Revista Agrária Acadêmica
doi: 10.32406/v7n2/2024/10-19/agrariacad
Bem-estar de leitões confinados em cama sobreposta na região Amazônica. Welfare of piglets confined in deep bedding in the Amazon region.
Ian Souza dos Santos
1, Hayane Oliveira Pinto2, Pamela Karoline Correia Brunner3, Kaliane Nascimento de Oliveira4, Janaína Paolucci Sales de Lima
5*
1- Discente do Curso de Agronomia – Faculdade de Ciências Agrárias – Universidade Federal do Amazonas – UFAM, Manaus/AM – Brasil. E-mail: iandosantos67@gmail.com
2- Discente do Curso de Agronomia – Faculdade de Ciências Agrárias – Universidade Federal do Amazonas – UFAM, Manaus/AM – Brasil. E-mail: hayaneoliveira94@gmail.com
3- Discente do Curso de Zootecnia – Faculdade de Ciências Agrárias – Universidade Federal do Amazonas – UFAM, Manaus/AM – Brasil. E-mail: pkcbrunner@gmail.com
4- Docente do Curso de Zootecnia – Departamento de Produção Animal e Vegetal – Universidade Federal do Amazonas – UFAM, Manaus/AM – Brasil. E-mail: kaliane@ufam.edu.br
5*– Docente do Curso de Zootecnia – Departamento de Produção Animal e Vegetal – Universidade Federal do Amazonas – UFAM, Manaus/AM – Brasil. E-mail: paolucci@ufam.edu.br
Resumo
O presente estudo foi realizado para avaliar os efeitos da cama sobreposta sobre o desempenho de crescimento de leitões e caracterizar o ambiente térmico na região amazônica. 21 leitões híbridos desmamados (machos castrados 5,70 ± 0,40 kg, fêmeas 5,60 ± 0,51 kg) foram alocados em delineamento de blocos casualizados com três tratamentos: piso de concreto, piso de concreto com cama sobreposta de 0,3 m e piso de concreto com cama sobreposta de 0,5 m. Os ambientes estavam propícios a condições de estresse térmico. O sistema de confinamento com cama sobreposta demostrou tendência semelhante ao piso de concreto, portanto conclui-se que ambas proporcionam as mesmas condições de conforto térmico e desempenho.
Palavras-chave: Suínos. Enriquecimento ambiental. Conforto térmico.
Abstract
The present study was conducted to evaluate the effects of deep bedding on the growth performance of piglets and to characterize the thermal environment in the Amazon region. 21 weaned hybrid piglets (castrated males 5.70 ± 0.40 kg, females 5.60 ± 0.51 kg) were allocated in a randomized block design with three treatments: concrete floor, concrete floor with deep bedding of 0.3 m depth, and concrete floor with deep bedding of 0.5 m depth. The environments were conducive to thermal stress conditions. The confinement system with deep bedding showed a similar trend to the concrete floor, therefore it is concluded that both provide the same thermal comfort and performance conditions.
Keywords: Swine. Environmental enrichment. Thermal comfort.
Introdução
A indústria suína tem crescido nos últimos anos e a Organização para a Alimentação e Agricultura (FAO) prevê que continuará a se expandir num futuro próximo (AMARAL et al., 2021). A produção de carne suína do Brasil poderá atingir um recorde em 2024, impulsionada principalmente pela crescente demanda do consumidor brasileiro. Em 2023, foram produzidas 5,156 milhões de toneladas de carne suína, sendo 23,85% destinadas à exportação e 76,15% ao mercado interno (ABPA, 2024).
Segundo Souza e Ribeiro (2024), a suinocultura encontrou ampla adaptabilidade na região brasileira, difundindo-se por todo o território rapidamente, muito favorecida por diversos fatores, entre eles: as condições climáticas que permitem acomodação dos suínos em suas peculiaridades à diferentes regiões, bem como distintos sistemas de produção. Juntamente a isso, grandes aportes em estudos de tecnologia e financiamentos para o desenvolvimento mais pujante do setor, são feitos anualmente através do plano safra (MAPA, 2023), tornando o Brasil um país altamente competitivo e com o menor valor de produção suína entre os principais produtores mundiais (EMBRAPA, 2024).
De acordo com a EMBRAPA (2024), o Brasil ocupa o quarto lugar no ranking mundial tanto de maiores produtores, quanto de maiores exportadores. Com mais de 2 milhões de matrizes ativas, o país aumenta a cada ano o seu balanço produtivo, visando mercados nacionais e internacionais, os quais da mesma forma, crescem a cada dia, elevando o consumo per capta de carne suína a uma média de 18,3 kg/ano (ABPA, 2024).
Em 2023, a região Norte produziu 48 mil toneladas de carne suína, sendo que o estado do Amazonas tinha em média 60 mil suínos e cerca de 3 mil criadores cadastrados, a maioria operando em pequena escala para sustento familiar (IDAM, 2024; EMBRAPA, 2024). A região norte ainda não demonstra produção expressiva de suínos, quando comparada com outras regiões do Brasil (como sul e centro-oeste) essa se encaixa na parcela de 0,12% do abate nacional de suínos e na faixa de 3,7% das exportações do produto, enquanto apenas a região sul é responsável por 72,97% e 91,7% respectivamente (ABPA, 2024). Porém, fica evidente que estados com participação de pelo menos 1,0% reportaram aumento no volume de carne suína exportada.
Porém, há necessidade de desenvolver pesquisas relacionadas aos impactos ambientais causados pela atividade, uma vez que o aumento da produção pode ter correlação positiva com alterações ambientais (contaminação do solo e da água), caso não sejam cumpridas as normas de conservação ambiental.
Diante das exigências do mercado, os suinocultores enfrentam pressões para adotar alternativas tecnológicas que reduzam os custos de produção sem exigir altos investimentos financeiros e garantam altos índices de produtividade (ALVES, 2023; COELHO, 2023; ALVES, 2024). Contudo, a suinocultura no estado do Amazonas enfrenta desafios climáticos que podem impactar negativamente a produtividade. O clima tropical da região, com aumento das temperaturas e consequentemente estresse térmico, pode resultar na diminuição da imunidade, aumento da incidência de doenças, altas taxas de mortalidade e redução da qualidade da carne, resultando em perdas para os produtores (SILANIKOVE, 2000; STARLING et al., 2005; MESQUITA, 2023).
Nesta perspectiva, o sistema de camas sobreposta para a produção de suínos surge justamente para preencher esta lacuna de utilização de resíduos externos através da manutenção dos animais, promovendo a compostagem, melhorando o bem-estar animal e proporcionando enriquecimento ambiental (CALDARA et al., 2012). Estudos demonstraram que este sistema influencia o comportamento animal e melhora a adaptação dos leitões ao ambiente de criação após o desmame (ROPPA, 2011; SOUZA et al., 2023; RIBEIRO et al., 2023). Além disso, os porcos criados em camas sobrepostas apresentam maior imunocompetência e são menos suscetíveis a diarreia, inapetência, febre e infecções oculares e cutâneas em comparação com aqueles em sistemas de alojamento convencionais (LAISHRAM et al., 2018).
Os resultados de pesquisas têm demonstrado que é possível o uso de diversos substratos, tais como: casca de arroz, maravalha, serragem (de granulometria não muito fina), palha de trigo, palha de feno e bagaço de cana. Existe também, a possibilidade de regulagem na espessura da cama, adaptando-a para as realidades da propriedade (CAGLIARI et al., 2021). Todas as camas, empregadas nesse sistema, visam a elevação das taxas de absorção de umidade e resíduos, além do bem-estar dos suínos ali contidos. Porém, a escolha do material a ser utilizado no sistema de cama sobreposta dependerá da disponibilidade regional do produto e das peculiaridades da ambiência local, o que influenciará diretamente seu preço e sua funcionalidade quanto aos objetivos esperados (MATOS, ALVES, GABRIEL, 2023).
É necessário avaliar a implantação do sistema de cama sobreposta na região amazônica, pois pode trazer efeitos no desenvolvimento dos leitões na fase de creche. Este sistema apresenta materiais que atuam como isolantes térmicos, podendo levar ao aumento do estresse térmico e à diminuição do bem-estar dos animais nele alojados. Consequentemente, a utilização de sistemas de cama sobreposta pode ser prejudicial para as explorações suinícolas em climas tropicais, impactando o desempenho animal e o conforto térmico.
Com base nessas considerações, o presente trabalho tem como objetivo avaliar o desempenho de leitões em sistemas de criação de cama sobreposta, levando em conta os aspectos de conforto térmico e desempenho dos animais.
Material e métodos
O experimento foi conduzido no setor de suinocultura da Fazenda Experimental da Universidade Federal do Amazonas, localizada na cidade de Manaus, capital do estado do Amazonas, (3°06′26″S e 60°01′34″ W), altitude de 30 m acima do nível do mar. De acordo com a classificação de Köppen-Geiger o clima da região é tropical, com temperatura média de 27,4 °C e pluviosidade média de 2145 mm. O protocolo experimental foi aprovado pelo Comitê de Uso de Animais da Universidade Federal do Amazonas (SEI Processo nº 23105.044038/2020-73).
Foram utilizados 21 leitões híbridos desmamados (leitões castrados 5,70 ± 0,40 kg PV; fêmeas 5,60 ± 0,51 kg PV). Os animais foram distribuídos em delineamento de blocos casualizados (DBC), sendo dois blocos (sexo dos animais) e três tratamentos (tipos de piso).
No início do experimento os animais foram pesados e identificados com chip subcutâneo, sendo alojados em galpão de alvenaria com baias de concreto. Foram avaliados três tratamentos: piso de concreto (PC), PC com cama sobreposta de maravalha de 0,3 m de profundidade (PC + 0,3M) e PC com cama sobreposta de maravalha de 0,5 m de profundidade (PC + 0,5M). Todas as baias foram equipadas com comedouro e bebedouro tipo chupeta. A implantação do experimento na creche iniciou em janeiro de 2021, sendo conduzido por 63 dias. Os leitões foram avaliados semanalmente (dias 21, 28, 35, 42, 49, 56, 63), ou seja, desde a entrada na creche até a transferência para as baias de crescimento.
Os dados relativos aos elementos climáticos foram coletados durante o período experimental (janeiro-fevereiro), período com maior incidência de chuvas. As medidas foram realizadas no galpão, com uso de termo-higrômetro e termômetro de globo negro disposto interior das baias. As coletas foram realizadas cinco vezes ao dia, semanalmente (dias 21, 28, 35, 42, 49, 56, 63).
Os elementos climáticos mensurados para a caracterização foram: média da Temperatura máxima (Tmax, °C) e Temperatura mínima (Tmin, °C), média da Umidade Relativa do Ar (UR, %), Temperatura do Globo Negro (TGN, °C) e radiação. Posteriormente foram calculados os Índices de Temperatura e Umidade (ITU) e Índice de Temperatura de Globo e Umidade (ITGU). A obtenção dos índices se deu com base na equação proposta por Thom (1959) e Buffington et al. (1981): ITU = 0,8.Tbs + UR (Tbs-14,3)/100 + 46,3 e ITGU = 0,72 (tg + tbu) + 40,6; onde: Tbs– temperatura de bulbo seco; Tbu– temperatura de bulbo úmido; UR – umidade relativa do ar e tg – temperatura de globo negro.
Nas baias foram mensuradas as variáveis: temperatura do piso e temperatura da superfície interna do telhado (termômetro infravermelho). A temperatura corporal dos leitões foi aferida com termômetro infravermelho (método não invasivo) nas regiões da cabeça e dorso-lombar. O comportamento dos leitões foi observado uma vez por semana durante o período experimental, das 8 h às 17 h. As observações foram feitas pelo mesmo observador, discretamente, do lado de fora das baias, estando os leitões previamente diferenciados por meio de marcação.
A avaliação do desempenho dos leitões constou de consumo de ração (kg/animal), ganho de peso (kg/animal) e conversão alimentar (kg/kg). Os leitões tiveram livre acesso à água durante todo o período experimental. As dietas fornecidas foram formuladas para atender às exigências nutricionais pertencentes às fases da creche, seguindo as recomendações propostas por Rostagno et al. (2017). O fornecimento foi controlado por horário (7 h e 15 h), sendo fornecido na fase I (21 a 34 dias) 500 g de ração por animal/dia, e nas fases II (35 a 48 dias) e III (49 a 63 dias) 1 kg de ração por animal/dia. Após duas horas de consumo, os resíduos foram coletados e pesados.
O consumo de ração foi determinado pela diferença entre a ração total fornecida e a ração restante ao final de cada período. A conversão alimentar foi calculada entre o total de ração fornecida e o ganho de peso no período. O peso dos leitões foi determinado por balança digital tipo guincho com bolsa de manuseio.
Os dados coletados foram tabulados e organizados no editor de planilhas Microsoft® versão 2007 Windows®. Os dados obtidos de desempenho dos leitões foram submetidos à análise de variância (ANOVA) e em seguida suas médias foram comparadas pelo teste de Tukey (P < 0,05), confrontando as situações de tratamento por grupo.
Resultados e discussão
Os dados relativos ao ambiente térmico são apresentados na Tabela 1. Em relação as variáveis ambientais houve diferença significativa (P < 0,05) entre janeiro e fevereiro para Tbs (P = 0,014) e ITU (P = 0,000001), destacando-se alta Tbs e alto ITU em fevereiro. A UR durante o período experimental (85,35 e 84,60%) apresentou valores próximos do máximo crítico de 90% (LEAL; NÃÃS, 1992).
A temperatura é um fator crucial na determinação do bem-estar dos animais e da qualidade do seu ambiente, estudos investigaram (SOUSA JÚNIOR et al., 2011; FERREIRA, 2011; BROWN-BRANDL et al., 2023) as condições térmicas ideais para leitões na fase de creche. Notavelmente, na fase de creche as temperaturas ideais variam de 24 ºC a 26 ºC, com umidade relativa entre 60% e 80% (SOUSA JÚNIOR et al., 2011). A faixa considerada ideal pode sofrer alterações, conforme evidenciado pelos estudos realizados por Ferreira (2011) que sugere temperaturas entre 22 ºC e 26 ºC, com umidade relativa de 70%, como as mais propícias ao conforto na fase de creche. Além de diferenças em função das linhagens genéticas, sendo ponto de ajuste padrão de 27,5°C para leitões na fase de creche (BROWN-BRANDL et al., 2023). Isto indica que os leitões no período experimental estavam fora da zona de conforto térmico, resultando em adaptações metabólicas que aumentam o gasto energético para manter a temperatura corporal, levando à redução do consumo alimentar e ao menor desempenho (BAUMGARD et al., 2012).
Tabela 1 – Valores médios das variáveis ambientais durante o período.
Variáveis ambientais |
Janeiro |
EPM1 |
Fevereiro |
EPM1 |
P-valor2 |
Temperatura do bulbo seco (ºC) |
27,20 ± 0,18 |
0,01 |
28,00 ± 2,11 |
0,03 |
0,014 |
Umidade relativa (%) |
85,35 ± 0,89 |
0,06 |
84,60 ± 9,27 |
0,13 |
0,2723 |
Índices de Temperatura e Umidade |
78,92 ± 0,19 |
0,01 |
80,10 ± 2,18 |
0,03 |
0,00001 |
Índice de Temperatura de Globo e Umidade |
79,15 ± 0,31 |
0,02 |
79,76 ± 2,08 |
0,03 |
0,0597 |
1Erro padrão da média.
2Nível de significância.
Em última análise, o ambiente térmico foi avaliado em função de índices de conforto térmico (BUFFINGTON et al., 1981). O ITGU foi utilizado como parâmetro para determinar o conforto ou o estresse térmico dos leitões, os valores analisados revelaram que todos os leitões, independente do tratamento, estavam em situação de estresse térmico (CORDEIRO et al., 2007; SANTOS et al., 2018; ITO, 2018; ARRUDA et al., 2023), consequentemente, indicando condição de perigo (BAÊTA; SOUZA, 2010).
Em relação aos parâmetros térmicos, temperatura do piso e temperatura interna do telhado (Tabela 2) não houve diferenças significativas (P > 0,05) entre os tratamentos de confinamento com ou sem cama sobreposta nas fases de creche. Entretanto, quando analisamos a temperatura corporal dos leitões, na fase I há evidências de que existem diferenças significativas (P = 0,0190) em relação ao tipo de piso, os leitões confinados em baias com piso de cama sobreposta exibiram maior temperatura corporal (30 °C).
Tabela 2 – Valores médios de temperatura corporal, temperatura do piso e temperatura interna do telhado.
Variáveis |
Tratamentos1 |
||||||
PC |
EPM2 |
PC + 0,3M |
EPM2 |
PC + 0,5M |
EPM2 |
P-valor3 |
|
Fase I – 21 aos 34 dias |
|||||||
Temperatura corporal (°C) |
28 ± 2,27 |
0,11 |
30 ± 3,29 |
0,16 |
30 ± 1,81 |
0,09 |
0,0190 |
Temperatura do piso (°C) |
33 ± 2,84 |
0,14 |
32 ± 2,46 |
0,12 |
33 ± 2,90 |
0,14 |
0,4000 |
Temperatura interna do telhado (°C) |
35 ± 1,47 |
0,07 |
35 ± 1,47 |
0,07 |
35 ± 1,47 |
0,07 |
0,5000 |
Fase II – 35 aos 48 dias |
|||||||
Temperatura corporal (°C) |
35 ± 1,01 |
0,07 |
35 ± 1,12 |
0,08 |
34 ± 1,76 |
0,13 |
0,1303 |
Temperatura do piso (°C) |
27,5 ± 1,56 |
0,11 |
27,5 ± 1,56 |
0,11 |
27,5 ± 1,56 |
0,11 |
0,5000 |
Temperatura interna do telhado (°C) |
42,5 ± 0,52 |
0,04 |
42,5 ± 0,52 |
0,04 |
42,5 ± 0,52 |
0,04 |
0,5000 |
Fase III – 49 aos 63 dias |
|||||||
Temperatura corporal (°C) |
35 ± 0,94 |
0,07 |
35,25 ± 0,93 |
0,07 |
35 ± 0,80 |
0,06 |
0,3847 |
Temperatura do piso (°C) |
28,5 ± 052 |
0,04 |
28,5 ± 0,52 |
0,04 |
28,5 ± 0,52 |
0,04 |
0,5000 |
Temperatura interna do telhado (°C) |
40,5 ± 0,52 |
0,04 |
40,5 ± 0,52 |
0,04 |
40,5 ± 0,52 |
0,04 |
0,5000 |
1PC: piso de concreto; PC + 0,3M: PC com cama sobreposta de maravalha de 0,3 m de profundidade; PC + 0,5M: PC com cama sobreposta de maravalha de 0,5 m de profundidade.
2Erro padrão da média.
3Nível de significância.
A temperatura do piso e das paredes afetaram o conforto térmico (BAKER, 2004; CLOSE, 1981; MOUNT, 1975) dos leitões, tornando-os suscetíveis ao estresse por calor, mesmo com a temperatura real do bulbo seco relativamente constante (BROWN-BRANDL et al., 2023).
Não houve diferença (P > 0,05) entre os tratamentos de confinamento com ou sem cama sobreposta no peso médio dos leitões nas fases I e III (Tabela 3). Por outro lado, na fase II da creche há evidências de que existem diferenças significativas no peso médio dos leitões em relação ao tipo de piso, os leitões confinados em baias com piso de concreto exibiram maior peso médio dentre os pisos avaliados.
Tabela 3 – Valores médios da alimentação diária, peso médio e conversão alimentar.
Parâmetros |
Tratamentos1 |
||||||
PC |
EPM2 |
PC + 0,3M |
EPM2 |
PC + 0,5M |
EPM2 |
P-valor3 |
|
Fase I – 21 aos 34 dias |
|||||||
Alimentação diária (Kg) |
0,45 |
– |
0,45 |
– |
0,45 |
– |
– |
Peso médio (Kg) |
5,70 ± 0,4 |
0,02 |
5,50 ± 0,52 |
0,02 |
5,70 ± 0,51 |
0,02 |
0,3158 |
Conversão alimentar |
0,08 |
– |
0,08 |
– |
0,08 |
– |
– |
Fase II – 35 aos 48 dias |
|||||||
Alimentação diária (Kg) |
0,60 |
– |
0,60 |
– |
0,60 |
– |
– |
Peso médio (Kg) |
6,5 ± 0,71 |
0,05 |
5,60 ± 0,52 |
0,04 |
6,10 ± 0,48 |
0,03 |
0,0005 |
Conversão alimentar |
0,09 |
– |
0,10 |
– |
0,10 |
– |
– |
Fase III – 49 aos 63 dias |
|||||||
Alimentação diária (Kg) |
0,6 |
– |
0,6 |
– |
0,6 |
– |
– |
Peso médio (Kg) |
6,80 ± 0,23 |
0,02 |
7,15 ± 0,52 |
0,04 |
6,60 ± 0,42 |
0,03 |
0,1999 |
Conversão alimentar |
0,09 |
– |
0,08 |
– |
0,10 |
– |
– |
1PC: piso de concreto; PC + 0,3M: PC com cama sobreposta de maravalha de 0,3 m de profundidade; PC + 0,5M: PC com cama sobreposta de maravalha de 0,5 m de profundidade.
2Erro padrão da média.
3Nível de significância.
Em última análise, pesquisas recentes (AMARAL et al., 2021; GUY et al., 2002) identificaram alterações no comportamento padrões dos leitões, em função das características do ambiente em que são confinados. É razoável inferir que leitões alojados em baias com piso de cama sobreposta tendem a apresentar o padrão comportamental de passar mais tempo deitado, mas de forma ativa (GUY et al., 2002). No entanto, no presente estudo, os leitões apresentaram seus padrões de comportamento independentemente do tipo de piso, resultando em interações semelhantes. Isto indica que a baixa variação nos parâmetros térmicos analisados, apresentaram correlação positiva com o comportamento exploratório dos leitões.
A eficiência produtiva dos suínos em condição de confinamento depende de uma série de fatores predisponentes ao bem-estar animal, podendo influenciar diretamente no ganho de peso, saúde e performance final da leitegada. Os fatores climáticos da região amazônica culminaram na necessidade de adaptações metabólicas que aumentaram o gasto energético para manutenção da termorregulação. Os benefícios adquiridos pela cama sobreposta foram inquestionáveis, principalmente em relação ao bem-estar, sanidade e ambiente. Analisando os resultados observados neste estudo, uma possível explicação para os efeitos é que o uso de piso de concreto com cama sobreposta durante a fase de creche poderá impactar diretamente no desempenho zootécnico, sendo assim importante considerar fatores ambientais e climáticos ao estabelecer o sistema de criação dos leitões.
Conclusão
No presente estudo, a hipótese de que o sistema de confinamento com cama sobreposta poderia ser utilizado na região Amazônica foi confirmada, embora não tenha resultado em alterações no desempenho zootécnico dos leitões. Como resultado, o nosso estudo fornece novas perspectivas sobre os benefícios adquiridos pela cama sobreposta, principalmente em se tratando de questões de bem-estar, sanidade e meio ambiente. No entanto, são necessárias mais pesquisas para investigar as adaptações metabólicas subjacentes à termorregulação.
Conflitos de interesse
Os autores declaram não haver conflitos de interesse para este artigo.
Contribuição dos autores
Ian Souza dos Santos – investigação, metodologia, redação do rascunho original; Hayane Oliveira Pinto – investigação; Pamela Karoline Correia Brunner – investigação; Kaliane Nascimento de Oliveira – supervisão, redação, revisão e edição; Janaína Paolucci Sales de Lima – conceitualização, administração do projeto, supervisão, redação, revisão e edição.
Apoio financeiro
A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (FAPEAM) pelo suporte financeiro.
Agradecimentos
A Faculdade de Ciências Agrárias (FCA) e Fazenda Experimental da Universidade Federal do Amazonas (UFAM).
Referencias bibliográficas
ABPA. Associação Brasileira de Proteína Animal. Relatório Anual 2024. https://abpa-br.org/wp-content/uploads/2024/04/ABPA-Relatorio-Anual-2024_capa_frango.pdf
ALVES, L. K. S.; SANTOS, F. M.; MOTTA, J. S.; FIRMIANO, P. J. V.; GEREMIAS, H. R.; RAINERI, C.; GAMEIRO, A. H.; GARBOSSA, C. A. P. Informativo Mensal do Índice de Custo de Produção do Suíno Paulista (ICPS – Ed. Março 2024). Informativo Mensal, n. 37, 2024, 3p. https://doi.org/10.13140/RG.2.2.17669.36323
ALVES, L. K. S.; SANTOS, F. M.; MOTTA, J. S.; FIRMIANO, P. J. V.; GEREMIAS, H. R.; RAINERI, C.; GAMEIRO, A. H.; GARBOSSA, C. A. P. Informativo Mensal do Índice de Custo de Produção do Suíno Paulista (ICPS – Ed. Setembro 2023). Informativo Mensal, n. 31, 2023, 3p. https://doi.org/10.13140/RG.2.2.14289.10083
AMARAL, P. I. S.; CAMPOS, A. T.; ESTEVES JUNIOR, R. C.; ESTEVES, G. F.; YANAGI JUNIOR, T.; LEITE, M. E. C. R. Behavioral responses of pigs finished in deep bedding and conventional bed systems. Engenharia Agrícola, v. 41, n. 1, p. 25–33, 2021. https://doi.org/10.1590/1809-4430-Eng.Agric.v41n1p25-33/2021
ARRUDA, D. Z.; MARTINEZ, J. F.; AMORIM, A. B.; SILVA, F. D.; MEIRA, A. S. Eficiência do sistema de nebulização no conforto térmico de suínos. Scientific Electronic Archives, v. 16, n. 9, p. 37-41, 2023. https://doi.org/10.36560/16920231784
BAÊTA, F. C.; SOUZA, C. F. Ambiência em edificações rurais – conforto animal. 2ª ed. Viçosa: Editora UFV, 2010.
BAKER, J. E. Effective environmental temperature. Journal of Swine Health and Production, v. 12, n. 3, p. 140-143, 2004. https://www.aasv.org/shap/issues/v12n3/v12n3ptip.html
BAUMGARD, L. H.; RHOADS, R. P.; RHOADS, M. L.; GABLER, N. K.; ROSS, J. W.; KEATING, A. F.; BODDICKER, R. L.; LENKA, S.; SEJIAN, V. Impact of climate change on livestock production. In: SEJIAN, V.; NAQVI, S. M. K.; EZEJI, T.; LAKRITZ, J.; LAL, R. Environmental Stress and Amelioration in Livestock Production. Springer Berlin, Heidelberg, p. 413-468, 2012, 570p. https://doi.org/10.1007/978-3-642-29205-7_15
BROWN-BRANDL, T. M.; HAYES, M. D.; ROHRER, G. A.; EIGENBERG, R. A. Thermal comfort evaluation of three genetic lines of nursery pigs using thermal images. Biosystems Engineering, v. 225, p. 1-12, 2023. https://doi.org/10.1016/j.biosystemseng.2022.11.002
BUFFINGTON, D. E.; COLLAZO-AROCHO, A.; CANTON, G. H.; PITT, D.; THATCHER, W. W.; COLLIER, R. J. Black Globe Humidity Index (BGHI) as comfort equation for dairy cows. Transactions of the of the American Society of Heating, v. 24, n. 3, p. 711-714, 1981. https://doi.org/10.13031/2013.34325
CAGLIARI, T. P.; FRAGA, B. N.; OELKE, C. A.; GARCIA, G. G.; OLIVEIRA, V.; CERON, M. S. Avaliação do ambiente em pesquisas sobre o comportamento dos suínos em crescimento e terminação. In: OELKE, C. A.; MORAES, G. F.; GALATI, R. L. Zootecnia: pesquisa e práticas contemporâneas – vol. 1, cap. 14, p. 208-227, 2021. https://doi.org/10.37885/210504785
CALDARA, F. R.; ROSA, P. S. G.; FERREIRA, R. A.; REIS, N. M. O.; NÄÄS, I. A.; PAZ, I. C. L. A.; GARCIA, R. G.; FERREIRA, V. M. O. S. Behavior, performance and physiological parameters of pigs reared in deep bedding. Engenharia Agrícola, v. 32, n. 1, p. 38-46, 2012. http://doi.org/10.1590/S0100-69162012000100005
CLOSE, W. H. The climatic requirements of the pig. Environmental Aspects of Housing for Animal Production, p. 149-166, 1981. https://doi.org/10.1016/B978-0-408-10688-7.50015-1
COELHO, M. S. Viabilidade econômica da produção de suínos com alojamento individual ou coletivo de matrizes gestantes. 39f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Zootecnia) – Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2023. https://repositorio.ufu.br/handle/123456789/38148
CORDEIRO, M. B.; TINÔCO, I. F. F.; OLIVEIRA, P. A. V.; MENEGALI, I.; GUIMARÃES, M. C. C.; BAÊTA, F. C.; SILVA, J. N. Efeito de sistemas de criação no conforto térmico ambiente e no desempenho produtivo de suínos na primavera. Revista Brasileira de Zootecnia, v. 36, n. 5, p. 1597-1602, 2007. https://doi.org/10.1590/S1516-35982007000700019
EMBRAPA. Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. Central de Inteligência de Aves e Suínos – CIAS. Estatísticas. 2024. https://www.embrapa.br/suinos-e-aves/cias/estatisticas
FERREIRA, R. A. Maior produção com melhor ambiente: para aves, suínos e bovinos. 2ª ed. Viçosa, MG: Aprenda Fácil, 2011, 401p.
GUY, J. H.; ROWLINSON, P.; CHADWICK, J. P.; ELLIS, M. Behaviour of two genotypes of growing-finishing in three different housing systems. Applied Animal Behaviour Science, v. 75, n. 3, p. 193-206, 2002. https://doi.org/10.1016/S0168-1591(01)00197-6
IDAM. Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Estado do Amazonas. Produção Animal. 2024. http://www.idam.am.gov.br/ater/producao-animal/
ITO, E. H. Enriquecimento sensorial do ambiente buscando o bem-estar de suínos. 49p. Enriquecimento sensorial do ambiente para suínos criados em instalações abertas. Tese (Doutorado em Ciências) – Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz, Universidade de São Paulo, Piracicaba, 2018. https://repositorio.usp.br/item/002890554
LAISHRAM, M.; SAIKIA. P.; CHOUDURY, P. R.; KALITA, G.; PANDA, R.; HMAR, L.; HAZARIKA, P. Effect of deep litter system and effective microbial technology on the occurrence of diseases and immunity in pigs. Journal of Animal Health and Production, v. 6, n. 3, p. 77-79, 2018. http://doi.org/10.17582/journal.jahp/2018/6.3.77.79
LEAL, P. M.; NÃÃS, I. A. Ambiência animal. In: CORTEZ, L. A. B.; MAGALHÃES, P. S. G. (Orgs.). Introdução à Engenharia Agrícola. Campinas: Unicamp, p. 121-135, 1992.
MAPA. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Plano Safra. 2023. https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/politica-agricola/plano-safra/2023-2024
MATOS, A. L. S. M.; ALVES, G. A. G.; GABRIEL, P. E. Manejo e bem-estar dos suínos. 18p. Trabalho de Conclusão de Curso (Curso Técnico em Agropecuária). Escola Técnica Estadual Professor Carmelino Corrêa Júnior, Franca, 2023. https://ric.cps.sp.gov.br/handle/123456789/18808
MESQUITA, P. C. R. Desempenho de suínos alimentados com farinha de resíduos de tambaqui (Colossoma macropomum). 35f. Dissertação (Mestrado em Ciências Ambientais) – Universidade Federal do Amazonas, Humaitá, 2023. https://tede.ufam.edu.br/handle/tede/9974
MOUNT, L. E. The assessment of thermal environment in relation to pig production. Livestock Production Science, v. 2, n. 4, p. 381-392, 1975. https://doi.org/10.1016/0301-6226(75)90121-9
RIBEIRO, U. R.; DUARTE, C. G.; SIQUEIRA, C. F. R.; ROSA, C. E.; OLIVEIRA, D. S. A.; MAIMONE, V. R.; PINTO, P. N. Entendendo o bem-estar animal e sua associação a produção de suínos criados livre de gaiolas. Open Science Research, cap. 11, p. 140-158, 2023. https://doi.org/10.37885/221211596
ROPPA, L. Mercado Mundial: Perspectivas 2010/2020. OIPORC 2011 – Congreso Iberoamericano de Porcicultura, 2011.
ROSTAGNO, H. S.; ALBINO, L. F. T.; HANNAS, M. I.; DONZELE, J. L.; SAKOMURA, N. K.; PERAZZO, F. G.; SARAIVA, A.; TEIXEIRA, M. L.; RODRIGUES, P. B.; OLIVEIRA, R. F.; BARRETO, S. L. T.; BRITO, C. O. Tabelas brasileiras para aves e suínos: composição de alimentos e exigências nutricionais. 4ª ed. Viçosa: UFV, 2017, 488p.
SANTOS, T. C.; CARVALHO, C. C. S.; SILVA, G. C.; DINIZ, T. A.; SOARES, T. E.; MOREIRA, S. J. M.; CECON, P. R. Influência do ambiente térmico no comportamento e desempenho zootécnico de suínos. Revista de Ciências Agroveterinárias, v. 17, n. 2, p. 241-253, 2018. https://doi.org/10.5965/223811711722018241
SILANIKOVE, N. Effects of heat stress on the welfare of extensively managed domestic ruminants. Livestock Production Science, v. 67, n. 1/2, p. 1-18, 2000. https://doi.org/10.1016/S0301-6226(00)00162-7
SOUSA JÚNIOR, V. R.; ABREU, P. G.; COLDEBELLA, A.; LOPES, L. S.; LIMA, G. J. M. M.; SABINO, L. A. Iluminação artificial no desempenho de leitões na fase de creche. Acta Scientiarum Animal Sciences, v. 33, n. 4, p. 403-408, 2011. https://doi.org/10.4025/actascianimsci.v33i4.10828
SOUZA, E. D.; SOUZA, B. B.; FERNANDES, D. L.; ROBERTO, J. V. B.; MASCARENHAS, N. M. H.; MEDEIROS, F. F.; BATISTA, L. F.; BENÍCIO, T. M. A.; COSTA, J. A. P.; CRUZ, L. V. Efeitos do estresse pós desmame sobre as respostas fisiológicas, comportamentais e no desempenho de leitões. Revista Coopex, v. 14, n. 4, p. 3478-3497, 2023. https://doi.org/10.61223/coopex.v14i4.472
SOUZA, Y. T. R.; RIBEIRO, L. F. Bem-estar animal na suinocultura. Revista GeTeC, v. 17, p. 49-62, 2024. https://revistas.fucamp.edu.br/index.php/getec/article/view/3390
STARLING, J. M. C.; SILVA, R. G.; NEGRÃO, J. A.; MAIA, A. S. C.; BUENO, A. R. Variação estacional dos hormônios tireoideanos e do cortisol em ovinos em ambiente tropical. Revista Brasileira de Zootecnia, v. 34, n. 6, p. 2064-2073, 2005. https://doi.org/10.1590/s1516-35982005000600032
THOM, E. C. Cooling degree: days air conditioning heating and ventilating. Transactions of the of the American Society of Heating, v. 55, n. 7, p. 65-72, 1958.
Recebido em 11 de junho de 2024
Retornado para ajustes em 22 de junho de 2024
Recebido com ajustes em 25 de junho de 2024
Aceito em 11 de julho de 2024