Revista Agrária Acadêmica
doi: 10.32406/v6n6/2023/17-26/agrariacad
Uso da farmacopuntura em subdoses hormonais comparada ao método convencional para indução de estro, taxa de prenhez e parto em ovelhas da raça Santa Inês. Use of pharmacopuncture in hormonal subdoses compared to the conventional method for inducing estrus, pregnancy rate and lambing in Santa Inês sheep.
Fernando Soares de Senna Quick1, Leonardo Rocha Vianna
2, Bruna Aparecida Lima Gonçalves
3*, Fabiana Cristina Varago
4
1- Graduação FEAD Minas. E-mail: fernandosennaquick@hotmail.com
2- Graduação UFMG. Mestre em Clínica e Cirurgia veterinária pela UFMG. Acupunturista, Homeopata, Medicina Tradicional Chinesa, Terapeuta Neural. E-mail: vetleo22@gmail.com
3- Graduação PUC Minas. Mestre em Ciência Animal pela UFMG. Acupunturista, Medicina Tradicional Chinesa, Terapeuta Neural. E-mail: bruna_alg@yahoo.com.br
4- Graduação UFMS. Mestre em Clínica e Cirurgia veterinária pela UFMG. Doutora em Ciência Animal pela UFMG. Acupunturista, Homeopata, Medicina Tradicional Chinesa, Terapeuta Floral e Reikiana. E-mail: varagovet@hotmail.com
Resumo
O uso de subdoses de medicamentos aplicadas em pontos de acupuntura produz um efeito semelhante à dose convencional, com a vantagem de ter menos efeitos colaterais e redução no custo do tratamento. Objetivou-se com esse trabalho avaliar a eficácia de subdoses hormonais nos pontos de acupuntura (acupontos): Bai Hui (espaço lombosacro), e VG 1 (Hou Hai). A aplicação foi de 10% da dose dos hormônios prostaglandina (Lutalyse®, Pfizer – SP, Brasil), e gonadotrofina coriônica equina – eCG (Novormon®). Observou que a farmacopuntura pode ser tão eficiente quanto os métodos convencionais de indução de estro e taxa de prenhez em ovelhas da raça Santa Inês. A farmacopuntura torna-se uma alternativa para a administração hormonal em protocolos de sincronização de estro e ovulação em ovelhas.
Palavras-chave: Acupuntura. Cio. Hormônio. Reprodução. Ruminantes.
Abstract
The use of subdoses of medication applied to acupuncture points produces an effect similar to the conventional dose, with the advantage of having fewer side effects and reducing the cost of treatment. The objective of this work was to evaluate the effectiveness of hormonal subdoses at acupuncture points (acupoints): Bai Hui (lumbosacral space), and VG 1 (Hou Hai). The application was 10% of the dose of prostaglandin hormones (Lutalyse®, Pfizer – SP, Brazil), and equine chorionic gonadotropin – eCG (Novormon®). It was observed that pharmacopuncture can be as efficient as conventional methods of inducing estrus and pregnancy rate in Santa Inês sheep. Pharmacopuncture becomes an alternative to hormonal administration in estrus and ovulation synchronization protocols in sheep.
Keywords: Acupuncture. Estrus. Hormone. Reproduction. Ruminants.
Introdução
As ovelhas são poliéstricas podendo ser estacionais ou não dependendo da raça e da latitude em que se encontram, sendo consideradas, quando sazonais, espécies de fotoperíodo negativo (dias curtos), com maior concentração de estros no outono e inverno. As fêmeas da raça Santa Inês são animais não estacionais que apresentam ciclicidade durante todo o ano. No entanto, mesmos nesses casos, a utilização da monta natural assistida pode ser interessante tendo em vista o melhor aproveitamento de mão de obra, a concentração da estação de parição e consequentemente a homogeneização dos lotes para comercialização (VARAGO et al., 2009).
Na espécie ovina, a secreção pulsátil de FSH ocorre a cada 5-6 dias, o que resulta em três pulsos da gonadotrofina durante o ciclo estral de 17 dias (BISTER; PAQUAY, 1983). Estes autores propuseram que os pulsos de FSH a cada 5-6 dias estão relacionados à emergência folicular, resultando em três ondas de crescimento folicular na maioria das ovelhas. Aproximadamente 80% das ovelhas apresentam três ondas de emergência folicular em um ciclo estral normal de 17 dias, com a última onda resultando em ovulação (NOEL et al., 1993; LEYVA et al., 1998).
Durante seu crescimento, os folículos dominantes inibem o desenvolvimento dos demais folículos do mesmo grupo, por um mecanismo que se baseia, principalmente, na supressão da liberação de FSH pela hipófise. Essa supressão está associada à produção de estrógeno e inibida pelo folículo dominante (GIL, 2003).
O ciclo estral pode ser manipulado por diversos fármacos, hormônios naturais ou sintéticos. Comumente são utilizados pressários intravaginais impregnados com progestágenos, que permanecem por 6 a 14 dias em contato com a mucosa, elevando a concentração plasmática de progesterona. Após a retirada do dispositivo, os animais manifestam estro e ovulam em até quatro dias (VARAGO et al., 2009). Com o objetivo de melhorar a sincronização do estro e obter melhores índices após a inseminação, alguns protocolos associam a utilização de gonadotrofinas, ex. 300 UI de eCG (gonadotrofina coriônica equina) aplicado 24 a 48h antes da retirada do dispositivo vaginal, podendo também ser utilizado o hCG (gonadotrofina coriônica humana) (FONSECA et al., 2004; FONSECA et al., 2005). Agentes luteolíticos também podem ser utilizados desde que o animal apresente corpo lúteo funcional (do 5° a 11° dia do ciclo estral em ovinos; estro = dia 0). Nestas condições, quando administrada a prostaglandina-F2-α, 60 a 70% das fêmeas apresentam estro dentro de 3 a 4 dias (RUBIANES, 2000). O protocolo baseado na inserção de implante de progesterona, aplicação de 300 UI de eCG e associação com prostaglandina tem sido o protocolo mais utilizado para a sincronização do estro na espécie ovina (VARAGO et al., 2009; SOUZA, 2013; CARDOSO et al., 2018).
A acupuntura vem sendo utilizada para tratamento de afecções dos sistemas nervosos, musculares, esqueléticos, tegumentares, comportamentais e reprodutivos (NETO; VIANNA, 2016). A acupuntura pode auxiliar na indução de estro (CARDOSO et al., 2018). São escolhidos, para o tratamento das abordagens reprodutivas, pontos relacionados aos órgãos, meridianos ou funções mais próximas (FERREIRA, 2003). Quanto à sua localização, os acupontos estão situados sobre meridianos que seguem o trajeto de nervos e vasos sanguíneos (KENDALL, 1989). O acuponto é definido geralmente por um ponto da pele com sensibilidade ao estímulo, caracterizado por resistência elétrica reduzida. Vários acupontos estão localizados em depressões superficiais nas junções musculares e são áreas cutâneas com grande concentração de terminações nervosas, plexos nervosos, mastócitos, vasos linfáticos, arteríolas e vênulas (SILVA, 2011).
Existem várias formas de estímulos dos pontos de acupuntura como o agulhamento, a moxabustão, a acupressão, a eletroacupuntura, laserpuntura, sangria, implantes de ouro ou fios cirúrgicos, além de injeções de substâncias (GONÇALVES et al., 2019). Os principais pontos indicados para o tratamento do anestro são o Bai Hui, VG1 (Hou Hai), VG2 (Vaso Governador), B23, B26 e Yanchi (ponto extra de acupuntura localizado a dois terços da distância entre a linha média e o ponto mais alto da tuberosidade ilíaca). Podem ser associados também os pontos VG4 e VC4. A estimulação por eletroacupuntura do Bai Hui e VG2 ou injeção de B12 nos pontos B23 e B25 é benéfica para o sistema gênito urinário (HOLIDAY, 1989). O acuponto Bai Hui é uma depressão localizada no centro do espaço lombo sacro (TAKADA, 2003) (Figura 1). E o VG1 (Hou Hai) localiza se na depressão exatamente entre a distância média da base ventral da cauda e o ânus (ARAÚJO et al., 2019b) (Figura 2).

Figura 1 – Acuponto Bai Hui. Fonte: Os autores.

Figura 2 – Acuponto VG 1, Hou Hai. Fonte: Os autores.
A estimulação com a acupuntura com micro doses de hormônio em certos pontos de acupuntura, como por exemplo, o Bai Hui e o VG1 (Hou Hai), estão historicamente associados com a reprodução e sabidamente altera os níveis plasmáticos de LH, FSH, Estradiol e progesterona (LIN, 1999; ARAÚJO, 2014; ARAÚJO et al., 2019b). Participam ativamente dos processos reprodutivos, os vasos extraordinários como Vaso Concepção (Ren Mai) e Vaso Governador (Du Mai) (LIN, 1999).
Muitos fatores interferem na resposta da fertilidade em fêmeas dentre os quais: raça, status nutricional, lactação, intervalo pós-parto, estação do ano, idade, protocolo utilizado na sincronização, tipo de inseminação artificial e o reconhecimento do estado fisiológico das fêmeas (COLAS, 1979; ROBINSON, 1979; FONSECA et al., 2005).
A importância desse trabalho é demonstrar como a aplicação de 10% da dose dos hormônios prostaglandina (Lutalyse®, Pfizer – SP, Brasil), e eCG (Novormon®) nos pontos de acupuntura Bai Hui e VG1 (Hou Hai) pode ser tão eficiente quanto os métodos convencionais de indução de estro em ovelhas da Raça Santa Inês.
Diante do crescimento da ovinocultura no Brasil, e da necessidade da avaliação do custo/benefício nos sistemas de produção, o objetivo do presente trabalho foi comparar o método convencional utilizando-se a dose total da PGF2 alfa e eCG, e a utilização de um décimo da dose hormonal injetada em pontos de acupuntura para a indução de estros na espécie ovina, bem como avaliar a eficácia de subdoses hormonais nos pontos de acupuntura (acupontos): Bai Hui (espaço lombosacro), e VG 1 (Hou Hai). A aplicação foi de 10% da dose dos hormônios prostaglandina (Lutalyse®, Pfizer – SP, Brasil) e gonadotrofina coriônica equina – eCG (Novormon®).
Material e métodos
O trabalho foi realizado nos meses de outubro e novembro e a observação de partos se estendeu até maio, na Fazenda Paciência, situada no Município de Esmeraldas em Minas Gerais. A fazenda é da família de um dos autores com isso houve permissão para a realização do trabalho, o manejo visando o bem-estar foi respeitado. Os animais iriam receber de qualquer forma o tratamento hormonal, mas foram separados em grupos um com dosagem convencional e outros dois com a farmacopuntura.
Foram utilizadas 33 borregas nulíparas da raça Santa Inês de idade variando de 18 a 20 meses, escore corporal 3,5 (escala de 1 um a 5 cinco) e peso médio de 40kg. Estes animais foram mantidos em criação de sistema semi-intensivo a pasto, recebendo ração no cocho duas vezes ao dia, capim picado e cana de açúcar (Pennisetum purpureum e Saccharaum officinarum) com sal mineral e água a vontade.
As borregas foram previamente selecionadas quanto ao estado nutricional, clínico geral, sanitário e reprodutivo e foram vermifugadas 30 dias antes da sincronização do estro com albendazol (15mg/Kg/animal). Todas as borregas receberam um brinco amarelo na orelha esquerda do tipo (TIP TAG®), o G2 (Hou Hai) recebeu além do brinco uma coleira de cor verde, o G3 (Bai Hui) recebeu uma coleira no pescoço de cor vermelha, o G1 não recebeu coleira.
A indução do estro foi realizada através de implante vaginal de progesterona, para os grupos G1 (Dose Total) e G2 (Hou Hai) e G3 (Bai Hui), (11 fêmeas por grupo), sendo o dia de aplicação do implante considerado como dia zero (dia 0). O aplicador do implante era borrifado com Terra Cortril® (Pfizer – SP, Brasil) para evitar vaginite posterior. No (dia 0) as borregas também receberam aplicação da prostaglandina (Lutalyse®, Pfizer – SP, Brasil), de acordo com o tratamento como descrito a seguir:
Grupo 1 (G1 – dose total) – recebeu 1ml de PGF-2α, por via intramuscular;
Grupo 2 (G2 – Hou Hai) – recebeu 1 décimo da dose do G1, 0,1ml de PGF-2α (diluído em 0,9 ml de soro fisiológico) no ponto de acupuntura VG1(Hou Hai);
Grupo 3 (G3 – Bai Hui) – recebeu 1 décimo da dose do G1, 0,1ml de PGF-2α (diluído em 0,9 ml de soro fisiológico) no ponto de acupuntura Bai Hui.
Para que não houvesse diferença de volume injetado na aplicação dos grupos 2 e 3, foi adicionado o volume de 0,9 ml de soro fisiológico a dose hormonal totalizando de 1 ml.
Os animais foram observados diariamente pela manhã e à tarde a partir do dia 0, para verificação da permanência do implante intravaginal. No caso de perda, o número do animal e a data em que este perdeu o implante foram anotados.
Os implantes intravaginais foram retirados oito dias após a sua colocação, ocasião na qual os animais receberam também a aplicação de hormônio eCG (Novormon®) de acordo com o grupo experimental como descrito a seguir:
G1 (G1 – dose total) – recebeu 1ml de eCG, que equivale a 200UI por via intramuscular;
G2 (G2 – Hou Hai) – recebeu uma dose 10 vezes menor que o G1, de 20UI (diluídos no mesmo volume – 1ml) no ponto de acupuntura VG1 (Hou Hai);
G3 (G3 – Bai Hui) – recebeu uma dose 10 vezes menor, de 20UI (diluídos no mesmo volume – 1ml) no ponto de acupuntura Bai Hui.
Após a realização do protocolo as borregas foram colocadas todas juntas, e separadas aleatoriamente em novos grupos de 11 animais como descrito a seguir: 3 animais do G1, 4 animais do G2, e 4 animais do G3 foram colocados com o reprodutor R1. Com o reprodutor R2 ficaram 4 animais do G1, 3 animais do G2 e 4 animais do G3. Com o reprodutor R3 ficaram 4 animais do G1, 4 animais do G2 e 3 animais do G3.
Este procedimento foi adotado para permitir que todos os reprodutores tivessem contato com as matrizes de todos os grupos de forma que o efeito do reprodutor nos tratamentos pudesse ser reduzido ao máximo.
Após a visualização da cobertura, que foi o parâmetro utilizado para avaliar a manifestação do estro, cada borrega era retirada do lote. Esse manejo foi adotado para evitar que o reprodutor cobrisse várias vezes uma mesma borrega e dessa forma perdesse o cio dos outros animais. Os reprodutores foram marcados com uma tinta do tipo Xadrez de cor amarela no esterno para que as fêmeas ficassem marcadas após a monta. Todos os animais que apresentaram cio foram cobertos pelos reprodutores uma única vez. Nos dois dias seguintes (D9 e D10), os animais permaneceram com os reprodutores, sendo que a observação das coberturas ocorreu até o final do D10, quando os machos foram retirados do meio das borregas.
O diagnóstico de gestação foi realizado por ultrassonografia trans retal (Mindray, transdutor 75L50EAV 7,5 MHz) 30 dias após a realização da monta natural assistida e as ovelhas foram acompanhadas até o parto.
Resultados e discussão
Durante o período em que as borregas permaneceram com os reprodutores os seguintes achados foram observados:
Dia 8- 4 animais apresentaram cio, sendo 2 animais do G1, 1 animal do G2 e 1 animal do G3;
Dia 9- 12 animais apresentaram cio, sendo 7 animais do G1, 2 animais do G2 e 3 animais do G3;
Dia 10- 3 animais apresentaram cio, sendo 1 animal do G2 e 2 animais do G3.
Apenas um animal do G1 perdeu implante e este não apresentou cio ao término do protocolo. No G2 e no G3 mesmo os animais que perderam o implante apresentaram cio e foram cobertas. No G2 4 animais perderam o implante e no G3 5 animais perderam o implante (Tabela 1).
Tabela 1 – Manifestação de cio.
Grupos |
Número de animais |
Número de animais em cio |
Grupo G1 (Controle) |
11 |
9 |
Grupo G2 (Hou Hai) |
11 |
4 |
Grupo G3 (Bai Hui) |
11 |
6 |
É possível observar também, que em se tratando de fêmeas nulíparas, mesmo a dose total não foi suficiente para a indução de cio de todas as ovelhas.
Este trabalho possivelmente não obteve resultados mais satisfatórios, pois suspeita-se que o fato de os grupos experimentais terem perdidos uma maior quantidade de implantes intravaginais e isso pode ter afetado o resultado.
Nesse estudo utilizou 10% da dose dos hormônios, mas Souza (2013) constatou que a dose de 30% de hormônio no acuponto Bai Hui foi eficiente para sincronização de estro e ovulação de ovelhas Santa Inês, com menor custo. Com o objetivo de verificar se uma dose ainda menor seria eficiente, foi utilizada 10% a dose para esse estudo.
Após avaliação ultrassonográfica, observou se o número de animais prenhes, como observamos na Tabela 2.
Tabela 2 – Taxa de prenhez dos animais nos grupos experimentais 1, 2 e 3.
Grupos |
Número de ovelhas disponíveis |
Número de ovelhas prenhas |
Grupo G1 (Controle) |
11 |
6 |
Grupo G2 (Hou Hai) |
11 |
4 |
Grupo G3 (Bai Hui) |
11 |
4 |
Outra situação que também pode ter interferido nos resultados de taxa de gestação é a possível ocorrência de cios de curta duração, silenciosos aos quais possivelmente não foram detectados pelo reprodutor.
Ainda que, no manejo reprodutivo de ovinos os protocolos de sincronização e indução de cio tenham passado por redução de custos nos últimos anos, o valor dispendido mais a necessidade de mão-de-obra qualificada para realização da técnica (BODIN et al., 1997) geram uma despesa extra para a atividade. Diante desse resultado a utilização de subdoses em pontos de acupuntura demonstra ser um bom método, com redução do custo em medicamentos na indução de cio. Com o uso da técnica de aplicação de medicamento unido a acupuntura (farmacopuntura) conseguimos diminuir a quantidade de hormônios aplicados nos animais, diminuindo assim o custo de produção e melhorando a relação custo/benefício (BARBOSA et al., 2013; FONSECA; VIANNA, 2016; ARAÚJO et al, 2019b). De acordo com diversos estudos, o uso de subdoses em pontos de acupuntura produz um efeito longo e similar à dose convencional, com a vantagem de causar menos efeitos colaterais (GLÓRIA, 2017). O número de animais vivos ao final foi o mesmo para os três grupos (Tabela 3).
Ainda que uma maior manifestação de coberturas tenha sido observada no grupo 1, essa superioridade não se manteve para a taxa de cordeiros nascidos vivos. É possível que uma maior concentração hormonal tenha interferido na qualidade do ambiente uterino resultando em embriões de menor qualidade que não foram eficientes em chegar ao final da gestação. Conforme citado por Barbosa e colaboradores (2013) e Souza (2013), o uso de farmacopuntura com hormônio em acupontos, como, por exemplo, os acupontos Bai Hui e o Vaso Governador 1 (VG1), estão associados com a reprodução e sabidamente alteram os níveis plasmáticos de LH, FSH, estradiol e progesterona, indicando que pode ser usada no tratamento de desordens reprodutivas.
Tabela 3 – Taxa de prenhez e partos vivos dos animais nos grupos 1, 2 e 3.
Grupos |
Número de animais |
Número de cio |
Número de ovelhas prenhas |
Número de partos com crias vivas |
G1 (Controle) |
11 |
9 |
6 |
4 |
G2 (Hou Hai) |
11 |
4 |
4 |
4 |
G3 (Bai Hui) |
11 |
6 |
4 |
4 |
Obs.: no G1 (dose total) ocorreu um aborto e um natimorto.
Em outras espécies (bovinos, equinos) trabalhos demonstram eficácia semelhante entre dose total e 10% da dose de hormônio injetada em pontos de acupuntura (ARAÚJO, 2014; FONSECA; VIANNA, 2016; CRUVINEL; VIANNA, 2017). Araújo e colaboradores (2019a) recomendam o uso de subdoses hormonais nos acupontos Bai Hui e Hou Hai para sincronização de estro em cabras.
De acordo com Araújo e colaboradores (2019a) e Cruvinel e Vianna (2017) a farmacopuntura torna-se uma alternativa para a administração hormonal em protocolos de sincronização de estro e ovulação, técnica vantajosa e viável na prática clínica veterinária.
A dose de hormônio utilizada nesse trabalho para estímulo de ovulação nas ovelhas foi de 200 UI de eCG (gonadotrofina coriônica equina) por animal, devido a experiência de uma das autoras, na sua rotina clínica em ovinos. Muitos outros trabalhos demonstram doses maiores com 300 UI em animais de raças europeias, o que supostamente poderia estimular exageradamente as raças nacionais, e a longo prazo podendo ser prejudicial ao sistema reprodutivo dos animais.
Conclusões
A ovinocultura é uma atividade em expansão no Brasil e há necessidade de inovação e ampliação de técnicas associadas à reprodução.
Este trabalho traz os resultados do trabalho realizado com indução de cio pelo método de subdoses de hormônio em pontos de acupuntura em ovelhas da raça Santa Inês no Brasil e evidenciou o custo-benefício da farmacopuntura em grandes rebanhos.
Em estações de monta consecutivas as aplicações de doses menores de hormônios podem se mostrar mais eficientes em relação a dose total devido a sobrecarregar menos o organismo, e causar um menor acúmulo de hormônios na carne e no tecido adiposo.
A necessidade de melhorar as técnicas e opções de tratamento leva a técnicas associadas a outras medicinas, seguras e efetivas.
As pesquisas em acupuntura traduzem estes conhecimentos milenares, contribuem para sua aceitação e incorporação, beneficia o bem-estar humano e animal. Estudos têm demonstrado que o uso da acupuntura na medicina veterinária tem apresentado resultados satisfatórios para diversos tratamentos.
A associação de técnicas no manejo reprodutivo é um ponto chave na ovinocultura trazendo melhorias de ordem genética, manejo e consequentemente de produção, gerando uma maior rentabilidade ao produtor.
A indução da ovulação em ovelhas nulíparas utilizando subdoses hormonais é satisfatória e se traduz em menor custo para a propriedade rural.
Na espécie ovina, mais trabalhos são necessários para entender melhor a reprodução natural comparada as ações humanas na tentativa de facilitar o manejo e minimizar os custos.
Contribuição dos autores
Os autores declaram que todos contribuíram por igual na confecção deste artigo.
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Recebido em 2 de outubro de 2023
Retornado para ajustes em 9 de janeiro de 2024
Recebido com ajustes em 13 de janeiro de 2024
Aceito em 16 de janeiro de 2024