Análise química-bromatológica do farelo do mesocarpo do babaçu (Orbignya sp) como alternativa nutricional na bovinocultura leiteira na região de Jaru – Rondônia, Brasil

Revista Agrária Acadêmica

agrariacad.com

doi: 10.32406/v9n3/2026/18-27/agrariacad

 

Análise química-bromatológica do farelo do mesocarpo do babaçu (Orbignya sp) como alternativa nutricional na bovinocultura leiteira na região de Jaru – Rondônia, Brasil. Chemical-bromatological analysis of the mesocarp bran of babaçu (Orbignya sp) as a nutritional alternative in dairy cattle farming in the region of Jaru – Rondônia, Brasil.

 

Angela Maria Gomes Valério1, Andressa Gomes Valério1, Mayne Santos da Silva1, Antonio Ariclezio Carlos Cruz2, Hilton Lopes Junior2, Jomel Francisco dos Santos2

 

1- Discente do Curso de Medicina Veterinária – Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Rondônia – IFRO , Campus Jaru/RO – Brasil. E-mail: gomesvalerio256@gmail.com
2- Docente do Curso de Medicina Veterinária – Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Rondônia – IFRO , Campus Jaru/RO – Brasil. E-mail: jomel.santos@ifro.edu.br

 

Resumo

 

A bovinocultura leiteira tem se expandido no Brasil com destaque para o estado de Rondônia sendo um dos maiores produtores da região Norte. Um dos principais fatores que contribuem para o aumento desta atividade é o fornecimento de dietas balanceadas em proteínas, vitaminas, energia e minerais. Entretanto, no período seco a redução na disponibilidade de forragens compromete o acesso a esses nutrientes, exigindo suplementação alternativas como o farelo do mesocarpo do babaçu (FMB). O presente estudo teve como objetivo avaliar o valor nutritivo do FMB como alternativa alimentar na bovinocultura leiteira no município de Jaru/RO. Os cocos do babaçu foram coletados em uma propriedade rural, descascados, secos ao sol, processados em moinho de facas e submetidos as análises químico-bromatológicas no Laboratório de Química do IFRO – Campus Jaru. Foram determinadas as seguintes variáveis: cinzas, proteína bruta (PB), acidez titulável, pH, sólidos solúveis, compostos fenólicos, extrato etéreo, carboidratos totais, açúcares solúveis (redutores e não redutores), fibra bruta e digestibilidade in vitro. O FMB apresentou teor de PB de 1,68%, valor inferior às exigências nutricionais de vacas leiteiras (16–18% de PB). Contudo, apresentou bom potencial de digestibilidade e aporte de carboidratos totais, indicando viabilidade como concentrado energético alternativo, desde que acompanhado de suplementação proteica. Os resultados sugerem que o FMB pode ser incorporado à dieta de vacas em lactação como fonte energética. Ressalta-se, a necessidade de estudos adicionais que avaliem seu potencial de uso e investiguem a viabilidade econômica da sua inclusão na alimentação de ruminantes.

Palavras-chave: Subproduto. Nutrição. Concentrado Energético e Digestibilidade.

 

 

Abstract

 

Dairy farming has been expanding in Brazil, particularly in the state of Rondônia, which is one of the largest producers in the North region. One of the main factors contributing to the increase in this activity is the provision of diets balanced in protein, vitamins, energy, and minerals. However, during the dry season, the reduction in the availability of forage compromises access to these nutrients, requiring alternative supplements such as babassu mesocarp meal (FMB). The objective of this study was to evaluate the nutritional value of FMB as an alternative feed in dairy farming in the municipality of Jaru/RO. The babassu coconuts were collected on a rural property, peeled, sun-dried, processed in a knife mill, and subjected to chemical-bromatological analyses at the IFRO Chemistry Laboratory – Jaru Campus. The following variables were determined: ash, crude protein (CP), titratable acidity, pH, soluble solids, phenolic compounds, ethereal extract, total carbohydrates, soluble sugars (reducing and non-reducing), crude fiber, and in vitro digestibility. FMB had a CP content of 1.68%, which is lower than the nutritional requirements of dairy cows (16–18% CP). However, it showed good digestibility and total carbohydrate content, indicating its viability as an alternative energy concentrate, provided it is accompanied by protein supplementation. The results suggest that FMB can be incorporated into the diet of lactating cows as an energy source. It should be noted that further studies are needed to evaluate its potential use and investigate the economic feasibility of its inclusion in ruminant feed.

Keywords: By-product. Nutrition. Energy Concentrate and Digestibility.

 

 

Introdução

 

No Brasil a bovinocultura leiteira vem crescendo nos últimos anos de forma significativa, possibilitando assim que o país seja reconhecido mundialmente pelo seu aumento na produção de leite. De acordo com Nascimento e Fernandes (2022), o desempenho deste setor está ligado diretamente com o Produto Interno Bruto (PIB) do país e no contexto do desenvolvimento da economia do Brasil como um todo.

Segundo o MAPA (s.d.), O Brasil ficou em terceiro lugar como o maior produtor de leite no mundo, com cerca de 34 bilhões de litros por ano, com uma produção em 98% dos municípios do país. Dentre os estados brasileiros, Rondônia é considerado o maior produtor de leite da região Norte e mantendo-se como o 10° maior no território nacional (IDARON, 2024).

Desta forma, o crescimento da pecuária leiteira nos estados brasileiros se dá pelo conjunto de vários fatores, entre eles destaca-se às exigências nutricionais desses animais, como uma alimentação adequada e composta por proteínas, vitaminas, energia e sais minerais. A deficiência de alguns dos componentes básicos da dieta dos bovinos poderá acarretar a diminuição da quantidade do leite, pois o animal não terá nutrientes suficientes para atender e suprir de forma eficiente todas as atividades do seu organismo (SANTOS et al., 2020b).

Oliveira (2022), afirma que os tempos de secas no país interferem de forma negativa na dieta do gado de leite, pois a uma baixa disponibilidade de plantas forrageira para os mesmos, tornando-se essencial a utilização de subprodutos para complementar a alimentação durante esses períodos do ano. Para suprir as necessidades nutricionais na produção animal tem-se buscado alternativas para substituir alimentos tradicionais, a exemplo do milho e do farelo de soja.

Nesse contexto, podemos citar o farelo do mesocarpo do coco do babaçu. Segundo Ferreira et al. (2011), este subproduto possui um alto valor nutritivo, sendo considerado um suplemento proteico para bovinos de leite, responsável por promover um aumento no teor de gordura do leite e além de favorecer a diminuição dos impactos ambientais que o processamento dos ingredientes tradicionais pode causar.

A Embrapa (1984), identifica o Babaçu como sendo uma palmeira brasileira bastante importante, pertencendo à família Palmae gênero Orbignia (orbignya sp, sendo divididos em duas espécies classificados em Palmae Orbignya martiana (babaçu da floresta) e Palmae Orbignya oleifera (babaçu do cerrado). O babaçu é encontrado em 12 estados brasileiros sendo eles (RO, MT, TO, MS, GO, AM, CE, BA, MA, PI, PA e MG) podendo estar presente em áreas de lavoura, pastagem, mata, cerrado e outros e diferentes tipos. Em Rondônia o babaçu encontra-se amplamente distribuído, sendo mais frequente em áreas de terra firme, como relata Bentes-Gama et al. (2007).

A utilização de subprodutos de farelo de babaçu na alimentação de ruminantes, pode ser capaz de reduzir os impactos ambientais causados pelos dejetos, entretanto antes de incluir qualquer tipo de alimento que seja novo na dieta dos animais é necessário conhecer sua composição nutricional (SÁ, 2011).

Diante do exposto, o presente artigo tem como objetivo avaliar o valor nutritivo do farelo do mesocarpo do coco do babaçu como alternativa nutricional na bovinocultura leiteira no município de Jaru/RO, pois se faz necessário, o conhecimento das características químico-bromatológicas e estudos na exploração do seu potencial, bem como, suas possíveis limitações devido a aspectos químicos, físicos e econômicos.

 

Material e métodos

 

As amostras de coco de babaçu (Orbignya sp.) foram obtidas de agricultores localizados na Linha 623, km 5, no município de JaruJaru, Rondônia, Brasil, situado nas coordenadas geográficas 10,438018° S e 62,548251° W. A coleta foi realizada entre os meses de agosto e setembro, período correspondente à maturação fisiológica e à queda natural dos frutos na região. Nessa época, o clima predominante no município caracteriza-se por temperaturas elevadas, baixa umidade relativa do ar e reduzido índice pluviométrico, condições típicas da estação seca amazônica. Essa etapa foi conduzida de forma criteriosa, assegurando a seleção de frutos íntegros, maduros e representativos para a realização das análises subsequentes.

Após a coleta, os cocos foram descascados e submetidos à secagem natural ao sol por 15 dias, procedimento utilizado para redução da umidade e preservação das características da matéria-prima, conforme adaptação da metodologia descrita por Soler et al. (2007). Para o processamento in natura, o mesocarpo dos frutos foi triturado em moinho de facas e peneirado em malha com granulometria de até 60 mesh, visando a obtenção do pó fino. A partir do material processado, foi preparada uma amostra composta de aproximadamente 1 kg, que foi utilizada para as análises realizadas para as determinações da composição químico-bromatológica do farelo, as quais foram realizadas em triplicatas no Laboratório de Química, localizado no IFRO Campus Jaru.

A avaliação das características químico-bromatológica, referentes à Determinação de Matéria Seca, Teor de Umidade, Determinação de Cinzas, Proteína Bruta, Determinação de Acidez Titulável e pH, Determinação de Sólidos Solúveis, Compostos Fenólicos, Extrato Etéreo, Carboidratos Totais, Determinação Açúcares Solúveis, redutores e não redutores, seguirm as normas preconizadas nos métodos baseados em Detmann et al. (2021). A digestibilidade in vitro e o teor de fibra foi determinada pela metodologia do IAL (2008). Todos os resultados das análises descritas acima foram tratados estatisticamente usando os métodos de análise de variância (ANOVA) com nível de significância de 5%.

 

 Resultados e discussão

 

Tabela 1- Resultados das análises química-bromatológicas do farelo do mesocarpo do babaçu (FMB).

 

De acordo com os dados obtidos através das análises química-bromatológicas do mesocarpo do babaçu apresentados na Tabela 1, o teor de proteína bruta (PB) obtido foi de 1,68%, valor considerado baixo para alimentos destinados à nutrição animal. Vacas leiteiras, por exemplo, demandam entre 16% e 18% de PB na fase inicial da lactação, reduzindo para 12% a 14% nas fases finais, conforme relatado por Santos et al. (2020b). De acordo com Silva et al. (2012), o farelo de babaçu apresentou teor de proteína bruta de 2,01%. Corroborando com esse valor, Miotto et al. (2012) também observaram baixo teor proteico, identificando 3,1% de proteína bruta no farelo analisado, enquanto a torta de babaçu pode atingir até 21,35% de PB, segundo Santos Neta et al. (2011). De acordo com Van Soest (1994), é necessário um mínimo de 7% de PB na dieta de ruminantes para garantir o funcionamento adequado do rúmen, reforçando que o mesocarpo do babaçu in natura não supre isoladamente essa exigência.

A matéria seca (MS) apresentou valor elevado de 89,86% e o teor de umidade de 10,14%, o que favorece a estabilidade e conservação do produto. O alto teor de MS reduz a atividade microbiana e prolonga a vida útil do ingrediente. Valor similar de MS ao observado no presente estudo, foi descrito por Rostagno et al. (2011), quando relataram MS de 87,74%. A atividade de água (Aw) observada neste estudo foi de 0,56%, considerada ideal, pois apresenta característica que contribui para a segurança microbiológica, reduzindo o risco de desenvolvimento de microrganismos deteriorantes e micotoxinas, especialmente durante o armazenamento prolongado. Ingredientes com baixa Aw são particularmente vantajosos em dietas completas (TMR), pois apresentam menor risco de fermentações indesejáveis. Em experimento conduzido por Sousa Junior (2003), ovinos alimentados com dietas contendo 0%, 10%, 20% e 30% de farelo de babaçu na MS, apresentaram redução na ingestão de matéria seca com o aumento da inclusão do subproduto, indicando limitação em sua aceitabilidade quando utilizado em altos níveis, acima de 30% na MS.

O teor de cinzas observado no FMB foi de 1,38%, representando o conteúdo de minerais da amostra. Esse valor é semelhante ao reportado por Polesi et al. (2025) que encontraram um teor de cinzas 1,33% na farinha do mesocarpo do babaçu. A composição mineral é essencial na formulação de dietas para bovinos leiteiros, conforme diretrizes do NASEM (2021), que preconizam o fornecimento equilibrado de macro e microminerais, conforme a fase produtiva. Os sólidos solúveis totais (SST) totalizaram 6,17%, consistentes com a composição de alimentos formulados com diversos ingredientes solúveis.

O pH observado foi de 5,77, indicando acidez levemente elevada. Esse valor pode contribuir para a estabilidade microbiológica do produto, auxiliando no controle da fermentação, especialmente em processos de ensilagem, evitando o crescimento de bactérias indesejáveis e assegurando maior qualidade na dieta ruminante (PEDRICO, 2013). Rezende et al. (2011) relataram que silagens contendo farelo de babaçu apresentaram maior produção de ácido lático, mantendo o pH em torno de 3,8 a 4,2, faixa ideal para silagens de boa qualidade.

A análise de compostos fenólicos (FT) resultou em 1,86% indicativo de que a amostra analisada pode conter propriedades funcionais o que amplia o seu potencial como aditivo nutricional na dieta animal. Esses compostos são reconhecidos por suas propriedades antioxidantes, antimicrobianas e anti-inflamatórias, além de contribuírem para a conservação do alimento, inibindo a oxidação de lipídios, como é relatado por Shahidi (2000). Assim, sua presença amplia o potencial funcional do produto, podendo favorecer a saúde intestinal e o desempenho animal.

A acidez titulável total (ATT) foi de 1,38%, valor que pode influenciar as características sensoriais e a conservação do produto. Segundo Silva e Queiroz (2002), a ATT é um indicador importante na avaliação da estabilidade e da qualidade dos alimentos, já que valores elevados podem refletir uma maior presença de ácidos graxos livres, oriundos da degradação de lipídios. Isso pode afetar o pH ruminal quando consumido em grandes quantidades, o que exige atenção no balanceamento da dieta. Essa acidez pode até favorecer o estímulo da salivação e da atividade microbiana no rúmen, melhorando a digestibilidade de certos componentes da dieta.

A fibra bruta (FB) apresentou um valor relativamente elevado, de 8%, o que indica uma quantidade expressiva de componentes fibrosos na amostra. No entanto, esse valor é inferior ao registrado por Rostagno et al. (2011), que observaram 9,69% de FB em produtos com características semelhantes. Por outro lado, é superior ao resultado reportado por Carneiro (2011) para o mesocarpo do babaçu, cuja fibra bruta foi determinada em 2,66%. Dessa forma, os dados obtidos posicionam a amostra analisada em um nível intermediário de teor fibroso, quando comparada com diferentes estudos na literatura.

A digestibilidade está diretamente relacionada aos nutrientes presentes em uma dieta, portanto, ela serve como uma medida para identificar quanto da dieta é digerível ou quanto desses nutrientes são absorvidos e utilizados pelo animal (VILELA et al., 2024). A digestibilidade in vitro (DIV) do mesocarpo de babaçu nesta pesquisa, foi de 76%, um valor considerado elevado para alimentos fibrosos, o que evidencia seu potencial como ingrediente na alimentação de vacas leiteiras. Segundo Carneiro et al. (2017), esse percentual indica uma boa capacidade de degradação da matéria seca no rúmen, o que favorece o aproveitamento dos nutrientes disponíveis no resíduo, indicando boa capacidade de aproveitamento nutricional pelo organismo.

De acordo com Van Soest (1994), alimentos com boa digestibilidade promovem maior produção de energia metabolizável e ácidos graxos voláteis no rúmen, fundamentais para a manutenção do organismo e síntese de leite das vacas em lactação. Um estudo realizado por Gerude Neto et al. (2016), destaca que a inclusão de farinha de mesocarpo de babaçu em até 10% da matéria seca na dieta de ovinos demonstra ser vantajosa, pois aumenta a digestibilidade do extrato etéreo (EE) e pode ser indicada como fonte alternativa de energia na alimentação de cordeiros. Santos et al. (2022) também observaram que a adição de farinha de mesocarpo de babaçu em dietas de ovinos pode ser utilizada em concentrações de até 10,5%, proporcionando um aumento efetivo no consumo de matéria seca.

Miotto et al. (2012) realizou uma pesquisa no estado do Tocantins, onde avaliou a possibilidade da inclusão FMB como substituição ao capim-elefante em diferentes proporções, sobre o consumo e a digestibilidade aparente de nutrientes em ovinos. Eles observaram que as dietas não influenciaram o consumo de MS, matéria orgânica (MO), PB, FDN, FDA e hemicelulose, com coeficientes de variação (CV) de 38,7, 38,7, 38,5, 34,7, 36,0 e 32,6, respectivamente. No entanto, as digestibilidades de MS, FDN, FDA, PB e carboidratos não fibrosos foram diminuindo à medida que a proporção de farinha de mesocarpo de babaçu nas dietas aumentou. Já as digestibilidades aparentes da matéria seca (DAMS), extrato etéreo e carboidratos não fibrosos CNF exibiram uma resposta quadrática, com um valor máximo estimado em 10% FMB. O autor conclui que a substituição da silagem de capim-elefante pelo farelo do mesocarpo de babaçu em dietas para ovinos mostrou-se satisfatória, promovendo aumento no consumo de (CNF) e de nutrientes digestíveis totais (NDT). Apesar da redução na digestibilidade das frações fibrosas da dieta, como a fibra em detergente neutro (FDN), o farelo do mesocarpo de babaçu pode ser utilizado como uma fonte energética alternativa para ruminantes, desde que sua inclusão na dieta seja feita de forma equilibrada e controlada.

Diante disto, observa-se que a digestibilidade do FMB está diretamente ligada com o aproveitamento dos nutrientes no organismo do animal, na sua produção e até mesmo no consumo do alimento. Além disso, uma boa digestibilidade é importante para evitar que os ruminantes venham a apresentar enfermidades metabólicas como por exemplo a acidose metabólica. Com isso, há uma necessidade de que haja mais estudos com intuito de aprimorar melhor o conhecimento a respeito da utilização destes subprodutos na nutrição animal, incluindo na dieta das vacas em lactação, visando reduzir os custos com alimentação e melhorar a digestibilidade dos nutrientes, consequentemente aumentando a produtividade de leite os bovinos.

O presente estudo traz os valores dos açúcares redutores (1,19%), açúcares não redutores (1,46%) e açúcares solúveis (2,65%). Esses valores, respectivamente, demonstram a presença de carboidratos simples e complexos no FMB, indicando que o mesmo pode ser utilizado como alternativa de concentrado energético para vacas em lactação. Dalafini (2022), define alimentos concentrados energéticos os quais possuem em sua composição um teor menor que 18% de FB, podendo ser sub categorizados em concentrado energético (teor de proteína menor que 20%) e concentrado proteico (teor de proteína maior que 20%). A Embrapa (2014) acrescenta que o concentrado quando administrado corretamente pode influenciar de forma positiva o aumento da produtividade de leite, melhorar os índices reprodutivos e trazendo um aumento da lucratividade dentro da atividade leiteira. Gerude Neto et al. (2016) relata que a farinha do mesocarpo do babaçu pode ser usada como fonte alternativa de energia por causa dos carboidratos e introduzida na dieta de ovinos a um nível de 10% de matéria seca e o que passar desse nível pode trazer impactos negativos, diminuindo assim, o consumo, a digestibilidade e a energia disponível. Isso se dá pelo alto teor de carboidratos fibrosos.

Segundo Santos et al. (2020a) destacam, o mesocarpo do babaçu possui cerca de 75,1% de amido em sua composição nutricional e devido ao seu alto teor de amido, pode ser utilizado como alimento energético para os animais, contribuindo assim, para a redução dos custos em dietas ofertadas aos pequenos ruminantes.

A composição química do FMB apresenta variações significativas entre os autores, refletindo as diferenças regionais e metodológicas. Em relação ao teor de umidade, os valores variam de 12% no Rio de Janeiro (CAVALCATE NETO, 2012) a 15,8% em nível nacional (NEPA, 2011). Os teores de PB apresentaram variações expressivas em diferentes estudos. Segundo dados do NEPA (2011), os menores valores registrados foram de 1,4%, enquanto Cavalcante Neto (2012) relataram teores de 15,3%. Já Miotto et al. (2012), em pesquisa realizada no Tocantins, observaram que o farelo de babaçu apresentou teor de PB de 3,1%, enquanto o trabalho de Silva (2011), realizado no Piauí, apresentou 7,4%. Os lipídios foram mínimos em alguns estudos, como 0,2% (NEPA, 2011), e mais elevados em outros, como 2,7% em São Paulo (COURI; GIADA, 2016). O teor de cinzas variou de 0,8% no Piauí (SILVA, 2011) a 5% no Tocantins (RANGEL et al., 2011). Quanto à fibra alimentar total, os valores oscilaram entre 2,8% no Piauí (SILVA, 2011) e 20% no Tocantins (RANGEL et al., 2011). Por fim, os teores de amido, um parâmetro relevante para energia digestível, apresentaram ampla variação, indo de 60% no Tocantins (RANGEL et al., 2011) a 79,2% em nível nacional (NEPA, 2011). Essas discrepâncias nos dados reforçam a importância de se considerar a origem geográfica e os métodos analíticos utilizados nos estudos ao empregar o FMB na formulação de dietas para animais. Nesse sentido, análises bromatológicas regionais tornam-se fundamentais para garantir precisão nutricional, segurança alimentar e maior eficiência no uso desse subproduto na alimentação animal.

Diante da pesquisa realizada, observamos que o FMB pode ser introduzido de forma parcial e segura a uma concentração de 10% na dieta de ruminantes, em especial para vacas em lactação. Sendo utilizado como concentrado energético por conta do seu alto teor de açúcares solúveis, sendo considerado importantes fontes de energia para o desenvolvimento das atividades do metabolismo animal e na produção do leite. Além disso, este estudo mostra que o FMB possui um alto teor de digestibilidade, o que ajuda na digestão, absorção e aproveitamento dos nutrientes deste alimento. Com isso o FMB se destaca como uma alternativa de concentrado energético para ser utilizado na alimentação de bovinos. No entanto, não se recomenda utilizar este subproduto do babaçu como concentrado proteico, pois o seu teor de proteína tem se apresentado baixo no presente trabalho. Atualmente, existem poucos estudos relacionados com o uso do FMB na alimentação de vacas em lactação, por este motivo observa-se a necessidade de mais pesquisas para descrever o potencial desse subproduto na nutrição animal.

 

Conclusão

 

O farelo do mesocarpo do babaçu é um coproduto que pode ser utilizado na alimentação de animais ruminantes devido a sua disponibilidade na região e suas características bromatológicas. No entanto, há necessidade de estudos adicionais que, além de avaliar seu potencial de uso, investiguem a digestibilidade in vivo e a viabilidade de inclusão desse ingrediente na dieta de vacas leiteiras.

 

Conflitos de interesse

 

Não houve conflito de interesses dos autores.

 

Contribuição dos autores

 

Angela Maria Gomes Valério – análises químico-bromatológicas, interpretação dos resultados e redação; Andressa Gomes Valério – coleta do material, análises químico-bromatológicas, interpretação dos resultados e redação; Mayne Santos da Silva – análises químico-bromatológicas, interpretação dos resultados, redação e revisão do texto; Antonio Ariclezio Carlos Cruz, Hilton Lopes Júnior e Jomel Francisco dos Santos – orientações e correções.

 

Apoio financeiro

 

Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), por meio do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC).

 

Agradecimentos

 

Ao Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Rondônia (IFRO) – Campus Jaru/RO, por ceder o Laboratório de Química para realização das análises químico-bromatológicas. Aos produtores, Adilson Gomes Batista e Pedro Moreira dos Santos que doaram as amostras de coco de babaçu.

 

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Recebido em 15 de abril de 2026

Retornado para ajustes em 18 de maio de 2026

Recebido com ajustes em 28 de maio de 2026

Aceito em 1 de junho de 2026

Caracterização e avaliação do manejo e bem-estar de cavalos (Equus ferus caballus) de vaquejada no Estado da Paraíba, Brasil

Revista Agrária Acadêmica

agrariacad.com

doi: 10.32406/v9n3/2026/1-17/agrariacad

 

Caracterização e avaliação do manejo e bem-estar de cavalos (Equus ferus caballus) de vaquejada no Estado da Paraíba, Brasil. Characterization and evaluation of management practices and welfare of vaquejada horses (Equus ferus caballus) in the State of Paraíba, Brazil.

 

Ellen Vitória Barbosa do Carmo1*, Haylla Silva Alves2, Millena Araújo de Farias3, Anadélia Pinto Viana Correia3, Carlos Alberto Queiroz de Aquino3, Jéssica Luana de Medeiros Silva3, Edvaldo Sebastião da Silva4, Ruy Brayner de Oliveira Filho5, Isabella de Oliveira Barros6, Natália Matos Souza Azevedo7

 

1*- Discente de Medicina Veterinária, Centro de Ciências Agrárias – CCA , Universidade Federal da Paraíba – UFPB , Areia/PB – Brasil. Autor para correspondência. E-mail: barbosaellen55@gmail.com
2- Mestranda em Ciência Animal, CCA, Universidade Federal da Paraíba – UFPB , Areia/PB – Brasil.
3- Médico(a) Veterinário(a), CCA, Universidade Federal da Paraíba – UFPB , Areia/PB – Brasil.
4- Mestrando em Ciência Animal, CCA, Universidade Federal da Paraíba – UFPB , Areia/PB – Brasil.
5- Mestre em Ciência Animal Tropical, CCA, Universidade Federal da Paraíba – UFPB , Areia/PB – Brasil.
6- Doutora em Ciência Animal, CCA, Universidade Federal da Paraíba – UFPB , Areia/PB – Brasil.
7- Doutora em Medicina Veterinária, CCA, Universidade Federal da Paraíba – UFPB , Areia/PB – Brasil.

 

Resumo

 

A vaquejada é uma prática tradicional do Nordeste brasileiro que envolve a utilização de cavalos em competições, com impacto significativo na economia e na cultura regional. Este estudo teve como objetivo caracterizar e avaliar as condições de manejo e bem-estar dos cavalos utilizados na vaquejada no Estado da Paraíba, com ênfase na alimentação, infraestrutura, cuidados veterinários e monitoramento da saúde. A metodologia consistiu na aplicação de um questionário estruturado a criadores de cavalos de diferentes municípios, abordando aspectos como acesso à água potável, frequência alimentar, monitoramento da condição corporal, cuidados sanitários, e adequação das instalações. Os dados foram analisados de forma descritiva, com base em frequências e porcentagens. Os resultados indicaram que, em geral, os criadores demonstram preocupação com as necessidades básicas dos animais, como alimentação adequada e oferta de água sem restrições. No entanto, foram identificados pontos críticos, como a ausência de enriquecimento ambiental e a presença de riscos estruturais, como pisos escorregadios e pregos expostos. A pesquisa também revelou que muitos criadores não realizam acompanhamento veterinário regular, o que pode comprometer o bem-estar dos cavalos. A conclusão do estudo destaca que, embora a maioria dos criadores esteja adotando boas práticas, há a necessidade de ajustes no manejo, especialmente no que se refere ao enriquecimento ambiental, segurança das instalações e cuidados veterinários, para garantir uma melhoria contínua nas condições de vida e no desempenho dos cavalos em competições de vaquejada.

Palavras-chave: Equinos. Desempenho de cavalos. Saúde de cavalos.

 

Abstract

Vaquejada is a traditional practice in Northeastern Brazil that involves the use of horses in competitive events, with significant impacts on the regional economy and culture. This study aimed to characterize and evaluate the management conditions and welfare of horses used in vaquejada in the state of Paraíba, Brazil, with emphasis on feeding practices, infrastructure, veterinary care, and health monitoring. The methodology consisted of applying a structured questionnaire to horse breeders from different municipalities, addressing aspects such as access to potable water, feeding frequency, body condition monitoring, sanitary care, and adequacy of facilities. Data were analyzed descriptively based on frequencies and percentages. The results indicated that, in general, breeders demonstrate concern for the animals’ basic needs, such as adequate nutrition and unrestricted access to water. However, critical issues were identified, including the absence of environmental enrichment and the presence of structural risks, such as slippery floors and exposed nails. The study also revealed that many breeders do not carry out regular veterinary monitoring, which may compromise horse welfare. In conclusion, although most breeders adopt good management practices, adjustments are still required, particularly regarding environmental enrichment, facility safety, and veterinary care, in order to ensure continuous improvement in both the living conditions and the performance of horses used in vaquejada competitions.

Keywords: Equines. Horse performance. Horse health.

 

 

Introdução

 

A vaquejada é uma prática tradicional brasileira, originada das atividades de manejo do gado no sertão nordestino, quando os vaqueiros utilizavam cavalos para conduzir, apartar e capturar bovinos em áreas extensas. Com o passar do tempo, essa prática deixou de se restringir ao cotidiano das fazendas e consolidou-se como manifestação cultural, modalidade esportiva e atividade de relevância econômica em diferentes estados do país (FELIX e ALENCAR, 2011). No Brasil, a vaquejada envolve uma ampla cadeia produtiva, incluindo criadores, competidores, treinadores, tratadores, médicos-veterinários, comerciantes e organizadores de eventos, sendo especialmente expressiva na região Nordeste (SANTOS, 2017). Ao mesmo tempo, a atividade tem sido alvo de discussões científicas, jurídicas e éticas, principalmente em relação ao manejo, ao desempenho e ao bem-estar dos animais envolvidos (FALEIROS e ALVES, 2016; BRASIL, 2017; BRASIL, 2019).

Estudos realizados em diferentes estados brasileiros têm abordado a vaquejada sob diversas perspectivas, incluindo aspectos fisiológicos, sanitários, produtivos e relacionados ao bem-estar animal (LOPES et al., 2009; SILVA, 2017). Essas pesquisas evidenciam que os cavalos utilizados nessa modalidade estão sujeitos a rotinas específicas de treinamento, transporte, alojamento, alimentação e competição, fatores que podem influenciar diretamente sua condição física, seu equilíbrio fisiológico e sua qualidade de vida. Dessa forma, a avaliação das condições de manejo dos equinos de vaquejada torna-se necessária para identificar fatores de risco, propor melhorias nas práticas adotadas e fortalecer uma abordagem mais ética e sustentável da atividade (SCARPELLI et al., 2023).

No Nordeste brasileiro, especialmente no Estado da Paraíba, a vaquejada apresenta expressiva relevância cultural e econômica (HOLANDA e SARAIVA, 2023). Nessa atividade, os cavalos (Equus ferus caballus) desempenham papel central na realização das provas, o que exige preparo físico, treinamento adequado, transporte seguro, alojamento apropriado, alimentação balanceada, assistência veterinária e períodos de descanso (MELO et al., 2022). Assim, as condições de manejo adotadas antes, durante e após os eventos podem influenciar diretamente a saúde e o bem-estar dos equinos, bem como seu desempenho nas competições (BRASIL, 2015).

Estudos indicam que práticas de manejo inadequadas podem afetar a saúde e o bem-estar dos cavalos, provocando alterações físicas, comportamentais e aumento da suscetibilidade a doenças (OLIVEIRA e BARBOSA, 2023). No contexto da vaquejada, portanto, é essencial avaliar as condições em que os animais são mantidos, treinados e utilizados, a fim de garantir sua qualidade de vida e reduzir possíveis impactos negativos decorrentes da atividade (GARCIA e CAMURÇA, 2018).

O bem-estar de cavalos de trabalho, como aqueles usados na vaquejada, é um tema amplamente discutido na literatura científica. Broom (2010) define o bem-estar animal como a condição do indivíduo em relação às suas tentativas de adaptação ao ambiente, envolvendo aspectos físicos, fisiológicos e comportamentais. Esse conceito inclui, entre outros fatores, alimentação adequada, condições ambientais que favoreçam a saúde física e mental, possibilidade de expressar comportamentos naturais e cuidados veterinários regulares. No entanto, estudos realizados por Melo et al. (2022) e Lopes et al. (2009) destacam que, em muitos contextos rurais no Brasil, os animais podem ser submetidos a condições de manejo que não atendem plenamente a esses critérios, o que pode resultar em estresse, doenças, desnutrição, lesões e comportamentos estereotipados.

A avaliação das condições de manejo de equinos deve incluir a análise de diversos fatores, como acesso à água potável, qualidade e frequência da alimentação, monitoramento da condição corporal, presença de sinais de desnutrição e adequação do espaço onde os animais permanecem (MARTINS et al., 2021). Além disso, a infraestrutura dos estábulos ou baias, a segurança do ambiente, a regularidade de cuidados como vermifugação, vacinação, manutenção dos cascos e acompanhamento médico-veterinário são aspectos essenciais para garantir o bem-estar dos animais (SCARPELLI et al., 2023).

Apesar da relevância cultural, esportiva e econômica da vaquejada no Brasil, especialmente no Nordeste, ainda são necessárias investigações regionais que caracterizem as condições específicas de manejo e bem-estar dos cavalos utilizados nessa atividade. A adoção de práticas inadequadas pode afetar negativamente a saúde dos animais, comprometendo não apenas seu bem-estar, mas também seu desempenho nas provas (OLIVEIRA e BARBOSA, 2023). Nesse sentido, melhorias nas condições de manejo podem contribuir para a redução de lesões, estresse e doenças, além de promover práticas mais éticas e sustentáveis na vaquejada (FALEIROS e ALVES, 2016).

A presente pesquisa visa preencher a lacuna existente sobre o tema no Estado da Paraíba, contribuindo com informações que possam subsidiar melhorias no manejo e no bem-estar dos cavalos utilizados na vaquejada. Este trabalho tem como objetivo caracterizar e avaliar o manejo e o bem-estar de cavalos de vaquejada no Estado da Paraíba. A hipótese deste estudo é que as condições de manejo dos cavalos utilizados em vaquejada, especialmente no que diz respeito à alimentação, espaço, cuidados veterinários e infraestrutura dos estábulos, estão próximas do ideal para garantir o bem-estar desses animais. Dessa forma, o estudo contribui para ampliar o conhecimento sobre a atividade no contexto regional e para subsidiar práticas mais sustentáveis e éticas, considerando a importância cultural e econômica da vaquejada.

 

Material e métodos

 

O presente estudo foi conduzido com enfoque exploratório-descritivo e abordagem quantitativa, visando avaliar as condições de manejo e o bem-estar de cavalos utilizados em vaquejada em propriedades rurais da Paraíba. A pesquisa foi baseada na aplicação de um questionário estruturado a criadores de cavalos de diferentes regiões do Estado, buscando contemplar diversidade regional e representatividade geográfica.

A população do estudo compreendeu cavalos adultos utilizados em atividades de vaquejada no Estado da Paraíba, sendo os criadores ou responsáveis pelo manejo diário dos animais os participantes da pesquisa. Para a caracterização dos equinos, foram consideradas informações referentes à raça, idade e sexo, obtidas por meio do questionário aplicado aos responsáveis. Foram incluídos animais de diferentes padrões raciais utilizados na vaquejada, incluindo equinos da raça Quarto de Milha, mestiços e animais sem raça definida, com idades compatíveis com a fase adulta e em plena atividade esportiva. Quanto ao sexo, foram considerados machos, fêmeas e machos castrados, conforme a composição dos animais mantidos nas propriedades avaliadas.

O questionário continha perguntas relacionadas ao acesso à água potável e limpa, frequência e qualidade da alimentação, condição corporal, infraestrutura das baias e estábulos, espaço disponível, abrigo, cuidados veterinários, manutenção de cascos, sinais de estresse e reações ao manejo humano. Também foram consideradas informações sobre as condições gerais de criação e manejo, permitindo avaliar aspectos associados ao bem-estar animal.

A seleção das propriedades e criadores ocorreu de forma a abranger diferentes regiões do Estado, permitindo uma análise abrangente das práticas de manejo e das condições de bem-estar dos cavalos. A aplicação do questionário foi realizada com o auxílio do pesquisador para esclarecimentos, garantindo que todas as informações fossem registradas de forma correta.

Os dados obtidos foram analisados de forma descritiva, por meio de frequência e porcentagem das respostas, permitindo identificar padrões gerais relacionados ao perfil dos animais, às práticas de manejo e às condições de bem-estar. A discussão dos resultados foi realizada com base nas referências teóricas, relacionando as práticas observadas com conceitos de manejo adequado e bem-estar animal.

Todos os procedimentos adotados seguiram as normas éticas de pesquisa com animais e seres humanos, garantindo a confidencialidade das informações, o consentimento dos participantes e o respeito às práticas culturais locais.

 

Resultados e discussão

 

A amostra composta por 49 respondentes, distribuídos em diferentes municípios da Paraíba, permitiu caracterizar as práticas de manejo de cavalos utilizados na vaquejada em distintos contextos produtivos, conferindo representatividade aos dados obtidos.

A maioria dos criadores relatou fornecer acesso irrestrito à água potável (93,9%) (Gráfico 1), aspecto fundamental em regiões de clima quente, onde a hidratação adequada contribui diretamente para a termorregulação e manutenção do desempenho dos equinos (PALUDO et al., 2002; AAEP, 2026).

 

Gráfico 1 – Disponibilidade de água potável para cavalos de vaquejada em propriedades rurais da Paraíba.

 

A hidratação constante é crítica para a saúde digestiva e para a prevenção de desidratação, condições associadas a distúrbios metabólicos e de performance. As recomendações de manejo em equídeos atletas reforçam esse ponto (AAEP, 2024).

A frequência alimentar predominante de três vezes ao dia (84%) (Gráfico 2), associada ao uso de ração comercial e pastagem como base da dieta (Gráfico 3), indica um manejo nutricional voltado ao atendimento das demandas energéticas dos animais. A combinação de concentrado e volumoso sugere equilíbrio entre aporte energético e saúde digestiva, conforme recomendado para equinos submetidos a esforço físico intenso (BROOM, 2010; RODRIGUES NETO, 2017).

 

Gráfico 2 – Frequência de alimentação de cavalos de vaquejada em propriedades rurais da Paraíba.

 

A alimentação fracionada, conforme apontam Oliveira et al. (2016), é uma estratégia crucial para controlar os picos glicêmicos e otimizar o aproveitamento de nutrientes pelos equinos, fatores fundamentais para seu bem-estar e capacidade de execução nas provas.

 

Gráfico 3 – Composição da dieta de cavalos de vaquejada em propriedades rurais da Paraíba.

 

A combinação dessas fontes alimentares, no entanto, precisa ser cuidadosamente balanceada. Em sistemas intensivos de trabalho, como a vaquejada, onde os cavalos realizam exercícios de alto impacto, a alimentação deve fornecer a quantidade adequada de energia para suportar o esforço físico, mas sem comprometer a saúde digestiva. A presença de feno (14,3%) e outras combinações menores, como capim e ração (4,1%), feno e ração (8,2%) e pasto e ração (4,1%), sugere que os manejadores tentam equilibrar as necessidades energéticas com os requisitos de fibra, essencial para o bom funcionamento do trato gastrointestinal (PINSETA, 2022). Isso é especialmente relevante em regiões como a Paraíba, onde o clima semiárido pode impactar a disponibilidade de pastagem natural, o que torna o uso de feno e ração uma estratégia vital para garantir a alimentação contínua e equilibrada (LOPES et al., 2009).

A escolha da ração comercial como base para a alimentação é particularmente significativa, pois ela oferece energia concentrada e uma nutrição balanceada, de acordo com as necessidades específicas de cavalos atletas. Rodrigues Neto (2017) ressalta que a suplementação com ração é especialmente importante para equinos em treinamento, pois a energia rápida fornecida pela ração ajuda a manter o desempenho durante atividades intensas, como as exigidas na vaquejada.

Ao mesmo tempo, o pasto é uma fonte vital de fibra que ajuda na manutenção da saúde digestiva e previne problemas como cólicas, um dos distúrbios mais comuns em cavalos. Broom (2010) destaca que o fornecimento de pasto de boa qualidade, juntamente com fenos de capim ou leguminosas, é uma prática recomendada para garantir que os equinos mantenham uma digestão saudável, especialmente quando estão em atividades de alta demanda, como a vaquejada.

No entanto, como destacam Rodrigues Neto (2017) e Mariz et al. (2023), a dieta deve ser constantemente ajustada de acordo com a condição física e o nível de atividade do animal. O ajuste fino da alimentação para atender às necessidades de energia e fibra deve ser realizado com base em monitoramento de condição corporal, como sugerem os resultados do Gráfico 4, onde 73,5% dos respondentes relataram monitorar a condição corporal de seus cavalos regularmente. Isso é crucial para evitar problemas relacionados ao sobrepeso ou desnutrição e garantir que os animais estejam em boas condições para realizar as provas de vaquejada.

 

Gráfico 4 – Monitoramento da condição corporal de cavalos de vaquejada em propriedades rurais da Paraíba.

 

A qualidade da alimentação, portanto, está diretamente ligada à performance dos equinos e ao bem-estar geral, pois a combinação adequada de rações e forragem garante uma digestão eficiente, mantém a energia estável e previne doenças (BROOM, 2010). Como os cavalos de vaquejada são submetidos a um esforço físico significativo, um manejo alimentar balanceado é crucial para garantir que eles tenham a energia necessária para o desempenho e a recuperação adequada após os exercícios intensos, mantendo sempre uma boa condição corporal.

Em termos de infraestrutura, a maioria dos respondentes informou ter instalações adequadas para os cavalos, com 93,9% relatando a presença de abrigos contra sol e chuva (Gráfico 5). Esse dado sugere que a maioria dos criadores se preocupam com as condições climáticas adversas que podem afetar a saúde e o bem-estar dos seus animais, especialmente em um estado com clima quente e de alta exposição solar, como é o caso do Estado da Paraíba.

 

Gráfico 5 – Disponibilidade de abrigo para cavalos de vaquejada em propriedades rurais da Paraíba.

 

O abrigo contra sol e chuva é um fator essencial para reduzir o estresse térmico e garantir a saúde respiratória dos equinos, conforme relatado por Mariz et al. (2023), que enfatiza a importância do sombreamento e proteção contra a exposição direta à radiação solar, que pode causar desidratação, estresse térmico e outros problemas metabólicos. O bem-estar físico dos cavalos, especialmente em ambientes de trabalho intenso, está diretamente relacionado à qualidade do abrigo. O fato de 93,9% dos proprietários fornecerem abrigo adequado é um dado positivo, indicando que a maioria dos animais tem condições mínimas de proteção ambiental, que favorecem a recuperação do esforço físico e a manutenção de um desempenho saudável nas provas (BROOM, 2010).

No entanto, os 6,1% das propriedades que não fornecem abrigo aos seus cavalos representam um ponto crítico. Sem proteção adequada, os equinos ficam expostos ao calor excessivo e à chuva, fatores que podem prejudicar a saúde respiratória, aumentar a incidência de doenças térmicas e lesões musculoesqueléticas (SILVA e FRANCO, 2018). Lopes et al. (2009) relatam que a exposição prolongada ao calor excessivo e à umidade pode causar desidratação e excesso de suor, prejudicando a recuperação pós-atividade e afetando o desempenho atlético dos equinos.

O Gráfico 6 revela que 95,9% das propriedades fornecem espaço suficiente para que os cavalos possam se movimentar e descansar adequadamente. Apenas 4,1% dos respondentes indicaram que não há espaço suficiente para esses animais, o que representa uma pequena porcentagem dentro da amostra.

O espaço adequado para movimentação e descanso é essencial para o bem-estar físico e psicológico dos cavalos, permitindo que expressem comportamentos naturais, como caminhar e deitar-se confortavelmente. A falta de espaço pode gerar estresse e comportamentos estereotipados, como andar em círculos ou morder objetos, sinais de desconforto e falta de liberdade de movimento (BROOM, 2010; FIGUEIREDO et al., 2025).

A maioria dos criadores segue boas práticas de manejo ao oferecer amplo espaço, o que é crucial para a saúde muscular e esquelética, além de contribuir para a recuperação muscular após atividades intensas, como a vaquejada (MARIZ et al., 2023; SILVA e FRANCO, 2018). No entanto, as propriedades que não oferecem espaço suficiente correm o risco de prejudicar a saúde física e emocional dos cavalos, levando ao desenvolvimento de lesões e comportamentos indesejados, impactando negativamente o desempenho nas competições (PINSETA, 2022; BROOM, 2010).

 

Gráfico 6 – Disponibilidade de espaço para movimentação e descanso em propriedades rurais da Paraíba.

 

O Gráfico 7 revela que a maioria dos respondentes (89,8%) realiza a vermifugação regularmente, enquanto apenas 10,2% não seguem esse protocolo.

 

Gráfico 7 – Frequência de vermifugação em cavalos de vaquejada em propriedades rurais da Paraíba.

 

A alta taxa de vermifugação regular (89,8%) é um bom indicativo de que a maioria dos criadores está atenta à necessidade de prevenção de parasitas internos, que podem afetar a performance e o bem-estar geral dos cavalos.

Por outro lado, o dado de 10,2% dos respondentes que não realizam vermifugação regularmente aponta para uma possível lacuna no manejo sanitário em algumas propriedades. A ausência de vermifugação pode resultar em infestação por parasitas, o que pode prejudicar a saúde digestiva dos cavalos e afetar negativamente sua capacidade de recuperação após os esforços físicos da vaquejada (SILVA, 2015). A vermifugação deve ser parte de um protocolo de saúde integrado, que inclui o monitoramento da condição corporal e da saúde gastrointestinal, como recomendado por Oliveira et al. (2016).

Em comparação com outros estudos, como o de Broom (2010), que discute o manejo preventivo em equinos de trabalho, a alta taxa de vermifugação regular observada aqui é um ponto positivo, pois a prevenção de parasitas está diretamente ligada à melhoria do desempenho atlético e à longevidade dos animais. A vermifugação eficaz não só mantém os equinos livres de parasitas, mas também ajuda na manutenção da saúde geral, permitindo que os animais se apresentem nas melhores condições para as competições (RODRIGUES NETO, 2017).

De acordo com o gráfico, a maioria dos respondentes realiza a limpeza e manutenção dos cascos mensalmente (49,0%), seguida de semanalmente (28,6%) e diariamente (16,3%). Apenas 6,1% dos criadores indicaram que a limpeza dos cascos é feita raramente (Gráfico 8).

 

Gráfico 8 – Frequência de limpeza e manutenção dos cascos em cavalos de vaquejada em propriedades rurais da Paraíba.

 

 

A manutenção adequada dos cascos é uma prática crucial para a saúde e desempenho dos cavalos, principalmente para aqueles que são submetidos a atividades intensas, como a vaquejada. A frequência mensal e semanal de cuidados indica que a grande maioria dos criadores está atenta à importância dessa prática preventiva. Gontijo et al. (2018) destacam que a limpeza regular dos cascos ajuda a prevenir o acúmulo de sujeira e umidade, que podem levar a infecções fúngicas e bactérias nocivas, além de problemas de mobilidade, como a laminites.

Por outro lado, a manutenção rara dos cascos pode estar associada a riscos elevados de lesões e problemas articulares, especialmente em animais com alta exigência física. Pinseta (2022) relata que a falta de cuidados regulares pode comprometer a saúde musculoesquelética, afetando diretamente o desempenho e o bem-estar dos animais durante as provas de vaquejada. O acúmulo de sujeira e o desgaste irregular dos cascos podem levar a lesões nos tendões e articulações, prejudicando a capacidade dos cavalos de competir de maneira eficiente e segura.

A frequência ideal de manutenção, portanto, é mensal ou semanal, como sugerido por Rodrigues Neto (2017), que observa que intervalos maiores de limpeza podem resultar em maior acúmulo de resíduos, o que comprometeria o desempenho e a saúde do animal. A prática recomendada de realizar a limpeza de maneira sistemática, especialmente antes das competições, garante que os cavalos mantenham os cascos em boas condições, reduzindo riscos de lesões e melhorando a performance atlética.

O Gráfico 9 revela que 59,2% dos respondentes afirmam realizar acompanhamento veterinário periódico para seus cavalos, enquanto 32,7% dos criadores buscam atendimento apenas em emergências, e 8,2% não realizam acompanhamento veterinário.

 

Gráfico 9 – Acompanhamento veterinário em cavalos de vaquejada em propriedades rurais da Paraíba.

 

A presença de acompanhamento veterinário periódico para 59,2% dos cavalos é positiva, pois cuidados regulares são essenciais para prevenir doenças, monitorar a condição física dos animais e garantir a saúde geral, especialmente para aqueles que participam de atividades intensas como a vaquejada. O acompanhamento contínuo permite detectar problemas de saúde precocemente, evitando complicações durante as competições e melhorando o desempenho atlético dos equinos (GONTIJO et al., 2018; FALEIROS e ALVES, 2016).

Por outro lado, o fato de 32,7% dos respondentes procurarem o veterinário apenas em situações emergenciais e 8,2% não realizarem acompanhamento veterinário regular é preocupante, pois a falta de cuidados preventivos pode resultar em doenças não diagnosticadas, comprometendo o desempenho e a longevidade dos animais. A verificação periódica é uma forma importante de monitorar a saúde musculoesquelética e metabólica dos equinos, prevenindo problemas como lesões nos tendões ou articulações, que podem ser comuns em animais submetidos a atividades de alto impacto, como as exigidas pela vaquejada (RODRIGUES NETO, 2017; MARIZ et al., 2023).

A atenção veterinária contínua também é importante para garantir que os cavalos recebam as vacinas necessárias, cuidados com os cascos e outros tratamentos preventivos, como a vermifugação, que são fundamentais para manter a saúde dos animais em boas condições. Estudos anteriores ressaltam que o acompanhamento regular reduz a incidência de doenças infecciosas e problemas ortopédicos que podem afetar diretamente o desempenho nas provas (BROOM, 2010).

O Gráfico 10 mostra que 81,6% dos respondentes afirmaram que os cavalos não demonstram comportamentos estereotipados, enquanto 12,2% indicaram que esses comportamentos ocorrem às vezes, e 6,1% afirmaram que os cavalos frequentemente apresentam tais comportamentos.

A grande maioria dos criadores observa que seus cavalos não exibem comportamentos estereotipados, o que sugere que as condições de manejo e ambiente proporcionadas são adequadas, permitindo que os cavalos expressem comportamentos naturais e minimizando o estresse (BROOM, 2010; FIGUEIREDO et al., 2025). Comportamentos estereotipados, como andar em círculos ou morder objetos, são frequentemente sinais de frustração ou desconforto, decorrentes de ambientes de confinamento inadequado ou da falta de estímulos ambientais, como discutido por Mason (1991).

 

Gráfico 10 – Ocorrência de comportamentos estereotipados em cavalos de vaquejada em propriedades rurais da Paraíba.

 

No entanto, 12,2% dos respondentes relataram que os cavalos apresentam esses comportamentos ocasionalmente, o que indica que, em alguns casos, ainda há lacunas em termos de enriquecimento ambiental e estratégias de manejo. A ocorrência de estereotipias, embora menos frequente, pode ser um indicativo de que ações adicionais de enriquecimento e maior variação nas atividades dos equinos seriam benéficas para reduzir o risco de comportamentos repetitivos, como sugerem Sarrafchi e Blokhuis (2013).

Ainda, 6,1% dos criadores relataram que seus cavalos frequentemente apresentam comportamentos estereotipados. Esse dado é preocupante, pois comportamentos repetitivos podem indicar que os cavalos estão sendo submetidos a níveis elevados de estresse ou falta de estímulos adequados, o que afeta diretamente o seu comportamento e bem-estar emocional. Broom (2010) salienta que a falta de socialização e a falta de estímulos físicos e mentais são causas primárias desses comportamentos.

Portanto, enquanto a maioria dos criadores parece estar implementando práticas de manejo adequadas, o aumento do enriquecimento ambiental e a diversificação das atividades para os cavalos podem ser soluções importantes para reduzir a incidência de comportamentos estereotipados. Esses ajustes podem proporcionar aos cavalos mais oportunidades de expressar seus comportamentos naturais e reduzir o risco de frustração e estresse, promovendo um ambiente mais saudável e adequado para o seu desempenho nas competições de vaquejada (PINSETA, 2022; FIGUEIREDO et al., 2025).

Os dados indicam que 73,5% dos respondentes não oferecem enriquecimento ambiental para seus cavalos, enquanto 26,5% implementam algum tipo de estímulo ambiental, como brinquedos, variação no ambiente ou interações com outros animais (Gráfico 11). A ausência de enriquecimento é preocupante, pois a ociosidade e a falta de estímulos podem gerar comportamentos estereotipados, como andar em círculos ou morder objetos, sinais de desconforto emocional e estresse (SARRAFCHI e BLOKHUIS, 2013).

 

Gráfico 11 – Presença de enriquecimento ambiental para cavalos de vaquejada em propriedades rurais da Paraíba.

 

Em contrapartida, a prática de enriquecimento ambiental, adotada por 26,5% dos criadores, é essencial para reduzir o estresse e melhorar o comportamento dos cavalos. Enriquecimentos como comedouros lentos, bolas de atividade e espelhos aumentam o forrageio e a locomoção e reduzem comportamentos de frustração, favorecendo o bem-estar de equinos estabulados (BRAUNS et al., 2025). Além disso, Sarrafchi e Blokhuis (2013) apontam que a interação social e exposição a novos estímulos são cruciais para reduzir a agitação e o estresse nos equinos de trabalho, como os utilizados em vaquejada.

Embora a maioria dos criadores ainda não implemente essas práticas de enriquecimento, os criadores que o fazem estão oferecendo condições para o bem-estar psicológico dos cavalos, o que pode impactar positivamente no desempenho físico durante as competições.

O Gráfico 12 revela que 77,6% dos respondentes afirmaram que não observam sinais de medo ou agressividade ao lidar com os cavalos, enquanto 20,4% relataram que os cavalos demonstram esses sinais às vezes, e 2% indicaram que os cavalos apresentam medo ou agressividade com frequência.

 

Gráfico 12 – Ocorrência de sinais de medo ou agressividade em cavalos de vaquejada durante a interação com humanos.

 

A grande maioria dos criadores relataram que seus cavalos não demonstram medo ou agressividade, o que é um reflexo de manejos tranquilos e respeitosos, fundamentais para garantir o bem-estar psicológico dos animais. Broom (2010) enfatiza que a condução suave e paciente dos equinos reduz os níveis de estresse e melhora a interação entre tratadores e animais, criando um ambiente mais saudável para ambos. O trato gentil e cuidadoso não só previne respostas agressivas, mas também promove um desempenho mais equilibrado durante as provas de vaquejada.

Contudo, a presença ocasional de medo e agressividade (20,4%) sugere inconsistências no manejo humano–equino. Interações coercitivas, impacientes ou com sinais ambíguos tendem a elevar a reatividade e as respostas defensivas dos animais; em contraste, abordagens baseadas em aprendizado com sinais claros e reforço positivo estão associadas a menor medo e a comportamentos mais estáveis, com melhor relação tratador–cavalo (STARLING, 2016; HENDERSON, 2007).

Além disso, os 2% dos respondentes que indicaram que seus cavalos frequentemente apresentam sinais de medo ou agressividade alertam para a necessidade urgente de ajustes no manejo, como a implementação de treinamento baseado em reforço positivo. Evidências mostram que o reforço positivo melhora a percepção do cavalo sobre o humano e reduz comportamentos de evasão e estresse (SANKEY et al., 2010).

Sobre os sinais de estresse, os dados mostram que 85,7% dos respondentes não observam sinais frequentes de estresse em seus cavalos, enquanto 8,2% indicaram que esses sinais ocorrem ocasionalmente e 6,1% afirmaram que os sinais de estresse são frequentes (Gráfico 13).

 

Gráfico 13 – Ocorrência de sinais de estresse em cavalos de vaquejada em propriedades rurais da Paraíba.

 

A maioria dos criadores relataram que os cavalos não demonstram sinais de estresse frequente, o que é um indicativo de manejo adequado, com os cavalos sendo expostos a condições que favorecem a recuperação e o bem-estar geral. Equinos bem cuidados, com descanso adequado e um ambiente controlado, têm menor propensão a desenvolver sinais de estresse, como suor excessivo, inquietação e tremores, que são frequentemente indicativos de sobrecarga física (PINSETA, 2022; MARIZ et al., 2023). Como ressaltam Figueiredo et al. (2025), o manejo adequado e a gerenciamento de recuperação são fundamentais para reduzir o impacto do estresse térmico e físico em equinos de trabalho, principalmente os usados em atividades intensas como a vaquejada.

No entanto, 8,2% dos criadores observaram sinais de estresse ocasional em seus cavalos, o que sugere que em algumas propriedades ainda existem picos de esforço excessivo ou falta de descanso adequado após as competições. A falta de monitoramento constante da temperatura ambiente e do nível de esforço físico pode resultar em sintomas de estresse, como observado por Oliveira et al. (2016), que destacam a importância de ajustar as rotinas de treinamento para prevenir fadiga excessiva nos animais.

Por fim, a presença de 6,1% de cavalos com sinais de estresse frequentes indica a necessidade de ajustes imediatos de manejo. Evidências mostram que estímulos estressores repetidos, especialmente em contextos de competição e deslocamento, elevam marcadores fisiológicos e alteram respostas imunes, o que pode repercutir no desempenho e na susceptibilidade a enfermidades (PADALINO e RAIDAL, 2020; MILLER et al., 2021). Em cenários específicos de vaquejada, já se observaram sinais compatíveis com estresse durante as provas, reforçando a importância de protocolos de recuperação (LOPES et al., 2009).

Os resultados deste estudo destacam a importância de práticas adequadas de manejo para o bem-estar físico e psicológico dos cavalos utilizados na vaquejada. A maioria dos criadores segue práticas de manejo que garantem condições favoráveis fator essencial para a saúde e o desempenho dos cavalos. No entanto, situações pontuais de enriquecimento ambiental, ao manejo sanitário preventivo e à padronização das interações humano–animal, indicam que ainda há lacunas em alguns manejos que precisam ser corrigidas. O ajuste dessas práticas pode não apenas melhorar a qualidade de vida dos cavalos, mas também otimizar seu desempenho nas competições de vaquejada, garantindo que os animais sejam tratados com o respeito e os cuidados necessários para o sucesso a longo prazo.

 

Conclusões

 

Os resultados indicam que, de modo geral, os criadores adotam práticas adequadas de manejo, especialmente quanto à oferta de água, alimentação e condições de infraestrutura, contribuindo para a manutenção do bem-estar e do desempenho dos cavalos utilizados na vaquejada.

Entretanto, foram identificadas lacunas relevantes, principalmente relacionadas à ausência de enriquecimento ambiental e à baixa adesão ao acompanhamento veterinário periódico. Esses fatores podem comprometer o bem-estar físico e psicológico dos animais, bem como sua longevidade e desempenho.

Dessa forma, recomenda-se a adoção de medidas voltadas à melhoria das condições ambientais, à segurança das instalações e ao fortalecimento do manejo sanitário preventivo. A implementação dessas práticas é essencial para promover avanços no bem-estar animal e contribuir para a sustentabilidade das atividades de vaquejada.

 

Conflitos de interesse

 

Não houve conflito de interesses dos autores.

 

Contribuição dos autores

 

Ellen Vitória Barbosa do Carmo – coleta de dados, interpretação dos resultados e redação; Haylla Silva Alves – coleta de dados e redação; Millena Araújo de Farias – coleta de dados e redação; Anadélia Pinto Viana Correia, Carlos Alberto Queiroz de Aquino, Jéssica Luana de Medeiros Silva, Edvaldo Sebastião da Silva e Ruy Brayner de Oliveira Filho – revisão do texto; Isabella de Oliveira Barros e Natália Matos Souza Azevedo – orientações e correções.

 

Apoio financeiro

 

Os autores declaram que não houve apoio financeiro para a realização deste estudo.

 

Agradecimentos

 

Os autores agradecem a todos que contribuíram para a realização deste estudo, em especial aos entrevistados, pela disponibilidade e colaboração na coleta de dados.

 

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Recebido em 29 de abril de 2026

Retornado para ajustes em 18 de maio de 2026

Recebido com ajustes em 19 de maio de 2026

Aceito em 12 de junho de 2026