Produção e qualidade da uva Niágara rosada (Vitis labrusca L.) produzida com e sem cobertura plástica

Revista Agrária Acadêmica

agrariacad.com

doi: 10.32406/v7n1/2024/10-19/agrariacad

 

Produção e qualidade da uva Niágara rosada (Vitis labrusca L.) produzida com e sem cobertura plástica. Niagara grape production and quality rosada (Vitis labrusca L.) produced with and without plastic cover.

 

Luís Henrique de Lima1, Marco Aurélio de Freitas Fogaça2*, Renato Lazzari3, Millena Parisotto Lerin4, Giovani Dorigon5, Sandro Morandi6

 

1- Tecnólogo em Horticultura – IFRS – Campus Bento Gonçalves – RS, Brasil. E-mail: hluisdelima@gmail.com
2*- Professor Doutor em Produção Vegetal – Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul – IFRS – Campus Bento Gonçalves – Av. Osvaldo Aranha, 540, CEP: 95700-206 – Bento Gonçalves – RS, Brasil. E-mail: marco.fogaca@bento.ifrs.edu.br
3- Tecnólogo em Horticultura – IFRS – Campus Bento Gonçalves – RS, Brasil. E-mail: renato_lazzari@hotmail.com
4- Tecnóloga em Horticultura – IFRS – Campus Bento Gonçalves – RS, Brasil. E-mail: millilerin1@gmail.com
5- Aluno do Curso de Tecnologia em Horticultura – IFRS – Campus Bento Gonçalves – RS, Brasil. E-mail: giovanidorigon200@gmail.com
6- Aluno do Curso de Tecnologia em Horticultura – IFRS – Campus Bento Gonçalves – RS, Brasil. E-mail: sandromorandi2009@hotmail.com

 

Resumo

 

O objetivo do trabalho foi avaliar a produtividade e a qualidade da uva Niágara rosada cultivada sem e com cobertura plástica. Variáveis analisadas: área foliar (af), índice de brotação (Ib) e fertilidade (If), massa de cacho, cachos por planta e produção, qualidade dos cachos (Tipo 1 e 2), sólidos solúveis totais (ºBrix). O experimento foi realizado na safra 2022/2023, em um vinhedo de 5 anos, com espaçamento de 1,5 entre plantas por 2,5 m na fileira, localizado no município de Bento Gonçalves/RS, Serra Gaúcha, com dois tratamentos, T1 – ambiente sem cobertura, T2 – ambiente com cobertura plástica impermeável, utilizou-se delineamento com blocos ao acaso, com 6 plantas por tratamento.  Os tratamentos não diferiram para o ºBrix, o Ib, If, massa de cacho, cachos por planta e produção estimada por ha. A colheita de uvas na cobertura plástica atrasou duas semanas a colheita, e apresentou menor necessidade de controle fitossanitário. Quanto ao fator qualitativo, T1 obteve para uvas Tipo 1, 81% da produção/ha e o tratamento T2, 98,5%, uvas que apresentam qualidade superior. A produção da Niágara rosada sob a cobertura plástica não diferiu quanto a produção de T1, mas apresentou maior rentabilidade por apresentar maior % de produção de uvas de qualidade superior.

Palavras-chave: Videira. Manejo. Uva de mesa. Cultivo em ambiente protegido.

 

 

Abstract

 

The objective of this work was to evaluate the productivity and quality of Niagara rosada grape grown without and with plastic cover. Analyzed variables: leaf area (af), sprouting index (Ib) and fertility (If), bunch mass, bunches per plant and yield, bunch quality (Type 1 and 2), total soluble solids (ºBrix). The experiment was carried out in the 2022/2023 harvest, in a 5-year-old vineyard, with spacing of 1.5 between plants by 2.5 m in the row, located in the municipality of Bento Gonçalves/RS, Serra Gaúcha, with two treatments, T1 – environment without cover, T2 – environment with impermeable plastic cover, a randomized block design was used, with 6 plants per treatment. Treatments did not differ for ºBrix, Ib, If, bunch mass, bunches per plant and estimated production per ha. Harvesting the grapes in the plastic cover delayed the harvest by two weeks. As for the qualitative factor, T1 obtained for Type 1 grapes, 81% of the production/ha and treatment T2, 98.5%, grapes that have superior quality. The production of Niagara rosada under the plastic cover did not differ in terms of the production of T1, but presented a higher added value due to the higher % of production of superior quality grapes.

Keywords: Vine. Handling. Table grape. Cultivation in protected environment.

 

 

Introdução

 

A viticultura é uma atividade complexa, que requer constante aprimoramento tecnológico para alcançar a necessária rentabilidade e o retorno do investimento, pois, são elevados considerando o sistema de condução, insumos, maquinários e a grande necessidade da cultura em trabalhos laborais.

A quantidade de uvas produzidas no ano de 2021, foi de 951.254 toneladas em uma área total de 46.295 hectares, com rendimento médio de 20.548 kg por ha, tendo o município de Bento Gonçalves, como maior produtor (IBGE, 2022), sendo a grande maioria da produção é composta por uvas americanas destinadas a indústrias e em pequenas propriedades familiares.

A videira pertence ao gênero Vitis, único gênero da família Vitácea com importância econômica, dentre a quais, a mais importante para a viticultura brasileira é a espécie Vitis labrusca L., originária da América do Norte, e a espécie Vitis vinífera L., originária da Ásia-Europa. As cultivares de V. labrusca, e híbridas, de maior destaque para o Brasil, são a Isabel, e Niágara Branca, Niágara Rosada, Concord e a Bordô (MANDELLI; MIELE; TONIETTO, 2009).

A cultivar Niágara rosa (Figura 1) surgiu a partir de mutação somática ocorrida em plantas de Niágara Branca, por Antônio Carbonari, em 1933, no município de Louveira, estado de São Paulo (CAMARGO, 1994). Rapidamente a variedade se disseminou pelos estados do Sul e Sudeste, tendo como características, vigor moderado, ramos longos e muito ramificado, bagas grandes à média, redonda, pele delicada, polpa mole e sabor doce aromático. Esta variedade se destaca pela resistência a pragas e doenças (antracnose, míldio e oídio). Sua coloração rosada substitui a ‘Niágara branca’ no mercado de mesa (EMBRAPA UVA E VINHO, 2014). Esta variedade se destaca na preferência dos viticultores, como uma excelente fonte de renda, sua adaptação ao clima úmido da região, necessitando de poucos tratos culturais, quando comparadas com as variedades finas como a Itália, que é muito cultivado na região, que necessitam de mais tratamentos fitossanitários (ROSANELLI et al., 2020). Além do consumo da fruta in natura, apresenta grande potencial para a elaboração de diversos produtos como vinhos, sucos e geleias, tanto em escala industrial quanto para consumo da própria família (MELLO, 2013).

 

A

B

Figura 1 – Variedade Niágara Rosada (Vitis labrusca L.), classes de uvas quanto a qualidade: Tipo 1 (A), Tipo 2 (B). Bento Gonçalves/RS. Fonte: O autor (2023).

 

A produção em ambiente protegido de uvas como a Niágara rosada, surgiu devido, às altas precipitações no período de maturação, fator que limita os viticultores em produzir uvas de mesa de boa qualidade (MOTA et al., 2008). Além de poder competir com outras regiões do país com condições de clima mais favoráveis que a região sul, pois, a Serra Gaúcha é uma tendência histórica devido ao excesso de chuva no período de maturação da uva (TONIETTO; FALCADE, 2003).  O microclima propiciado pela cobertura plástica, causa o aumento da temperatura média e máxima, reduz o molhamento foliar, adianta o ciclo da Niágara até o período de colheita, na mesma proporção que aumenta   o tempo de colheita, mantendo a qualidade dos cachos. A proteção dos causados pelas adversidades climáticas e redução da necessidade de tratos culturais como controle de pragas e principalmente doenças fúngicas (CHAVARRIA et al., 2009), aumenta a produção e a qualidade dos frutos (COMIRAM et al., 2012).

Essa tecnologia tem propiciado o aumento da produção de uva para consumo in natura, pela qualidade da uva produzida e pelo valor agregado que possui, esse tipo de produto mesmo em pequenas áreas. Portanto, considerando esses aspectos, o objetivo deste trabalho foi avaliar a produção e qualidade da Niágara rosa, produzida com e sem a cobertura plástica, na região da Serra Gaúcha.

 

Material e métodos

 

O experimento foi realizado em duas áreas de vinhedos próximas, localizados em uma propriedade rural, no distrito de São Pedro, Bento Gonçalves/RS, 29°03’26’’S e 51°34’45’’W e altitude média 480 m. Segundo Köppen, o clima da região é classificado como Cfb, que corresponde a um clima temperado quente, a temperatura média anual da região fica em torno de 17,2° C. A precipitação média anual é 1725 mm, com frequência média de 120 dias de chuva ano, umidade relativa do ar média de 77%, insolação anual média 2200 horas e o índice de horas de frio 410,20 horas (GROHS, 2013). Segundo a Classificação Climática Multicritério Geovitícola, o clima da Serra Gaúcha apresenta um clima vitícola úmido, temperado quente, de noites temperadas (TONIETTO et al., 2012).

A variedade utilizada no experimento foi a Niágara Rosada (Vitis labrusca L.) enxertada sobre o porta enxerto Paulsen 1103 (Vitis berlandieri x Vitis rupestris) que apresenta alto vigor, alto enraizamento, boa adaptação aos solos da região, resistência ao míldio, fusariose e filoxera. O vinhedo tem 5 anos de idade, possui irrigação por gotejamento e com exposição solar norte. O espaçamento entre plantas foi de 1,5 m e 3,0 m entre fileiras, possibilitando uma densidade de 2222 plantas/ha.

A poda foi realizada em 23 de agosto, foi realizada poda mista com 6 varas por planta com cerca de 6 gemas e 10 esporões com uma a duas gemas, obtendo-se aproximadamente 60 gemas.planta-1, cerca 112 mil gemas.ha-1.  Os tratamentos consistiram na condução da Niágara no manejo sem cobertura plástica (T1 – testemunha) e com cobertura plástica (T2 – ambiente protegido). A colheita de T1 foi realizada no dia 15/02/2023, bem como foi feito amostragem do Grau ºBrix no tratamento T2, os demais dados do tratamento com cobertura plástica foram realizados na colheita do dia 01/03/2023 (T2), quando se considerou que as videiras atingiram boas condições de maturação para comércio in natura. As uvas foram colhidas de forma manual com o auxílio de tesoura de poda, segundo metodologia utilizada por Rizzon e Mielle (2002). Para a estimativa da área foliar (AF) por planta, foi feita no início da maturação, utilizou-se o modelo matemático proposto por Pedro Jr. et al. (1986), AC = 3,1416 * (LF/2)², onde LF foi obtido pela medida de 9 folhas por repetição, utilizando régua (cm), onde foram mediadas 3 folhas por ramos, escolhidas aleatoriamente. Os tratamentos fitossanitários realizados para T1 e T2, constam no quadro 1.

 

Quadro 1 – Cronograma de aplicações de produtos fitossanitários realizadas no ciclo 2022, na variedade Niágara rosada (Vitis labrusca L.), manejo sem cobertura plástica (T1) e com cobertura plástica, (T2), Bento Gonçalves/RS, 2022.
T2 – com cobertura plástica
T1 – sem cobertura plástica
Data
Produtos
Data
Produtos
23/09/2022
Mancozebe
08/10/2022
Tiofano metílico
08/10/2022
Cimoxanil, Cloratolanil
16/10/2022
Dimetomorfe
16/10/2022
Cimoxinal, Mancozebe
26/10/2022
Oxiadiazina
26/10/2022
Cimoxinal, Mancozebe
30/10/2022
Tiofano metílico
09/11/2022
Oxiadiazina
08/11/2022
Oxiadiazina
15/11/2022
Mancozebe
20/11/2022
Azoxistrobina, Difenocazol
25/11/2022
Cimoxinal, Mancozebe
10/12/2022
Oxiadiaziha
05/12/2022
Mancozebe
27/12/2022
Azoxistrobina, Difenocazol
13/12/2022
Cimoxinal, Mancozebe
10/01/2023
Tiofano metílico
26/12/2022
Oxiadiazina
01/01/2023
Azoxistrobina, Difenocazol
20/01/2023
Cimoxinal, Mancozebe

 

O delineamento experimental utilizado foi inteiramente casualizado constituído de dois tratamentos com seis repetições, considerando uma planta como unidade experimental, em um total de 12 plantas analisadas no experimento.

As variáveis resposta analisadas foram: o índice de brotação (número de brotos/número de gemas deixadas na poda), índice de fertilidade (número de cachos/número de brotos), número de cachos por planta (contados na colheita), produção por planta (massa de cachos por planta pesado em balança eletrônica de precisão), massa média de cacho (massa de cacho por planta/pelo número de cachos), produção estimada por hectare (massa de cacho por planta multiplicado pelo número de plantas por ha).

As uvas foram colhidas de forma manual com o auxílio de tesoura de poda e os sólidos solúveis totais (Grau ºBrix), foi determinado a partir de uma amostra de aproximadamente 30 bagas coletadas por planta, no momento da colheita, utilizando-se um refratômetro manual com auto compensação de temperatura, conforme proposto por Carvalho et al. (1990).

Além do Grau ºBrix, foram analisados o aspecto visual dos cachos, dentro de cada tratamento, no momento da colheita, separando as uvas em duas classes: uvas tipo 1, de qualidade superior e tipo 2 com menor padrão de qualidade. A metodologia empregada seguiu a mesma empregada pelo viticultor, onde avaliou-se: o tamanho de cachos, o de cachos com a presença de grãos podres, atacados por insetos e fungos, com baixa coloração e injúrias. No parreiral, era feita a primeira limpeza de cacho, retirando-se dos grãos danificados do cacho e no packing house era feita uma segunda limpeza e a classificação. As uvas tipo 1, eram acondicionadas em caixas plásticas de 7kg, para venda na CEASA, e comercializadas para grandes redes de mercados. As uvas tipo 2 eram acondicionadas em caixas de madeira de 2 kg, para venda a atacadistas (Figuras 1A e 1B). A uva tipo 1 na safra 2022 atingiu preço médio de R$ 5,0/kg e a tipo 2, R$ 3,0/kg preços pagos na CEASA de Porto Alegre.

Excetuando a colheita e os tratamentos fitossanitários, as demais práticas de manejo foram realizadas da mesma maneira e na mesma época em ambos os tratamentos. Dados foram submetidos à análise de variância, e as médias comparadas pelo teste Tukey, a 5% de significância, utilizando o programa SASM – Agri (CANTERI et al., 2001).

 

Resultado e discussão

 

Os resultados obtidos na análise estatística do experimento, demonstram que não houve diferença significativa nos aspectos de produção entre T1 e T2 (Tabela 1). No entanto, quando se analisou os dados relativos à qualidade das uvas para consumo in natura, e o valor pago às uvas tipo 1 e 2, obteve-se resultados significativamente superiores na renda bruta para as uvas produzidas em ambiente protegido (Tabela 2). Considerando os fatores produção com uvas Tipo 1, a Niágara rosada sob cobertura plástica (T2), se diferenciou significativamente da testemunha (T1), obtendo-se 98,5% das uvas classificadas como tipo 1 (5,0 R$/Kg), em comparação com T2, que atingiu 81,9% com essa classificação na colheita realizada em 15/02 (Tabela 2). Considerando como base de cálculo a média de 38 t.ha-1 de T1 e T2, obteve-se uma renda bruta de 176.457 e 189.189.108 reais, respectivamente,  para T1 e T2.  Embora T1 e T2 não tenham diferido quanto a produção, a renda bruta de T2 em relação a T1, devido a qualidade superior das uvas produzidas no cultivo protegido (Tabela 2).

O % de uvas tipo 1, no tratamento T1, seguramente seriam inferiores, pois, o histórico de elevadas precipitações no período de maturação das uvas é característica da região da Serra Gaúcha (WESTPHALEN; MALUF, 2000), no entanto, na safra 2022, nos meses de novembro e dezembro as precipitações atingiram valores inferiores a 65 mm, em janeiro 82 mm (JUNGES et al., 2022), e aproximadamente 50 mm até a colheita de T1 em 15/02. As temperaturas médias de janeiro e fevereiro ficaram entre 23,2 ºC e 21,50 ºC, com umidade relativa do ar de 67,4%, somado aos altos níveis de luminosidade, condições climáticas que favoreceram a maturação adequada das uvas, mesmo sem a cobertura plástica.

A colhida para T1 for realizada 15/02, obteve SST de 15,7 Graus ºBrix, superior aos 13,7 ºBrix, obtidos para T2 quando colhida na mesma data (Tabela 1), resultado do menor nível de radiação fotossinteticamente ativa (CHAVARRIA et al., 2007) e amplitude térmica a que estão submetidas as uvas sob o plástico (ROSANELLI et al., 2020).

Alguns autores citam que o índice da área foliar (CARDOSO et al., 2010), é maior na produção de uvas sem cobertura plástica, pois, não existe a limitação das paredes do túnel, o que facilita a expansão da área foliar, porém, no experimento a desponta em T1 foi realizada quando os ramos atingiram o terceiro arame de condução os mantendo de comprimento similar a T2. Essa desponta a sua AF, que não diferiu de T2, atingindo o valor médio 2,1m2/planta, no entanto, a medida de área do círculo, mostrou que as folhas da Niágara sobre a cobertura foram maiores que T1, sendo 23,80cc2 e 22,32cm2, respectivamente para T1 e T2, no entanto, apresentaram um número menor de folhas (Tabela 1).

As uvas do tratamento T2 colhidas em 02/03, 15 dias após a colheita de T1, atingiram 16 ºBrix (Tabela 1), não diferindo da testemunha, demonstrando que o mesmo microclima que atrasa a maturação pela redução da radiação (CHAVARRIA et al., 2007), possibilita o aumento do tempo para colheita e produz uvas com qualidade superior, com coloração e Graus ºBrix elevado (Figura 1).

 

Tabela 1 – Aspectos relativos à produção e qualidade da Niágara rosada (Vitis labrusca L.) cultivada sem (T1) e com cobertura plástica (T2). Bento Gonçalves/RS, safra 2022.
Análises
T1
T2
CV%*
Número de gemas/planta (un)
41,1ns
58,52
10,99
Número de gemas nas varas (un)
27,8ns
34,96
17,28
Número de gemas nos esporões (un)
18,0ns
23,55
32,44
Número de brotos/planta (un)
38,25ab
55,25ª
11,18
Número de cachos nas varas (un)
55,8aA
65,7aA
19,47
Número de cachos nos esporões (un)
18,7aB
31,2abB
46,17
Número de cachos/planta (un)
74,22ns
92,83
22,2
Índice de brotação/planta
0,95ns
0,82
9,17
Massa média do cacho/planta (g)
196ns
212
20,46
Massa média do cacho das varas (g)
214ns
208
16,7
Massa média do cacho dos esporões (g)
192ns
219
20,46
Massa de cacho/planta (kg)
18,64ns
15,57
13,56
Massa de cacho nas varas (kg)
13,6aA
11,55aA
20,16
Massa de cacho nos esporões (kg)
4,01aB
4,60aB
17,6
Índice de brotação varas
0,80ns
1,12
19,29
Índice de brotação esporão
0,82ns
0,95
9,17
Índice de fertilidade planta
1,98ns
1,95
4,1
Índice de fertilidade esporão
1,45aB
1,19aB
46,6
Índice de fertilidade na vara
2,74aA
2,38Aa
21,7
Índice de área foliar (m2)
2,35ns
1,85b
20,12
Área do círculo (cm2)
23,8a
22b
1,44
Índice de Ravaz
1,47a
0,84b
20,12
Produção por ha (t)
41,43ns
34,60
13,58
ºBrix amostrado em 15/02
15,7a
13,6b
6,76
ºBrix amostrado em 02/03
16,0
*Médias seguidas de mesma letra na linha letra minúscula e na coluna letra maiúscula, não diferem estatisticamente pelo teste Tukey, na linha e coluna, com 5% de significância.
**CV%: coeficiente de variação.
***ns: não significativo

 

Considerando que, segundo Maia e Camargo (2012), o grau ºBrix da Niágara Rosa atinge valores entre 15º e 17º Brix, principal parâmetro usado na cultura videira para definir a colheita, ambos os tratamentos atingiram o padrão para variedade na safra 2022.

Considerando a variável produção, onde a média de T1 e T2 atingiu 38,85 t, uma produção elevada considerando as baixas precipitações que ocorrem no ciclo 2022 (INMET, 2022).  Hernandes et al. (2013) e Rosanelli et al. (2020), encontraram resposta superior no ambiente protegido para Niagara em relação ao cultivo de fora do plástico, pelo maior número e massa de cachos, diferindo dos resultados obtidos, no entanto, obtiveram resultados inferiores aos obtidos no experimento, sendo abaixo da produtividade média de 30 a 35 t/ha descrita para variedade (MAIA; CAMARGO, 2012).

 

Tabela 2 – Aspectos produtivos e qualitativos (uvas tipo 1 – 5,0 R$ e tipo 2 – 3,0 R$) da variedade Niágara rosada (Vitis labrusca L.) cultivado sem a cobertura plástica (T1) e com a cobertura plástica (T2), Bento Gonçalves/RS, 2022.
Análises
T1
T2
   
Produção média/ha (t)
             38,05*
% Colhido de Uvas Tipo 1 (t)
81,9
98,5
% Colhido de Uvas Tipo 2 (t)
18,1
1,5
Valor total pago uva tipo 1 (R$ 1.000)
155,80
187,40
Valor total pago uva tipo 2 (R$ 1.000)
20,66
1,712
Valor total  pago (R$ 1.000)
176,47
189,108
*Valor médio da produção T1, T2, considerando que não houve diferença estatística entre os tratamentos.

 

A produção por planta não diferiu entre T1 e T2, mas diferiu entre os elementos de poda. A elevada fertilidade nas gemas das varas (Tabela 1), somado ao maior número de gemas que os esporões.planta-1, fez com que as varas fossem responsáveis por 65% da produção dos 17,12 kg em média produzidos por planta. Estes dados concordam com as afirmações de Maia e Camargo (2012), que falam sobre elevada fertilidade natural desta variedade, o que proporcionando nas médias dos anos boas colheitas. Marchet (2023) obteve 16,64 kg/planta no cultivo da Niágara rosada na cobertura plástica, na mesma região do experimento.

Analisando os elementos de poda, o índice de brotação (Ib), não diferiu entre os tratamentos e entre varas e esporões. Obteve-se valores entre 0,8 e 1,12, estes dados diferem de muitos autores, pois, devido ao efeito da dominância apical a brotação nos esporões é superior às varas (MAUTONE, 2018), no entanto, a baixa exigência em frio invernal da Niágara rosada e os altos índices de horas de frio obtidos em 2022 (INMET, 2022), podem ter contribuído na uniformidade das brotações das gemas nas varas.

O índice de fertilidade (If) por planta não diferiu entre T1 e T2, mas diferiram significativamente para emissão de cachos nos esporões e varas. As varas apresentaram valores médios que variaram de 2,38 a 2,74, superiores aos 1,45 e 1,19, obtidos para esporões (Tabela 1), resultado que concorda com (MAUTONE, 2018; FOGAÇA et al., 2021). A fertilidade das gemas está ligada ao fator genético, e a quantidade de carboidratos disponível no período vegetativo, onde ocorre a diferenciação floral. A sua maior exposição à luz permite das gemas das varas, propiciem formar gemas mais férteis neste elemento de poda.

A análise de necessidade do controle fitossanitário do vinhedo, foi realizada segundo padrão utilizado pelo viticultor, onde T2, iniciou o controle fitossanitário 15 dias posterior o tratamento T2 e necessitou de 9 aplicações em detrimento das 12 aplicações realizadas em T1 (Quadro 1), esta redução tempo do início e do número dos tratamentos fitossanitários, estão diretamente relacionados com microclima formado pela cobertura plástica que reduz a umidade e molhamento foliar, além do aumento da temperaturas diurnas, fatores que reduzem o ataque das doenças fúngicas  (CHAVARRIA et al., 2007).

Dados confirmam Rosanelli et al. (2020), que obteve redução da incidência do Míldio no cultivo da Niágara rosada cultivada sob a cobertura plástica. Esse geralmente é um fator de redução de custos e aumento da qualidade neste tipo de cultivo, sendo muito utilizado em sistemas de cultivos orgânicos (COMIRAN et al., 2012).

A produção de uvas classificadas como tipo 1, de qualidade superior (Figura 1A), para T2, atingiu o 98,5% da produção, em detrimento dos 81,9% de T1, esta diferença quando transformadas em valores de renda bruta atinge, de 12,651 reais a mais do que  do valor obtido para o tratamento T1 (Tabela 2), o que demonstra que o investimento na cobertura plástica, embora apresentem um custo inicial elevado, agregam valor à produção, além de propiciar aumento do período de colheita com manutenção da qualidade, que é uma das atividades mais críticas dentro da viticultura, tanto pelo custo da colheita,  como pelo  % de perdas que ocorre em função das intempéries climática, somado aos problemas fitossanitários.

 

Conclusão

 

A produção por planta, massa de cacho, grau °Brix, Índice brotação e fertilidade não diferiram entre tratamentos, sendo que a varas responderam por 65% da massa de cachos, consequência da maior fertilidade de gemas que nos esporões.

A produção da Niágara rosada na cobertura plástica atrasou a maturação em duas semanas.

As uvas produzidas sob a cobertura plástica, apresentaram qualidade superior, 98,5% dos cachos amostrados foram classificados como tipo 1 para venda, em detrimento dos 81% obtidos para cultivo a céu aberto.

 

Conflito de interesses

 

Não houve conflito de interesses entre os autores.

 

Contribuição dos autores

 

Luiz Henrique de Lima e Marco Aurélio de Freitas Fogaça – proposta do projeto, instalação do experimento, escrita e interpretação dos dados, revisão do manuscrito; Renato Lazzari, Millena Parisotto Lerin, Giovani Dorigon e Sandro Morandi – ajudaram na instalação do projeto, manejo de plantas e coleta dos dados.

 

Referências bibliográficas

 

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CARDOSO, L. S; BERGAMASCHI, H; COMIRAN, F; CHAVARRIA, G; MARODIN, G. A. B.; DALMAGO, G. A; SANTOS, H. P; MANDELLI, F. Padrões de interceptação de radiação solar em vinhedos com e sem cobertura plástica. Revista Brasileira de Fruticultura, v. 32, n. 1, p. 161-171, 2010. https://doi.org/10.1590/S0100-29452010005000029

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Recebido em 9 de outubro de 2023

Retornado para ajustes em 16 de dezembro de 2023

Recebido com ajustes em 2 de janeiro de 2024

Aceito em 3 de janeiro de 2024