Dinâmicas espaciais e estatísticas da assistência técnica rural e dos sistemas de manejo do solo em Mato Grosso do Sul, Brasil

Revista Agrária Acadêmica

agrariacad.com

doi: 10.32406/v9n4/2026/1-14/agrariacad

 

Dinâmicas espaciais e estatísticas da assistência técnica rural e dos sistemas de manejo do solo em Mato Grosso do Sul, Brasil. Spatial dynamics and statistical analysis of rural technical assistance and soil management systems in Mato Grosso do Sul, Brazil.

 

Rafael Rossi1, Eloise Mello Viana de Moraes2, Alessandra Carla Sampaio de Souza3

 

1- Docente e Pesquisador no Programa de Pós-Graduação em Recursos Naturais na UFMS , Campus de Campo Grande, MS, Brasil. Líder do Laboratório de Pesquisas de Estatísticas Geográficas e Sustentabilidade – LAPEGS . E-mail: r.rossi@ufms.br
2- Docente e Pesquisadora no Programa de Pós-Graduação em Geografia na UFMS , Campus de Aquidauana, MS, Brasil. E-mail: eloise.mello@ufms.br
3- Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Recursos Naturais na UFMS , Campus de Campo Grande, MS, Brasil. E-mail: alessandra.sampaio@ufms.br

 

Resumo

 

O manejo e a conservação do solo constituem desafios estratégicos para a sustentabilidade da agricultura brasileira. O objetivo desse estudo foi investigar os padrões estatísticos e espaciais dos dados referentes à assistência técnica rural e a distintos manejos do solo nos municípios do Estado de Mato Grosso do Sul, Brasil. Foram analisados os cultivos convencionais, cultivo mínimo, sistemas sem preparo do solo, plantio direto e sistemas agroflorestais por meio de estatística inferencial, PCA, correlação bayesiana e estatística espacial. Os resultados evidenciaram forte associação entre manejos convencionais e menor relação entre práticas conservacionistas e assistência técnica rural. Conclui-se que aplicação de manejos sustentáveis depende de estratégias integradas à governança ambiental local.

Palavras-chave: Extensão rural. Governança territorial. Agricultura. Conservação ambiental.

 

 

Abstract

 

Soil management and conservation represent strategic challenges for the sustainability of Brazilian agriculture. This study investigated the statistical and spatial patterns associated with rural technical assistance and different soil management systems across municipalities in the state of Mato Grosso do Sul, Brazil. Conventional tillage, minimum tillage, no-tillage systems without soil disturbance, direct seeding systems, and agroforestry systems were analyzed using inferential statistics, Principal Component Analysis (PCA), Bayesian correlation, and spatial statistics. The results revealed a strong association among conventional management practices and a weaker relationship between conservation-oriented practices and rural technical assistance. The findings indicate that the implementation of sustainable management systems depends on integrated strategies linked to local environmental governance.

Keywords: Rural extension. Territorial governance. Agriculture. Environmental conservation.

 

 

Introdução

 

Há décadas o Brasil tem se preocupado com o manejo e a conservação do solo e da água. No âmbito da produção agrícola e agropecuária, dois sistemas se destacam nesse sentido: o Sistema Plantio Direto e os Sistemas Agroflorestais. O Sistema Plantio Direto, de forma suscinta, implica: o mínimo revolvimento do solo; a manutenção da palhada oriunda das culturas agrícolas anteriores sempre cobrindo o solo e; a prática de rotação de culturas, ou seja, não se trabalhar apenas com um ou dois tipos de culturas agrícolas (PASSOS et al., 2018).

Os Sistemas Agroflorestais, por sua vez, são sistemas de uso da terra mais complexos que incluem, de modo deliberado e com planejamento, componentes arbóreos ou arbustivos junto com cultivos agrícolas tradicionais, podendo ou não, ter a presença de animais em sucessão ou consórcio (SILVA, 2012).

Entretanto, dado a enorme extensão territorial do Brasil e suas desigualdades entre suas regiões e internas às suas regiões, as políticas públicas lidam com um enorme desafio em compreender o território no qual irão atuar, para que tenham mais chances de sucesso. O território, nesse aspecto, não diz respeito apenas à uma área, como um alvo que irá receber a ação das políticas.

Por outro lado, territórios são influenciados e, ao mesmo tempo, influenciam, de modo mediado, as ações políticas. O território implica alianças, contradições, desigualdades, dinâmicas de trabalho, de educação, enfim, dizem respeito ao uso das ações antrópicas junto com a identidade que lhes dá características (SANTOS, 2017).

O solo é um recurso natural multidimensional, sistêmico e processual. Isso significa que ele é muito mais do que apenas um somatório de suas propriedades físicas, químicas e biológicas. Solos saudáveis são responsáveis por uma série de serviços ecossistêmicos indispensáveis para a vida no planeta Terra, tais como: provisão de alimentos, fibras, madeira, biomassa; ciclagem de nutrientes; regulação climáticas; fornecimento de matérias-primas para indústria farmacêutica e de construção civil; regulação climáticas; filtragem e armazenamento de água (HARRIS et al., 2022).

Em face da complexidade do solo, precisamos de modelos igualmente sistêmicos e complexos que consigam se aproximar do movimento essencial, isto é, para além das aparências, desse recurso natural de suma relevância para agricultura e para a biodiversidade de inúmeros ecossistemas em distintos territórios.

Nosso objetivo foi investigar os padrões estatísticos e espaciais dos dados referentes à assistência técnica rural e a distintos manejos do solo: sem preparo do solo; cultivo convencional, cultivo mínimo; plantio direto e sistemas agroflorestais; nos municípios do Estado de Mato Grosso do Sul, Brasil. A abordagem estatística e espacial que propomos, pode contribuir com outras pesquisas em territórios distintos, bem como uma territorialização mais eficaz das políticas públicas preocupadas com o manejo e a conservação do solo e da água. Buscamos responder à seguinte pergunta: “Em que medida a assistência técnica rural está associada, estatística e espacialmente, à adoção de manejos conservacionistas do solo nos municípios de Mato Grosso do Sul?”

Desse modo, o presente artigo pretende contribuir, com a proposta sistêmica aqui em discussão, com os seguintes objetivos do Desenvolvimento Sustentável, elencados pelas Nações Unidas: 02 – Fome Zero e Agricultura Sustentável (Erradicar a fome, alcançar a segurança alimentar, melhorar a nutrição e promover a agricultura sustentável); 13 – Ação contra a Mudança Global do Clima (Adotar medidas urgentes para combater as alterações climáticas e os seus impactos) e; 15 – Vida Terrestre (Proteger, restaurar e promover o uso sustentável dos ecossistemas terrestres, gerir de forma sustentável as florestas, combater a desertificação, travar e reverter a degradação dos solos e travar a perda da biodiversidade).

 

Material e métodos

 

Inicialmente, os dados foram coletados a partir do Censo Agropecuário organizado e elaborado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, para o ano de 2017. As variáveis foram: Sem preparo do Solo: sistema que não utilizou gradagem e aração do solo; Cultivo Convencional: sistema produtivo que utilizou aração e gradagem do solo; Cultivo Mínimo: sistema produtivo que utilizou apenas a gradagem do solo; Sistema Plantio Direto: sistema produtivo em que o plantio é realizado em pequenos sulcos abertos no solo que está coberto de palha, não tendo a necessidade de aração ou gradagem e com a manutenção dos restos das culturas anteriores sobre o solo e; Sistemas Agroflorestais: sistema produtivo com componentes arbóreos, animais e culturas agrícolas (IBGE, 2017).

O entendimento de Assistência Técnica, por sua vez, diz respeito à assistência prestada ao estabelecimento rural por profissionais habilitados, como Engenheiros Agrônomos, Engenheiros Florestais, Médicos Veterinários, Zootecnistas, Engenheiros Agrícolas, Biólogos, Técnicos Agrícolas, Tecnologistas de Alimentos ou Economistas Domésticos, com a finalidade de transmitir conhecimento e orientar os produtores agropecuários (IBGE, 2017).

Os dados foram transformados em log (n +1) para diminuir assimetrias e manter padrões. As investigações estatísticas foram realizadas no software – open source – JASP (v. 0.95.4) e os procedimentos de mapeamento no software GeoDa (v. 1.22.0.21).

No âmbito da análise Inferencial Clássica, realizamos: Teste Shapiro-Wilk; Teste Levene; ANOVA com ω²; post-hoc de Tukey; Teste Kruskal-Wallis e post hoc de Dunn. Tais procedimentos foram necessários para respondermos à seguinte pergunta: “Existem diferenças estatísticas significativas entre os territórios?”

Para análise da Estrutura Multivariada dos Sistemas de Manejo, foi elaborada um Principal Components Analysis – PCA, com objetivo de responder à pergunta: “Qual a estrutura latente que organiza os manejos do solo?”

Já para Associação Probabilística e Incerteza realizamos Correlação Bayesiana e Bayesian Model Averaging com objetivo de respondermos: “Quais associações são plausíveis e o quão robustas elas são?”

Para a parte de Processos e Mecanismos realizamos uma Mediation Analysis para verificar por meio de quais mecanismos a Assistência Técnica influencia manejos de conservação do solo.

No âmbito da Estrutura e Dependência Espacial, foram realizados: mapeamento temático e Análise Espacial Empírica de Bayes para responder à pergunta sobre “como os padrões estão territorializados?”

 

Resultados e discussão

 

O Mato Grosso do Sul – MS, é um Estado brasileiro criado em 1974 (Figura 1). O MS possui 357.142,010 km2 de extensão territorial, com uma população de 2.757.013 pessoas e uma densidade demográfica de 7,72 habitantes por km2. Além disso o Índice de Desenvolvimento Humano é de 0,72 e um rendimento mensal domiciliar per capita de R$ 2.169. A economia é principalmente baseada no agronegócio da soja, carne e celulose. MS está dividido em 04 mesorregiões (divisões regionais): 1) CNMS: Centro Norte de MS; 2) LMS: Leste de MS; 3) SUDOMS: Sudoeste de MS e; 4) PSMS: Pantanais Sul-mato-grossenses.

 

Figura 1 – Localização do Estado de  Mato Grosso do Sul (MS), Brasil. Fonte: O autor.

 

O primeiro procedimento que aplicamos foi analisar as estatísticas descritivas dos dados coletados, com a aplicação do teste de Shapiro-Wilk para verificação da normalidade (Tabela 1).

 

Tabela 1 – Estatísticas descritivas.
 
SPS
CONV
CM
PD
ATEC
SAF
Média
5811
4534
4915
3451
5487
2394
Desvio Padrão
979.2
992.3
1154
1534
597.6
1060
Shapiro-Wilk
0.815
0.917
0.940
0.986
0.991
0.976
P-value of Shapiro-Wilk
< .001
< .001
.001
.523
.882
.133
SPS: Sem Preparo de Solo; CONV: Manejo Convencional; CM: Cultivo Mínimo; PD: Plantio Direto; ATEC: Assistência Técnica e SAF: Sistemas Agroflorestais.

 

Podemos observar, que SPS e ATEC apresentaram as maiores médias e SAF e PD (justamente os sistemas mais conservacionistas do solo) demonstraram as menores médias. O teste de Shapiro-Wilk revelou quebra dos pressupostos de normalidade para SPS, CONV e CM. Nesse sentido, para essas variáveis, optamos por aplicar um teste de Kruskal-Wallis para verificar se existem diferenças estatísticas ou não entre os grupos de dados. Para as variáveis PD, ATEC e SAF, verificamos que os pressupostos de normalidade não foram quebrados e, nesse caso, aplicamos a ANOVA.

No que se refere ao teste Levene que infere sobre a homogeneidade das variâncias, verificamos que, para todas as variáveis analisadas, houve um p-valor > 0,05; indicando que não há evidência de heterocedasticidade, de tal modo que as variâncias podem ser consideradas homogêneas entre os grupos.

Com esses resultados, pudemos prosseguir e verificamos com o teste de Kruskal-Wallis para SPS p-valor: 0.467 e Rank ε² de 0.033; para a variável CONV um p-valor de 0.832 e Rank ε² de 0.011. Isso significa que não existem diferenças estatísticas entre essas variáveis. Para a variável CM verificamos o p-valor de 0.025 e Rank ε² de 0.120 e, nesse caso, sim foi verificada a existência de diferença estatística. Com o objetivo de responder onde se encontra essa diferença apresentamos o post hoc de Dunn (Tabela 2).

 

Tabela 2 – Post Hoc de Dunn para a variável CM.
Comparação
z
Wi
Wj
rrb
p
pbonf
pholm
CNMS – LMS
2.290
52.59
34.76
-0.493
.022
.132
.110
CNMS – PSMS
0.091
52.59
51.64
0.018
.927
1.000
1.000
CNMS – SUDOMS
2.556
52.59
35.04
-0.431
.011
.063
.063
LMS – PSMS
-1.664
34.76
51.64
0.429
.096
.577
.317
LMS – SUDOMS
-0.043
34.76
35.04
-0.011
.966
1.000
1.000
PSMS – SUDOMS
1.755
51.64
35.04
-0.402
.079
.475
.317
CNMS: Região Central de MS; LMS: Região Leste; PSMS: Pantanal; SUDOMS: Região Sudoeste e Sudeste de MS.

 

Com o post hoc de Dunn realizado para a variável de Cultivo Mínimo – CM – percebemos que à primeira vista a mesorregião CNMS difere da mesorregião LMS e CNMS difere de SUDOMS. Contudo, após Bonferroni, nenhuma comparação permanece significativa, já que todas apresentaram um pbonf > 0,05. Ou seja: existem apenas diferenças de magnitude moderada entre CNMS vs LMS e CNMS vs SUDOMS.

Realizamos uma ANOVA para verificação da existência ou não de diferenças para a variável PD e obtivemos um p-valor de 0.004, o que indica que existem. No sentido de averiguar entre quais mesorregiões de MS essa diferença se manifesta, aplicamos um post hoc de Tukey (Tabela  3).

 

Tabela 3 – Post Hoc de Tukey para variável PD.
Diferença média
SE
df
t
ptukey
CNMS
LMS
787.0
485.3
75
1.621
.373
PSMS
659.1
648.2
75
1.017
.740
SUDOMS
-646.1
428.0
75
-1.510
.437
LMS
PSMS
-127.9
632.4
75
-0.202
.997
SUDOMS
-1433.0
403.7
75
-3.550
.004
PSMS
SUDOMS
-1305.2
589.6
75
-2.214
.129
CNMS: Região Central de MS; LMS: Região Leste; PSMS: Pantanal; SUDOMS: Região Sudoeste e Sudeste de MS.

 

Com os dados da Tabela 3, podemos inferir que apenas entre a mesorregião LMS vs SUDOMS existem diferenças estatísticas para a variável PD com um ptukey de 0.004. Na sequência, realizamos ANOVA para a variável ATEC e verificamos um p-valor de 0.728, indicando que não existem diferenças estatísticas entre as mesorregiões de MS para essa variável.

Com relação à variável SAF, verificamos um p-valor: 0.003 e, neste caso, realizamos post hoc de Tukey (Tabela  4).

Verificamos a existência de uma diferença entre as mesorregiões LMS vs PSMS com ptukey de 0,004. Com o objetivo de verificar a distribuição espacial de cada variável no Estado de MS, realizamos uma cartografia temática de quantis com 4 classes para cada variável.

 

Tabela 4 – Post Hoc de Tukey para a variável SAF.
Diferença média
SE
df
t
ptukey
CNMS
LMS
869.1
334.2
75
2.601
.053
PSMS
-666.4
446.3
75
-1.493
.447
SUDOMS
485.3
294.7
75
1.647
.359
LMS
PSMS
-1535.4
435.4
75
-3.526
.004
SUDOMS
-383.7
278.0
75
-1.381
.515
PSMS
SUDOMS
1151.7
405.9
75
2.837
.029
CNMS: Região Central de MS; LMS: Região Leste; PSMS: Pantanal; SUDOMS: Região Sudoeste e Sudeste de MS.

 

A cartografia temática, desse modo, se configura em um procedimento fundamental para a abordagem sistêmica, pois auxilia na visualização das variáveis em sua articulação para com os territórios (Figura 2).

 

Figura 2 – Distribuição espacial em quartis para cada variável.

 

Podemos dizer que, com relação à variável SPS, os valores mais altos de adoção desse tipo de manejo do solo estão territorializados nas mesorregiões CNMS e PSMS. Para a variável CONV, os valores mais altos se encontram na mesorregião CNMS e SUDOMS. Já os valores mais altos da variável CM se encontram nas mesorregiões PSMS, SUDOMS e CNMS. A Assistência Técnica – ATEC – apresentou valores mais altos em PSMS e SUDOMS. O Plantio Direto – PD – demonstrou valores mais altos em PSMS e LMS e, por fim, SAF apresentou os valores mais altos em SUDOMS e CNMS.

Com o objetivo de reduzir a dimensionalidade, realizamos um Principal Components Analisys – PCA que apresentou no teste Qui-quadrado um p-valor de 0.003. O PCA revelou que as variáveis CONV, SPS e CM constituem os maiores valores para definir o componente RC1. ATEC possui contribuição fraca a moderada e PD e SAF, não contribuem. Isso indica que, do ponto de vista da PCA, o componente principal de manejo do solo em MS é formado por manejo convencional com aração e gradagem, sem preparo do solo e cultivo mínimo.

Elaboramos um Path Diagram do PCA e um Bayesian Correlation Network Analysis (Figura 3).

 

Figura 3 – Path Diagram do PCA e Bayesian Correlation Network Analysis.

 

O path diagram (à esquerda na Figura 4) mostra as setas em verde e com maior espessura justamente para as variáveis CONV, SPS e CM e o bayesian correlation network analysis (à direita na Figura 4) explicita uma conexão forte em azul e com maior espessura justamente entre essas mesmas variáveis, confirmando os resultados da PCA. Com o objetivo de quantificar a associação entre as variáveis, incorporando a incerteza e tendo como base o arcabouço da inferência bayesiana, realizamos uma correlação bayesiana.

A correlação bayesiana com Kendall´s tau B, uma medida não paramétrica de associação que varia de -1 a +1. O BF10 (Bayes Factor) explicita a evidência dos dados a favor da hipótese de correlação em relação à hipótese nula.

Verificamos que SPS e CONV apresentam correlação moderada a forte, com evidência bayesiana muito forte. Já SPS e CM apresenta correlação moderada, porém com evidência bayesiana muito forte. Em contrapartida, PD não apresentou associação relevante com nenhuma das variáveis, tendo evidência moderada a favor da hipótese nula. Já as variáveis ATEC e SAF demonstraram associações fracas e evidências bayesianas limitadas.

A adoção de sistemas conservacionistas, entretanto, não deve ser compreendida apenas pela presença ou ausência de determinada prática. No Brasil, a expansão do Plantio Direto ocorreu de maneira expressiva, mas sua contribuição para a sustentabilidade depende da integração com outros princípios da agricultura conservacionista, como manutenção da cobertura do solo e diversificação das culturas (FUENTES-LLANILLO et al., 2021).

Os resultados até agora, dialogam entre si, tendo revelado um vínculo muito forte entre SPS, CONV e CM no Estado de MS. Com o objetivo de termos uma comparação entre vários modelos e não apenas um, realizamos um Bayesian Model Averaging – BMA –  para a variável SAF (como afirmamos anteriormente, trata-se de sistema agroflorestal, isto é, um tipo de manejo do solo e produção agropecuária extremamente sustentável) e a variável PD (Plantio Direto, também se configurando em um manejo do solo sustentável). A Tabela 5 apresenta os resultados dessa análise para a variável SAF.

 

Tabela 5 – Bayesian Model Averaging para variável SAF.
Intervalo de credibilidade – 95%
 
Coeficiente
P(incl)
P(excl)
P(incl|data)
P(excl|data)
BFinclusion
Intercept
1.000
0.000
1.000
0.000
1.000
SPS
0.500
0.500
0.306
0.694
0.441
CONV
0.500
0.500
0.474
0.526
0.902
CM
0.500
0.500
0.896
0.104
8.605
PD
0.500
0.500
0.297
0.703
0.423
ATEC
0.500
0.500
0.303
0.697
0.435

No BMA, como afirmamos, ao invés de trabalharmos com um modelo, trabalhamos com vários e verificamos sua probabilidade a posteriori. As variáveis podem entrar ou não em cada modelo. P(incl) e P(excl) dizem respeito à probabilidade a priori da variável entrar ou não no modelo. Nesse sentido, todas apresentam 0,5 o que indica que não favorecemos nem a inclusão, nem a exclusão de nenhuma variável. Já P(incl | data) e P(excl | data), se referem à probabilidade a posteriori, isto é, após a observação dos dados e se for > 0,5 existe evidência a favor da variável e se for < 0,5 existe evidência fraca contra a variável.

O BFinclusion, por sua vez, compara a evidência a favor da inclusão versus a exclusão. No que diz respeito aos dados da Tabela 5, a única variável que foi a mais importante do modelo diz respeito à CM (cultivo mínimo) com P(incl|data) de 0.896 e um BF de 8.605, indicando forte evidência a favor da inclusão e um efeito positivo. As demais variáveis apresentaram baixas probabilidades de inclusão e intervalos que incluem zero, o que pode indicar ausência de evidência forte de efeito.

Também realizamos um BMA para a variável PD (plantio direto) e os resultados estão apresentados na Tabela 6.

 

Tabela 6 – Bayesian Model Averaging para variável PD.
Intervalo de credibilidade – 95%
 
 
 
 
 
Coeficiente
P(incl)
P(excl)
P(incl|data)
P(excl|data)
BFinclusion
Intercept
1.000
0.000
1.000
0.000
1.000
SPS
0.500
0.500
0.305
0.695
0.439
CONV
0.500
0.500
0.358
0.642
0.558
CM
0.500
0.500
0.304
0.696
0.438
ATEC
0.500
0.500
0.412
0.588
0.701
SAF
0.500
0.500
0.228
0.772
0.295

 

De acordo com os dados da Tabela 6, observamos que a variável ATEC (assistência técnica) apresentou um P(incl|data) de 0.412, com um BF de 0.701, indicando uma evidência ainda fraca, com um efeito positivo, mas sem robustez. Para as demais variáveis, pode-se concluir que o BMA não revelou evidência robusta para a inclusão de nenhuma variável explicativa considerada, todas apresentando probabilidades posteriores de inclusão menores que 50% e BF menores que 1. Desse modo, o Plantio Direto em MS não está associado de modo forte às variáveis selecionadas, o que pode indicar tradição local e iniciativa dos próprios produtores rurais.

Entretanto, sabemos que a realidade trabalha de modo processual e por inúmeras dinâmicas no âmbito da adoção de práticas de manejo que garantam a conservação do solo e da água. É nesse sentido, que realizamos uma Mediation Analysis – MA, para descobrir como e por meio de quais processos uma variável pode influenciar outra. Realizamos uma MA colocando ATEC como variável preditora; SAF enquanto variável outcome e as demais variáveis enquanto mediadoras.

No âmbito dos Efeitos diretos de ATEC à SAF um p-valor de 0.522 e como efeitos totais um p-valor de 0.375, o que significa que, do ponto de vista estatístico, não há evidência de relação de Assistência Técnica sobre os Sistemas Agroflorestais. Todos os efeitos indiretos apresentaram um p-valor > 0,005.

Desse modo, nenhum dos caminhos mediacionais apresentou significância estatística. O efeito indireto via SPS foi pequeno e não significativo (β = 0,021; p = 0,815; IC95% [−0,158; 0,201]). De forma semelhante, não foi observada mediação por CONV (β = −0,201; p = 0,114; IC95% [−0,451; 0,049]) nem por PD (β = 0,024; p = 0,600; IC95% [−0,067; 0,116]).

O caminho indireto via CM apresentou uma estimativa positiva e próxima do nível convencional de significância estatística (β = 0,218; p = 0,058); contudo, o intervalo de confiança de 95% incluiu o valor zero (IC95% [−0,008; 0,444]), não permitindo confirmar a existência de mediação estatisticamente significativa. Em conjunto, esses resultados indicam que não há evidência empírica de que a relação entre ATEC e SAF seja mediada pelas variáveis SPS, CONV, PD ou CM.

Também realizamos uma Mediation Analysis colocando ATEC como preditora; SPS, CONV, CM e SAF como variáveis mediadoras e PD (plantio direto, sistema conservacionista de manejo do solo, como já explicamos anteriormente) como variável outcome. No âmbito dos Efeitos Diretos ATEC à PD um p-valor de 0.129 e como efeitos totais um p-valor de 0.040. O p-valor do efeito direto indica que, após o controle das demais variáveis incluídas no modelo, não há evidência estatística suficiente de que ATEC exerça um efeito direto sobre PD. Já o p-valor do efeito total indica que, quando não se controla pelos mediadores, ATEC apresenta uma associação estatisticamente significativa com PD.

A análise dos efeitos indiretos específicos também não revelou evidência de mediação estatisticamente significativa por meio de SPS (β = 0,108; p = 0,444), CONV (β = 0,205; p = 0,257), CM (β = −0,176; p = 0,161) ou SAF (β = 0,017; p = 0,638), uma vez que todos os intervalos de confiança de 95% incluíram o valor zero.

Em conjunto, esses resultados sugerem que, embora exista uma associação total entre ATEC e PD, tal relação não se manifesta por meio de efeitos diretos ou indiretos específicos claramente identificáveis no modelo proposto. Portanto, tanto SAF quanto PD, ambos manejos de conservação do solo e da água, não apresentam associação forte com ATEC, podendo indicar iniciativa própria dos produtores, influência de cooperativas ou tradição histórica local.

Desse modo, por meio da Análise Espacial Empírica de Bayes, é possível a criação de uma taxa e uma relação proporcional entre essas variáveis como presente na Figura 4.

 

Figura 4 – Análises Espaciais Empíricas de Bayes.

 

Os dados oriundos da Análise Espacial Empírica de Bayes são reveladores sobre a relação dos distintos manejos do solo para com a Assistência Técnica. As cores roxo e azul indicam regiões em que a variável evento supera, em termos proporcionais, a variável base. No que diz respeito ao Plantio Direto – PD, observa-se que a região leste, norte e centro-sul do estado apresentam municípios em que esse sistema de manejo do solo supera em termos proporcionais o oferecimento da ATEC. Para SAF isso ocorre, sobretudo, na região oeste e norte; já para SPS isso se manifesta, principalmente na região norte do Estado e; para CM, observamos que a região nordeste e sul apresenta municípios que superam a adoção desse sistema de manejo sobre, sempre em termos proporcionais, o oferecimento de ATEC.

Perante as análises estatísticas e espaciais elaboradas, os resultados convergem ao evidenciar que manejos do solo conservacionistas do solo em MS possuem estrutura territorial heterogênea e baixa associação com a assistência técnica rural. As estatísticas descritivas, inferenciais, multivariadas, bayesianas e espaciais apontam um padrão que se mantém no território: o cultivo convencional, estabelecimentos rurais sem preparo de solo e com cultivo mínimo formam um núcleo abrangente do sistema produtivo estadual. Por outro lado, as práticas conservacionistas desempenham posições ainda em transição do ponto de vista estatístico, espacial e, também, territorial (KPOVIWANOU et al., 2024).

A análise PCA e a rede de correlação bayesiana reforçam a interpretação esboçada acima, revelando que a maior parte da variância dos dados é explicada pelos manejos de cultivo convencional e mínimo, ou seja, que envolvem baixa complexidade. O Plantio Direto e Sistemas Agroflorestais, apesar de apresentarem maior complexidade ao sistema solo, no que se refere ao fluxo de energia e matéria, ainda representam sistemas produtivos em implementação e não abrangentes.

As análises inferenciais indicam que as diferenças territoriais observadas se concentram sobretudo nos manejos de menor complexidade operacional, enquanto os sistemas conservacionistas apresentam distribuição mais restrita e heterogênea. Essa configuração é reforçada pela Análise de Componentes Principais e pela rede de correlação bayesiana, que identificam um núcleo estrutural fortemente ancorado no cultivo convencional, no cultivo mínimo e nos sistemas sem preparo do solo, responsáveis pela maior parcela da variância observada no sistema produtivo estadual.

Em face desses resultados, podemos concluir que um desafio que se vislumbra em MS é a transformação dos sistemas conservacionistas do solo, como PD e SAFs, em estratégias integradas e sistêmicas com apoio mais forte e evidente da assistência técnica rural no interior dos distintos territórios que conformam o Estado. As análises espaciais, nesse aspecto, reforçam esse resultado e permitem aprofundar a leitura do território ao traduzirem visualmente padrões consistentes de concentração territorial dos distintos manejos do solo com hotspots e coldspots bem delimitados.

As análises espaciais empíricas de Bayes, por seu turno, explicitam diversos territórios de MS em que a adoção do PD e de SAF superam, em termos proporcionais, a oferta de assistência técnica, sugerindo a hipótese de que esses manejos do solo se originam e se influenciam por outras dinâmicas já existentes nos territórios como cooperativas, redes locais, tradição ou iniciativa própria dos produtores rurais. O território enquanto síntese de diversas dinâmicas de territorialização ao longo do espaço, não são apenas suporte físico das políticas, mas sim, elemento ativo e influenciador que condiciona, potencializa ou limita os seus impactos (ASPROOTH et al., 2023).

Para os Sistemas Agroflorestais, a literatura brasileira evidencia potencial para geração simultânea de diferentes serviços ecossistêmicos, embora sua distribuição e o próprio conhecimento científico sobre esses sistemas ainda sejam espacialmente desiguais entre os biomas nacionais (SCHULER et al., 2022). Essa heterogeneidade reforça a importância de compreender a adoção dos SAFs a partir das particularidades ambientais e territoriais.

Apesar dos avanços observados em determinados territórios de MS, os resultados evidenciam que a consolidação de manejos conservacionistas ainda depende de processos mais amplos de articulação institucional, difusão tecnológica e fortalecimento das capacidades locais. Nesse contexto, práticas como o Plantio Direto e os Sistemas Agroflorestais não devem ser compreendidas apenas como técnicas isoladas de manejo, mas como componentes de uma transição produtiva associada à agricultura regenerativa, à intensificação sustentável e às diretrizes contemporâneas de sustentabilidade no meio rural (ROSÁRIO et al., 2022; TRANCHINA et al., 2024).

Esse resultado é compatível com estudos que demonstram que a adoção de práticas agrícolas sustentáveis é influenciada por múltiplos canais de informação e aprendizagem. A extensão rural e a capacitação são importantes, mas a troca de conhecimentos entre agricultores, a participação em organizações e as redes locais também podem exercer papel relevante na adoção e manutenção de práticas agroflorestais (GROVERMANN et al., 2023).

A baixa associação espacial entre esses manejos e a assistência técnica sugere que a adoção dessas práticas pode estar vinculada à atuação de redes territoriais de cooperação, capital social local e experiências acumuladas pelos produtores rurais. Assim, a construção de políticas públicas territorializadas, integradas à extensão rural, à pesquisa e às estratégias de governança ambiental, torna-se fundamental para ampliar a difusão de sistemas produtivos mais resilientes, capazes de promover conservação do solo, segurança hídrica, mitigação das mudanças climáticas e maior sustentabilidade socioeconômica no espaço agrário sul-mato-grossense (ABDUL-SALAM et al., 2022).

A relação entre assistência técnica e adoção tecnológica pode, contudo, variar entre sistemas produtivos e territórios. Em propriedades canavieiras brasileiras, por exemplo, escolaridade, tamanho da propriedade e acesso à assistência técnica apresentaram associação positiva com a adoção de tecnologias de agricultura de precisão (CARRER et al., 2022). A baixa associação observada nesta pesquisa para PD e SAF sugere, portanto, que o papel da assistência técnica pode depender do tipo de inovação e das características territoriais em que sua adoção ocorre.

A transição para sistemas regenerativos envolve, além das práticas de manejo propriamente ditas, fatores econômicos, ambientais, sociais e valores relacionados à conservação dos solos e dos ecossistemas. Assim, a adoção desses sistemas deve ser compreendida como um processo socioecológico, e não somente como substituição de técnicas produtivas (FRANKEL-GOLDWATER et al., 2024).

Uma abordagem sistêmica para compreensão do território e contribuição à manejos do solo mais sustentáveis implica, portanto, abordagens mais territorializadas e políticas de assistência técnica que auxiliem na divulgação e implementação desses manejos. Do ponto de vista metodológico, a abordagem sistêmica aqui proposta, com auxílio de perspectivas estatísticas e espaciais, possui o potencial de ferramental importante para análise integrada de fenômenos e dinâmicas agrárias complexas, possibilitando revelar não apenas a localização dos fenômenos e suas associações, mas também, a lógica territorial e o efeito espacial de diferentes práticas de manejo do solo (KHANGURA et al., 2023).

A abordagem sistêmica se conforma, portanto, em uma aproximação. As análises estatísticas e espaciais são procedimentos, ou seja, mediações que possibilitam um desvendamento para além do plano das aparências. Entretanto, todo modelo é sempre limitado. É necessário um esforço conjunto que integre Estatística e Estatística Espacial em múltiplas escalas e, levando em conta, o tempo, o processo histórico. A proposta aqui discutida possui potencialidade para outras áreas do planejamento territorial, para além da discussão agrária, podendo auxiliar, também, na área da saúde, educação, economia, políticas públicas, dentre outras. Um caminho promissor é a união entre elaborações bayesianas na estatística e na estatística espacial para apreendermos múltiplos cenários e o complemento da incerteza e da probabilidade entre diversas variáveis.

 

Considerações finais

 

No presente artigo realizamos uma abordagem sistêmica, com apoio em análises estatísticas e espaciais, sobre distintos manejos do solo em municípios de MS. Verificamos a existência de um eixo bem delimitado entre os cultivos sem preparo do solo, cultivo convencional e cultivo mínimo. A influência da assistência técnica não é homogênea e os cultivos se espacializam em agrupamentos específicos entre os municípios.

A baixa probabilidade posterior de inclusão da variável assistência técnica nos modelos explicativos, bem como a ausência de efeitos diretos e indiretos estatisticamente robustos, indicam que sua influência não se manifesta de maneira sistemática no território. Essa evidência sugere que a difusão de práticas como o plantio direto e os sistemas agroflorestais não pode ser compreendida como um efeito linear ou automático das políticas de assistência técnica, apontando para a presença de outras dinâmicas territoriais subjacentes.

Os resultados permitiram identificar padrões estatísticos e espaciais distintos entre os sistemas de manejo do solo e a assistência técnica rural nos municípios de Mato Grosso do Sul. Observou-se um eixo mais definido entre os sistemas sem preparo do solo, cultivo convencional e cultivo mínimo, enquanto o Plantio Direto e os Sistemas Agroflorestais apresentaram distribuição territorial mais heterogênea. A assistência técnica, por sua vez, não demonstrou associação sistemática e robusta com a adoção dos manejos conservacionistas analisados.

Além disso, os resultados reforçam a necessidade de compreender os manejos conservacionistas do solo a partir de uma perspectiva integrada entre território, governança e sustentabilidade. Em um contexto de crescente demanda por sistemas produtivos mais resilientes frente às mudanças climáticas e às exigências ambientais contemporâneas, práticas como o Plantio Direto e os Sistemas Agroflorestais assumem importância estratégica não apenas pela conservação do solo e da água, mas também por seu potencial de contribuição à agricultura regenerativa, à mitigação das emissões de carbono e à manutenção dos serviços ecossistêmicos. Nesse sentido, a adoção desses manejos depende menos de mecanismos lineares de difusão tecnológica e mais da articulação entre políticas públicas territorializadas, redes locais de cooperação, assistência técnica qualificada e dinâmicas históricas próprias de cada território rural.

 

Conflitos de interesse

 

Não houve conflito de interesses.

 

Contribuição dos autores

 

Os autores contribuíram de forma equitativa e substancial em todas as etapas de desenvolvimento do manuscrito, incluindo a concepção e elaboração do trabalho, a redação do texto, a revisão crítica de seu conteúdo intelectual e a organização geral da versão final submetida para publicação.

 

Referências bibliográficas

 

ABDUL-SALAM, Y.; OVANDO, P.; ROBERTS, D. Understanding the economic barriers to the adoption of agroforestry: a real options analysis. Journal of Environmental Management, v. 302, art. 113955, 2022. https://doi.org/10.1016/j.jenvman.2021.113955

ASPROOTH, L.; NORTON, M.; GALT, R. The adoption of conservation practices in the Corn Belt: the role of one formal farmer network, practical farmers of Iowa. Agriculture and Human Values, v. 40, p. 1559-1580, 2023. https://doi.org/10.1007/s10460-023-10451-5

CARRER, M. J.; SOUZA FILHO, H. M.; VINHOLIS, M. M. B.; MOZAMBANI, C. I. Precision agriculture adoption and technical efficiency: an analysis of sugarcane farms in Brazil. Technological Forecasting and Social Change, v. 177, art. 121510, 2022. https://doi.org/10.1016/j.techfore.2022.121510

FRANKEL-GOLDWATER, L.; WOJTYNIA, N.; DUEÑAS-OCAMPO, S. Healthy people, soils, and ecosystems: uncovering primary drivers in the adoption of regenerative agriculture by US farmers and ranchers. Frontiers in Sustainable Food Systems, v. 7, p. 1-21, 2024. https://doi.org/10.3389/fsufs.2023.1070518

FUENTES-LLANILLO, R.; TELLES, T. S.; SOARES JUNIOR, D.; MELO, T. R.; FRIEDRICH, T.; KASSAM, A. Expansion of no-tillage practice in conservation agriculture in Brazil. Soil and Tillage Research, v. 208, art. 104877, 2021. https://doi.org/10.1016/j.still.2020.104877

GROVERMANN, C.; REES, C.; BEYE, A.; WOSSEN, T.; ABDOULAYE, T.; CICEK, H. Uptake of agroforestry-based crop management in the semi-arid Sahel – analysis of joint decisions and adoption determinants. Frontiers in Sustainable Food Systems, v. 7, p. 1-17, 2023. https://doi.org/10.3389/fsufs.2023.1042551

HARRIS, J. A.; EVANS, D. L.; MOONEY, F. J. A new theory for soil health. European Journal of Soil Science, v. 73, n. 4, p. 1-7, 2022. https://doi.org/10.1111/ejss.13292

KPOVIWANOU, M. R. J. H.; SOUROU, B. N. K.; OUINSAVI, C. A. I. N. Challenges in adoption and wide use of agroforestry technologies in Africa and pathways for improvement: a systematic review. Trees, Forests and People, v. 17, art. 100642, 2024. https://doi.org/10.1016/j.tfp.2024.100642

IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Manual do Recenseador – Censo Agropecuário 2017. Brasília: Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão, 2017. https://censoagro2017.ibge.gov.br/divulgacao-censo-agro-2017/midia-online.html?view=mediaibge&catid=2199&id=1056

KHANGURA, R.; FERRIS, D.; WAGG, C.; BOWYER, J. Regenerative Agriculture – a literature review on the practices and mechanisms used to improve soil health. Sustainability, v. 15, n. 3, p. 1-41, 2023. https://doi.org/10.3390/su15032338

PASSOS, A. M. A.; ALVARENGA, R. C.; SANTOS, F. C. Sistema de plantio direto. In: NOBRE, M. M.; OLIVEIRA, I. R. (Eds.). Agricultura de baixo carbono: tecnologias e estratégias de implantação. Brasília, DF: Embrapa, cap. 3, p. 61-104, 2018. https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/handle/doc/1101765

ROSÁRIO, J.; MADUREIRA, L.; MARQUES, C.; SILVA, R. Understanding farmers’ adoption of sustainable agriculture innovations: a systematic literature review. Agronomy, v. 12, n. 11, p. 1-19, 2022. https://doi.org/10.3390/agronomy12112879

SANTOS, M. A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção. 4ª ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2017.

SCHULER, H. R.; ALARCON, G. G.; JONER, F.; SANTOS, K. L.; SIMINSKI, A.; SIDDIQUE, I. Ecosystem services from ecological agroforestry in Brazil: a systematic map of scientific evidence. Land, v. 11, n. 1, p. 1-19, 2022. https://doi.org/10.3390/land11010083

SILVA, I. C. Sistemas Agroflorestais: Conceitos e Métodos. Itabuna: SBSAF, 2013.

TRANCHINA, M.; REUBENS, B.; FREY, M.; MELE, M.; MANTINO, A. What challenges impede the adoption of agroforestry practices? a global perspective through a systematic literature review. Agroforestry Systems, v. 98, p. 1817-1837, 2024. https://doi.org/10.1007/s10457-024-00993-w

 

 

 

Recebido em 27 de maio de 2026

Retornado para ajustes em 1 de setembro de 2026

Recebido com ajustes em 2 de setembro de 2026

Aceito em 8 de setembro de 2026

Desenvolvimento inicial do sorgo em diferentes substratos no Centro Primavesi de Agroecologia da Escola de Agronomia da Universidade Federal de Goiás (CEPA-EA/UFG)

Revista Agrária Acadêmica

agrariacad.com

doi: 10.32406/v9n3/2026/37-47/agrariacad

 

Desenvolvimento inicial do sorgo em diferentes substratos no Centro Primavesi de Agroecologia da Escola de Agronomia da Universidade Federal de Goiás (CEPA-EA/UFG). Initial sorghum development on different substrates at the Primavesi Center for Agroecology, School of Agronomy, Federal University of Goiás (CEPA-EA/UFG).

 

Maria Jaqueline Modesto Teixeira1, Ana Paula Veroneze Bueno1, Kaio Lucas Brito de Amorim1, Danilo Dutra Mesquita1, Edilane dos Santos Sampaio1, Eli Regina Barboza de Souza2, Francine Neves Calil2

 

1- Mestrando(a) em Agronomia – Universidade Federal de Goiás – UFG , Escola de Agronomia – EA
2- Docente do Ensino Superior – Universidade Federal de Goiás – UFG , Escola de Agronomia – EA, Av. Esperança, s/n, Campus Samambaia, CEP 74.690-900, Goiânia, Goiás, Brasil

 

Resumo

 

O presente estudo avaliou o desenvolvimento inicial de plântulas de sorgo granífero sob diferentes substratos. Observou-se que o tratamento com solo + vermiculita apresentou os melhores resultados em todos os parâmetros analisados, incluindo altura da parte aérea (0,342 cm), comprimento radicular (0,334 cm), número de folhas (4,4) e taxa de germinação (100%). Tais resultados são atribuídos às propriedades físicas da vermiculita, como elevada porosidade, boa retenção de água e aeração, além de sua capacidade de troca de cátions, que favorecem o crescimento vegetal. O substrato solo + composto orgânico também apresentou desempenho satisfatório, promovendo ambiente propício ao crescimento inicial. Em contraste, o tratamento solo + casca de arroz obteve os menores índices, possivelmente devido à baixa retenção de água e nutrientes. A testemunha, sem qualquer adição ao solo, não apresentou germinação, evidenciando a necessidade de substratos adequados mesmo em culturas adaptadas como o sorgo. Esses resultados destacam a importância da escolha adequada de substratos para otimizar a emergência e o desenvolvimento inicial do sorgo granífero, visando à produção eficiente de mudas em viveiro.

Palavras-chave: Sorgo. Germinação. Desenvolvimento inicial.

 

 

Abstract

 

The present study evaluated the initial development of grain sorghum seedlings under different substrates. It was observed that the treatment with soil + vermiculite showed the best results in all analyzed parameters, including shoot height (0.342 cm), root length (0.334 cm), number of leaves (4.4), and germination rate (100%). These results are attributed to the physical properties of vermiculite, such as high porosity, good water retention, and aeration, as well as its cation exchange capacity, which favor plant growth. The soil + organic compost substrate also performed satisfactorily, promoting an environment conducive to initial growth. In contrast, the soil + rice husk treatment obtained the lowest indices, possibly due to poor water and nutrient retention. The control group, without any addition to the soil, showed no germination, highlighting the need for adequate substrates even in adapted crops like sorghum. These findings underscore the importance of proper substrate selection to optimize the emergence and initial development of grain sorghum, aiming at efficient seedling production in nurseries.

Keywords: Sorghum. Germination. Initial development.

 

 

Introdução

 

Segundo Ribas (2003), a planta de sorgo, cuja denominação se define como Sorghum bicolor L. Moench, pertencente ao grupo dos cereais, é um produto da intervenção humana, reconhecido, portanto, como uma espécie domesticada para fins da satisfação das necessidades do homem. O autor Solano (2016) destaca que, o sorgo é uma cultura versátil, podendo ser utilizado como matéria-prima para diversas finalidades, como a produção de etanol, bebidas alcoólicas, colas, tintas, vassouras, extração de açúcares, fabricação de amido e óleo comestível.

Tratando-se de sua cultura, o cultivo do sorgo é uma ótima opção para a segunda safra (safrinha), por ser uma planta resistente, ideal para áreas de clima quente e com pouca disponibilidade de água, sendo assim amplamente cultivado no Brasil Central, especialmente na região do Cerrado, devido à sua capacidade de suportar condições de estresse hídrico, caracterizando-se de manejo fácil, com boa tolerância à seca, janela de plantio mais extensa e possibilidade de total mecanização da lavoura (CARVALHO et  al.,  2011). Em suma, Ribas (2003) relata a importância do sorgo como “uma extraordinária fábrica de energia, de enorme utilidade em regiões muito quentes e muito secas, onde o homem não consegue boas produtividades de grãos ou de forragem”.

O sorgo possui uma capacidade interessante de crescer com menos água em comparação a outras culturas, como o milho, e também de germinar em solos menos férteis, o que faz dele uma opção viável para os agricultores. No entanto, a ampliação da área cultivada com sorgo depende, em grande parte, de incentivos econômicos para os produtores rurais e da resolução de desafios técnicos, tais como o favorecimento do seu índice de germinação (SOLANO, 2016).

Considerando as características do sorgo e sua relevância para o desenvolvimento agrícola da região Centro-Oeste, este trabalho propôs um experimento com o objetivo de avaliar o desenvolvimento inicial e o índice de germinação do sorgo granífero em diferentes tipos de substrato. A análise comparativa buscou identificar o substrato de maior eficiência, visando subsidiar práticas que otimizem a produtividade dessa cultura. O experimento foi realizado no âmbito da Escola de Agronomia da Universidade Federal de Goiás (EA/UFG)​ para cumprimento das atividades do Programa de Pós-Graduação em Agronomia (PPGA/UFG).

 

Material e métodos

 

Tratamentos, seleção das sementes e localização do experimento

 

Para a realização do experimento, foi definida a análise de 4 (quatro) tratamentos, sendo 3 (três) ​com substratos diferentes entre si, referente a vermiculita, casca de arroz e composto orgânico, e 1 (uma) testemunha, correspondente a solo, sendo adotadas 5 (cinco) repetições para cada (Tabela 1).​​

 

Tabela 1 – Composição​ dos tratamentos d​o experimento. Fonte: Autores, 2025.
Nº
Tratamentos
1
Solo + Vermiculita;
2
Solo + Casca de arroz;
3
Solo + Composto orgânico;
4
Solo (Testemunha).

 

Os substratos tipo vermiculita e casca de arroz foram adquiridos em loja do segmento varejista, nos seguintes aspectos:

– 3 (três) caixas de vermiculita de 2 litros cada, da marca Dimy;

– 2 (dois) pacotes de casca de arroz de 4 litros cada, da marca Terral.

Já o substrato tipo composto orgânico foi cedido pelo viveiro da Agência Municipal do Meio Ambiente (Amma), situado na Rodovia GO M-10, Chácaras de Recreio Samambaia, nas imediações da Escola de Agronomia da Universidade Federal de Goiás, contendo resíduos orgânicos diversos (restos para compostagem). Na ocasião, também foram concedidos 20 (vinte) sacos plásticos pretos para mudas com tamanho de 25 cm x 30 cm de 0,10 mm de gramatura.

Além dos substratos, foram obtidos ainda aproximadamente 5 (cinco) quilogramas de latossolo, provenientes da Área de Mecanização ​da Escola de Agronomia da Universidade Federal de Goiás.As sementes utilizadas compreenderam do tipo sorgo granífero, ofertadas pelo Laboratório de Análise de​ ​Sementes (Lasem) da Escola de Agronomia da Universidade Federal de Goiás (UFG), previamente tratadas para garantir adequada semeadura e bom desenvolvimento das plantas.

No dia 22 de abril de 2025, foram organizadas as 20 (vinte) amostras do experimento, compostas por diferentes proporções de solo e substratos, exceto a testemunha, que correspondeu somente a solo, isenta de qualquer substrato. Foi estabelecido que cada repetição contemplaria o peso total de 600 g, independente do volume de cada composição de solo e substrato, bem como de solo para a testemunha. ​As diferentes proporções se justificam devido aos pesos distintos de cada substrato, o que resultou também​ em volumes diversos de cada tratamento. As proporções dos substratos foram estabelecidas conforme apresentado na Tabela 2.

 

Tabela 2 – Composição das amostras: substratos e proporções. Fonte: Autores, 2025.
Nº
Proporções
Tratamentos
1
1:3                     
Solo + Vermiculita;
2
1:2                                     
Solo + Casca de arroz;
3
1:2                      
Solo + Composto orgânico;
4
–                         
Solo (Testemunha).

 

As amostras foram organizadas em fileiras por tratamento, expostas sem sombreamento e regadas com aproximadamente 100 mm de água cada.​ ​As sementes foram plantadas no dia seguinte, em 23 de abril de 2025 (Figura 1).

 

Figura 1 – Preparação do experimento​. Fonte: Autores, 2025.

 

O experimento foi conduzido Centro Primavesi de Agroecologia da Escola de Agronomia da Universidade Federal de Goiás (Cepa-EA/UFG), situada nas dependências da Escola de Agronomia, no município de Goiânia.

 

Tempo e adubação​​​

 

O período do experimento compreendeu 38 dias, de 22 de abril a 29 de maio de 2025, desde a organização das amostras até a coleta para análise. Durante todo o intervalo de tempo, o desenvolvimento das amostras foi observado, além de terem sido​ regadas a cada 3 (trê​s) dias (Figura 2).

 

Figura 2 – Germinação​: 7º dia do experimento – tratamentos de 1 a 4 de cima para baixo. Fonte: Autores, 2025.

 

A partir do 14º dia, foi percebido o desenvolvimento pleno do tratamento 1 Solo + Vermiculita em todas as suas repetições, bem como foi examinado em quais amostras houve germinação. Da mesma forma, foi observado o crescimento das raízes, sendo verificado, inclusive, o extrapolamento do saco destas em algumas amostras (Figura 3).

No 19º dia do experimento, foi realizada a adubação com​ NPK (nitrogênio, fósforo e potássio), uma vez que se fez necessária a adição desses​ ​​nutrientes para potencializar ​​o desenvolvimento das plantas. A coordenação do Programa de Pós-Graduação em Agronomia (PPGA/UFG) forneceu os fertilizantes e estabeleceu as recomendações de adubação, definindo as quantidades com base na tabela específica para o cultivo de sorgo – que segue as diretrizes para a fase de desenvolvimento inicial (emergência aos 15 dias após o plantio – DAP). As doses aplicadas nas 20 amostras do experimento foram, então, calculadas conforme essas determinações, como detalhado na Tabela 3.

 

Figura 3 – Desenvolvimento: 14º dia do experimento – tratamentos de 1 a 4 de cima para baixo. Fonte: Autores, 2025.

 

Tabela 3 – Adubação: medidas por fertilizante. Fonte: Autores, 2025.
Recomendação Kg/ha
Recomendação g / plantas
N: 50 kg/ha
N: 0,60 g/planta
P2O5: 60 kg/ha
P2O5 : 0,64 g/planta
K2O: 50 kg/ha
K2O: 0,45 g/planta

 

A medição e a separação dos fertilizantes​ ocorreu no dia 10 de maio de 2025, no Laboratório de Análises do Departamento de​ Engenharia Florestal da Escola de Agronomia da Universidade Federal de Goiás (UFG)​. Após a medição, eles foram levados até o local do experimento no mesmo dia, onde foi feita a adição dos mesmos nas amostras (Figura 4).

 

Figura 4 – Adubação do experimento. Fonte: Autores, 2025.


Após a adubação, as observações foram continuadas com o propósito de acompanhar o crescimento das mudas que germinaram, quando também foi percebido que não houve mais nenhum desenvolvimento nas repetições da testemunha, cuja característica era o solo somente (Figura 5).

 

Figura 5 – Acompanhamento do experimento: respectivamente, 22º, 28º, 31º e 36º dias. Fonte: Autores, 2025.

 

Por fim, o 38º dia, em 29 de junho de 2025, foi definido como a data da coleta das seguintes variáveis de cada tratamento: contagem de plântulas germinadas, altura e contagem de folhas do final do experimento, e separação das amostras de solo, com 100 gramas cada, em sacos plásticos transparentes de tamanho 20 cm x 30 cm​. As 20 (vinte) amostras de solo foram levadas para o Laboratório de Análises do Departamento de​ Engenharia Florestal da Escola de Agronomia da Universidade Federal de Goiás (UFG)​, onde permaneceram em repouso, abertos, por 5 (cinco) dias para desumidificação (Figura 6).

 

Figura 6 – Dia D do experimento: coleta e medição. Fonte: Autores, 2025.

 

Análise laboratorial dos substratos

 

Em 2 de junho de 2025, prepararam-se amostras compostas de 100 gramas por tratamento, combinando 20 gramas de cada repetição. Dessa forma, as amostras foram encaminhadas para o Laboratório Terra – Análise para Agropecuária, situado na Rua Cariri, Jardim Diamantina, Goiânia-G​O​, organização de característica privada, para a caracterização físico-química, segundo a metodologia descrita no Manual de Solos (EMBRAPA, 2009)​. Neste, foi contratada a análise da presença dos seguintes nutrientes nas amostras de solo dos tratamentos: N (nitrogênio)​, P (fósforo), K (potássio), Ca (cálcio), Mg (magnésio)​​, S (enxofre), Cu (cobre), Fe (ferro), Mn (manganês), Zn (zinco) e COT (carbono orgânico total).

 

Resultados da análise das características físico​​-químicas dos substratos após o experimento

 

O resultado da quantificação de nutrientes em cada tratamento foi disponibilizado pelo Laboratório Terra, em 11 de junho de 2025 (após 9 dias da entrega), detalhado na Tabela 4 a seguir.

 

Tabela 4 – Características físico​​-químicas dos tratamento​s. Fonte: Autores, 2025.
Nutriente
Medida
Solo+Verm.
Solo+Casca
Solo+CO
Testemunha
N
%
1.40
0.20
0.20
0.20
P
%
0.08
0.08
0.08
0.10
K
%
0.28
0.20
0.16
0.20
Ca
%
0.25
0.33
0.18
0.16
Mg
%
2.83
0.17
0.06
0.13
S
%
0.05
0.04
0.07
0.06
Cu
mg/Kg
44
36
40
53
Fe
mg/Kg
31000
29240
33240
39150
Mn
mg/Kg
234
218
163
215
Z
mg/Kg
52
44
43
64
COT
%
7.2
7.8
10.2
24.3
Legenda: N (nitrogênio)​, P (fósforo), K (potássio), Ca (cálcio), Mg (magnésio)​​, S (enxofre), Cu (cobre), Fe (ferro), Mn (manganês), Zn (zinco) e COT (carbono orgânico total).

 

Fundamentação da análise estatística

 

Os dados foram testados quanto à normalidade de Shapiro-Wilk[1] e quanto à homocedasticidade de variância de Bartlett[2], ambos com base nos critérios de p ≥ 0,05. Os pressupostos foram aceitos e os dados foram submetidos à análise de variância e, atendidos os pressupostos, os dados foram submetidos ao teste de comparação de médias de Tukey[3] a 5% de probabilidade a fim de identificar diferenças significativas entre as médias. As análises estatísticas e os gráficos foram realizados por meio do software R, versão 4.3.3 (R Development Core Team, 2024) e das ferramentas do Microsoft Excel®.

 

[1] O teste de Shapiro-Wilk é um teste estatístico usado para verificar se uma amostra de dados segue uma distribuição normal

[2] O Teste de Bartlett é um teste estatístico utilizado para verificar se as variâncias de dois ou mais grupos de dados são iguais, ou seja, se há homogeneidade de variâncias.

[3] O Teste de Tukey é um procedimento estatístico usado para comparações múltiplas de médias, frequentemente aplicado após a análise de variância

 

Resultados e discussões

 

Resultado geral do experimento

 

Os resultados obtidos demonstraram diferenças significativas no desenvolvimento inicial das plântulas de sorgo granífero em função dos diferentes substratos utilizados. De modo geral, observou-se que a combinação solo + vermiculita proporcionou os melhores desempenhos em todos os parâmetros avaliados: altura da parte aérea (AP), comprimento da raiz (CR) e número de folhas (NF), conforme apresentado na Tabela 5.

 

Tabela 5 – Valores médios de Altura da Parte Aérea (PA), Comprimento da Raiz (AR) e Número de Folhas (NF) de Sorgo sob influência de diferentes substratos. Fonte: Autores, 2025.
Tratamentos
PA
CR
NF
——-(cm)——-
Testemunha
–
–
–
Solo + Casca de arroz
0.140
0.138
1.8
Solo + Composto orgânico
0.308
0.218
3.4
Solo + Vermiculita
0.342
0.334
4.4

 

O resultado encontrado estar relacionado às propriedades favoráveis da vermiculita, que tem ampla aplicação na formação de mudas, em projetos de reflorestamento, jardinagem e horticultura. Sua eficiência está associada à excelente estrutura física, que proporciona boa porosidade, adequada aeração, alta capacidade de retenção hídrica e de troca de cátions, além de favorecer a absorção de nutrientes pelas raízes (UGARTE et al., 2005; TRINDADE et al., 2024).

 

 Resultado de altura de parte aérea

 

A maior altura da parte aérea também foi encontrada no tratamento solo + vermiculita (0,342 cm). Esse resultado evidencia mais uma vez, que a presença de vermiculita no substrato favoreceu significativamente o crescimento do caule, possivelmente por melhorar as condições físicas do meio, como a capacidade de retenção de água e a areação. Fatores essenciais para o alongamento celular e expansão dos tecidos vegetais. Esse efeito também foi observado em um estudo realizado por Li et al. (2024), que avaliou o uso de substratos como a vermiculita no crescimento de culturas de interesse comercial.

O melhor desenvolvimento observado nesse tratamento com a vermiculita, também pode estar atribuído à disponibilidade adequada de nutrientes, proporcionada pela aplicação de adubação com NPK. Uma vez que o nitrogênio (N) é um elemento essencial para a síntese de aminoácidos, proteínas e clorofila, favorecendo o crescimento vegetativo, o fósforo (P) atua diretamente no metabolismo energético e no desenvolvimento radicular, enquanto o potássio (K) regula o equilíbrio hídrico e ativa enzimas importantes para o crescimento celular (MALAVOLTA, 2006).

Além disso, também o substrato solo + composto orgânico (0,308 cm) se destacou, pois, essa interação criou um ambiente ideal para o desenvolvimento inicial da parte aérea das plântulas de sorgo granífero. Observou-se um bom desempenho do substrato com a matéria orgânica, resultado atribuído à capacidade que a matéria orgânica possui de melhorar significativamente as propriedades físicas do solo, essenciais para o desenvolvimento das plantas (GUERRINI; TRIGUEIRO, 2004).

 

Resultado comprimento radicular

 

O desenvolvimento radicular seguiu tendência semelhante, sendo mais expressivo no substrato solo + vermiculita (0,334 cm), enquanto o tratamento solo + casca de arroz apresentou o menor valor (0,138 cm). A maior expansão do sistema radicular em substratos contendo vermiculita estar e atribuída à baixa densidade e elevada porosidade deste material, o que contribui para uma adequada retenção de água e boa aeração, permitindo que as raízes se desenvolveram de forma eficiente (KÄMPF, 2005).

 

Resultado número de folhas

 

O número de folhas (NF) também foi superior no tratamento vermiculita + solo (4,4 folhas), indicando maior vigor das plântulas. Este resultado é relevante, pois o número de folhas está diretamente relacionado com a capacidade fotossintética e, consequentemente, ao acúmulo de biomassa na fase inicial de crescimento. Além disso, o desenvolvimento das plantas foi favorecido pela exposição a pleno sol, conforme destacam Taiz et al. (2017), ao relacionarem a fotossíntese com o acúmulo de biomassa em condições favoráveis de luminosidade.

A composição solo + casca de arroz, por sua vez, resultou no menor número de folhas (1,8), sugerindo que este material pode ter limitado a disponibilidade de nutrientes ou de água, fatores críticos para o desenvolvimento foliar, conforme relatado por Kämpf (2005), que destaca que substratos com baixa retenção de água ou nutrientes podem restringir o crescimento das plantas e prejudicar o desenvolvimento de estruturas como as folhas

 

Resultados da testemunha

 

A testemunha, que não recebeu nenhum tipo de substrato adicional, não apresentou valores mensuráveis para os parâmetros analisados, visto que não houve germinação de nenhuma semente. Esse resultado pode ser explicado pela ausência de nutrientes essenciais ao desenvolvimento das plantas ou também pela inadequação ao tipo de solo utilizado. Embora o sorgo seja uma planta adaptada a condições adversas, neste experimento não foram obtidos resultados satisfatórios, o que evidencia a necessidade de complementos nutritivos, desde uma adubação convencional até a incorporação de substratos ao solo. Segundo Taiz et al. (2017), a germinação e o desenvolvimento inicial das plantas dependem não apenas da presença de nutrientes, mas também de fatores físicos do solo, que influenciam diretamente o sucesso do estabelecimento das plântulas. Mesmo com a adubação NPK, não houve a germinação, o que também pode estar relacionado à compactação do solo ou à profundidade inadequada da semeadura.

 

Germinação das sementes

 

No Gráfico 1, observa-se que o tratamento solo + vermiculita apresentou a maior taxa de germinação (100%), reforçando que a presença da vermiculita contribuiu significativamente para a emergência das sementes. O segundo melhor desempenho foi observado no tratamento solo + composto orgânico), com 80% de germinação, o que também indica um ambiente favorável à germinação, por fornecer nutrientes essenciais. O tratamento solo + casca de arroz teve apenas 40% de germinação, sugerindo que a casca de arroz pode ter limitado a disponibilidade de água ou nutrientes.

Já a testemunha, sem qualquer adição ao solo, não apresentou germinação (0%), reforçando a importância do uso de substratos adequados para o desenvolvimento inicial das sementes. De acordo com Harris et al. (1987), a germinação e emergência de sorgo são sensíveis às condições do solo.

Esses resultados demonstram que a composição do substrato exerce forte influência sobre o sucesso germinativo e que o uso de materiais como vermiculita e matéria orgânica pode ser uma estratégia eficiente para melhorar a emergência das plantas.

 

Gráfico 1 – Porcentagem de germinação das sementes. Fonte: Autores, 2025.

 

Conclusão

 

Diante dos resultados obtidos, pode-se inferir que a utilização de vermiculita associada ao solo é a estratégia mais eficiente para promover o crescimento inicial vigoroso do sorgo granífero, sendo uma alternativa viável para a produção de mudas em viveiro. Esse substrato proporciona condições físico-químicas favoráveis ao pleno desenvolvimento das plântulas, refletindo em maior formação da área foliar, crescimento radicular e parte aérea.

 

Conflitos de interesse

 

Não houve conflito de interesses dos autores.

 

Contribuição dos autores

 

Maria Jaqueline Modesto Teixeira – coleta de dados, interpretação dos resultados e redação; Ana Paula Veroneze Bueno – coleta de dados e redação; Kaio Lucas Brito de Amorim – coleta de dados e revisão do texto; Danilo Dutra Mesquita – coleta de dados e redação; Edilane dos Santos Sampaio – coleta de dados e revisão do texto; Eli Regina Barboza de Souza e Francine Neves Calil  – orientações e correções.

 

Referências bibliográaficas

 

CARVALHO, E. R; REZENDE, P. M.; ANDRADE, M. J. B.; PASSOS, A. M. A.; OLIVEIRA, J. A. Fertilizante mineral e resíduo orgânico sobre características agronômicas da soja e nutrientes no solo. Revista Ciência Agronômica, v. 42, n. 4, p. 930-939, 2011. https://doi.org/10.1590/S1806-66902011000400015

GUERRINI, I. A.; TRIGUEIRO, R. M. Atributos físicos e químicos de substratos compostos por biossólidos e casca de arroz carbonizada. Revista Brasileira de Ciência do Solo, v. 28, n. 6, p. 1069-1076, 2004. https://doi.org/10.1590/S0100-06832004000600016

HARRIS, D.; HAMDI, A.; TERRY, A. C. Germination and emergence of Sorghum bicolor genotypic and environmentally induced variation in the response to temperature and depth of sowing. Plant, Cell & Environment, v. 10, n. 6, p. 501-508, 1987. https://doi.org/10.1111/j.1365-3040.1987.tb01828.x

KÄMPF, A. N. Produção de Plantas Ornamentais. Guaíba, RS: Agropecuária, 2005, 256p.

LI, M.; NING, X.; GAO, T.; FAZRY, S.; OTHMAN, B. A.; NAJM, A. A. K.; LAW, D. Rice husk ash based growing media impact on cucumber and melon growth and quality. Scientific Reports, v. 14, 5147, 2024. https://doi.org/10.1038/s41598-024-55622-4

MALAVOLTA, E. Nutrição Mineral de Plantas. Piracicaba, SP: Ceres, 2006, 631p.

RIBAS, P. M. Sorgo: introdução e importância econômica. Sete Lagoas: Embrapa Milho e Sorgo, 2003, 14p. (Embrapa Milho e Sorgo. Documentos, 26). https://www.embrapa.br/busca-de-publicacoes/-/publicacao/486642/sorgo-introducao-e-importancia-economica

SOLANO, C. S. Avaliação agroeconômica de quatro cultivares de sorgo sacarino (Sorghum bicolor L. Moench) para produção de etanol em campos dos Goytacazes – RJ. 141f. Tese (Doutorado em Produção Vegetal) – Centro de Ciências e Tecnologias Agropecuárias, Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, Campos dos Goytacazes, RJ, 2016. https://uenf.br/posgraduacao/producao-vegetal/wp-content/uploads/sites/10/2016/07/Tese-de-Cristobal-Soto_Entregue-%C3%A0-Sec.-1.pdf

TAIZ, L.; ZEIGER, E.; MOLLER, I. M.; MURPHY, A. Fisiologia e Desenvolvimento Vegetal. 6ª edição. Porto Alegre – RS: Artmed, 2017, 888p.

TRINDADE, P. S. C.; SENA, W. L.; SALES, T. M.; SILVA, A. L. P.; LÉLIS,  A. T.; CANTUÁRIA, P. C.; ALMEIDA, S. S. M. S.; FARIAS, A. L. F. Desenvolvimento de mudas de Theobroma cacao L. sob omissão de macro e micronutrientes. Observatório de La Economía Latinoamericana, v. 22, n. 1, p. 1276-1295, 2024. https://doi.org/10.55905/oelv22n1-068

UGARTE, J. F. O.; SAMPAIO, J. A.; FRANÇA, S. C. A. Vermiculita. In: Rochas & minerais industriais: usos e especificações. Rio de Janeiro: CETEM/MCT, parte II, cap. 32, p.677-698, 2005. https://mineralis.cetem.gov.br/handle/cetem/1089

 

 

 

Recebido em 4 de fevereiro de 2026

Retornado para ajustes em 14 de maio de 2026

Recebido com ajustes em 25 de junho de 2026

Aceito em 3 de julho de 2026