Aspectos do manejo sanitário abordado no intervalo entre lotes de aves de corte – breve revisão de literatura

Revista Agrária Acadêmica

agrariacad.com

doi: 10.32406/v6n6/2023/27-36/agrariacad

 

Aspectos do manejo sanitário abordado no intervalo entre lotes de aves de corte – breve revisão de literatura. Aspects of health management addressed in the interval between batches of meat birds – brief literature review.

 

Gabriely Amaro de Oliveira Borges1, Fábio Aurélio Moreira2

 

1- Mestranda do Programa de Pós-graduação em Produção Sustentável e Saúde Animal – Universidade Estadual de Maringá – UEM, Campus Umuarama – PR. E-mail: gabriely.aborges@gmail.com
2- Mestrando do Programa de Pós-graduação em Produção Sustentável e Saúde Animal – Universidade Estadual de Maringá – UEM, Campus Umuarama – PR. E-mail: fabioaurelio_cia@hotmail.com

 

Resumo

 

O cenário da avicultura de corte no Brasil possui grande destaque atualmente, o país é o segundo maior produtor e o primeiro maior exportador. Para garantir a produção eficiente, o manejo sanitário adequado das aves durante todo o ciclo de produção se faz necessário, visto isso, o intervalo entre lotes e todo o processo sanitário envolvido nesse período representa um fator crucial no bom desempenho das aves. O objetivo dessa revisão é discutir os principais tópicos executados no manejo sanitário do intervalo entre lotes de aves de corte, sendo assim, foram realizadas pesquisas em artigos científicos e revistas especializadas no assunto. Constatou-se que diferentes métodos podem ser atribuídos nesse período, no entanto, todos esses buscam o mesmo objetivo que é a redução máxima da carga microbiológica do ambiente, a fim de evitar contaminações e disseminação de doenças, maximizando o potencial zootécnico dessas aves.

Palavras-chave: Avicultura de corte. Biosseguridade. Desinfecção. Vazio sanitário.

 

 

Abstract

 

The scenario of broiler farming in Brazil is currently highly prominent, with the country ranking as the second-largest producer and the leading exporter. To ensure efficient production, proper sanitary management of the birds throughout the production cycle is essential. Consequently, the interval between batches and the entire sanitary process involved in this period play a crucial role in the birds’ optimal performance. The objective of this review is to discuss the main topics addressed in the sanitary management of the interval between batches of broiler chickens. For this purpose, research was conducted in scientific articles and specialized journals on the subject. It was observed that different methods can be employed during this period; however, all of them share the common goal of achieving the maximum reduction in the microbiological load of the environment to prevent contamination and the spread of diseases, thereby maximizing the zootechnical potential of these birds.

Keywords: Broiler farming. Biosecurity. Disinfection. Sanitary break.

 

 

  1. Introdução

 

A indústria de avicultura de corte no Brasil assume uma posição de destaque, com o país classificado como o segundo maior produtor mundial de carne de frango e além disso, mais de 33% dessa produção é destinada à exportação, consolidando o Brasil como o principal exportador global desse produto (ABPA, 2023). A carne de frango representa uma importante fonte de nutrição em diferentes classes sociais e, esse alimento destaca-se pelo alto teor proteico e boa digestibilidade (ANDRADE, 2019). No último ano, o consumo per capita dos brasileiros foi de 45,2 kg, valor esse notavelmente maior quando comparado com a carne suína, com 18 kg por habitantes (ABPA, 2023), isso se dá muito devido ao baixo custo econômico desse alimento, sendo esse valor favorecido por se tratar de um sistema de produção com diversas vantagens, como o menor ciclo de produção dessas aves, necessidade de menor área de produção e alto nível tecnológico disponível atualmente (MORAISA; COHIM, 2022), além disso, a crescente procura por essa carne está relacionada com a agilidade do preparo, baixa porcentagem de gordura, elevada qualidade nutricional e, também, por não apresentar restrição a diferentes grupos religiosos (CORDEIRO et al., 2019).

Diante disso, é necessário um sistema de produção eficiente, visto que a garantia da produção na avicultura de corte está intrinsecamente ligada à habilidade de gerenciamento de forma eficaz para com os aspectos críticos da produção, entre eles o manejo sanitário das aves (TEIXEIRA, 2017). O programa de biosseguridade instituído na avicultura de corte é uma prática eficiente para um esquema profilático de enfermidades, pois colabora com a circulação mínima de microrganismos patogênicos entre as aves do plantel (BALLESTER, 2023), além disso, o programa proporciona ás aves que elas tenham bem-estar e alcance bons resultados de rendimento de carcaça e objetiva a garantia da segurança alimentar para os consumidores (ROSS, 2018).

A biosseguridade pode ser definida como um conjunto de ações que evitam o surgimento de doenças no plantel por meio de uma combinação de práticas, ou seja, uma série de medidas preventivas (TASIE; WILCOX; KALIO, 2020). Dessa maneira, o manejo adequado de biosseguridade é de fundamental importância e muito necessário para diminuir os obstáculos sanitários que são acarretados devido maior adensamento das aves e menor intervalo entre lotes (SCHMIDT; SILVA, 2018). O intervalo entre lotes na produção de aves de corte é um fator de extrema importância na cadeia produtiva, é estimado que 60% a 70% do resultado do lote seguinte é ligado aos procedimentos abordados com o intervalo de lote anterior (MATTÉ, 2021). Portanto, o sistema de vazio sanitário é indispensável após realizado os processos de limpeza e desinfecção das instalações, impedindo o desenvolvimento de agentes patogênicos presentes no plantel antigo (GIRALDELLO et al., 2021). O objetivo dessa revisão é abordar a importância do intervalo entre lotes e o manejo sanitário que deve compor esse período.

 

  1. Metodologia

 

Foram utilizadas plataformas de banco de dados para pesquisa de artigos científicos como Scielo, Science Direct, Periódicos CAPES, ResearchGate, além de publicações de sites e revistas especializadas em avicultura. Para a busca foram utilizados os termos “avicultura de corte”, “vazio sanitário”, “manejo de aves de corte”, “intervalo entre lotes” e “biosseguridade”. Foram excluídas as publicações que discutiam a criação de frangos de corte no método extensivo e de linhagem caipira, mantendo assim, as publicações voltadas ao sistema de criação de frangos de corte no sistema intensivo. Procurou-se limitar a pesquisa dando ênfase nos artigos publicados nos últimos 5 anos.

 

  1. Revisão de literatura

 

3.1 Manejo pós retirada das aves

 

O manejo sanitário é uma das principais condutas para assegurar que não ocorra a introdução de agentes patogênicos no plantel ou que microrganismos presentes não se multipliquem (JAENISCH, 1999), mesmo que a esterilização dos galpões e suas dependências seja impossível de ser realizada, a finalidade dos métodos de higiene e limpeza é reduzir a carga microbiana e evitar que estes se reinstalem em novos locais (COBB, 2019). 

A sanitização da granja abrange um leque de procedimentos que devem ser seguidos para que desinfecção com o uso de produtos químicos seja eficaz, caso contrário, seu uso isolado não é eficiente (COBB, 2009). O manejo sanitário associado ao vazio sanitário do intervalo entre lotes faz parte das condutas de biosseguridade e acontece a partir do momento em que um lote é retirado e enviado ao abate até a chegada de um novo e sua duração não é definida por um consenso, no entanto é recomendado que seja adotada por no mínimo 15 dias (BASSI et al., 2006; GIRALDELLO et al., 2021), porém, a maioria das integradoras empregam o intervalo entre lotes de 7 a 10 dias, todavia, a redução desse período pode ocasionar problemas no lote seguinte elevando o potencial de infecção (MATTÉ, 2021).

De acordo com Cobb (2019), granjas que reutilizam a cama demandam de no mínimo 14 dias de inatividade, porém se o sistema for apto ao programa livre de antibióticos esse tempo deve ser estendido para 18 dias ou mais. O reaproveitamento da cama aviária entre os lotes contribui com a viabilidade do sistema de produção e com os impactos ambientais, entretanto para isso, as ações tomadas devem ser respaldas por meio da adoção de procedimentos sanitários adequados (VAZ et al., 2017).

 

3.2 Limpeza seca do galpão

 

Após a saída completa do lote simultaneamente, deve-se iniciar a limpeza do aviário de maneira imediata, sendo ela dividida em limpeza seca e limpeza úmida (VIEIRA; CAFÉ, 2015). O sistema de limpeza seca se inicia com a retirada das sobras de ração dos comedouros, contudo, o reaproveitamento do alimento deve ser analisado tendo em vista o status sanitário do lote recém retirado (COBB, 2019; VIEIRA; CAFÉ, 2015). A aplicação de inseticidas deve ser feita logo em seguida, com a cama ainda quente, evitando que os insetos migrem da cama para outros locais (ROSS, 2018). Dito isto, principal inseto responsável por problemas na avicultura é chamado de cascudinho (Alphitobius diaperinus), esse inseto é um importante vetor de patógenos, destacando-se a Salmonella spp. e a Escherichia coli (BALLESTER, 2023). Ainda, ele pode servir como alimento alternativo para as aves, afetando no consumo de ração e interferindo no seu desempenho zootécnico (LEFFER et al., 2010).

O grupo de inseticidas piretróides são os mais utilizados para o controle de cascudinhos nas granjas, sua eficácia é considerada alta e a sua absorção é feita a partir do contato direto, ademais, sua aplicação é restrita ao período de intervalo entre lotes, dessa maneira é importante respeitar e utilizar as doses e aplicações recomendadas pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (BALLESTER, 2023). Em situações onde ocorra infestações graves de cascudinhos, uma nova aplicação de inseticida pode ser realizada logo após o término do processo de desinfecção (COBB, 2019).

Em sequência à aplicação do inseticida, deve ser feito a retirada de toda poeira e teias de aranhas de toda a granja, isso inclui ventiladores, telas, cortinas, teto, paredes, vigas de sustentação e todo mais local passível de acumular sujidade, para tal fim pode-se utilizar sopradores ou escovas, e, após a esse processo comedouros e bebedouros automáticos devem ser erguidos para dar sequência a limpeza do galpão, caso não sejam do tipo automático, esses utensílios e todos os demais objetos devem ser retirados (ROSS, 2018). Os equipamentos que são desmontáveis devem ser lavados, caso contrário esses devem ser limpos com compressor de ar (KUANA, 2009).

 

3.3 Manejo da cama

 

A cama pode ser reaproveitada ou então completamente retirada para a entrada do próximo lote, para que a cama possa ser reutilizada, alguns procedimentos precisam ser adotados, como por exemplo a queima de penas com o uso de lança-chamas ou vassoura de fogo, além dessa função propriamente dita, essa ocasião promove a queima de larvas e insetos e a diminuição da carga bacteriana do local (RIBEIRO, 2016).

O reuso da cama é indicado quando não há problemas sanitários com o lote, como por exemplo problemas respiratórios que levaram a alta mortalidade e outros desafios, ainda, de acordo com recomendações normativas não é permitido a reutilização da cama em casos de salmonelas imóveis e Salmonella enteritidis e Salmonella Typhimurium (GRANDO, 2022). No caso da cama ser retirada para deposição de uma nova, ela deve ser umedecida para diminuir a suspensão da poeira e em seguida aplicado o uso  da vassoura de fogo no chão para diminuir a carga bacteriana local, além de reduzir os restos de matéria orgânica (BASSI et al., 2006; VIEIRA; CAFÉ, 2015).

Para o reuso da cama, é necessário que seja feito a lavagem do galpão e equipamentos presentes utilizando somente água, anteriormente as etapas que serão tomadas para a sua reutilização, no entanto, essa limpeza deve ser sem o uso de detergentes, somente com jato de alta pressão para que as sujidades presentes sejam retiradas de forma rápida, isso consequentemente resultará em uma cama úmida, porém ao final do processo a mesma não poderá estar encharcada (ROSSETTO et al., 2021). Somente a queima das penas presentes na cama não é suficiente para fazer o seu reaproveitamento, dessa maneira, após esse processo, algumas medidas devem ser tomadas para diminuir a carga bacteriana desse material (RIBEIRO, 2016). De acordo com Vaz et al., (2017) os tratamentos empregados para a reutilização da cama mais comumente utilizados no Brasil, são eficazes na eliminação de Salmonella Enteritidis bem como na diminuição de enterobactérias totais e mesófilos aeróbicos. Quando a cama não for reaproveitada, a mesma deve ser retirada do galpão em veículo coberto evitando assim que poeira se espalhe pelo local, além disso, é indicado que o material seja despejado a pelo menos 3,2 km de distância de alguma granja e destinado conforme a regulamentação vigente para o local (ROSS, 2018), todavia, se a cama for utilizada como fertilizante para o solo, é necessário que a mesma passe por um processo de fermentação previamente (ROSSETTO et al., 2021).

Diferentes métodos podem ser aplicados para o reuso da cama de frango, sendo um deles o método de adição de cal, onde após a retirada do lote é feito a queima das penas, a cama então é revolvida e novamente é feito a queima do restante de penas, em seguida a cama deve ser revolvida e mantida em repouso de 2 a 3 dias, afim de uma secagem do material e remoção da amônia presente e então logo após é aplicado 300g/m2 de cama de cal virgem,  podendo ser cal virgem ou hidratada, ou a mesma pode ser substituída por sulfato de cálcio. Posteriormente a aplicação, todo material deve ser incorporado na cama, que permanece em repouso por pelo menos 5 dias (AVILA, 2021; CAMPOS et al., 2018). O cal por se tratar de um produto alcalinizante interfere na umidade no pH da cama, interferindo então na sobrevivência dos microrganismos e melhorando as características microbiológicas desse material (SANTOS, 2021).

Outras formas de fazer a reutilização da cama é através do método de fermentação plana e fermentação de cama enleirada, em ambas situações a temperatura que é a responsável pela redução de microrganismos, na fermentação plana o aviário é completamente coberto por lona que deve ser ajustada nas laterais no aviário e mantido assim por 10 dias, após esse período a lona deve ser retirada e também toda a crosta de umidade formada na cama e uma nova queima de penas deve ser feitas posteriormente revolvimento da cama e, ao fim desse processo, o galpão deve ser ventilado de 2 a 3 dias para que a cama seja bem seca e toda a amônia retirada (AVILA, 2021). Após pesquisas realizadas, foi observado que esse método de fermentação é eficaz na inativação do vírus causador da doença de Gumboro (GRANDO, 2022).

Na fermentação por enleiramento já foi observado em alguns estudos que a superfície é um local crítico podendo haver a sobrevivência de alguns patógenos, isso ocorre por que a temperatura maior e as condições de eliminação são mais facilmente atingidas no meio da pilha (DUARTE, 2021), nessa ocasião a cama é amontoada em leira em 75% do aviário, o restante será destinado à cama nova para os pintinhos que serão brevemente alojados, após o enleiramento a cama é coberta com lona por 10 a 12 dias para que essa seja fermentada, em seguida, quando a lona for retirada, a cama deve ser espalhada nos 75% que serão utilizados, as crostas devem ser removidas e a cama revolvida quantas vezes forem necessárias para sua secagem e remoção de amônia, caso seja necessário, o sistema de ventilação deve ser acionado nesse momento,  somente após isso a cama nova é introduzida nos 25% restantes, destinado ao alojamento dos pintinhos, ou então, aplicado uma camada de 3 a 5 centímetros de cama nova sobre a velha, caso seja esse o sistema adotado, ao contrário do sistema supracitado onde o galpão é separado em 75% e 25%. Ambas ocasiões a cama pode ser umedecida antes de iniciar o processo de fermentação para que seja alcançado maiores temperaturas mais facilmente (AVILA, 2021; COBB, 2021). O mesmo autor ainda cita que sempre, no local de alojamento, onde tenha cama velha é indicado que seja aplicado uma camada de cama nova que possua de 3 a 5 centímetros, isso tanto para o método de adição de cal quanto fermentação plana ou enleirada. Ademais, os métodos podem ser associados, de acordo com Grando (2022), o método de fermentação plana pode ser integrado com a adição de cal.

 

3.4 Limpeza úmida do galpão

 

A limpeza úmida consiste na lavagem de todos os utensílios e instalações, para isso é recomendado que a equipe não tenha tido contato com nenhuma espécie de ave 72 horas antes da lavagem (KUANA, 2009). Antes de iniciar a lavagem do galpão todos os pontos elétricos devem ser desligados, evitando assim o risco de acidentes por choque (ROSS, 2018).

Quando a cama é inteiramente retirada do local, a lavagem do galpão deve ser completa e minuciosa. A ordem da limpeza deve acontecer de modo que não haja recontaminação das superfícies, dando uma atenção especial para as cortinas que devem ser limpas interna e externamente, assim a lavagem da granja inicia-se de cima para baixo, ou seja, do teto ao piso, de dentro para fora e da entrada para a saída da granja, com o auxílio de uma lavadora de pressão, devendo-se evitar água parada ao redor do galpão (COBB, 2009; ROSS, 2018; VIEIRA; CAFÉ, 2015), além disso, o detergente utilizado deve ser compatível ao desinfetante que será aplicado posteriormente na etapa de desinfecção e, ao final da lavagem, todo o local deve ser enxaguado com água limpa (ROSS, 2018). De acordo com Vieira e Café (2015), detergentes que produzem espuma facilita o processo de limpeza das paredes, cortinas, teto e inclusive madeira, devido a propriedade da espuma agir bem em superfícies verticais.

As salas de controle do galpão precisam ser limpas cuidadosamente, afim de evitar que água danifique o sistema elétrico, dessa maneira o uso de aspiradores e panos úmidos pode ser útil para essa função (COBB, 2019). Toda a água resultante do processo de lavagem deve ser descartada corretamente por meio de tubulações de modo que não haja uma nova contaminação do galpão (ROSS, 2018).

De acordo com o manual de Cobb (2019), equipamentos que não puderem ser limpos ou lavados, como círculo de proteção e fibras, por exemplo, devem ser descartados com segurança, ademais, as áreas externas também devem ser limpas e mantidas assim, sendo elas calhas, telhados, ventiladores, ambientes administrativos, vestiários, escritórios e locais sem alvenaria, bem como todo material desnecessário ou que não esteja sendo utilizado deve ser retirado do local, além de que roupas e calçados devem passar por limpeza e desinfecção completa. Todos os objetos que previamente foram retirados do galpão no momento da limpeza seca devem ser lavados com detergente e água sob pressão (VIEIRA; CAFÉ, 2015).

A área ao redor do galpão deve estar livre de entulhos, vegetação e objetos que possam servir como abrigo para pragas. Idealmente a área ao redor do galpão deve possuir piso de concreto de 1 a 3 metros de largura que também deve ser limpo e desinfetado bem como a área interna do galpão (COBB, 2019).

 

3.5 Desinfecção do aviário

 

A desinfecção do galpão dever ser realizada ainda com o local úmido, podendo ser realizada com diversos tipos de desinfetantes comercialmente disponíveis (SANTOS; FARIA; PINTO, 2008). Os produtos mais utilizados são os compostos a base de amônia quaternária e hipoclorito de sódio ou cálcio, glutaraldeído, iodo e soda cáustica, entretanto esse produto pode ser estabelecido pela empresa parceira ao avicultor (LOPES, 2011; ROSSETTO et al., 2021). É necessário se atentar as recomendações do fabricante contidas na embalagem do desinfetante para conservá-lo na temperatura adequada, usá-lo em concentrações e por tempo correto e assim não reduzir a eficácia do produto (VIEIRA et al., 2015).

Recomenda-se fazer o rodízio de princípios ativos dos desinfetantes utilizados para que evite possível resistência dos microrganismos (AVILA et al., 2007). De acordo com Vieira e Café (2015), os locais mais contaminados são os bebedouros, ralos e rachaduras no chão, em teoria, isso ocorre por que a água da lavagem fica retida nesses lugares, diluindo a ação dos desinfetantes, dito isso é necessário uma manutenção das rachaduras das paredes e do piso, lavar os locais de escoamento com maior atenção e, quando possível, optar por bebedouros automáticos ou do tipo nipple. Ainda, para garantir que não haja contaminação através da água, durante o intervalo entre lotes o sistema de fornecimento de água, as linhas de bebedouros e o tanque principal devem ser drenados completamente e limpos com água sob pressão e em seguida adicionado o produto desinfetante, fazendo com que a água com o produto percorra todo o trajeto da água até os bebedouros (COBB, 2019; PIZZABIOCCA, 2023). A caixa d’água além de limpa com água sob pressão, recomenda-se a sua escovação para retirada de todo material residual, e os desinfetantes mais comuns nessa situação são os compostos à base de cloro, em uma proporção de 500 mL para cada 100 litros de água. A limpeza das linhas de água e do sistema de fornecimento de maneira correta pode impedir a formação de biofilmes, que uma vez formado, servirá de abrigo para vírus e bactérias se alojarem contra a ação dos desinfetantes e também como fonte de alimento para bactérias nocivas, nessas situações, os produtos desinfetantes que contém peroxido de hidrogênio em sua composição se mostram excelentes na remoção de biofilmes nas linhas de fornecimento de água (COBB, 2009).

Para a limpeza dos silos e linhas de ração, os mesmos devem ser completamente esvaziados e limpos por cima através de lavagem a alta pressão, tanto no seu interior como no exterior. Os alimentos retirados de um silo não devem ser utilizados em lotes subsequentes (AMRO, 2023). Caso não seja possível a higienização interna, é indicado enchê-los com ração ou algum ingrediente desta, como por exemplo o milho, e adicionar um desinfetante de alta concentração durante esse período (PIZZABIOCCA, 2023).

A aplicação do produto no galpão deve ser feita com mangueira de pressão e jato em leque, molhando completamente todas as superfícies da granja e todos os equipamentos, sempre no sentido de cima para baixo, dando ênfase em nos ventiladores, entradas de ar, estacas e vigas, ademais, os equipamentos anteriormente removidos para lavagem fora do galpão também devem ser desinfetados (COBB, 2019). Granjas que apresentarem problemas sanitários anteriormente devem passar por duas desinfecções respeitando o tempo indicado do produto, repetindo a aplicação minuciosamente por todas as áreas já previamente desinfetadas (KUANA, 2009).

Finalizado a desinfecção da granja, equipamentos e suas dependências, a cama nova ou a cama do lote anterior que passou pelo processo de desinfecção devem ser posicionadas para a recepção das aves novas (EMBRAPA, 2004). Em caso de cama reaproveitada, a mesma deve ser parcialmente substituída por uma cama nova nos locais que permanecerem úmidos ou com torrões e essencialmente nos círculos de proteção, espaço esse que terá contato direto com os pintinhos (KUANA, 2009). Após o posicionamento da cama, todos os equipamentos que foram retirados de seus locais devem ser reposicionados mediante desinfecção prévia, feito isso, recomenda-se que um vazio sanitário seja tomado de 10 a 14 dias, ou seja, durante esse período nenhum funcionário ou animal pode ter acesso ao galpão (EMBRAPA, 2004; VIEIRA; CAFÉ, 2015). Para verificar se os procedimentos de limpeza e desinfecção foram eficazes pode-se fazer um swab nas superfícies do galpão e nos equipamentos, tendo em vista que o objetivo não é a esterilização do loca, mas reduzir a contaminação ao mínimo, nessa situação os pisos não devem ultrapassar 1.000 CPP/cm² e as demais superfícies não devem ultrapassar 100 CPP/cm², não havendo Salmonella isolada em nenhuma amostra testada (PIZZABIOCCA, 2023).

 

  1. Considerações finais

 

As medidas sanitárias adotadas no intervalo entre lotes da avicultura de corte são de extrema importância na cadeia de produção. Todas as etapas de limpeza e desinfecção devem ser executadas minuciosamente a fim de reduzir ao máximo a carga microbiológica do ambiente. A ordem e período determinado de alguns procedimentos pode ser alterado conforme o esquema proposto por cada integradora, no entanto, todas as ações tomadas buscam o mesmo objetivo de minimizar a presença de agentes patogênicos e conferir ao lote máxima eficiência durante seu ciclo de produção.

 

Conflitos de interesse

 

Não houve conflito de interesses dos autores.

 

Contribuição dos autores

 

Gabriely Amaro de Oliveira Borges – seleção dos artigos, leitura e interpretação das obras, escrita e correções; Fábio Aurelio Moreira – escrita e correções.

                                                                 

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Recebido em 6 de dezembro de 2023

Retornado para ajustes em 25 de janeiro de 2024

Recebido com ajustes em 25 de janeiro de 2024

Aceito em 26 de janeiro de 2024