Revista Agrária Acadêmica
doi: 10.32406/v9n4/2026/15-26/agrariacad
Parasitologia clínica em animais de companhia não convencionais – diagnóstico e conduta terapêutica. Clinical parasitology in non-conventional companion animals – diagnosis and therapeutic management.
Sandra Márcia Tietz Marques
1, Anaïs Abreu da Silva
2, Isabella Nicola Fülber
2, Letícia Zortéa
2, Isadora Ribeiro Garbinato
2, Thayssa Barbosa Cândido
2, Caroline Ströher de Souza
2, Ana Carolina Contri Natal
3, Victória Louise de Moraes Custódio
3, Jacqueline Meyer3
1– Departamento de Patologia Clínica Veterinária, Faculdade de Veterinária – FAVET, Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS
. E-mail: santietz@gmail.com
2– Estagiárias/Bolsistas, Núcleo de Conservação e Reabilitação de Animais Silvestres – PRESERVAS, FAVET/UFRGS
. E-mail: anaisbrendadasilva5@gmai.com, isabellafulber@gmail.com
3– M.V., Programa de Pós-Graduação, FAVET/UFRGS
.
Resumo
Esta investigação registra a presença de parasitos em animais de companhia não convencionais atendidos no Núcleo de Conservação e Reabilitação de Animais Silvestres nos anos de 2023, 2024 e 2025. Foram processadas no Laboratório de Helmintologia Veterinária da UFRGS amostras de fezes de 34 animais provenientes de nove Ordens: Anseriformes; Artiodactyla; Columbiformes; Erinaceomorpha; Galliformes; Lagomorfa; Psittaciformes; Rodentia e Squamata. A prevalência parasitária foi de 26,5% sendo identificados: Ascaris suum (mini-pig); Isospora spp. (galinhas domésticas, cobra-do-milho); Hymenolepis spp. e Syphacia spp. (ratos linhagem Wistar); Subulura spp., Amidostomum sp. e Strongyloides sp. (ganso doméstico); Capillaria spp. (galinha doméstica) e Paraspidodera spp. (porquinho-da-india). Paraspidodera spp. é relatado pela primeira vez no Rio Grande do Sul para Cavia porcellus; Subulura spp. e Amidostomum spp. são identificados pela primeira vez em ganso no estado e Isospora spp. é relatado em Pantherophis guttatus no Rio Grande do Sul. O controle sanitário baseado no tratamento anti-helmíntico seletivo nos animais parasitados foi executado.
Palavras-chave: Helmintos. Pets não convencionais. Prevalência. Protozoários.
Abstract
This investigation records the presence of parasites in unconventional companion animals treated at the Wildlife Conservation and Rehabilitation Center in the years 2023, 2024, and 2025. Fecal samples from 34 animals from nine Orders were processed at the Veterinary Helminthology Laboratory of UFRGS: Anseriformes; Artiodactyla; Columbiformes; Erinaceomorpha; Galliformes; Lagomorpha; Psittaciformes; Rodentia and Squamata. The parasitic prevalence was 26.5%, with the following identified: Ascaris suum (mini-pig); Isospora spp. (domestic chickens, corn worm); Hymenolepis spp. and Syphacia spp. (Wistar rats); Subulura spp., Amidostomum spp., and Strongyloides spp. (domestic goose); Capillaria spp. (domestic chicken); and Paraspidodera spp. (guinea pig). Paraspidodera spp. is reported for the first time in Rio Grande do Sul for Cavia porcellus; Subulura spp. and Amidostomum spp. are identified for the first time in geese in the state, and Isospora spp. is reported in Pantherophis guttatus in Rio Grande do Sul. Sanitary control based on selective anthelmintic treatment of parasitized animals was carried out.
Keywords: Helminths. Unconventional pets. Prevalence. Protozoa.
Introdução
Os animais de estimação não convencionais são classificados em silvestres e exóticos. O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (IBAMA, 2020) descreve que animais silvestres são espécies nativas apresentando ciclo de vida total ou parcial em território brasileiro ou em águas jurisdicionais e os animais exóticos são definidos como espécies não nativas, cujo ciclo biológico ocorre integralmente fora do território nacional.
A popularidade de diferentes animais exóticos e silvestres como animais de companhia ou pet tem crescido no Brasil e a mudança neste perfil traz, além de necessidades educacionais, um novo risco à população, comumente são reservatórios de doenças zoonóticas, que representam 75% das doenças infecciosas emergentes. As aves lideram entre os animais de estimação não convencionais no Brasil com 27%, os répteis somam 13,8% (os quelônios são 6,5% e serpentes 4,6%) enquanto pequenos mamíferos ocupam a terceira posição com 11,5%, liderados pelos coelhos com 7,9% (ESTEVAM; JOB, 2016).
A diversidade de parasitos de espécies silvestres e exóticas permanece pouco explorada. Alguns gêneros parasitários se enquadram como zoonóticos e conhecer a dinâmica nestes pacientes como animais de companhia é fundamental para o manejo sanitário. A transmissão ocorre diretamente através da via fecal-oral, ou indiretamente por meio da ingestão de água e alimentos contaminados, podendo causar sintomas de diarreia, dores abdominais, perda de sangue nas fezes, emagrecimento e desenvolvimento de anemia. Dados de prevalência são importantes para monitorar a ocorrência de parasitos ao longo do tempo e compreender os riscos à saúde. O tratamento e a prevenção dessas infecções são importantes contribuições para a manutenção da saúde (RAUE et al., 2017).
Investigação de Marques et al. (2020a) avaliaram amostras fecais de pets não convencionais atendidos no Núcleo de Conservação e Reabilitação de Animais Silvestres (PRESERVAS) e registraram prevalência de infecção parasitária de 34,8% (8/23) para os helmintos Capillaria spp. em coelho e galinha doméstica; e Syphacia spp. em hamster e protozoários do gênero Eimeria em coelho doméstico e porquinho da índia.
O núcleo PRESERVAS da Faculdade de Veterinária da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) presta atendimento clínico e cirúrgico a animais silvestres de vida livre e como animais de companhia não convencionais. O cenário atual destes animais como de companhia demanda alta diversidade biológica e desafios clínicos específicos. Nesse cenário, o laboratório de helmintoses é essencial para realizar o diagnóstico e orientar o tratamento dessas enfermidades que comprometem a sanidade. Portanto, esta investigação objetiva determinar a prevalência parasitária em animais não convencionais como pets atendidos no PRESERVAS/UFRGS de 2023 até 2025 e através de exames coproparasitológicos orientar na terapêutica adequada para garantir a sanidade animal e a saúde pública.
Material e métodos
O Núcleo de Conservação e Reabilitação de Animais Silvestres possui ambulatório próprio para o atendimento dessas espécies e conta com a infraestrutura do hospital veterinário e de diversos setores da faculdade para a realização de exames complementares. As instalações contam com espaços diferenciados para as diversas espécies. Após a recepção e avaliação clínica, todos os pacientes passam por uma análise parasitológica detalhada. As amostras para o exame parasitológico de fezes (EPF) são obtidas por defecação espontânea: para animais internados, a coleta ocorre preferencialmente ao amanhecer para reduzir o estresse e a manipulação; para pacientes ambulatoriais, os tutores realizam a coleta domiciliar, com entrega no Laboratório de Helmintologia da FAVET/UFRGS em até 24 horas.
As amostras são submetidas aos métodos de Willis (princípio da flutuação com solução de cloreto de sódio, densidade de 1:20) e exame direto das fezes, macro e microscópico. Em alguns casos, as fezes passam pelo método de sedimentação espontânea (método de Lutz). Na presença de oocistos de coccídeos não esporulados, as fezes são submetidas à esporulação com solução de dicromato de potássio 2,5%, em estufa por até dez dias, para diferenciação dos gêneros Eimeria e Isospora (TAYLOR et al., 2017). No caso de qualquer resultado positivo, deverão ser realizadas coletas diárias desde o início do tratamento até que o exame apresente resultado negativo.
A Tabela 1 lista as espécies de animais de companhia não convencionais avaliados para a presença de infecção parasitária nos anos de 2023, 2024 e 2025.
Tabela 1 – Espécies de animais de companhia (pets) não convencionais atendidos no PRESERVAS/UFRGS no período de 2023-2025 e submetidos à avaliação parasitológica no Laboratório de Helmintologia da Faculdade de Veterinária/UFRGS.
Ordem |
Espécie estudada |
Nome popular |
Espécimes |
Anseriformes |
Anser anser Linnaeus, 1758 |
Ganso doméstico |
1 |
Artiodactyla |
Sus scrofa domesticus Linnaeus, 1758 |
Mini pig |
1 |
Columbiformes |
Zenaida auriculata Des Murs, 1847 |
Pomba de bando |
2 |
Erinaceomorpha |
Atelerix albiventris Wagner, 1841 |
Hedgehog |
1 |
Galiformes |
Gallus gallus domesticus Linnaeus, 1758 |
Galinha doméstica |
10 |
Lagomorfa |
Oryctolagus cuniculus Linnaeus, 1758 |
Coelho doméstico |
6 |
Psittaciformes |
Melopsittacus undulatus Shaw, 1805 |
Periquito australiano |
2 |
|
|
Myopsita monachus Boddaert, 1783 |
Caturrita |
2 |
|
|
Psittacila krameri Scopoli, 1769 |
Periquito de colar |
1 |
|
|
Psittacula eupatria Linnaeus, 1766 |
Grande alexandre |
1 |
Rodentia |
Cavia porcellus Linnaeus, 1758 |
Porquinho da índia |
3 |
Rattus norvegicus Berkenhout, 1769 |
Rato linhagem Wistar |
2 |
|
Rattus rattus Linnaeus, 1758 |
Rato preto |
1 |
|
Squamata |
Pantherophis guttatus Linnaeus, 1766 |
Cobra-do-milho |
1 |
TOTAL |
34 |
Aspecto ético: Toda rotina de exames está assegurada pelo protocolo 20487/11, aprovada pelo Comitê de Ética no Uso de Animais (CEUA) da UFRGS. O descarte ético das amostras fecais segue as normas ambientais sobre os resíduos biológicos para evitar impactos à saúde pública e ao ecossistema.
Resultados e discussão
A taxa de positividade na detecção de parasitos por análise de fezes foi de 26,5% (9/34), com positividade em cinco Ordens: Anseriformes, Artiodactyla, Galiformes, Rodentia e Squamata. Paraspidodera spp. é relatado pela primeira vez no Rio Grande do Sul para Cavia porcellus; Subulura spp. e Amidostomum spp. são identificados pela primeira vez em ganso no estado e Isospora spp. é relatado em Pantherophis guttatus no Rio Grande do Sul.
A Tabela 2 mostra os animais atendidos e classificados por nome popular, os resultados de exames parasitológicos e o tratamento executado conforme protocolos do Preservas.
Tabela 2 – Animais atendidos e classificados por nome popular, os resultados de exames parasitológicos e o tratamento executado conforme protocolos no PRESERVAS/UFRGS no período de 2023-2025.
Nome popular |
Número |
Parasito (N+/Total) |
Tratamento |
Ganso doméstico |
1 |
Subulura sp. Molin, 1860Amidostomum sp. Railliet e Henry, 1909Strongyloides spp. |
Sulfametoxazol + trimetoprima 30-50 mg/kg, via oral, 2x ao dia por 8 dias |
Mini pig |
1 |
Ascaris suum Goeze, 1782 |
Fenbendazol 100 mg/ml, 1x/dia por 3 dias |
Galinha doméstica |
3 |
Cystoisospora spp. Frenkel, 1977 (2/10)Cystoisospora spp + Capillaria spp. Zeder, 1800 (1/10) |
Sulfametoxazol + trimetoprima 30-50 mg/kg, via oral, 2x ao dia por 8 dias.Levamisol 25mg/kg, 2 aplicações IM com intervalo de 15 dias |
Porquinho da índia |
1 |
Paraspidodera sp. (1/3) |
Fenbendazol 20 mg/kg, via oral, 1x/dia por 5 dias. |
Rato Wistar |
2 |
Hymenolepis spp. + Syphacia spp. (2/2) |
Fenbendazol 20 mg/kg, via oral, 1x/dia por 5 dias. |
Cobra-do- milho |
1 |
Isospora spp. |
Sulfametoxazol + trimetoprima 15-25 mg/kg, via oral, 1x ao dia por 2 semanas. |
Os registros de parasitos de animais não convencionais na literatura são poucos e pontuais nas espécies aqui registradas. Alguns gêneros parasitários se enquadram como zoonóticos e conhecer a dinâmica nestas populações que estão em contato direto com os responsáveis em seus lares é fundamental para o manejo sanitário. Relatos de prevalência são importantes para monitorar a ocorrência de parasitos ao longo do tempo e compreender os riscos à saúde para os animais de companhia e exóticos. O protocolo estabelece o tratamento parasitário e a realização de exames parasitológicos de fezes (EPF) diários sempre que o resultado se apresentar positivo e, portanto, continuar a investigação até a obtenção de resultado negativo. As características destas espécies singulares como animais de companhia e suas especificidades parasitárias são discutidas.
- Anser anser, Linnaeus, 1758
A criação de gansos domésticos é uma prática estabelecida em áreas rurais devido à abundância de água e pastagens. As linhagens domésticas são geralmente descendentes do ganso-comum ou do ganso-chinês. Gansos são excelentes sentinelas para a detecção precoce de patógenos no ambiente. Devido ao seu forte instinto territorial e grasnidos altos, os gansos são excelentes “cães de guarda”, usados até em segurança de presídios. No litoral sul do RS, o monitoramento é crucial devido às rotas de aves migratórias, que podem introduzir novas variantes de parasitos ou vírus nas criações caipiras.
O exame parasitológico do ganso doméstico, mantido em ambiente domiciliar, evidenciou ovos de nematóides ascarídeos do gênero Subulura que parasitam aves, lagartos e mamíferos, com mais de 60 espécies válidas registradas em todo o mundo. Amidostomum spp. e Strongyloides spp. afetam gansos e outras aves domésticas/silvestres/aquáticas, causando doenças que interferem no desempenho, produção e saúde geral, muitas vezes através de infecções mistas em sistemas de criação (ANDRADE SILVA et al., 2022).
Subulura spp. se localiza principalmente no ceco de aves e envolve hospedeiros intermediários (besouros, gafanhotos, baratas e cascudinhos) que ingerem os ovos e são posteriormente consumidos pelas aves. A patogenia corresponde a diarreia, inflamação no ceco e desnutrição (RAMOS et al., 2024). A distribuição geográfica é descrita no Hawaii, Egito, Sudão, Índia, Zimbábue, Iran, Marrocos, Arábia Saudita e Nigéria, além do Brasil. Caetano e Vieira (2015) registraram de forma inédita, a ocorrência de S. brumpti em galinhas no estado do Paraná através de necropsia em frangos de uma propriedade rural. Os ovos aparecem nas fezes em cerca de seis semanas após a infecção e são encontrados no sistema gastrintestinal de aves das ordens Anseriformes, Columbiformes e Galiformes. A ocorrência de Subulura spp. em gansos Anser cygnoides ou outras espécies de anseriformes no Rio Grande do Sul refere-se a parasitos cecais comuns em aves domésticas e silvestres. A presença de Subulura sp. foi documentada no estado do Piauí (COSTA; FREITAS, 1962) e em faisão-coleira (Phasianus colchicus) no estado do Rio de Janeiro (PINTO et al., 2004). São escassos os relatos globais, porém Larki et al. (2018) investigaram parasitos em patos domésticos no sudoeste do Iran e registraram Subulura spp. em 16,6% delas.
O gênero Amidostomum se instala no trato digestório de aves de hábitos aquáticos. Há registro da espécie A. anseris na literatura, porém através dos métodos parasitológicos investigados nestes animais, só é possível a identificação ao nível de gênero. A doença é conhecida como amidostomose ou gastrite verminótica dos gansos. A mortalidade é alta em animais jovens. O ciclo vital parasitário é direto e o hospedeiro definitivo elimina no meio exterior os ovos segmentados nas fezes, evoluindo para larva infectante que penetra na mucosa da moela e através de evolução se torna parasito adulto entre 12-21 dias de infecção. O período pré patente é rápido, isto é, de 2 a 4 semanas os ovos são liberados para encontrar novos hospedeiros. A patogenia estabelecida através de necropsias descreve: inflamação catarral e hemorragia, erosão, úlceras, descamação e alterações na camada muscular da moela, e a necrose tecidual se apresenta com coloração amarronzada, devido a mistura de pigmentos de sangue; é sintomática em gansos jovens e os animais adultos se tornam portadores assintomáticos. Os sinais clínicos que motivam a busca por atendimento veterinário incluem anorexia, anemia, emaciação e apatia, entretanto a diarreia não é um sinal evidente e comum (RAMOS et al., 2024).
Nematóides do gênero Strongyloides parasitam o intestino delgado de vertebrados. Além do ciclo de vida parasitário, geralmente considerado partenogenético, também pode apresentar uma geração facultativa de vida livre, composta por espécimes machos e fêmeas (VINEY, 2006). É uma infecção relativamente comum em animais selvagens, domésticos e seres humanos. Embora seja difícil generalizar, a prevalência de infecções por S. stercoralis em humanos costuma chegar a 5% em áreas endêmicas, geralmente concentrada em indivíduos mais jovens, com ocorrências ocasionais de prevalência mais alta. Fêmeas de Strongyloides spp. podem ser observadas no terço superior do intestino delgado de gansos (ANDERSON, 2000) e em quatro espécies de anseriformes em cinco zoológicos da Nigéria (OTEGBADE; MORENIKEJI, 2014). Os parasitos se instalam no intestino delgado causando enterites severas, diarreia e, em casos agudos, alta mortalidade, especialmente em aves jovens (RAMOS et al., 2024).
O controle parasitário em aves geralmente envolve uma abordagem dupla: tratamento curativo com a administração de vermífugos apropriados para tratar animais doentes. A outra abordagem recomendada são medidas preventivas nas práticas de higiene e manejo sanitário do ambiente onde os gansos vivem são cruciais para prevenir reinfecções. Isso pode incluir garantir um local ao ar livre com água limpa disponível e manejo adequado das fezes para interromper o ciclo de vida do parasito (RAMOS et al., 2024). O tratamento foi realizado com sulfametoxazol + trimetoprima 30-50 mg/kg, 2x ao dia, via oral, durante 8 dias (Tab. 2).
- Sus scrofa domesticus Linnaeus, 1758
O EPF identificou ovos de Ascaris suum. O estudo de Pereira et al. (2018) com suínos abatidos no Rio Grande do Sul registrou ascaridiose (21,4%) a partir da palpação das alças intestinais e corte das mesmas, para visualização do parasito. Os parasitos estavam no lúmen do intestino delgado, eram alongados, amarelados e mediam 30cm de comprimento. Produzem um grande número de ovos (de 200.000 a 1 milhão por dia/fêmea); em condições ideais, podem desenvolver-se até o estágio infectante e os ovos contendo larvas de terceiro estágio em 3 a 4 semanas. O ascarídeo suíno é zoonótico, tendo sido identificado em humanos de várias partes do mundo, particularmente naqueles em contato próximo com suínos e larva migrans visceral devido à migração de larvas. O controle não deve depender apenas de anti-helmínticos, mas também deve incorporar medidas sanitárias adequadas (BALLWEBER, 2026).
Embora sejam comercializados como “mini porcos”, esses animais não são uma espécie biológica distinta. Eles são o resultado de seleção genética e cruzamentos entre raças naturalmente menores ou linhagens desenvolvidas em laboratório (como o Göttingen minipig) para fins de pesquisa e companhia (AMPA, 2026).
O tratamento foi a base de fenbendazol, suspensão a 10% (100 mg/ml), 1x/dia por 3 dias consecutivos, misturado em ração umedecida. Sugerido para o responsável o esquema regular para o fenbendazol a cada 4 a 6 meses (Tab. 2).
- Gallus gallus domesticus Linnaeus, 1758
Foram detectados ovos de Capillaria spp. e oocistos de Isospora spp. A capilariose é a helmintose de maior interesse sanitário na medicina de aves, pois é prevalente em Psitacídeos, Passeriformes, Columbiformes, Galliformes e aves rapinantes. Marques e Bitencourte (2024) pesquisaram a diversidade parasitária em aves domésticas e silvestres nos anos de 2018, 2019, 2022 e 2023, através de exames de fezes e registraram a prevalência de 34,8% (78/224) e Capillaria spp. foi o mais prevalente (36%), concordando com Freitas et al. (2002) e Santos et al. (2015), seguido do protozoário Isospora spp. (35%) em galinhas. A prevalência de parasitos intestinais em galinhas caipiras criadas em regime extensivo na região metropolitana de Porto Alegre, RS foi investigada em 2016. Foram analisadas 112 amostras fecais de aves de 14 propriedades. Treze propriedades (92,9%) apresentaram aves parasitadas e a prevalência de parasitos foi de 55,4% (62/112) com ovos dos gêneros Capillaria, Heterakis, Ascaridia, Strongyloides, Strongyloidea e protozoários do gênero Eimeria. Capillaria spp. foi o helminto mais prevalente com taxa de 78,6% (SIQUEIRA; MARQUES, 2016). Na capilariose, a infecção de forma leve ou moderada pode apresentar uma variedade de sinais inespecíficos. Em aves jovens, que tem menor resistência a outras infecções, a sintomatologia poderá ser evidente, emagrecimento, crescimento lento. Quando a capilariose se apresenta com grande quantidade de ovos pode ser fatal para galinhas.
O tratamento executado foi com sulfametoxazol + trimetoprima, 30-50 mg/kg por 8 dias, BID para o diagnóstico de coccidiose e levamisol 25mg/kg, 2 aplicações IM com intervalo de 15 dias para a ave que apresentava oocistos de Eimeria spp. e Capillaria spp. (Tab. 2).
- Cavia porcellus Linnaeus, 1758
Os nematóides pertencentes ao gênero Paraspidodera (Nematoda, Lauroiinae) são parasitos de roedores das famílias Caviidae, Dasyproctidae e Leporidae. No Brasil, três espécies de Cavia (C. fulgida, C. porcellus e C. aperea) foram citadas como hospedeiras para Paraspidodera uncinata (VICENTE et al., 1995, 1997). No Estado do Rio Grande do Sul, P. uncinata foi encontrada em Cavia aperea (n= 33), em Pelotas, RS, com prevalência de 88% (KRUGER; MULLER, 2006). Rocha et al. (2011) diagnosticaram Paraspidodera sp. parasitando Cavia magna (Rodentia, Caviidae) – preá, no Rio Grande do Sul, Brasil. Alves et al. (2007) realizaram um levantamento sobre a prevalência e intensidade de infecção de endoparasitos em Cavia porcellus convencionais de linhagem “Short Hair” provenientes de biotérios de criação e experimentação do município do Rio de Janeiro e relataram a presença de Paraspidodera uncinata (34%). O tratamento instituído para os porquinhos da índia foi fenbendazol 20 mg/kg, cada 24 horas por 5 dias, via oral na ração (Tab. 2).
- Rattus norvegicus Berkenhout, 1769
Hymenolepis spp. e Syphacia spp. foram diagnosticados nos dois ratinhos. Ambos os roedores pertencem ao mesmo responsável que habita em apartamento. Rattus norvegicus é um hospedeiro sinantrópico comum de vários parasitos gastrointestinais, sendo frequentemente encontrado com infecções mistas por Hymenolepis spp. e Syphacia spp. Estes parasitos possuem alta prevalência em populações de ratos selvagens e de laboratório, com implicações tanto veterinárias quanto zoonóticas.
Franssen et al. (2016) investigaram helmintos em Rattus norvegicus de diferentes províncias e fazendas na Holanda e diagnosticaram através do conteúdo intestinal seis espécies de nematóides com destaque para Syphacia muris e Strongyloides spp.; e três espécies de cestódeos: Hymenolepis diminuta, H. nana e H. fraterna. Fêmeas grávidas de S. muris saem ativamente do intestino do hospedeiro e depositam os ovos ao redor do ânus, após o que ocorre (auto)infecção e transmissão entre ratos por meio de limpeza e comportamento social. S. muris tem importância veterinária em relação a colônias experimentais de roedores. A prevalência de espécies de Hymenolepis em ratos marrons capturados em fazendas foi de 63,3% e de 15,8% em ambientes urbanos. Em um estudo com ratos marrons a prevalência de H. diminuta foi 21,8%. H. nana e H. diminuta são helmintos cestódeos zoonóticos. H. diminuta é transmitido aos humanos pela ingestão de Tribolium confusum (besouro da farinha) com cereais infestados ou pela via fecal-oral. H. nana é transmitido por contato fecal-oral (ovos) ou pela ingestão acidental de hospedeiros intermediários que abrigam cisticercóides. As infecções por Hymenolepis spp. em humanos são geralmente assintomáticas, embora possam ocorrer fraqueza, dor de cabeça, dor abdominal e diarreia. O tratamento foi realizado com fenbendazol 20 mg/kg, via oral, a cada 24 horas, durante 5 dias (Tab. 2).
- Pantherophis guttatus Linnaeus, 1766
Atualmente, as serpentes são criadas como animais de estimação exóticos, abrigando numerosos parasitos gastrointestinais (zoonóticos). Segundo Jensen-Jarolim et al. (2015) o número de répteis em residências dobrou, no mínimo, na última década na Europa e nos EUA. No Brasil, os dados não estão determinados. O Instituto Robert Koch citou a Associação Alemã da Indústria de Animais de Estimação, afirmando que as compras de terrários aumentaram 6,1% em 2008, e 1,2% das residências alemãs possuem répteis (WOLF et al., 2014). Segundo levantamentos recentes, o Reino Unido mantém cerca de 1,1 milhão de répteis como animais de estimação, distribuídos em aproximadamente 1,1 milhão de residências (PANORAMA PET&VET, 2026). A compra de répteis é cada vez mais motivada pela tentativa de evitar animais de estimação com pelos potencialmente alergênicos, como cães e gatos. Consequentemente, os répteis são hoje considerados animais de estimação substitutos, estabelecendo uma relação mais próxima com o dono do que nunca. O número de residências com répteis nos EUA tem crescido ao longo do tempo, conforme tendências de humanização e diversificação da posse de pets (APPA, 2026).
O clássico estudo de Bovee (1962) detalha a descoberta de Isospora crotali em uma cascavel-diamante-oriental (Crotalus adamanteus) na Flórida, quando investigaram parasitos em seis espécimes de serpentes. O parasito foi encontrado em apenas uma de seis cascavéis analisadas, sendo o único coccídeo detectado em um levantamento mais amplo de mais de 200 cobras selvagens. As fases sexuais do ciclo de vida do protozoário ocorrem nas células epiteliais do jejuno da serpente e a formação dos esporozoítos acontece fora do hospedeiro com um tempo de esporulação de aproximadamente 17 horas (TELFORD, 1997). Greiner (2003) relatou Isospora spp. e Eimeria spp. em serpentes.
Condições de doenças multifatoriais são uma característica da medicina de répteis e, de fato, alguns pesquisadores acreditam que o estresse induzido por outras infecções é um pré-requisito para doenças parasitárias. Os coccídios são encontrados em todas as ordens de répteis e geralmente se alimentam, crescem e se desenvolvem em células epiteliais gastrointestinais, embora algumas possam viver em outros órgãos. Apesar de seus ciclos de vida envolverem a destruição de células hospedeiras, muitos coccídios não são considerados patógenos em seus hospedeiros répteis. No entanto, se um grande número for ingerido, o dano tecidual subsequente pode resultar em doença, que é mais provável de ocorrer em répteis em cativeiro (SCULLION; SCULLION, 2009). Marques et al. (2020b) relataram Isospora spp. em serpente Bothrops pubescens no Rio Grande do Sul.
Wolf et al. (2014) destacaram que répteis exóticos se tornaram animais de estimação cada vez mais comuns em todo o mundo e são conhecidos por serem portadores de diferentes parasitos, incluindo alguns com potencial zoonótico. O controle de protozoários gastrointestinais é melhor alcançado prestando-se atenção à saúde geral da população de répteis. Isso inclui a observação meticulosa de mudanças de comportamento. Os períodos pré-patentes para a maioria dos protozoários parasitos de répteis são desconhecidos. O período recomendado para quarentena de répteis recém-chegados é controverso, com recomendações variando entre um e três meses. Durante a quarentena, os répteis devem ser submetidos a exames clínicos e fecais repetidos.
O tratamento foi realizado com trimetoprima + sulfametoxazol, 15-25 mg/kg a cada 24 horas, administrada via oral por 2 semanas, além de dosificar com uma solução eletrolítica balanceada que deve ser administrada por via oral (Tab. 2).
A comercialização de animais silvestres é uma atividade legalizada no Brasil, de acordo com a Resolução CONAMA N° 489 de 2018, que delimita a autorização do uso e manejo em cativeiro, da fauna silvestre e exótica, bem como autoriza a criação dos espécimes como animais de estimação. Logo, algumas espécies são comercializadas em estabelecimentos de pet shops.
Na psicologia, um animal de estimação é compreendido como um objeto de apego e afeto que desempenha papéis fundamentais na regulação emocional e na construção da identidade do indivíduo. Mais do que simples companhia, os pets são vistos como referências externas que ajudam a processar sentimentos internos e fornecem suporte social essencial. De acordo com a visão psicanalítica de Freud, o amor pelos animais é valorizado por ser incondicional e livre dos conflitos sociais e culturais inerentes às relações humanas.
Conclusão
Paraspidodera spp. é relatado pela primeira vez no Rio Grande do Sul para Cavia porcellus. Subulura spp. e Amidostomum spp. são identificados pela primeira vez em Anser anser no Rio Grande do Sul e Isospora spp. também é relato inédito em Pantherophis guttatus no Rio Grande do Sul. O presente trabalho amplia o conhecimento sobre a distribuição geográfica de parasitos nestas espécies e descreve os tratamentos anti-helmínticos aplicados.
Conflitos de interesse
Não houve conflito de interesses dos autores.
Contribuição dos autores
Sandra Márcia Tietz Marques – ideia original, execução dos exames parasitológicos, interpretação dos resultados, orientação, revisão bibliográfica, redação e revisão do artigo; Anaïs Abreu da Silva, Isabella Nicola Fülber, Letícia Zortéa, Isadora Ribeiro Garbinato, Thayssa Barbosa Cândido, Caroline Ströher de Souza, Ana Carolina Contri Natal, Victória Louise de Moraes Custódio, Jacqueline Meyer – coleta das amostras fecais, avaliação dos animais, exames clínicos, execução dos tratamentos e o manejo sanitário.
Referências bibliográficas
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Recebido em 30 de maio de 2026
Retornado para ajustes em 1 de setembro de 2026
Recebido com ajustes em 1 de setembro de 2026
Aceito em 8 de setembro de 2026



