Desenvolvimento inicial na cultura do porongo (Lagenaria vulgaris) sob doses de adubação orgânica

Revista Agrária Acadêmica

agrariacad.com

doi: 10.32406/v8n2/2025/77-87/agrariacad

 

Desenvolvimento inicial na cultura do porongo (Lagenaria vulgaris) sob doses de adubação orgânica. Initial development in porongo culture (Lagenaria vulgaris) under organic fertilization doses.

 

Priscila Rodrigues Nogueira1, Marise Conceição Marques2, Francisca Nivanda de Lima Estevam3, Renan Gustavo Coelho de Souza dos Reis4, Reginaldo Conceição Cerqueira5

 

1- Engenheira Agrônoma. Departamento de Ciências Agrárias e Naturais – Universidade do Estado de Minas Gerais – UEMG, Ituiutaba/MG – Brasil.
2- Docente do Curso de Engenharia Agronômica. Departamento de Ciências Agrárias e Naturais – Universidade do Estado de Minas Gerais – UEMG, Ituiutaba/MG – Brasil. E-mail: marise.marques@uemg.br
3- Docente do Curso de Engenharia Agronômica. Departamento de Ciências Agrárias e Naturais – Universidade do Estado de Minas Gerais – UEMG, Ituiutaba/MG – Brasil.
4- Docente do Curso de Química. Departamento de Ciências Exatas e da Terra – Universidade do Estado de Minas Gerais – UEMG, Ituiutaba/MG – Brasil.
5- Docente do Curso de Agronomia. Departamento de Ciências Humanas – Universidade do Estado da Bahia – UNEB, Barreiras/BA – Brasil.

 

Resumo

 

Com a evolução dos processos agrícolas, a adubação orgânica tornou-se essencial tanto na agricultura convencional quanto na ecológica. Seu uso destaca-se pelos efeitos condicionadores no solo, melhorando seus atributos. O estudo avaliou a aplicação de doses de adubo orgânico no estádio inicial de crescimento porongo (Lagenaria vulgaris). Utilizou-se o delineamento em blocos casualizados, com seis doses de K2O (0, 150, 300, 600, 900 e 1200 kg ha-1) com quatro repetições. O adubo orgânico foi produzido com borra de café, casca de banana, casca de ovos e carvão mineral. As plantas de porongo foram avaliadas após 51 dias da semeadura, sendo determinadas altura da planta (m), diâmetro do caule (mm), o número de folhas, e massa seca da parte aérea. As doses dos adubos orgânicos não influenciaram nas características avaliadas, exceto para número de folhas.

Palavras-chave: Fonte potássica. Casca de banana. Borra de café. Casca de ovos. Carvão mineral.

 

 

Abstract

 

With the evolution of agricultural processes, organic fertilization has become essential in both conventional and ecological agriculture. Its use stands out for its conditioning effects on the soil, improving its attributes. The study evaluated the application of doses of organic fertilizer at the initial stage of porongo growth (Lagenaria vulgaris). A randomized block design was used, with six doses of K2O (0, 150, 300, 600, 900 and 1200 kg ha-1) with four replications. Organic fertilizer was produced with coffee grounds, banana peel, eggshell and coal. Porongo plants were evaluated after 51 days of sowing, being determined plant height (m), stem diameter (mm), number of leaves, and dry mass of the air part. The doses of organic fertilizers did not influence the evaluated characteristics, except for the number of leaves.

Keywords: Potassium source. Banana peel. Coffee grounds. Eggshell. Coal.

 

 

Introdução

 

A família Cucurbitaceae compreende mais de 120 gêneros com 800 espécies, que são predominantemente tropicais, embora algumas ocorram em regiões temperadas (TEPPNER, 2004).

A espécie Lagenaria siceraria pertence à família Cucurbitaceae, denominada nas regiões sulinas do Brasil como porongo, o seu cultivo tem como finalidade a fabricação de cuias, sendo uma fonte de renda para pequenos agricultores no estado do Rio Grande do Sul. O fruto, chamado de cuia é utilizado para o preparo do chimarrão, bebida que teve sua origem na América do Sul e muito apreciada até hoje (BISOGNIN; MARCHEZAN, 1988).

Algumas regiões do Rio Grande do Sul tem o cultivo do porongo como um meio de renda vindo da agricultura familiar, onde deles geram empregos e utilizam também para fins de comercialização.

O porongo tem o seu crescimento indefinido, contudo percebemos uma diferença nos estádios de maturação dos frutos, sendo visto no seu tamanho e na qualidade fisiológica das sementes (BISOGNIN et al., 2008; BISOGNIN et al., 1997). Os frutos menores pode ser consequência do uso de alta densidade de plantas (BISOGNIN et al., 1992) ou devido à senescência natural das plantas, que bloqueia o crescimento do fruto (BISOGNIN et al., 1997), podendo aparecer sementes imaturas e de menor qualidade fisiológica. Agronomicamente, não temos informações do manejo adequado para o cultivo com intuito de melhorar a produtividade e, ao mesmo tempo diminuir a erosão do solo (BISOGNIN et al., 1992; BISOGNIN et al., 1999; ELTZ et al., 2005). Para recomendação de adubação alternativa que se tem em estudo relatado por Trevisol (2015), leva-se em consideração as exigências de insumos baseados em recomendações para a produção de meloeiro, já que é a espécie mais próxima do porongo. Assim, o incentivo de pesquisas voltadas para essa cultura, poderá contribuir para responder lacunas sobreo manejo da adubação, tipos de cruzamentos, tratos culturais para melhor produtividade. Visto que, o porongo é uma alternativa de plantio mais voltada para culturas regionais, como é o caso da produção de cuias, atualmente vem ganhando espaço no mercado de objetos artesanais (CANCELIER; DAVID, 2020).

A adubação adequada é indispensável para o desenvolvimento das culturas. Com a evolução dos processos produtivos na agricultura a “adubação orgânica”, é considerada uma forma de adubação necessária tanto na agricultura convencional, como na agricultura de base ecológica, com o caso específico da agricultura orgânica, na qual é proibido o uso de insumos químicos sintéticos conforme a Lei 10.831, de 23 de dezembro de 2003 (BRASIL, 2003).

O adubo orgânico pode ser constituído de resíduos de origem vegetal e animal, sendo o esterco aquele que se destaca entre os adubos orgânicos de origem animal, formado por excrementos líquidos e sólidos de animais e pode ou não conter restos vegetais, geralmente são bons fornecedores de nutrientes, principalmente de fósforo e potássio, enquanto que a adubação orgânica de origem vegetal é caracterizada, principalmente, por restos vegetais remanescentes que sobra em períodos posteriores às safras. Como exemplo, pode ser citado o arroz e o trigo que deixam de 30 a 35% da massa original na forma de resíduos orgânicos, e o algodão, cana-de-açúcar e milho que deixam cerca de 50 a 80% (ALCANTARA et al., 2017).

Qualquer material orgânico no solo pode sofrer o processo de decomposição que pode ser definido como a modificação do estado inicial de um material orgânico que culmina em sua redução, por meio da influência de fatores interativos e modificações em sua composição química. Trata-se de um processo que está fortemente ligado aos microrganismos do solo e pode variar de acordo com a relação C/N e o teor de lignina do material, sofrendo grande influência da ação do clima, principalmente das variáveis de temperatura e precipitação presentes no local (MÜLLER, 2012).

As culturas que recebem a adubação orgânica se destacam devido aos efeitos condicionadores e efeitos sobre os nutrientes e microrganismos do solo. Como por exemplo, de efeitos condicionadores podemos citar a melhora na agregação do solo, diminuição da plasticidade, coesão e as oscilações de temperatura do solo durante o dia. Já os efeitos sobre os nutrientes podem ser citados, principalmente, a liberação de nutrientes como o nitrogênio, enxofre e fósforo. Em relação aos efeitos nos microrganismos se destaca a promoção do constante dinamismo do solo, o que impacta positivamente o desenvolvimento vegetal das culturas (ALCANTARA et al., 2017).

Os produtores têm sido informados sobre os benefícios do uso de preparações orgânicas e biodinâmicas, embora seja incomum a publicação de estudos em periódicos acadêmicos (SOUZA et al., 2007). Há necessidade de pesquisas científicas sobre o uso de fertilizantes orgânicos e organominerais como alternativa para reduzir os desequilíbrios ecológicos causados pela intensa adubação vegetal (CAVALLARO JUNIOR et al., 2009).

Por depender da mineralização da matéria orgânica, a liberação de nutrientes dos adubos orgânicos é mais lenta do que a dos adubos minerais solúveis. Segundo Damatto et al. (2006), para alguns materiais orgânicos, a conversão do nitrogênio da forma orgânica para mineral ocorre 50% no primeiro ano, 20% no segundo ano e 30% após o terceiro ano. Além de alterar as propriedades físico-químicas do solo, como densidade, retenção de água, textura, estrutura, porosidade e condutividade térmica, a matéria orgânica também atua aumentando a capacidade de troca catiônica (CTC), da soma de bases, e promovendo uma ação quelante que evita que alguns nutrientes fiquem solubilizados e indisponíveis para as plantas (LEONEL; DAMATTO JUNIOR, 2008).

Segundo Novais et al. (2007), dependendo da proporção dos processos que consomem ou liberam H+, a adição de matéria orgânica fará com que o pH eleve ou diminua. Os fertilizantes orgânicos podem aumentar a fertilidade do solo, sendo necessário pesquisar seus impactos no sistema solo-planta devido ao crescente surgimento de materiais orgânicos provenientes de resíduos de diversas atividades (CAVALLARO JÚNIOR et al., 2009). Desse modo, pesquisas voltadas para a averiguação dos níveis de adubação utilizando adubação orgânica são de extrema importância, visto que, existe um aumento exponencial no crescimento populacional e, consequentemente, na produção de diversos resíduos. Dentre estes podem ser citados, casca de banana, casca de ovos, borra de café sem açúcar e carvão mineral, sendo considerados fontes de nitrogênio, potássio, fósforo etc.

Segundo aponta estudo da Empresa Tropical Estufas (2023), a casca da banana apresenta alto teor de potássio, além de manganês e outros minerais como sódio, cálcio e ferro. Pode-se dizer que mais de 90% de uma casca de banana é formada por matéria orgânica altamente nutritiva, que é composta por lipídios, proteínas, fibras e carboidratos. O potássio, que é o mineral mais abundante presente na casca de banana, tem um grande papel que é de auxiliar no transporte da água e dos nutrientes entre as células das plantas, favorecendo no fortalecimento do caule e contribuindo para a proteção das plantas contra doenças.

Uma maneira de fertilizar o solo é utilizar as cascas de ovos como adubo para a planta, é um método caseiro e curioso de fazer o enriquecimento do solo com cálcio, potássio e magnésio. Quando trituramos a casca, transformando-a em farinha, o solo absorve os nutrientes com maior velocidade, trazendo inúmeras vantagens para formação de flores, frutos e vegetais, através da aplicação dessa farinha com demais nutrientes, assim, não dependemos da decomposição da casca, que pode levar bastante tempo. Essa adubação pode auxiliar a planta a se desenvolver sadia e com resistência às pragas (REDAÇÃO CICLO VIVO, 2021).

Além de ajudar na produtividade das plantas, a borra de café tem função de proteção, pois, atua como repelente para larvas, caracóis e lesmas, ajuda também na eliminação de bactérias e vários microrganismos causadores de danos ao solo, dessa forma pode ser polvilhada na raiz das plantas. O carvão é um elemento vegetal que ajuda na fixação dos elementos do solo, ele possui magnésio, cobre, potássio, entre outros minerais (CAMACHO, 2022).

Desta forma, o objetivo deste trabalho foi avaliar o desenvolvimento inicial da cultura do porongo sob doses de adubação orgânica.

 

Material e métodos

 

O experimento foi desenvolvido na casa de vegetação instalada no departamento de solos na Universidade do Estado de Minas Gerais, Unidade Ituiutaba – MG, Localizada na Região do Pontal do Triângulo Mineiro, Estado de Minas Gerais (MG), sob as coordenadas geográficas: latitude: 18°58’17.59″S, longitude: 49°26’51.78″O, no município de Ituiutaba na região do Pontal do Triângulo Mineiro, MG.

Com base no resultado da análise do solo, tabela 1, foi realizada a calagem para elevar a saturação por base (V) para 80%, com calcário dolomítico PRNT 80%.

 

Tabela 1 – Resultado da análise do solo.
pH H2O
Al
H+Al
Ca
Mg
SB
T
t
K
P
V
MO
CO
 
——————-cmolc dm-3—————-
–mg dm-3-
%
— g kg-1
5,1
0,2
3,79
0,53
0,14
0,75
4,54
0,95
32,0
4,9
17
1,6
0,9
B
Cu
Fe
Mn
Zn
 
 
 
Areia Total
Silte
Argila
mg.dm-³
g.kg-¹
0,2
0,28
31
1,8
0,18
750
100
150
Al: Alumínio; Ca: Cálcio; Mg: Magnésio; SB: Soma de bases; T: CTC potencial; t: CTC efetiva; K: Potássio; P: Fosforo; V: Saturação de bases; MO. Matéria orgânica; CO.: Carbono orgânico; B: boro; Cu: cobre; Fe: ferro; Mn: Manganês; Zn: zinco. Extratores: P- Mehlich-1; H+Al – SMP a pH 7,5; Ca, Mg, K- Resina; S – Acetato de Amônio + Ácido Acético; S – Acetato de Amônio + Ácido Acético; K,  Ca e Mg – Resina; Al – KCl 1 mol L¹; H+Al – SMP a pH 7,5; e M.O método: colorimétrico. Cu, Fe, Mn e Zn – DTPA; B –Mehlich-1.

 

A necessidade de calagem foi de 3,73 t/ha de calcário, sendo aplicado 3,73g de calcário cada vaso com capacidade para nove litros, sendo preenchido com 1,5kg de pedra brita no fundo de cada vaso, para melhorar a drenagem, e aproximadamente 4kg de solo com classe textural arenosa. Para adubação foi utilizada a recomendação para a cultura do melão, que é uma cucurbitácea muito semelhante ao porongo (TREVISOL, 2015).

A adubação orgânica foi composta por de borra de café sem açúcar, casca de banana, casca de ovos e carvão mineral (OXE MENINA PRENDADA, 2023). Para a tal, foram separadas as fontes orgânicas, feito a partir da secagem ao ar, após foram triturados separadamente, pesados de forma proporcional e misturados homogeneamente. A mistura foi encaminhada para o laboratório Leaves (Ituiutaba – MG) para caracterização química descrita na tabela 2.

Os resultados obtidos observamos a quantidade de cálcio proveniente da casca de ovos, a alta quantidade de matéria orgânica, proveniente da casca de banana.

Desta forma, neste experimento foi utilizado o delineamento em blocos casualizados (DBC), constituído com seis tratamentos e quatro repetições, totalizando 24 unidades amostrais.

De acordo com o resultado obtido da caracterização do adubo orgânico foi realizado a recomendação para a cultura tomando como base a dose recomendada de potássio, para cultura do melão, conforme o manual de adubação da 5ª aproximação (UFV). A partir destas recomendações foram estimadas doses aplicadas, que definiram os tratamentos (tabela 3).

 

Tabela 2 – Resultado da análise do adubo orgânico
Características
Valor
Índice de pH
6,66
Relação Carbono/Nitrogênio
8,04
Umidade perdidaa105º
2,30 %
Densidade
6,07 %
Nitrogênio
1,40 %
Fósforo (P2O5)
1,51 %
Potássio (K2O)
6,52 %
Cálcio (Ca)
20,29 %
Magnésio (Mg)
1,19 %
Enxofre (S)
3,72 %
Carbono Orgânico Total
11,25 %
Matéria Orgânica Total
19,40 %
Boro (B)
0,03 kg/cm3
Manganês (Mn)
0,01 kg/cm3
Ferro (Fe)
0,02 kg/cm3
Cobre (Cu)
0,02 kg/cm3
Zinco (Zn)
0,00 kg/cm3
Mn, Cu, Fe e Zn: digestão nitroperclórica; Ca, Mg, K e Na: digestão em HCl; S: Digestão Nítrica; pH em água – Relação 1:2,5; Nitrogênio: Digestão Sulfúrica; P e B: Digestão em HCl e H2O (1:1); CO: Digestão K2Cr2O7; MO: CO x 1,724

 

 

Tabela 3 – Descrição dos tratamentos
Tratamento
Dose K2O (kg ha-1)
T1- Controle
0
T2- Metade da dose recomendada
150
T3- Dose recomendada
300
T4- Duas vezes a recomendação
600
T5- Três vezes a recomendação
900
T6- Quatro vezes a recomendação
1200

 

Após o período de reação do calcário no solo foi feito a incorporação do adubo orgânico no solo. Para tal, foi retirado cerca de 20 cm de solo para incorporação do adubo. Em seguida, foi implantado o sistema de irrigação da batata de salvação, que é um método de utilizado para manter o solo na úmido, para facilitar a irrigação, pois  o porongo é uma cultura que exige solos bem drenados.

No plantio foram semeadas cinco sementes de porongo em cada vaso, com 2 a 3 cm de profundidade. A emergência da plântula ocorreu após 4 dias da semeadura, sendo as primeiras folhas verificadas aos 7 dias após plantio.

Ao apresentar quatro folhas iniciais, sendo duas folhas após a emergência, e duas folhas típicas da espécie, foi realizado o desbaste com 31 dias após a semeadura, ou seja, 27 dias após a germinação, sendo deixadas três plantas por vaso.

A avaliação foi realizada 51 dias após a semeadura sendo determinadas: o número de folhas; altura da planta (m); diâmetro do caule (mm); as partes vegetativas foram acondicionadas em sacos de papel e em seguida levadas para estufa a 65 °C até atingirem peso constante, posteriormente foi realizada a pesagem da massa seca da parte área.

Os dados foram submetidos ao teste de homogeneidade de variâncias e normalidade, sendo em seguida submetidos a análise de variância seguido por análise de regressão, em caso de significância pelo teste F a 5% de probabilidade, sendo utilizado o programa SISVAR (FERREIRA, 2011).

 

Resultados e discussão

 

O período entre a semeadura e a emergência ocorreu após 04 dias. De acordo com Santos et al. (2010), a emergência das plantas de porongo acontece entre o 9º e 16º dia, sendo o menor tempo observado na semeadura tardia, no mês de outubro, em razão do aumento da temperatura. Da semeadura à emissão da primeira folha típica da espécie foram necessários 12 dias. Segundo Trevisol (2013) com 38 dias a planta emitiria a primeira flor masculina, o que não foi observado nesse experimento, pois, a cultura é exigente em radiação luminosa e em temperatura, comportamento não verificado nas condições experimentais, como os graus dias, temperatura do ar e do solo.

Foi verificado aos 45 dias após a semeadura, a presença de pragas, estas denominadas mosca branca (Bemisia tabaci) e cochonilhas (Dactylopius opuntiae), estas apenas no tratamento 5 e 6, podendo estar relacionado ao efeito da maior dose de adubo, resultando em plantas mais suscetíveis ao ataque de pragas.

 

Figura 1 – Incidência de pragas na cultura do porongo. Fonte: própria autora.

 

Em relação à altura, diâmetro do caule das plantas e massa seca da parte aérea, não foi verificado diferenças significativas quando realizado o teste F para ajustar a equação de regressão (Tabela 4). Enquanto no número de folhas, observamos efeito significativo, sendo ajustado a equação de regressão polinominal de segunda ordem (Figura 2).

O desenvolvimento das plantas não respondeu positivamente ao tratamento com doses crescentes do adubo orgânico para verificar sua eficiência como fonte de potássio, nutriente mais exigido pelo porongo, sendo este o segundo nutriente em maior concentração no adubo orgânico. No entanto, observou-se que o número de folhas apresentou efeito significativo, indicando as doses mais elevados 900 e 1200 kg ha-1 do adubo orgânico promoveram um declínio no número de folhas do porongo, resposta que pode está associado ao ataque de pragas nas plantas submetidas a esses tratamentos.

Estudos mostram que a influência positiva de fontes orgânicas aplicadas via solo sobre aspectos produtivos de culturas agrícolas está relacionada ao efeito nutricional e melhoras nos atributos do solo (ARMOND et al., 2016; SANTOS et al., 2014; SOUZA et al., 2007). Porém, dependendo da cultura, do solo, da fonte orgânica diferentes comportamentos são relatados devido a aplicação dos diferentes adubos. Pinto et al. (2011) verificaram que a aplicações de biofertilizantes, adubação mineral e composto orgânico não afetaram as características químicas dos frutos do melão. Sammy (2014) verificou em melão que a aplicação de cinzas obteve baixa produção de frutos e sólidos solúveis quando comparada a adubação química, porém o esterco bovino não diferiu da adubação química quanto à produção. Braz e Santos (2018), analisando o desenvolvimento inicial de plântulas de pepino em função da concentração de adubo orgânico feito de casca de banana em diferentes concentrações (5%, 10%, 15% e 20%), observaram que a concentração de 5% de farinha de banana houve um incremento para a germinação e comprimento de plântulas de pepino, enquanto em doses maiores do que essa, ocorre efeito contrário.

 

Tabela 4 – Resumo da análise de variância para as características, altura das plantas, diâmetro do caule, número de folhas e massa seca da parte aérea.
Altura (m)
FV
Graus de
Liberdade
Soma dos
Quadrados
Quadrado
Médio
Fc
Pr>Fc
TRATAMENTO
5
9.501833
1.900367
0.325
0.889
BLOCO
3
46.281250
15.427083
2.640
0.087
ERRO
15
87.641100
5.842740
TOTAL CORRIGIDO
23
143.424183
CV (%)
14.78
Média Geral:
16.35416667
Nº de observações:
24
Diâmetro do caule (mm)
FV
Graus de
Liberdade
Soma dos
Quadrados
Quadrado
Médio
Fc
Pr>Fc
TRATAMENTO
5
1.231933
0.246387
1.628
0.2127
BLOCO
3
2.517750
0.839250
5.547
0.0091
ERRO
15
2.269500
0.151300
TOTAL CORRIGIDO
23
6.019183
CV (%)
5.02
Média Geral:
7.7491667
Nº de observações:
24
Número de folhas
FV
Graus de
Liberdade
Soma dos
Quadrados
Quadrado
Médio
Fc
Pr>Fc
TRATAMENTO
5
4.271971
0.854394
4.597
0.0096
BLOCO
3
1.133646
0.377882
2.033
0.1525
ERRO
15
2.788179
0.185879
TOTAL CORRIGIDO
23
CV (%)
7.04
Média Geral:
6.1254167
Nº de observações:
24
Massa seca parte aérea (g)
 
FV
Graus de
Liberdade
Soma dos
Quadrados
Quadrado
Médio
Fc
Pr>Fc
TRATAMENTO
5
0,602413
0,120483
1,368
0,291
BLOCO
3
0,137834
0,045945
0,521
0,674
ERRO
15
1,321524
0,088102
1,368
0,291
TOTAL CORRIGIDO
23
2,061771
0,120483
1,456
0,246
CV (%)
7.04
Média Geral:
1.375958
Nº de observações:
24

 

Figura 2 – Número de folhas em plantas de porongo sob doses de adubo orgânico. ** Significativo em nível de 1% pelo teste de F.

 

Outro aspecto que deve ser considerado quando se utiliza fontes orgânicas é a necessidade de compostagem dos resíduos utilizados para melhor aproveitamento dos nutrientes disponibilizados. Assim como, evitar acidificação do solo no processo de decomposição da matéria orgânica após aplicação no solo, pois este processo libera H+ no solo. Wangen et al. (2015) avaliando níveis de borra de café adicionados ao substrato na produção de mudas de alface, verificaram que níveis mais altos que 10% de borra demonstrou efeito  negativo no desenvolvimento das plantas. Kiehl (2010) aponta que para utilizar a borra de café é preciso fazer sua compostagem antes e não utilizar diretamente no solo como fertilizante orgânico.

Cabe ressaltar que, o ambiente dentro da casa de vegetação não foi adequado para o desenvolvimento da planta, pois no período de desenvolvimento do experimento (dezembro à janeiro de 2023) choveu em média 190 mm (INMET, 2023), mantendo o solo muito úmido, dificultando o controle da manutenção da umidade do solo na capacidade do vaso por problemas no teto da casa de vegetação, que possibilitou interferência da água da chuva nos vasos; assim como, os graus dias (GDA) durante janeiro, subindo 448 °C, de 2.712 °C a 3.160 °C ao longo do mês.  Segundo Trevisol (2015, p. 30) o porongo precisa de uma certa quantidade de graus dias para o seu melhor desenvolvimento, sendo da semeadura à emissão da primeira folha típica necessários 21 dias e 204 GDA e da semeadura à antese da primeira flor masculina decorre de 38 dias 347 GDA, comportamento não observado no estudo, sendo o porongo uma cultura anual de ciclo de 195 dias aproximadamente (TREVISOL, 2013).

 

Conclusão

 

A aplicação de doses de adubo orgânico produzido a partir de casca de banana, borra de café, carvão e casca de ovo não influenciou no crescimento inicial do porongo, exceto para o número de folhas.

Condições climáticas ocorridas no período de realização do experimento pode também ter contribuído de forma negativa no desenvolvimento da cultura.

 

Conflitos de interesse

 

Não houve conflito de interesses dos autores.

 

Contribuição dos autores

 

Priscila Rodrigues Nogueira – desenvolvimento do experimento, interpretação dos resultados e escrita; Marise Conceição Marques – ideia original, orientação e correções no texto; Francisca Nivanda de Lima Estevam – revisão e correções no texto; Renan Gustavo Coelho de Souza dos Reis – revisão e correções no texto; Reginaldo Conceição Cerqueira – revisão e correções no texto.

 

Referencias bibliográficas

 

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Recebido em 18 de julho de 2024

Retornado para ajustes em 12 de maio de 2025

Recebido com ajustes em 12 de maio de 2025

Aceito em 13 de maio de 2025