canavieiras brasileiras, por exemplo, escolaridade, tamanho da propriedade e acesso à assistência técnica apresentaram associação positiva com a adoção de tecnologias de agricultura de precisão (CARRER et al., 2022). A baixa associação observada nesta pesquisa para PD e SAF sugere, portanto, que o papel da assistência técnica pode depender do tipo de inovação e das características territoriais em que sua adoção ocorre.

A transição para sistemas regenerativos envolve, além das práticas de manejo propriamente ditas, fatores econômicos, ambientais, sociais e valores relacionados à conservação dos solos e dos ecossistemas. Assim, a adoção desses sistemas deve ser compreendida como um processo socioecológico, e não somente como substituição de técnicas produtivas (FRANKEL-GOLDWATER et al., 2024).

Uma abordagem sistêmica para compreensão do território e contribuição à manejos do solo mais sustentáveis implica, portanto, abordagens mais territorializadas e políticas de assistência técnica que auxiliem na divulgação e implementação desses manejos. Do ponto de vista metodológico, a abordagem sistêmica aqui proposta, com auxílio de perspectivas estatísticas e espaciais, possui o potencial de ferramental importante para análise integrada de fenômenos e dinâmicas agrárias complexas, possibilitando revelar não apenas a localização dos fenômenos e suas associações, mas também, a lógica territorial e o efeito espacial de diferentes práticas de manejo do solo (KHANGURA et al., 2023).

A abordagem sistêmica se conforma, portanto, em uma aproximação. As análises estatísticas e espaciais são procedimentos, ou seja, mediações que possibilitam um desvendamento para além do plano das aparências. Entretanto, todo modelo é sempre limitado. É necessário um esforço conjunto que integre Estatística e Estatística Espacial em múltiplas escalas e, levando em conta, o tempo, o processo histórico. A proposta aqui discutida possui potencialidade para outras áreas do planejamento territorial, para além da discussão agrária, podendo auxiliar, também, na área da saúde, educação, economia, políticas públicas, dentre outras. Um caminho promissor é a união entre elaborações bayesianas na estatística e na estatística espacial para apreendermos múltiplos cenários e o complemento da incerteza e da probabilidade entre diversas variáveis.

 

Considerações finais

 

No presente artigo realizamos uma abordagem sistêmica, com apoio em análises estatísticas e espaciais, sobre distintos manejos do solo em municípios de MS. Verificamos a existência de um eixo bem delimitado entre os cultivos sem preparo do solo, cultivo convencional e cultivo mínimo. A influência da assistência técnica não é homogênea e os cultivos se espacializam em agrupamentos específicos entre os municípios.

A baixa probabilidade posterior de inclusão da variável assistência técnica nos modelos explicativos, bem como a ausência de efeitos diretos e indiretos estatisticamente robustos, indicam que sua influência não se manifesta de maneira sistemática no território. Essa evidência sugere que a difusão de práticas como o plantio direto e os sistemas agroflorestais não pode ser compreendida como um efeito linear ou automático das políticas de assistência técnica, apontando para a presença de outras dinâmicas territoriais subjacentes.

Os resultados permitiram identificar padrões estatísticos e espaciais distintos entre os sistemas de manejo do solo e a assistência técnica rural nos municípios de Mato Grosso do Sul. Observou-se um eixo mais definido entre os sistemas sem preparo do solo, cultivo convencional e cultivo mínimo, enquanto o Plantio Direto e os Sistemas Agroflorestais apresentaram distribuição territorial mais heterogênea. A assistência técnica, por sua vez, não demonstrou associação sistemática e robusta com a adoção dos manejos conservacionistas analisados.

Além disso, os resultados reforçam a necessidade de compreender os manejos conservacionistas do solo a partir de uma perspectiva integrada entre território, governança e sustentabilidade. Em um contexto de crescente demanda por sistemas produtivos mais resilientes frente às mudanças climáticas e às exigências ambientais contemporâneas, práticas como o Plantio Direto e os Sistemas Agroflorestais assumem importância estratégica não apenas pela conservação do solo e da água, mas também por seu potencial de contribuição à agricultura regenerativa, à mitigação das emissões de carbono e à manutenção dos serviços ecossistêmicos. Nesse sentido, a adoção desses manejos depende menos de mecanismos lineares de difusão tecnológica e mais da articulação entre políticas públicas territorializadas, redes locais de cooperação, assistência técnica qualificada e dinâmicas históricas próprias de cada território rural.

 

Conflitos de interesse

 

Não houve conflito de interesses.

 

Contribuição dos autores

 

Os autores contribuíram de forma equitativa e substancial em todas as etapas de desenvolvimento do manuscrito, incluindo a concepção e elaboração do trabalho, a redação do texto, a revisão crítica de seu conteúdo intelectual e a organização geral da versão final submetida para publicação.

 

Referências bibliográficas

 

ABDUL-SALAM, Y.; OVANDO, P.; ROBERTS, D. Understanding the economic barriers to the adoption of agroforestry: a real options analysis. Journal of Environmental Management, v. 302, art. 113955, 2022. https://doi.org/10.1016/j.jenvman.2021.113955

ASPROOTH, L.; NORTON, M.; GALT, R. The adoption of conservation practices in the Corn Belt: the role of one formal farmer network, practical farmers of Iowa. Agriculture and Human Values, v. 40, p. 1559-1580, 2023. https://doi.org/10.1007/s10460-023-10451-5

CARRER, M. J.; SOUZA FILHO, H. M.; VINHOLIS, M. M. B.; MOZAMBANI, C. I. Precision agriculture adoption and technical efficiency: an analysis of sugarcane farms in Brazil. Technological Forecasting and Social Change, v. 177, art. 121510, 2022. https://doi.org/10.1016/j.techfore.2022.121510

FRANKEL-GOLDWATER, L.; WOJTYNIA, N.; DUEÑAS-OCAMPO, S. Healthy people, soils, and ecosystems: uncovering primary drivers in the adoption of regenerative agriculture by US farmers and ranchers. Frontiers in Sustainable Food Systems, v. 7, p. 1-21, 2024. https://doi.org/10.3389/fsufs.2023.1070518

FUENTES-LLANILLO, R.; TELLES, T. S.; SOARES JUNIOR, D.; MELO, T. R.; FRIEDRICH, T.; KASSAM, A. Expansion of no-tillage practice in conservation agriculture in Brazil. Soil and Tillage Research, v. 208, art. 104877, 2021. https://doi.org/10.1016/j.still.2020.104877

GROVERMANN, C.; REES, C.; BEYE, A.; WOSSEN, T.; ABDOULAYE, T.; CICEK, H. Uptake of agroforestry-based crop management in the semi-arid Sahel – analysis of joint decisions and adoption determinants. Frontiers in Sustainable Food Systems, v. 7, p. 1-17, 2023. https://doi.org/10.3389/fsufs.2023.1042551

HARRIS, J. A.; EVANS, D. L.; MOONEY, F. J. A new theory for soil health. European Journal of Soil Science, v. 73, n. 4, p. 1-7, 2022. https://doi.org/10.1111/ejss.13292

KPOVIWANOU, M. R. J. H.; SOUROU, B. N. K.; OUINSAVI, C. A. I. N. Challenges in adoption and wide use of agroforestry technologies in Africa and pathways for improvement: a systematic review. Trees, Forests and People, v. 17, art. 100642, 2024. https://doi.org/10.1016/j.tfp.2024.100642

IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Manual do Recenseador – Censo Agropecuário 2017. Brasília: Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão, 2017. https://censoagro2017.ibge.gov.br/divulgacao-censo-agro-2017/midia-online.html?view=mediaibge&catid=2199&id=1056

KHANGURA, R.; FERRIS, D.; WAGG, C.; BOWYER, J. Regenerative Agriculture – a literature review on the practices and mechanisms used to improve soil health. Sustainability, v. 15, n. 3, p. 1-41, 2023. https://doi.org/10.3390/su15032338

PASSOS, A. M. A.; ALVARENGA, R. C.; SANTOS, F. C. Sistema de plantio direto. In: NOBRE, M. M.; OLIVEIRA, I. R. (Eds.). Agricultura de baixo carbono: tecnologias e estratégias de implantação. Brasília, DF: Embrapa, cap. 3, p. 61-104, 2018. https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/handle/doc/1101765

ROSÁRIO, J.; MADUREIRA, L.; MARQUES, C.; SILVA, R. Understanding farmers’ adoption of sustainable agriculture innovations: a systematic literature review. Agronomy, v. 12, n. 11, p. 1-19, 2022. https://doi.org/10.3390/agronomy12112879

SANTOS, M. A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção. 4ª ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2017.

SCHULER, H. R.; ALARCON, G. G.; JONER, F.; SANTOS, K. L.; SIMINSKI, A.; SIDDIQUE, I. Ecosystem services from ecological agroforestry in Brazil: a systematic map of scientific evidence. Land, v. 11, n. 1, p. 1-19, 2022. https://doi.org/10.3390/land11010083

SILVA, I. C. Sistemas Agroflorestais: Conceitos e Métodos. Itabuna: SBSAF, 2013.

TRANCHINA, M.; REUBENS, B.; FREY, M.; MELE, M.; MANTINO, A. What challenges impede the adoption of agroforestry practices? a global perspective through a systematic literature review. Agroforestry Systems, v. 98, p. 1817-1837, 2024. https://doi.org/10.1007/s10457-024-00993-w

 

 

 

Recebido em 27 de maio de 2026

Retornado para ajustes em 1 de setembro de 2026

Recebido com ajustes em 2 de setembro de 2026

Aceito em 8 de setembro de 2026