Desenvolvimento inicial do sorgo em diferentes substratos no Centro Primavesi de Agroecologia da Escola de Agronomia da Universidade Federal de Goiás (CEPA-EA/UFG)

Revista Agrária Acadêmica

agrariacad.com

doi: 10.32406/v9n3/2026/37-47/agrariacad

 

Desenvolvimento inicial do sorgo em diferentes substratos no Centro Primavesi de Agroecologia da Escola de Agronomia da Universidade Federal de Goiás (CEPA-EA/UFG). Initial sorghum development on different substrates at the Primavesi Center for Agroecology, School of Agronomy, Federal University of Goiás (CEPA-EA/UFG).

 

Maria Jaqueline Modesto Teixeira1, Ana Paula Veroneze Bueno1, Kaio Lucas Brito de Amorim1, Danilo Dutra Mesquita1, Edilane dos Santos Sampaio1, Eli Regina Barboza de Souza2, Francine Neves Calil2

 

1- Mestrando(a) em Agronomia – Universidade Federal de Goiás – UFG , Escola de Agronomia – EA
2- Docente do Ensino Superior – Universidade Federal de Goiás – UFG , Escola de Agronomia – EA, Av. Esperança, s/n, Campus Samambaia, CEP 74.690-900, Goiânia, Goiás, Brasil

 

Resumo

 

O presente estudo avaliou o desenvolvimento inicial de plântulas de sorgo granífero sob diferentes substratos. Observou-se que o tratamento com solo + vermiculita apresentou os melhores resultados em todos os parâmetros analisados, incluindo altura da parte aérea (0,342 cm), comprimento radicular (0,334 cm), número de folhas (4,4) e taxa de germinação (100%). Tais resultados são atribuídos às propriedades físicas da vermiculita, como elevada porosidade, boa retenção de água e aeração, além de sua capacidade de troca de cátions, que favorecem o crescimento vegetal. O substrato solo + composto orgânico também apresentou desempenho satisfatório, promovendo ambiente propício ao crescimento inicial. Em contraste, o tratamento solo + casca de arroz obteve os menores índices, possivelmente devido à baixa retenção de água e nutrientes. A testemunha, sem qualquer adição ao solo, não apresentou germinação, evidenciando a necessidade de substratos adequados mesmo em culturas adaptadas como o sorgo. Esses resultados destacam a importância da escolha adequada de substratos para otimizar a emergência e o desenvolvimento inicial do sorgo granífero, visando à produção eficiente de mudas em viveiro.

Palavras-chave: Sorgo. Germinação. Desenvolvimento inicial.

 

 

Abstract

 

The present study evaluated the initial development of grain sorghum seedlings under different substrates. It was observed that the treatment with soil + vermiculite showed the best results in all analyzed parameters, including shoot height (0.342 cm), root length (0.334 cm), number of leaves (4.4), and germination rate (100%). These results are attributed to the physical properties of vermiculite, such as high porosity, good water retention, and aeration, as well as its cation exchange capacity, which favor plant growth. The soil + organic compost substrate also performed satisfactorily, promoting an environment conducive to initial growth. In contrast, the soil + rice husk treatment obtained the lowest indices, possibly due to poor water and nutrient retention. The control group, without any addition to the soil, showed no germination, highlighting the need for adequate substrates even in adapted crops like sorghum. These findings underscore the importance of proper substrate selection to optimize the emergence and initial development of grain sorghum, aiming at efficient seedling production in nurseries.

Keywords: Sorghum. Germination. Initial development.

 

 

Introdução

 

Segundo Ribas (2003), a planta de sorgo, cuja denominação se define como Sorghum bicolor L. Moench, pertencente ao grupo dos cereais, é um produto da intervenção humana, reconhecido, portanto, como uma espécie domesticada para fins da satisfação das necessidades do homem. O autor Solano (2016) destaca que, o sorgo é uma cultura versátil, podendo ser utilizado como matéria-prima para diversas finalidades, como a produção de etanol, bebidas alcoólicas, colas, tintas, vassouras, extração de açúcares, fabricação de amido e óleo comestível.

Tratando-se de sua cultura, o cultivo do sorgo é uma ótima opção para a segunda safra (safrinha), por ser uma planta resistente, ideal para áreas de clima quente e com pouca disponibilidade de água, sendo assim amplamente cultivado no Brasil Central, especialmente na região do Cerrado, devido à sua capacidade de suportar condições de estresse hídrico, caracterizando-se de manejo fácil, com boa tolerância à seca, janela de plantio mais extensa e possibilidade de total mecanização da lavoura (CARVALHO et  al.,  2011). Em suma, Ribas (2003) relata a importância do sorgo como “uma extraordinária fábrica de energia, de enorme utilidade em regiões muito quentes e muito secas, onde o homem não consegue boas produtividades de grãos ou de forragem”.

O sorgo possui uma capacidade interessante de crescer com menos água em comparação a outras culturas, como o milho, e também de germinar em solos menos férteis, o que faz dele uma opção viável para os agricultores. No entanto, a ampliação da área cultivada com sorgo depende, em grande parte, de incentivos econômicos para os produtores rurais e da resolução de desafios técnicos, tais como o favorecimento do seu índice de germinação (SOLANO, 2016).

Considerando as características do sorgo e sua relevância para o desenvolvimento agrícola da região Centro-Oeste, este trabalho propôs um experimento com o objetivo de avaliar o desenvolvimento inicial e o índice de germinação do sorgo granífero em diferentes tipos de substrato. A análise comparativa buscou identificar o substrato de maior eficiência, visando subsidiar práticas que otimizem a produtividade dessa cultura. O experimento foi realizado no âmbito da Escola de Agronomia da Universidade Federal de Goiás (EA/UFG)​ para cumprimento das atividades do Programa de Pós-Graduação em Agronomia (PPGA/UFG).

 

Material e métodos

 

Tratamentos, seleção das sementes e localização do experimento

 

Para a realização do experimento, foi definida a análise de 4 (quatro) tratamentos, sendo 3 (três) ​com substratos diferentes entre si, referente a vermiculita, casca de arroz e composto orgânico, e 1 (uma) testemunha, correspondente a solo, sendo adotadas 5 (cinco) repetições para cada (Tabela 1).​​

 

Tabela 1 – Composição​ dos tratamentos d​o experimento. Fonte: Autores, 2025.
Tratamentos
1
Solo + Vermiculita;
2
Solo + Casca de arroz;
3
Solo + Composto orgânico;
4
Solo (Testemunha).

 

Os substratos tipo vermiculita e casca de arroz foram adquiridos em loja do segmento varejista, nos seguintes aspectos:

– 3 (três) caixas de vermiculita de 2 litros cada, da marca Dimy;

– 2 (dois) pacotes de casca de arroz de 4 litros cada, da marca Terral.

Já o substrato tipo composto orgânico foi cedido pelo viveiro da Agência Municipal do Meio Ambiente (Amma), situado na Rodovia GO M-10, Chácaras de Recreio Samambaia, nas imediações da Escola de Agronomia da Universidade Federal de Goiás, contendo resíduos orgânicos diversos (restos para compostagem). Na ocasião, também foram concedidos 20 (vinte) sacos plásticos pretos para mudas com tamanho de 25 cm x 30 cm de 0,10 mm de gramatura.

Além dos substratos, foram obtidos ainda aproximadamente 5 (cinco) quilogramas de latossolo, provenientes da Área de Mecanização ​da Escola de Agronomia da Universidade Federal de Goiás.As sementes utilizadas compreenderam do tipo sorgo granífero, ofertadas pelo Laboratório de Análise de​ ​Sementes (Lasem) da Escola de Agronomia da Universidade Federal de Goiás (UFG), previamente tratadas para garantir adequada semeadura e bom desenvolvimento das plantas.

No dia 22 de abril de 2025, foram organizadas as 20 (vinte) amostras do experimento, compostas por diferentes proporções de solo e substratos, exceto a testemunha, que correspondeu somente a solo, isenta de qualquer substrato. Foi estabelecido que cada repetição contemplaria o peso total de 600 g, independente do volume de cada composição de solo e substrato, bem como de solo para a testemunha. ​As diferentes proporções se justificam devido aos pesos distintos de cada substrato, o que resultou também​ em volumes diversos de cada tratamento. As proporções dos substratos foram estabelecidas conforme apresentado na Tabela 2.

 

Tabela 2 – Composição das amostras: substratos e proporções. Fonte: Autores, 2025.
Proporções
Tratamentos
1
1:3                     
Solo + Vermiculita;
2
1:2                                     
Solo + Casca de arroz;
3
1:2                      
Solo + Composto orgânico;
4
–                         
Solo (Testemunha).

 

As amostras foram organizadas em fileiras por tratamento, expostas sem sombreamento e regadas com aproximadamente 100 mm de água cada.​ ​As sementes foram plantadas no dia seguinte, em 23 de abril de 2025 (Figura 1).

 

Figura 1 – Preparação do experimento​. Fonte: Autores, 2025.

 

O experimento foi conduzido Centro Primavesi de Agroecologia da Escola de Agronomia da Universidade Federal de Goiás (Cepa-EA/UFG), situada nas dependências da Escola de Agronomia, no município de Goiânia.

 

Tempo e adubação​​​

 

O período do experimento compreendeu 38 dias, de 22 de abril a 29 de maio de 2025, desde a organização das amostras até a coleta para análise. Durante todo o intervalo de tempo, o desenvolvimento das amostras foi observado, além de terem sido​ regadas a cada 3 (trê​s) dias (Figura 2).

 

Figura 2 – Germinação​: 7º dia do experimento – tratamentos de 1 a 4 de cima para baixo. Fonte: Autores, 2025.

 

A partir do 14º dia, foi percebido o desenvolvimento pleno do tratamento 1 Solo + Vermiculita em todas as suas repetições, bem como foi examinado em quais amostras houve germinação. Da mesma forma, foi observado o crescimento das raízes, sendo verificado, inclusive, o extrapolamento do saco destas em algumas amostras (Figura 3).

No 19º dia do experimento, foi realizada a adubação com​ NPK (nitrogênio, fósforo e potássio), uma vez que se fez necessária a adição desses​ ​​nutrientes para potencializar ​​o desenvolvimento das plantas. A coordenação do Programa de Pós-Graduação em Agronomia (PPGA/UFG) forneceu os fertilizantes e estabeleceu as recomendações de adubação, definindo as quantidades com base na tabela específica para o cultivo de sorgo – que segue as diretrizes para a fase de desenvolvimento inicial (emergência aos 15 dias após o plantio – DAP). As doses aplicadas nas 20 amostras do experimento foram, então, calculadas conforme essas determinações, como detalhado na Tabela 3.

 

Figura 3 – Desenvolvimento: 14º dia do experimento – tratamentos de 1 a 4 de cima para baixo. Fonte: Autores, 2025.

 

Tabela 3 – Adubação: medidas por fertilizante. Fonte: Autores, 2025.
Recomendação Kg/ha
Recomendação g / plantas
N: 50 kg/ha
N: 0,60 g/planta
P2O5: 60 kg/ha
P2O5 : 0,64 g/planta
K2O: 50 kg/ha
K2O: 0,45 g/planta

 

A medição e a separação dos fertilizantes​ ocorreu no dia 10 de maio de 2025, no Laboratório de Análises do Departamento de​ Engenharia Florestal da Escola de Agronomia da Universidade Federal de Goiás (UFG)​. Após a medição, eles foram levados até o local do experimento no mesmo dia, onde foi feita a adição dos mesmos nas amostras (Figura 4).

 

Figura 4 – Adubação do experimento. Fonte: Autores, 2025.


Após a adubação, as observações foram continuadas com o propósito de acompanhar o crescimento das mudas que germinaram, quando também foi percebido que não houve mais nenhum desenvolvimento nas repetições da testemunha, cuja característica era o solo somente (Figura 5).

 

Figura 5 – Acompanhamento do experimento: respectivamente, 22º, 28º, 31º e 36º dias. Fonte: Autores, 2025.

 

Por fim, o 38º dia, em 29 de junho de 2025, foi definido como a data da coleta das seguintes variáveis de cada tratamento: contagem de plântulas germinadas, altura e contagem de folhas do final do experimento, e separação das amostras de solo, com 100 gramas cada, em sacos plásticos transparentes de tamanho 20 cm x 30 cm​. As 20 (vinte) amostras de solo foram levadas para o Laboratório de Análises do Departamento de​ Engenharia Florestal da Escola de Agronomia da Universidade Federal de Goiás (UFG)​, onde permaneceram em repouso, abertos, por 5 (cinco) dias para desumidificação (Figura 6).

 

Figura 6 – Dia D do experimento: coleta e medição. Fonte: Autores, 2025.

 

Análise laboratorial dos substratos

 

Em 2 de junho de 2025, prepararam-se amostras compostas de 100 gramas por tratamento, combinando 20 gramas de cada repetição. Dessa forma, as amostras foram encaminhadas para o Laboratório Terra – Análise para Agropecuária, situado na Rua Cariri, Jardim Diamantina, Goiânia-G​O​, organização de característica privada, para a caracterização físico-química, segundo a metodologia descrita no Manual de Solos (EMBRAPA, 2009)​. Neste, foi contratada a análise da presença dos seguintes nutrientes nas amostras de solo dos tratamentos: N (nitrogênio)​, P (fósforo), K (potássio), Ca (cálcio), Mg (magnésio)​​, S (enxofre), Cu (cobre), Fe (ferro), Mn (manganês), Zn (zinco) e COT (carbono orgânico total).

 

Resultados da análise das características físico​​-químicas dos substratos após o experimento

 

O resultado da quantificação de nutrientes em cada tratamento foi disponibilizado pelo Laboratório Terra, em 11 de junho de 2025 (após 9 dias da entrega), detalhado na Tabela 4 a seguir.

 

Tabela 4 – Características físico​​-químicas dos tratamento​s. Fonte: Autores, 2025.
Nutriente
Medida
Solo+Verm.
Solo+Casca
Solo+CO
Testemunha
N
%
1.40
0.20
0.20
0.20
P
%
0.08
0.08
0.08
0.10
K
%
0.28
0.20
0.16
0.20
Ca
%
0.25
0.33
0.18
0.16
Mg
%
2.83
0.17
0.06
0.13
S
%
0.05
0.04
0.07
0.06
Cu
mg/Kg
44
36
40
53
Fe
mg/Kg
31000
29240
33240
39150
Mn
mg/Kg
234
218
163
215
Z
mg/Kg
52
44
43
64
COT
%
7.2
7.8
10.2
24.3
Legenda: N (nitrogênio)​, P (fósforo), K (potássio), Ca (cálcio), Mg (magnésio)​​, S (enxofre), Cu (cobre), Fe (ferro), Mn (manganês), Zn (zinco) e COT (carbono orgânico total).

 

Fundamentação da análise estatística

 

Os dados foram testados quanto à normalidade de Shapiro-Wilk[1] e quanto à homocedasticidade de variância de Bartlett[2], ambos com base nos critérios de p ≥ 0,05. Os pressupostos foram aceitos e os dados foram submetidos à análise de variância e, atendidos os pressupostos, os dados foram submetidos ao teste de comparação de médias de Tukey[3] a 5% de probabilidade a fim de identificar diferenças significativas entre as médias. As análises estatísticas e os gráficos foram realizados por meio do software R, versão 4.3.3 (R Development Core Team, 2024) e das ferramentas do Microsoft Excel®.

 

[1] O teste de Shapiro-Wilk é um teste estatístico usado para verificar se uma amostra de dados segue uma distribuição normal

[2] O Teste de Bartlett é um teste estatístico utilizado para verificar se as variâncias de dois ou mais grupos de dados são iguais, ou seja, se há homogeneidade de variâncias.

[3] O Teste de Tukey é um procedimento estatístico usado para comparações múltiplas de médias, frequentemente aplicado após a análise de variância

 

Resultados e discussões

 

Resultado geral do experimento

 

Os resultados obtidos demonstraram diferenças significativas no desenvolvimento inicial das plântulas de sorgo granífero em função dos diferentes substratos utilizados. De modo geral, observou-se que a combinação solo + vermiculita proporcionou os melhores desempenhos em todos os parâmetros avaliados: altura da parte aérea (AP), comprimento da raiz (CR) e número de folhas (NF), conforme apresentado na Tabela 5.

 

Tabela 5 – Valores médios de Altura da Parte Aérea (PA), Comprimento da Raiz (AR) e Número de Folhas (NF) de Sorgo sob influência de diferentes substratos. Fonte: Autores, 2025.
Tratamentos
PA
CR
NF
——-(cm)——-
Testemunha
Solo + Casca de arroz
0.140
0.138
1.8
Solo + Composto orgânico
0.308
0.218
3.4
Solo + Vermiculita
0.342
0.334
4.4

 

O resultado encontrado estar relacionado às propriedades favoráveis da vermiculita, que tem ampla aplicação na formação de mudas, em projetos de reflorestamento, jardinagem e horticultura. Sua eficiência está associada à excelente estrutura física, que proporciona boa porosidade, adequada aeração, alta capacidade de retenção hídrica e de troca de cátions, além de favorecer a absorção de nutrientes pelas raízes (UGARTE et al., 2005; TRINDADE et al., 2024).

 

 Resultado de altura de parte aérea

 

A maior altura da parte aérea também foi encontrada no tratamento solo + vermiculita (0,342 cm). Esse resultado evidencia mais uma vez, que a presença de vermiculita no substrato favoreceu significativamente o crescimento do caule, possivelmente por melhorar as condições físicas do meio, como a capacidade de retenção de água e a areação. Fatores essenciais para o alongamento celular e expansão dos tecidos vegetais. Esse efeito também foi observado em um estudo realizado por Li et al. (2024), que avaliou o uso de substratos como a vermiculita no crescimento de culturas de interesse comercial.

O melhor desenvolvimento observado nesse tratamento com a vermiculita, também pode estar atribuído à disponibilidade adequada de nutrientes, proporcionada pela aplicação de adubação com NPK. Uma vez que o nitrogênio (N) é um elemento essencial para a síntese de aminoácidos, proteínas e clorofila, favorecendo o crescimento vegetativo, o fósforo (P) atua diretamente no metabolismo energético e no desenvolvimento radicular, enquanto o potássio (K) regula o equilíbrio hídrico e ativa enzimas importantes para o crescimento celular (MALAVOLTA, 2006).

Além disso, também o substrato solo + composto orgânico (0,308 cm) se destacou, pois, essa interação criou um ambiente ideal para o desenvolvimento inicial da parte aérea das plântulas de sorgo granífero. Observou-se um bom desempenho do substrato com a matéria orgânica, resultado atribuído à capacidade que a matéria orgânica possui de melhorar significativamente as propriedades físicas do solo, essenciais para o desenvolvimento das plantas (GUERRINI; TRIGUEIRO, 2004).

 

Resultado comprimento radicular

 

O desenvolvimento radicular seguiu tendência semelhante, sendo mais expressivo no substrato solo + vermiculita (0,334 cm), enquanto o tratamento solo + casca de arroz apresentou o menor valor (0,138 cm). A maior expansão do sistema radicular em substratos contendo vermiculita estar e atribuída à baixa densidade e elevada porosidade deste material, o que contribui para uma adequada retenção de água e boa aeração, permitindo que as raízes se desenvolveram de forma eficiente (KÄMPF, 2005).

 

Resultado número de folhas

 

O número de folhas (NF) também foi superior no tratamento vermiculita + solo (4,4 folhas), indicando maior vigor das plântulas. Este resultado é relevante, pois o número de folhas está diretamente relacionado com a capacidade fotossintética e, consequentemente, ao acúmulo de biomassa na fase inicial de crescimento. Além disso, o desenvolvimento das plantas foi favorecido pela exposição a pleno sol, conforme destacam Taiz et al. (2017), ao relacionarem a fotossíntese com o acúmulo de biomassa em condições favoráveis de luminosidade.

A composição solo + casca de arroz, por sua vez, resultou no menor número de folhas (1,8), sugerindo que este material pode ter limitado a disponibilidade de nutrientes ou de água, fatores críticos para o desenvolvimento foliar, conforme relatado por Kämpf (2005), que destaca que substratos com baixa retenção de água ou nutrientes podem restringir o crescimento das plantas e prejudicar o desenvolvimento de estruturas como as folhas

 

Resultados da testemunha

 

A testemunha, que não recebeu nenhum tipo de substrato adicional, não apresentou valores mensuráveis para os parâmetros analisados, visto que não houve germinação de nenhuma semente. Esse resultado pode ser explicado pela ausência de nutrientes essenciais ao desenvolvimento das plantas ou também pela inadequação ao tipo de solo utilizado. Embora o sorgo seja uma planta adaptada a condições adversas, neste experimento não foram obtidos resultados satisfatórios, o que evidencia a necessidade de complementos nutritivos, desde uma adubação convencional até a incorporação de substratos ao solo. Segundo Taiz et al. (2017), a germinação e o desenvolvimento inicial das plantas dependem não apenas da presença de nutrientes, mas também de fatores físicos do solo, que influenciam diretamente o sucesso do estabelecimento das plântulas. Mesmo com a adubação NPK, não houve a germinação, o que também pode estar relacionado à compactação do solo ou à profundidade inadequada da semeadura.

 

Germinação das sementes

 

No Gráfico 1, observa-se que o tratamento solo + vermiculita apresentou a maior taxa de germinação (100%), reforçando que a presença da vermiculita contribuiu significativamente para a emergência das sementes. O segundo melhor desempenho foi observado no tratamento solo + composto orgânico), com 80% de germinação, o que também indica um ambiente favorável à germinação, por fornecer nutrientes essenciais. O tratamento solo + casca de arroz teve apenas 40% de germinação, sugerindo que a casca de arroz pode ter limitado a disponibilidade de água ou nutrientes.

Já a testemunha, sem qualquer adição ao solo, não apresentou germinação (0%), reforçando a importância do uso de substratos adequados para o desenvolvimento inicial das sementes. De acordo com Harris et al. (1987), a germinação e emergência de sorgo são sensíveis às condições do solo.

Esses resultados demonstram que a composição do substrato exerce forte influência sobre o sucesso germinativo e que o uso de materiais como vermiculita e matéria orgânica pode ser uma estratégia eficiente para melhorar a emergência das plantas.

 

Gráfico 1 – Porcentagem de germinação das sementes. Fonte: Autores, 2025.

 

Conclusão

 

Diante dos resultados obtidos, pode-se inferir que a utilização de vermiculita associada ao solo é a estratégia mais eficiente para promover o crescimento inicial vigoroso do sorgo granífero, sendo uma alternativa viável para a produção de mudas em viveiro. Esse substrato proporciona condições físico-químicas favoráveis ao pleno desenvolvimento das plântulas, refletindo em maior formação da área foliar, crescimento radicular e parte aérea.

 

Conflitos de interesse

 

Não houve conflito de interesses dos autores.

 

Contribuição dos autores

 

Maria Jaqueline Modesto Teixeira – coleta de dados, interpretação dos resultados e redação; Ana Paula Veroneze Bueno – coleta de dados e redação; Kaio Lucas Brito de Amorim – coleta de dados e revisão do texto; Danilo Dutra Mesquita – coleta de dados e redação; Edilane dos Santos Sampaio – coleta de dados e revisão do texto; Eli Regina Barboza de Souza e Francine Neves Calil  – orientações e correções.

 

Referências bibliográaficas

 

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GUERRINI, I. A.; TRIGUEIRO, R. M. Atributos físicos e químicos de substratos compostos por biossólidos e casca de arroz carbonizada. Revista Brasileira de Ciência do Solo, v. 28, n. 6, p. 1069-1076, 2004. https://doi.org/10.1590/S0100-06832004000600016

HARRIS, D.; HAMDI, A.; TERRY, A. C. Germination and emergence of Sorghum bicolor genotypic and environmentally induced variation in the response to temperature and depth of sowing. Plant, Cell & Environment, v. 10, n. 6, p. 501-508, 1987. https://doi.org/10.1111/j.1365-3040.1987.tb01828.x

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MALAVOLTA, E. Nutrição Mineral de Plantas. Piracicaba, SP: Ceres, 2006, 631p.

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Recebido em 4 de fevereiro de 2026

Retornado para ajustes em 14 de maio de 2026

Recebido com ajustes em 25 de junho de 2026

Aceito em 3 de julho de 2026

Produtividade de cultivares de morangueiro (Fargaria ananassa Duch) no planalto do Huambo, Angola

Revista Agrária Acadêmica

agrariacad.com

doi: 10.32406/v9n3/2026/28-36/agrariacad

 

Produtividade de cultivares de morangueiro (Fargaria ananassa Duch) no planalto do Huambo, Angola. Productivity of strawberry cultivars (Fargaria ananassa Duch) in the plateau of Huambo, Angola.

 

Imaculada C. F. Henriques Matias1

 

1- Universidade José Eduardo dos Santos – UJES , Faculdade de Ciências Agrárias – FCA, Chianga – Instituto de Investigação Agronómica, Huambo, Angola. E-mail: cussaa@yahoo.com.br

 

Resumo

 

Realizaram-se ensaios, entre 2021 e 2023, em blocos completos casualizados, para estudo do comportamento de duas cultivares de morangueiro, uma importada – “Diamante”- e outra de origem local -“Morango do Huambo”-, plantadas em março de 2021. Os ensaios foram replicados em dois locais da Província do Huambo – Ndango e Huambo Sede. Avaliaram-se o vigor vegetativo inicial, o desenvolvimento e adaptabilidade das plantas, a capacidade reprodutiva e o rendimento e evolução da produtividade por planta. A cultivar importada “Diamante” foi a que apresentou maior produtividade por planta, tendo atingido um máximo de  390 g/planta cinco vezes superior a produtividade máxima de 64 g/planta obtida pela cultivar local.

Palavras-chave: Morangueiro. Fargaria ananassa Duch. Produtividade. Planalto angolano. Avaliação agronômica. Desempenho produtivo. Rendimento.

 

Abstract

 

In the 2021/23 agricultural yeares, a randomized complete block was used to study the behavior of two cultivars of strawberry, one imported – “Diamante” – and another of local origin – “Strawberry of Huambo” – planted in March of 2021. The trials were replicated at two locations in the Province of Huambo – Ndango and Huambo Sede. The initial vegetative vigor, the development and adaptability of the plants, the reproductive capacity and the yield and evolution of the productivity per plant were evaluated. The “Diamante” cultivar was the one with the highest productivity per plant, reaching a maximum of 390 g / plant five times the maximum yield of 64 g / plant obtained by the local cultivar.

Keywords: Strawberry. Fargaria ananassa Duch. Productivity. Angolan plateau. Agronomic evaluation. Productive performance. Yield.

 

 

Introdução

 

O morangueiro (Fargaria ananassa Duch) é uma planta nativa das regiões temperadas da Europa. Atualmente, devido a existência de novas variedades, com maiores potencialidades agronómicas e adaptadas a diversas condições edafoclimáticas, o seu cultivo está a ser feito com sucesso em diversas regiões do planeta (HANNUM, 2004).

Segundo Palha (2005), o cultivo do género Fragaria spp passou a ser popular no século 18, havendo até aquela data mais de 600 espécies desenvolvidas. O consumo popularizou-se a partir do surgimento da espécie de fácil reprodução e cultivo, na verdade um híbrido (Fragaria ananassa) proveniente do cruzamento casual entre duas espécies americanas levadas à região de Brest, na França. Alan Davidson, autor de The Oxford Companion to Food (Oxford University Press, Inglaterra, 1999), informa que essas variedades foram o morango chileno (Chiloensis), nativo do Pacífico no norte e sul da América, e o Virginia (Fragaria virginiana), nativo do leste dos Estados Unidos.

Dados fornecidos pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (ONUAA) através das estatísticas da FAO apontam para uma produção mundial de 4.594.540 toneladas de morangos por ano em 2011 (FAOSTAT, 2014). Até essa data a produção era liderada pelos Estados Unidos da América com um total anual de 1.312.960 toneladas.

Em Angola, embora não existam dados estatísticos sobre a produção de morangos, esta cultura é tradicionalmente produzida nas províncias do Huambo e Huíla, principalmente pelo clima favorável ao seu desenvolvimento. De acordo com Serçe & Hancock (2005), o morangueiro é uma planta que embora se adapte a diversos climas, prefere regiões frescas. Os órgãos vegetativos são resistentes à geada suportando temperaturas até -15ºC durante várias horas. A temperatura óptima de crescimento ronda os 23ºC e a humidade relativa entre 70 e 80% durante a floração. Na província do Huambo a produção é feita integralmente pela agricultura familiar e a sua comercialização em mercados informais, ficando, portanto, os dados sobre a sua produção, comercialização e consumo de fora das estatísticas. Ainda assim, devido à grande procura e pouca demanda do produto, a produção de morango nesta província assume-se como uma atividade socioeconomicamente importante, na medida em que pode gerar aumento significativo da renda das famílias em pequenas áreas de produção. A cultivar utilizada atualmente pelos produtores de morango, introduzida pelos portugueses no período colonial é de produção sazonal e produz frutos com reduzido tamanho e tempo de vida útil no período pós-colheita. Assim, os produtores mostram interesse em cultivares mais produtivas e mais resistentes a pragas e doenças que possam aumentar a produção e consequentemente a rentabilidade das famílias camponesas e empresas agrícolas.

Assim, tendo em conta as exigências das cultivares em fotoperíodo, número de horas de frio e temperatura, fatores estes, que variam em função do material genético (CANTILLANO, 2005; DUARTE FILHO; ANTUNES, 2005) é fundamental a realização de testes de adaptabilidade para introdução de novas variedades e recomendação da época apropriada de plantação (DUARTE FILHO et al., 2005).

Este trabalho teve como objetivo avaliar o comportamento agronômico, a adaptabilidade e o potencial produtivo das cultivares de morangueiro ‘Diamante’ (importada) e ‘Morango do Huambo’ (local), cultivadas na região do Planalto do Huambo, de modo a identificar a variedade mais rentável para os agricultores locais.

 

Material e métodos

 

Os ensaios foram conduzidos em dois locais da província do Huambo no Planalto central angolano, pertencentes a empresa GMM, nomeadamente na comuna sede (12º 44´ 37´´ S / 15º 48´ 62´´E, 1696 m) e na comuna do Ndango (12º 54´ 85´´ S / 15º 25´ 82´´ E, 1719 m). O clima da região é marcado por duas estações anuais, uma chuvosa e quente e outra seca e fresca, onde a temperatura anual média ronda os 20 ºC.

De acordo com a Carta Geral dos Solos de Angola, Distrito do Huambo (Missão de Pedologia de Angola, 1961), os solos dos dois locais são Fracamente Ferrálicos Amarelos ou Alaranjados do Agrupamento Hb 14, rochas eruptivas ou cristalofílicas, quartzíferas.

A implementação do ensaio teve início com a construção dos túneis e plantação das mudas na segunda quinzena de março de 2021.

 

Delineamento experimental

 

Os ensaios foram conduzidos durante todo ano agrícola, cumprindo as duas épocas de produção entre fevereiro de 2021 e março de 2022. Cada ensaio, com uma área total de 62,25 m2 (7,5 m x 8,3 m) foi dividido em 6 parcelas (canteiros) de 6 m2 cada uma (7,5 m x 0,8 m) e uma altura de 25 cm. Após a construção dos canteiros, foram abertos sulcos para plantação das mudas com um compasso de plantação de 30 cm x 30 cm.

Em cada local o delineamento experimental consistiu num sistema de blocos completamente casualizados com três repetições (blocos).

 

Condução da cultura

 

Considerou-se para o estudo duas cultivares, uma importada “Diamante” – cujas mudas foram obtidas na Herdade Experimental da Fataca da Estação Agronómica Nacional, no concelho de Odemira, Portugal e outra considerada “local” – com mudas obtidas a partir de produtores familiares da comuna da Chipipa, município e província do Huambo, Angola. Esta última cultivar, possivelmente introduzida no período colonial é vulgarmente denominada “morango do Huambo”. 

Em cada canteiro foi aplicado cobertura em forma de túnel com filme plástico de polietileno branco, colocado 5 dias após a plantação. O objetivo da cobertura foi de proteger as plantas do impacto das chuvas durante a época chuvosa. A cobertura era levantada entre as 10 e as 16 horas do dia (do lado contrário a incidência dos raios solares) para permitir circulação de ar no interior do túnel.

Em cada canteiro colocou-se substrato constituído por uma mistura de 40% de terra preta, 40% de areia e 10% (correspondendo a 1,8 kg/canteiro) de adubo orgânico composto por matéria orgânica (17%), total de NPK (16%) e humidade (12%) em cada 50 kg, produzido por Soyadubos, sociedade de adubos, lda.

Após a construção dos canteiros, foram abertos sulcos para plantação das mudas com um compasso de plantação de 30 cm x 30 cm. O que corresponde a uma densidade de plantação de 8 plantas/m2.

Para a boa condução do ensaio, foi realizado o acompanhamento da incidência de pragas e doenças. Devido à baixa ocorrência das mesmas, não foi necessário aderir a nenhuma medida de combate.

 

Coleta de dados

 

A  recolha dos dados foi realizada semanalmente e os parâmetros avaliados foram: vigor vegetativo inicial da planta (diâmetro da coroa, número de coroas, peso seco das folhas, peso seco das raízes, peso seco das coroas e peso seco da planta); desenvolvimento da planta (número de coroas, número de estolões emitidos e área foliar); capacidade reprodutiva (número de inflorescências, número de flores, número de frutos, diâmetro dos frutos, percentagem de frutos com valor comercial e produção) e evolução da produção. Consideraram-se frutos sem valor comercial os que apresentaram ataques de incestos e fungos, bem como presença de tecidos moles com tendência para o aparecimento de micoses.

 

Análise estatística

 

Os dados foram sujeitos a análise de variância usando o programa Statistix 14 (Analytical Software, Tallahassee, FL). A comparação entre médias foi feita pelo teste da mínima diferença significativa para um nível de probabilidade de 0,05. Os gráficos foram elaborados através do programa SigmaPlot 14.

 

Resultados e discussão

 

O trabalho que agora se apresenta refere-se à comparação em termos de desenvolvimento e produtividade da cultivar Diamante importada de Portugal com a cultivar considerada local e denominada “Morango do Huambo, em ensaios realizados ao ar livre, em dois locais da província do Huambo.

 

Vigor vegetativo inicial

 

As plantas do morangueiro da cultivar Diamante mostraram maior vigor vegetativo inicial com um número superior de coroas, maiores diâmetros iniciais das coroas e maior peso seco de todas as variáveis de crescimento testadas quando comparadas a cultivar local. A superioridade no diâmetro e peso seco das coroas indica um maior acúmulo de reservas e potencial fotossintético inicial para a cultura (Quadro 1) (INIAV, 2007).

 

Quadro 1 – Variáveis de crescimento (média ± desvio padrão) das plantas da cultivar diamante e morango do Huambo, testadas na província do Huambo, planalto central angolano.
Variáveis
Cultivares
Diamante
Morango do Huambo
Diâmetro da coroa (mm)
18,1 ± 1,7
9,5 ± 2,3
Número de coroas
1,6 ± 0,8
1,1 ± 0,2
Peso seco das raízes (g)
4,8 ± 1,3
1,2 ± 0,6
Peso seco das coroas (g)
2,2 ± 0,5
0,9 ± 0,7
Peso seco das folhas (g)
3,2 ± 1,4
0,4 ± 0,8
Peso seco da planta (g)
10,2
2,5

 

Desenvolvimento das plantas

 

Durante o estabelecimento da cultura, em que se considerou os 60 dias após a plantação (DAP), não se encontraram diferenças significativas da interação entre os locais, mas somente entre cultivares, pelo que se apresentam no Quadro 2 os resultados dos dois locais. E tal como mostra o Quadro 2, apesar da cultivar “Diamante” ter apresentado um maior número de coroas, a cultivar “morango do Huambo” cresceu mais rapidamente nos dois locais em estudo. Este maior crescimento vegetativo traduziu-se num número maior de estolões enraizados e numa maior área foliar. A dinâmica observada reflete a capacidade de aclimatação e o vigor inicial específicos do genótipo, visto que o número de folhas e a emissão de estolões são diretamente influenciados pela cultivar e pelo ambiente (ANTUNES et al., 2011; RESENDE et al., 2010). O estudo de Strassburger et al. (2012) confirma que uma rápida expansão da área foliar no início do ciclo maximiza a absorção da radiação solar no morangueiro. A cultivar local com maior vigor inicial demonstra capacidade de aclimatação superior, resultando em maior emissão de estolões e área foliar.

 

Quadro 2 – Variáveis de crescimento (média ± desvio padrão) das plantas da cultivar diamante e morango do Huambo, durante a fase de estabelecimento da cultura em dois locais da província do Huambo, planalto central angolano.
Cultivar
Huambo Sede
Ndango
Nº coroas
Nº estolões
Área foliar (dm2)
Nº coroas
Nº estolões
Área foliar (dm2)
Diamante
2,6 ± 0,6
0,4 ± 3,1
11,9 ± 1,2
2,1 ± 0,9
0,2 ± 1,5
11,4 ± 1,5
Morango do Huambo
1,2 ± 0,4
1,9 ± 0,8
12,9 ± 1,7
1,1 ± 0,2
1,7 ± 0,6
12,4 ± 1,2

 

Capacidade reprodutiva

 

As duas cultivares não demonstraram diferença significativa na capacidade reprodutiva ao diferenciarem um número de inflorescências praticamente idêntico nos dois locais em estudo, no período entre maio e agosto de 2022. Constatou-se, porém, redução no número de flores diferenciadas por inflorescência, onde a cultivar “Diamante” apresentou um número superior nos dois locais em estudo (Quadro 3). Esta variação no número de flores por inflorescência, mesmo sem alterar o total de inflorescências, reflete como os componentes de rendimento podem responder de forma isolada às condições edafoclimáticas locais e ao potencial genético de cada material, conforme observado por Guimarães et al. (2015) em avaliações de potencial produtivo de cultivares de morangueiro.

 

Quadro 3 – Variáveis de produtividade (média ± desvio padrão) das plantas da cultivar diamante e morango do Huambo em dois locais da província do Huambo, planalto central angolano entre maio e agosto de 2017.
Cultivar
Huambo Sede
Ndango
Nº inflorescências
Nº flores
Nº inflorescências
Nº flores
Diamante
2,9 ± 1,4
12 ±  3,6
2,5 ± 1,1
10 ±  2,2
Morango do Huambo
2,8  ±  1,2
10 ±  1,8
2,5 ±  0,2
9 ±  1,4

 

No Quadro 4 apresentam-se números de frutos por planta de cada cultivar e respectiva percentagem dos que tinham valor comercial, nos dois locais. O número de frutos formados na cultivar “Morango do Huambo” é saliente, contrastando com as baixas percentagens dos números de frutos com valor comercial, demonstrando uma perda aproximada de 50% do valor comercial da produção, significativamente diferente (P < 0,01) quando comparada com a cultivar “Diamante”, que apresentou perdas entre 1 e 2%.

A diferença na quantidade de frutos com valor comercial pode estar ligada à pouca consistência dos frutos da cultivar local, visto que a maior percentagem de descarte se deveu à presença de partes com tecidos moles e tendência para a proliferação de micoses. A literatura aponta que a firmeza da epiderme e da polpa é uma característica genética fundamental para evitar injúrias mecânicas e infecções fúngicas oportunistas durante as fases de maturação e pós-colheita; frutos com tecidos menos firmes sofrem rápido extravasamento de líquido e desintegração celular (HENZ et al., 2008; LOPES et al., 2010).

Todos os frutos da cultivar “Diamante” apresentaram-se consistentes, tendo-se descartado apenas frutos roídos por formigas. O desempenho superior da cultivar “Diamante” em manter a integridade física dos frutos corrobora parcialmente com as descrições técnicas de Antunes et al. (2016), que a caracterizam como uma cultivar de dia neutro com frutos grandes, saborosos e de padrão de firmeza mediano, amplamente recomendada in natura.

 

Quadro 4 – Número médio de frutos, por planta, das cultivares diamante e morango do Huambo e percentagem dos frutos com valor comercial, nos dois locais da província do Huambo, planalto central angolano.
Cultivar
Huambo Sede
Ndango
Nº frutos
Comercial (%)
Nº frutos
Comercial (%)
Diamante
12 (0,3)
98
10 (0,9)
99
Morango do Huambo
8 (1,6)
53
8 (2,1)
52

 

No Quadro 5 apresentam-se os pesos e diâmetros máximos, médios e mínimos dos frutos das duas cultivares, nos dois locais. Os resultados mostram claramente a diferença significativa (P<0,01) entre as duas cultivares, com clara vantagem em termos de peso e diâmetro para a cultivar diamante.

 

Quadro 5 – Peso unitário e diâmetro dos frutos das cultivares diamante e morango do Huambo, nos dois locais da província do Huambo, planalto central angolano.
Cultivar
Huambo Sede
Ndango
Peso unitário (g)
Diâmetro (mm)
Peso unitário (g)
Diâmetro (mm)
Máx.
Min.
Médio
Máx.
Min.
Médio
Máx.
Min.
Médio
Máx.
Min.
Médio
Diamante
40±0,4
10±0,6
30,4±0,7
36±0,5
20±0,5
31,2±0,7
38±0,2
8±0,8
27,8±0,7
34±0,9
23±1,7
30,6±1,2
Morango do Huambo
8±0,9
4±0,1
6,8±0,2
27±0,4
11±0,1
12,6±0,1
8±0,6
5±0,1
6,9±0,1
28±1,1
9±0,6
14,7±0,8

 

Produtividade

 

Na Figura 1 apresentam-se as produtividades das duas cultivares expressas em g/planta. Os resultados mostram, para os dois locais, diferença significativa (P<0,01) entre as duas cultivares com supremacia para a cultivar Diamante, que atingiu valores superiores a 300 g/planta nos dois locais, enquanto a produtividade da cultivar Morango do Huambo rondou os 60 g/planta nos dois locais. Esta variação no potencial produtivo entre materiais genéticos locais e introduzidos é comum em ensaios de competição de cultivares, onde a variabilidade genética expressa respostas distintas às condições de clima e solo (ANTUNES et al., 2016; STRASSBURGER et al., 2012).

A posição relativa das cultivares quanto à produtividade não acompanha a quantidade de frutos produzidos, pois não existe diferença com significado estatístico quanto ao número de frutos produzidos por cada cultivar. Os quadros 4 e 5 mostram que a maior produtividade das plantas da cultivar Diamante deveu-se ao facto destas plantas terem produzido frutos de maior peso unitário, tendo atingido um máximo de 40 g e maior calibre, com Ø máximo de 36 mm. Este comportamento corrobora com as observações de Resende et al. (2010), os quais afirmam que o rendimento total do morangueiro é frequentemente determinado pelo tamanho e massa individual dos frutos, e não apenas pelo número absoluto de órgãos emitidos por planta. Adicionalmente, o calibre superior registado enquadra-se na classificação comercial de frutos grandes de diâmetro superior a 35 mm, pertencente à Classe 35 estabelecida pelas normas do Programa Brasileiro para a Modernização da Horticultura (CEAGESP, 2009). Esta capacidade de produção de frutos com elevado calibre inicial é uma característica documentada para a cultivar Diamante sob condições de manejo adequado (ANTUNES et al., 2016).

 

Figura 1 – Produtividade (g/planta) de duas cultivares de morangueiro, durante o período entre maio e setembro de 2022, em dois locais da província do Huambo, planalto central angolano.

 

Analisando as curvas de produtividade semanal (Figura 2), verificou-se um padrão de frutificação uniforme para as duas cultivares nos dois locais. Para a cultivar Diamante as curvas de produtividade aumentam linearmente, atingindo um máximo de 47,5 g/planta a 28 de julho no Huambo Sede e de 41,2 g/planta a 11 de agosto no Ndango, ocorrendo em seguida uma redução gradual até ao final da colheita a 8 de setembro. Esta flutuação na produção semanal reflete a dinâmica típica de cultivares de “dia neutro” sob condições de fotoperíodo e temperatura favoráveis, exibindo picos de safra seguidos de declínio natural da curva biológica de produção ao final do ciclo de colheita, comportamento que se alinha à distribuição de fluxo produtivo observada por Strassburger et al. (2010) em avaliações de dinâmica produtiva da cultura. A curva de produtividade da cultivar Morango do Huambo mostrou pouca variação, mantendo-se mais ou menos constante entre os 6 e os 11 g/planta entre 23 de junho e 18 de agosto, diminuindo de seguida de forma gradual até ao final da colheita.

 

Huambo
Ndango
Figura 2 – Evolução da Produtividade (g/planta) de duas cultivares de morangueiro, durante o período entre maio e setembro de 2022, em dois locais da província do Huambo, planalto central angolano.

 

Conclusões

 

A cultivar importada ‘Diamante’ demonstrou claro potencial produtivo e rentabilidade superior para os agricultores locais. A sua produtividade máxima (390 g/planta) superou em cinco vezes a da variedade local (64 g/planta), impulsionada por frutos com calibre e peso significativamente maiores.

A cultivar ‘Diamante’ exibiu excelente padrão de mercado, com frutos firmes e menos de 2% de perdas por pragas. Em contraste, a cultivar ‘Morango do Huambo’ apresentou baixa aptidão comercial, registando cerca de 50% de descarte devido a tecidos moles e infeções fúngicas, apesar do seu crescimento vegetativo inicial mais rápido.

A introdução da cultivar ‘Diamante’ é altamente promissora para o Planalto do Huambo, servindo como uma alternativa viável para o aumento da renda familiar na horticultura rural da província.

 

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Recebido em 8 de agosto de 2024

Retornado para ajustes em 17 de novembro de 2024

Recebido com ajustes em 11 de junho de 2026

Aceito em 2 de julho de 2026