‘Escápula voadora’ em bovino – relato de caso

Revista Agrária Acadêmica

agrariacad.com

doi: 10.32406/v7n5/2024/45-50/agrariacad

 

‘Escápula voadora’ em bovino – relato de caso. ‘Flying scapula’ in cattle – case report.

 

Uila Almeida Aragão de Alcantara1, Tatiane Vitor da Silva1*, Rodolpho Almeida Rebouças1, Carla Lopes de Mendonça2, Nivaldo de Azevedo Costa2, José Augusto Bastos Afonso2

 

1- Programa de Residência em Área Profissional de Saúde – Sanidade de Ruminantes. Universidade Federal Rural de Pernambuco. Clínica de Bovinos de Garanhuns, Garanhuns, Pernambuco, Brasil. Autor para correspondência: tatianevitorveterinaria@gmail.com
2- Universidade Federal Rural de Pernambuco. Clínica de Bovinos de Garanhuns, Garanhuns, Pernambuco, Brasil.

 

Resumo

 

O objetivo desse relato foi descrever os achados clínico-laboratoriais de um bovino, fêmea, mestiço de Holandês, de oito meses de idade, diagnosticado com “flying scapula”. Durante anamnese, o proprietário relatou que o animal foi colocado em um pasto com outros bovinos de diferentes faixas etárias. Após três dias da mudança de ambiente, observou que o animal apresentava posição anormal das escápulas, redução do apetite e apatia. Suspeitou que outro animal tenha tentado montá-la. Relata ainda, que fato como este nunca havia ocorrido na propriedade.  Ao exame clínico constatou-se dificuldade para se levantar e relutância em se locomover. Ao passo, as escápulas pareciam soltas (“flying scapula”), num plano acima das vértebras torácicas, com perceptível afundamento da caixa torácica entre os membros anteriores. Os exames laboratoriais evidenciaram hipoproteinemia (5,2 g/dL), valores sanguíneos de selênio abaixo do considerado normal (0,0094 µmol/L), elevação da atividade sérica da creatino quinase (CK) (898 U/L) e os de vitamina E adequados (7,8 µg/ml) para a espécie. Esses achados reafirmam o diagnóstico de flying scapula, tendo como fator desencadeante o trauma associado à deficiência de selênio.

Palavras-chave: Deficiência de selênio. Deslocamento escapular. Miopatia nutricional. serrátil ventral.

 

 

Abstract

 

The objective of this report was to describe the clinical and laboratory findings in an eight-month-old Holstein crossbred cow diagnosed with flying scapula. During anamnesis, the owner informed that the cow was placed in a pasture with other animals of different age groups. Three days after the environment change, he noticed the animal showed abnormal position of the scapulae, reduced appetite, and apathy. He suspected another animal had tried to mount it. The owner also reported it had never happened on his property. Clinical examination revealed difficulty in getting up and reluctance to move. The scapulae seemed to be loose (flying scapula) in a level above the thoracic vertebrae, with noticeable deepening of the rib cage between the front limbs. Laboratory tests showed hypoproteinaemia (5.2 g/dL), selenium values below normal (0.0094 μmol/L), elevated serum creatine kinase (CK) activity (898 U/L), and normal vitamin E levels (7.8 μg/ml) for the species. These findings confirm the diagnosis of flying scapula, having as a triggering factor the trauma associated with selenium deficiency.

Keywords: Selenium deficiency. Scapular displacement. Nutritional myopathy. Ventral serratus.

 

 

Introdução

 

As afecções conhecidas como ombros caídos ou “flying scapula” (escápula voadora) são consideradas raras. Geralmente ocorre quando há ruptura ou dano do músculo serrátil ventral, o principal elo entre o tórax e os membros anteriores (MEARNS e LEWIS, 2007). A deficiência de vitamina E e/ou Selênio tem sido associada a essa enfermidade (HANNAM et al., 1994). De acordo com Tokarnia et al. (2012), este elemento, por meio das enzimas glutationa peroxidase, previne danos às membranas celulares e tecidos, causados pela liberação de radicais livres. Embora haja autores que não relacionem a lesão com a deficiência de vitamina E e/ou selênio, atribuindo ao exercício excessivo (GUNNING e WALTERS, 1994).

Animais com idade entre seis a 18 meses são mais acometidos, associadas a distrofia muscular nutricional. Porém pode se manifestar em animais mais velhos, acima dos seis anos, especialmente em vacas da raça Jersey (GREENOUGH, 1981).

Os animais acometidos apresentam andar rígido, relutância em se locomover e edema na região axilar. Em lesões musculares unilaterais ocorre deslizamento da escápula acima da borda das vértebras torácicas durante o apoio. Bilateralmente se observa um afundamento da caixa torácica entre os membros anteriores, de tal forma que resulta em lordose (DIRKSEN et al., 2005). Devido às poucas descrições desta enfermidade, o objetivo desse relato foi descrever os principais achados clínico-laboratoriais de um bovino diagnosticado com “flying scapula”.

 

Relato de caso

 

Um bovino, fêmea, mestiça Holandês, de oito meses de idade, pesando aproximadamente 170 kg, criada em sistema extensivo, alimentada com capim Buffel (Cenchrus ciliaris L.) e mineralizada ad libitum, foi atendida na Clinica de Bovinos de Garanhuns, Campus da Universidade Federal Rural de Pernambuco (CBG/UFRPE). Durante anamnese, o proprietário relatou que o animal foi colocado em um pasto, com bovinos de diferentes faixas etárias. Após três dias da mudança de ambiente observou posição anormal das escápulas, redução de apetite e apatia. Suspeitou que outro animal tenha tentado montá-la.  Não realizou tratamento, encaminhando o animal para a unidade hospitalar.

O exame clínico (DIRKSEN et al., 1993) do paciente revelou escore corporal regular, pelos eriçados e sem brilho, taquipneia e polipneia, taquicardia, apetite ausente. Apresentava dificuldade para se levantar e relutância para se locomover. Observou-se que ao passo, as escápulas pareciam soltas (“flying scapula”), num plano acima das vértebras torácicas, com perceptível afundamento da caixa torácica entre os membros anteriores (Figura 1; Figura 2).

Amostras sanguíneas foram obtidas por venopunção da jugular, em tubos siliconizados com sistema à vácuo (BD – Vacutainer System®), com anticoagulante EDTA, para realização de hemograma, seguindo as recomendações de Jain (1986). O soro sanguíneo foi obtido a partir de tubos sem anticoagulante, para dosagem de vitamina E, por cromatografia líquida de alta performance (HPLC), selênio, por espectofotometria de absorção atômica com gerador de hidreto e atividade sérica da creatino quinase (CK) empregando-se kit comercial (CK-NAC Liquiform, Labtest Diagnóstica S. A. – Brasil).

 

Figura 1 – Novilha apresentando deslocamento escapular bilateral.

 

Figura 2 – Código QR para visualização do vídeo do caso relatado (para ler este código, basta abrir o aplicativo câmera do celular e focá-lo).

 

Discussão

 

O aparecimento clínico da lesão foi agudo, acometendo apenas um bovino, logo após mudança de piquete na mesma propriedade, onde existiam animais de diferentes faixas etárias. Tal condição foi relatada por Gunning e Walters (1994), os quais propuseram que a ocorrência desta miopatia poderia estar associada à deficiência de Vitamina E e/ou selênio associado ao efeito do aumento abrupto do exercício e estresse climático. Mearns e Lewis (2007) descreveram a ocorrência em 10 bovinos, num rebanho de 47 animais, que haviam sido transferidos para outra propriedade, ressaltando o comportamento agitado dos animais e o ambiente desconhecido culminando no aparecimento da enfermidade. Outros autores notaram o aparecimento da doença em poucos dias após a mudança de pasto (DAVID e WINTERBOTTOM, 1996; GUNNING e WALTERS, 1994; HANNAM et al., 1994).

A condição clínica apresentada pelos animais acometidos com deslocamento escapular é bem característica, conforme observado neste relato, as escápulas apresentam-se acima da linha das vértebras, devido a ruptura do músculo serrátil ventral que leva ao afundamento do tórax. O perceptível afundamento da caixa torácica entre os membros anteriores confere a aparência dos ombros caídos. Os animais apresentavam ainda relutância em se locomover, com andar rígido e decúbito na maioria dos casos (GUNNING e WALTERS, 1994; MEARNS e LEWIS, 2007).

Os exames laboratoriais complementares evidenciaram hipoproteinemia (5,2 g/dL), aumento da atividade sérica da CK (898 U/L), valores normais de vitamina E (7,8 µg/ml) e baixos valores de selênio para a espécie (0,0094 µmol/L). Em alguns casos, a hipoproteinemia foi constatada e, atribuiu-se à perda proteica em decorrência de sua migração para os fluidos teciduais nos processos inflamatórios e perda do escore de condição corporal (ODRIOZOLA et al., 2015), o que possivelmente ocorreu no presente caso, tendo em vista a grave lesão com inflamação muscular e baixa condição corporal que o animal apresentava. A lesão causada devido a ruptura do músculo serrátil ventral, também justifica a elevação da atividade sérica da CK, encontrado em várias condições clínicas associadas a lesão muscular aguda ou a esforço muscular intenso. Apesar de estar abaixo dos encontrados por Gunning e Walters (1994), Mearns e Lewis (2007), que encontraram valores tão altos quanto 16.170 U/L nos casos relatados de “flying scapula”.

Tem sido proposto que a condição de “flying scapula” é uma manifestação provocada pela deficiência de vitamina E e/ou selênio em bovinos, em conjunto com lesões traumáticas, como as decorrentes de exercício intenso (GUNNING e WALTERS, 1994). No presente caso, o aparecimento desta foi associado à deficiência de selênio e um possível trauma sofrido pelo animal, segundo a suspeita do proprietário da tentativa de monta por outro animal. O valor encontrado (0,0094 µmol/L), estava abaixo dos níveis considerados como adequados para a espécie, que segundo Suttle (2010) varia de 0,10 a 0,12 µmol/L. Corroborando com Buergelt et al. (1996), Odriozola et al., (2015), que atribuíram a deficiência de selênio e ao manejo dos animais ao aparecimento da enfermidade em bovinos de corte. O baixo nível sanguíneo de selênio baixo pode ter sido o principal fator contribuinte da lesão, uma vez que este elemento tem grande importância na atividade antioxidante, prevenindo danos na membrana celular e necrose tecidual por peroxidases e radicais livres.  Sem níveis adequados, os danos provavelmente são mais severos (MEARNS e LEWIS, 2007).

Neste estudo não foi evidenciado deficiência de vitamina E, o valor sérico de 7,8 µg/mL, encontrava-se dentro dos valores normais, que segundo Smith (2015), são níveis acima de 2 μg/mL, o que demonstra a não participação da deficiência desta vitamina na ocorrência do quadro relatado. No trabalho realizado por Buergelt et al. (1996), foi relatado a ocorrência de deslocamento escapular em quatro novilhas de corte, e a média dos valores séricos de vitamina foi de 5,94 µg/mL, estando também normal para a espécie. Ao contrário, Hannam et al. (1994), relataram valores baixos desta vitamina. Em contraposição, a literatura também relata o quadro clínico com concentrações de vitamina E e selênio normais, atribuindo a lesão ao exercício excessivo (GUNNING e WALTERS, 1994). Isto demonstra que a deficiência de vitamina E e/ou selênio pode apresentar-se como fator de risco, mais contundente, devido a maior fragilidade que estes levam ao músculo. Sendo neste caso o trauma fator primordial para o aparecimento do quadro clínico de deslocamento escapular.

Vale ressaltar, que o tratamento para esta condição é inadequado e a cirurgia é impraticável (GUNNING e WALTERS, 1994; GREENOUGH, 2007). Para os animais com lesões mais sutis recomendam-se repouso e evitar caminhadas distantes, podendo haver recuperação parcial. Gunning e Walters (1994) relataram que após algumas semanas os animais demonstraram melhora clínica após tratamento com selênio, embora a elevação e mobilidade excessiva da escápula tenham persistido. Mearns e Lewis (2007) relatam atrofia e fibrose do músculo serrátil ventral como sequela.

Neste estudo, foi preconizado tratamento clínico conservador, mantendo o animal repouso e em ambiente de melhor conforto, com água e comida à vontade. Após 30 dias não ocorreu melhora do quadro clínico, sendo optado pelo proprietário o abate do animal.

 

Conclusões

 

Os achados clínicos associados aos laboratoriais confirmaram o diagnóstico de “flying scapula”. Tendo como fator desencadeante da enfermidade o trauma muscular e a deficiência de selênio.

Apesar da baixa ocorrência, é importante recomendar aos criadores cuidados profiláticos no manejo alimentar para que deficiências nutricionais e possíveis acidentes sejam evitados.

 

Conflitos de interesse

 

Nenhum dos autores tem relações financeiras ou pessoais que possam influenciar ou distorcer o conteúdo do artigo.

 

Contribuições dos autores

 

Todos os autores contribuíram para a concepção e o desenho do estudo. A preparação do material, coleta de dados e análise foram realizadas por Uila Almeida Aragão de Alcantara, Tatiane Vitor da Silva e Rodolpho Almeida Rebouças. Todos os autores comentaram versões anteriores do manuscrito, leram e aprovaram o manuscrito final.

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Recebido em 21 de jullho de 2024

Retornado para ajustes em 18 de novembro de 2024

Recebido com ajustes em 2 de dezembro de 2024

Aceito em 4 de dezembro de 2024