Impacto da ausência de indústria de processamento de tomate na Baía-Farta, Província de Benguela, Angola

Revista Agrária Acadêmica

agrariacad.com

doi: 10.32406/v8n4/2025/23-34/agrariacad

 

Impacto da ausência de indústria de processamento de tomate na Baía-Farta, Província de Benguela, Angola. Impact of the absence of a tomato processing industry in Baía-Farta, Benguela Province, Angola.

 

Nsilulu Major Cuenda Quibula1

 

1- Mestre em Organização Empresarial e Projetos Industriais – Universidad Europea del Atlántico. Docente Colaborador, Instituto Superior Politécnico de Benguela – ISPB, Angola. E-mail: nsiluluquibula10@gmail.com

 

Resumo

 

Uma agroindústria é um meio físico equipado e preparado para atividades relacionadas à transformação das matérias-primas provenientes do campo agrícola, pecuária ou ainda silvicultura. Benguela, localizado na região centro-sul de Angola, é uma área com grande potencial agrícola, destacando-se na produção de tomate. As comunas de Equimina e Dombe-Grande, em particular, possuem vastas áreas agrícolas voltadas para o cultivo de tomate, mas enfrentam dificuldades devido à ausência de uma estrutura industrial que agregue valor à produção. O objetivo principal do estudo é analisar os impactos econômicos, sociais e produtivos da falta de uma indústria de transformação de tomate nas comunas de Equimina e Dombe-Grande, no município da Baía-Farta, província de Benguela. A pesquisa apresenta o cunho de uma abordagem qualitativa, com a realização de entrevistas semiestruturadas com produtores. A análise de dados seguiu uma abordagem descritiva e interpretativa, considerando o contexto socioeconômico das comunas e a literatura relacionada ao impacto da ausência de indústrias de processamento agrícola. Os resultados indicam que a falta de uma indústria de processamento de tomate em Benguela tem implicações diretas na estabilidade econômica, produtivas e sociais nas duas comunas em estudo. Isso afeta diretamente a sustentabilidade da produção local e impede o desenvolvimento de uma cadeia produtiva mais robusta.

Palavras-chave: Agroalimentar. Inatividade. Manuseamento. Socioeconômico. Região Sul.

 

 

Abstract

 

An agroindustry is a physical environment equipped and prepared for activities related to the transformation of raw materials from agricultural fields, livestock farming or forestry. Benguela, located in the south-central region of Angola, is an area with great agricultural potential, standing out in tomato production. The communes of Equimina and Dombe-Grande, in particular, have vast agricultural areas dedicated to tomato cultivation, but face difficulties due to the lack of an industrial structure that adds value to production. The main objective of the study is to analyze the economic, social and productive impacts of the lack of a tomato processing industry in the communes of Equimina and Dombe-Grande, in the municipality of Baía-Farta, Benguela province. The research presents a qualitative approach, with semi-structured interviews with producers. Data analysis followed a descriptive and interpretative approach, considering the socioeconomic context of the communes and the literature related to the impact of the absence of agricultural processing industries. The results indicate that the lack of a tomato processing industry in Benguela has direct implications for the economic, productive and social stability of the two communes under study. This directly affects the sustainability of local production and prevents the development of a more robust production chain.

Keywords: Agri-food. Inactivity. Handling. Socioeconomic. Southern Region.

 

 

Introdução

 

Uma agroindústria é um meio físico equipado e preparado para atividades relacionadas à transformação das matérias-primas provenientes do campo agrícola, pecuária ou ainda silvicultura. Têm o objetivo de transformar a matéria-prima, aumentado a sua disponibilidade, prazo de validade, diminuir a sazonalidade e agregar valor aos alimentos (KATATA, 2019).

O tomate pertence à família das solanáceas e pode desenvolver-se em climas do tipo tropical de altitude, subtropical e temperado (KATATA, 2019). Ela é uma planta perene, mas cultivada como anual, herbácea e de porte arbustivo. Pode ser cultivado em dois tipos de segmentos produtivos, um destinado ao mercado para consumo in natura e outro para processamento industrial (FILGUEIRA, 2008).

O tomate é um produto de grande importância nutricional e econômica e seu consumo contribui para uma dieta saudável e bem equilibrada. No entanto, na comercialização de hortaliças, um fator desfavorável é o alto índice de perdas pós-colheita, que reduzem sensivelmente a disponibilidade desses produtos (MAGALHÃES et al., 2009). A demanda dos produtos manufaturados à base de tomate tem sofrido flutuações devido aos comportamentos de mercado, particularmente relacionados a diferentes regiões do mundo e períodos do ano

De acordo com o INE (2023) A cultura do tomate vem desempenhando uma importância socioeconômica muito grande em Angola, nas últimas campanhas agrícolas, tanto nas explorações agrícolas familiares e também nas explorações agrícolas empresarial. Sendo que segundo o relatório do ministério da agricultura da campanha agrícola 2022/2023 entre as hortaliças a produção do tomate foi a que mais aumentou nos últimos dois anos com uma produção a rondar ao 44 545 t e uma contribuição de 16% abaixo apenas da cultura do alho, isso nas EAF e já nas EAE o tomate foi a produção que mais aumentou com uma produção a rondar 313 726 t, contribuindo com cerca de 48,5%.

Para indústria de processamento de tomate em Angola, segundo o Jornal o País, as Províncias de Namibe, Huila e Benguela (propriamente na comuna do Dombe-Grande), são as que possuem as mesmas fábricas. E segundo a mesmas fontes, as três fábricas encontram-se inoperantes, e que tem influenciado no desperdício e escassez do produto nas diferentes épocas do ano.

A província de Benguela, especialmente as comunas de Equimina e Dombe-Grande, é uma das principais áreas produtoras de tomate em Angola. No entanto, apesar da produção significativa, a falta de uma indústria de transformação de tomate tem impedido a maximização dos benefícios econômicos e sociais para os agricultores e as comunidades locais.

Deste modo, o artigo tem como objetivo de analisar os impactos econômicos, sociais e produtivos da falta de uma indústria de transformação de tomate nas duas comunas.

 

Material e métodos

 

Foi escolhida a pesquisa qualitativa de estudo de caso, sendo que a sua finalidade foi descritiva e explicativa, visando explorar as características e os impactos da falta da indústria de processamento de tomate nas duas comunas.

O estudo foi desenvolvido entre os meses de outubro de 2024 a fevereiro de 2025. A metodologia da pesquisa, apresentou três fases importantes:

1- Busca bibliográfica diferenciada: as fontes de pesquisa e recursos de busca baseados nas publicações internacionais usados foram: SciELO, Google Acadêmico, EBSCO e Scopus. Para uma busca diferenciada foram selecionados materiais de pesquisa, onde foram analisados os pontos chaves de cada material como sumário, resumo e introdução, baixando a amostra para trabalhos mais pertinentes ao objetivo da pesquisa.

2- Entrevista com roteiro flexível ou semiestruturada com os produtores: foram entrevistados um total de 20 produtores de tomate, nas Comunas de Dombe-Grande e Equimina, no Município da Baía-Farta, Província de Benguela. O foco foi recolher informações do impacto da ausência de indústria de processamento do tomate nas duas comunas. Além da entrevista, realizou-se a observação não participante do pesquisador durante a visita às áreas.

3- Posteriormente, foram definidos os critérios para a seleção das áreas que participarão dos trabalhos. Os principais critérios de seleção estão relacionados aos tópicos desta pesquisa, ou seja, foram pesquisados os potenciais participantes para o estudo, tais como líderes comunitários e os produtores da cultura do tomate. A seleção dos participantes para realização da coleta dos dados, foi simples e não rígida, onde para os produtores selecionados foram os que realizam atividade de produção de tomate nas duas comunas de Equimina e Dombe-Grande, com tempo nessa atividade não inferior de 1 anos, líderes comunitários (autoridades tradicionais locais) das duas comunas, que perfazem um total de 20 entrevistados.

 

Caracterização da área de estudo

 

A Província de Benguela possui uma área total de 39.826,83 km2, ocupando cerca de 3,19% do território nacional. Confina a Norte com a Província do Kwanza-Sul, a Leste com a Província do Huambo, a Sul com a Província do Namibe e da Huíla e a Oeste com o Oceano Atlântico (CAVELA, 2013).

Baía-Farta é o nome atribuído ao Município mais a Sul da província de Benguela e dista a 25km da cidade capital da Província. Limita-se a Norte com o Município de Benguela, a Oeste com o oceano Atlântico, a Leste com os Municípios de Caimbambo e Chongoroi, a Sul com a Província do Namibe (PASSASI, 2011). Tem uma área de 6.744 Km2, distribuídos por quatro Comunas: Comuna Sede, Dombe-Grande, Equimina, Kalohanga (PASSASI, 2011). A referência agrícola são as culturas do feijão, cebola, milho e tomate (Figura 1).

 

Figura 1 – Mapa de localização Baía-Farta – Benguela.

 

Resultados e discussão

 

No presente capítulo são apresentados os resultados obtidos no sentido de responder ao problema de pesquisa formulado. O questionário se dividiu em 5 partes. Na primeira parte foram recolhidas informações gerais dos participantes das duas comunas, compreendendo o género, a idade, tamanho da área, o tempo de produção, e a finalidade da produção, a segunda, terceira, quarta parte está relacionado diretamente com o problema do estudo, compreendendo o impacto econômico, social e produtivo na ausência da indústria de processamento. A quinta parte, permitiu ao autor entender a visão dos produtores quanto a solução e perspectiva de um futuro próximo da indústria de processamento na sua região.

 

Perfil dos participantes

 

Os dados da Tabela 1, demostram que a área de cultivo da cultura do tomate nas duas comunas Dombe-Grande e Equimina são superiores à 1ha. Não há dados que traçam o perfil de produtores de tomate quanto a área de produção. Para o fator tempo de produção da cultura do tomate, os dados demostram que a minoria dos produtores apresenta uma experiência de 1 ano que foi representado com 10% dos produtores, 2-5 anos foi de 30% e com mais de 5 anos de produção da cultura, representado com a maioria foi de 60% dos produtores. No estudo Permanência no campo: as motivações do agricultor para investir na propriedade rural e as expectativas de sucessão, a permanência nas terras, enquadra no processo de derivação da categoria aprendizagem do agricultor (SANTOS; POZZER, 2019). Com base fator género, os homens na área em estudo encontram-se em número maior, representando 90% dos entrevistados em comparação direta com as mulheres que representam apenas 10%.

 

Tabela 1 – Perfil dos 20 produtores da cultura do tomate
Área de cultivo de tomate em hectare (ha)
Área
Nº de produtores
1 ha
0
1 – 3 ha
8
> 3 ha
12
Tempo de produção da cultura do tomate
Anos
Nº de produtores
1 ano
2
2 – 5 anos
6
> 5 anos
12
Gênero
Sexo
Nº de produtores
Masculino
18
Feminino
2

 

Diversos estudos que examinaram a divisão do trabalho por sexo na agricultura permitiram concluir que as mulheres ocupam uma posição subordinada e seu trabalho geralmente aparece como ‘ajuda’, mesmo quando elas trabalham tanto quanto os homens ou executam as mesmas atividades que eles (LOLI et al., 2019).

Em síntese, a posição subordinada das mulheres na esfera produtiva dos estabelecimentos agropecuários é assim evidenciada (BRUMER, 2004):

As tarefas executadas no âmbito da esfera produtiva (produção destinada à comercialização) só são contabilizadas como parte de um esforço coletivo, na maioria das vezes aparecendo apenas como ‘ajuda’;

  1. Seu trabalho na esfera produtiva permanece praticamente invisível, tendo em vista que é praticado no interior do estabelecimento, sendo os homens praticamente os únicos responsáveis pelos contatos com o exterior (contato com extensionistas, bancos, sindicato, cooperativa, firmas vendedoras de insumos e compradores);
  2. Elas não detêm o conhecimento tecnológico necessário para administrar o estabelecimento agropecuário;
  3. Elas não administram os recursos originados com a venda da produção.

 

Impactos econômicos

 

A economia angolana é a terceira maior economia da África subsaariana. É uma nação em recuperação dos efeitos de mais de três décadas de guerra civil que devastou o país e as suas infraestruturas. A ausência de infraestrutura, de capacidade e de recursos humanos, faz deste período pós-guerra um grande desafio para o desenvolvimento do país (MATEUS, 2013).

Os dados do estudo realizado (Figura 2), demostram que os produtores das duas comunas Dombe-Grande e Equimina, não conseguem vender toda a sua produção do tomate. Onde a percentagem de perca das produções de tomate atinge mais de 50% que corresponde um total de 45% dos produtores, entre 20% e 50% correspondem 25% dos produtores e menos de 20% corresponde a 35% dos produtores. Os grandes motivos da perca das suas produções, encontram-se em grande maioria em ataques de pragas e doenças, antes e pós-colheita do tomate, que corresponde a 18 produtores, a falta de indústria de processamento é o segundo fator que correspondeu a 6 produtores e por último problema no escoamento para o mercado, num total de 4 produtores.

Almeida et al. (2012) observaram que em determinados períodos do ano, os insetos podem levar a perda de mais da metade da produção de tomate (70%). O segundo principal dano observado no estudo sobre causas de perdas pós-colheita em cultivares de tomates comercializados na Ceasa, Ceará com 21,90% (2,90 kg 2,5), estava associado ao ataque de pragas, identificando-se principalmente ataques de traça e broca pequena.

Especificamente relacionados às perdas ocasionadas na atividade de transporte, tem-se como referência os trabalhos de Caixeta Filho (1995). O autor apresenta um estudo bastante completo sobre a modelagem de perdas que ocorrem no transporte de produtos agrícolas. Segundo ele, as causas das perdas estão intimamente ligadas a três grupos de tecnologias: modalidade de transporte, tipo de equipamento e tipo de embalagem (CAIXETA FILHO, 1995).

Ainda na mesma variável econômica, para os fatores tais como: Falta de fábricas de processamento de tomate impacta diretamente para renda do produtor, identificou nesse estudo que dos entrevistados 95% sentem o impacto direto da ausência de uma indústria de processamento de tomate nas suas rendas; isso devido a terem que vender os produtos a preços baixos em períodos de maior oferta no mercado. Isso porque o estudo ainda mostrou que 95% dos mesmos entrevistados já venderam o tomate a preços muito baixos devido a sua falta de mercado para a produção de excedente, e que desse universo de produtores 65% deles já reduzir a área plantada de tomate por causa da falta de mercado para o produto.

 

Figura 2 – Impactos econômicos.

 

Impacto social

 

No impacto social, os resultados indicam que todos os produtores de tomate entrevistados nas duas comunas, concordam que a falta de uma indústria de processamento afeta a geração de empregos em sua comunidade.

Na figura 3, sobre como a implementação de uma indústria poderia beneficiar a comunidade, dos produtores entrevistados, 55% dos entrevistados permitiram identificar que aumentaria a produção local, e também 30% declararam que melhoraria a qualidade de vida na comunidade, a seguir a esses fatores estão o desenvolvimento local (transporte e serviços) e aumento do crescimento econômico local.

A agricultura tem um papel a ter em conta no processo de desenvolvimento econômico, sendo um dos primeiros fatores preponderante que concretamente se enfatiza na dinamização da indústria, no comércio e os serviços, através de importantes efeitos que mantém com o resto da economia. A conectividade que se mantém entre a indústria e agricultura entre vários os pontos podemos destacar o desenvolvimento urbano-industrial que influencia o desenvolvimento agrícola que por sua vez, através da procura de mão-de-obra, matérias-primas e alimentos proveniente do setor agrícola (DOMINGOS, 2016).

Os impactos sobre o desenvolvimento da região, em função da instalação de uma nova atividade econômica, são sentidos sobre o mercado de trabalho regional, sobre o nível de produção regional, sobre o nível de renda regional e sobre o nível de arrecadação tributária da região. Esses impactos, como visto, não se restringem apenas ao emprego, à produção, à renda e aos tributos gerados diretamente pela nova atividade, mas, também, graças aos multiplicadores regionais, ao emprego, à produção, à renda e aos tributos gerados por todas as atividades estimuladas pela instalação desta (SHIKIDA; SOUZA, 2009).

 

Figura 3 – Impacto social.

 

Impactos na produção

 

Sobre o impacto na produção do tomate, a Tabela 2 demostra que 95% dos produtores das duas comunas indicaram que ausência de uma indústria de processamento tem grande impacto no aumento do investimento para aumento da produção. Onde acrescentam de forma unanime que com a presença funcional de uma indústria de processamento estarão dispostos em expandir a sua produção.

 

Tabela 2 – Impactos na produção da ausência de indústria
A ausência de uma indústria de processamento influencia no aumento de investimento para a produção?

 

Sim
Não
19
1
Se uma indústria fosse implementada, você estaria disposto a expandir sua produção?

 

Sim
Não
20
0

 

O crescimento da renda regional, em função da instalação da nova atividade econômica e de sua influência sobre outras atividades (através dos efeitos de encadeamento por ela gerados), promoverá uma expansão nos mercados locais, estimulando o crescimento da produção local para o atendimento do consumo privado ou dos investimentos reais. Com isso, haverá um aumento da demanda local por alimentos, vestuário, serviços médicos e de ensino, construção civil, entre outros, estimulando as atividades responsáveis por sua oferta (efeitos induzidos) (SHIKIDA; SOUZA, 2009).

Na Tabela 3, podemos verificar também que os principais desafios que os produtores enfrentam na produção de tomate, com grande realce na dificuldade em armazenar o tomate e alto custos de transporte, abaixo delas estão os baixos preços, a deterioração e por último o mercado para o tomate industrial. Os produtores das duas comunas apontaram que a dificuldade de armazenamento está ligada pela falta de conhecimento técnico para prolongar a vida útil do tomate e também por não possuírem logística na fazenda para o armazenamento do mesmo. Constatou-se que os produtores apontam a baixa dos preços como um dos desafios, isso devido à época de maior excedente do produto no mercado.

 

Tabela 3 – Desafios que os produtores enfrentam na produção de tomate
Indicadores
 
Número de produtores
 
Perda de parte da produção devido a deterioração
4
Falta de mercado para o tomate industrial
2
Dificuldade em armazenar o tomate
14
Altos custos de transporte
11
Baixos preços da venda do tomate
8

 

As hortaliças estão sujeitas a diversos tipos de danos após a colheita, ocasionados por condições inadequadas de manuseio e armazenagem. Os principais motivos de perdas após a colheita são devido à falta de mão-de-obra capacitada, uso de práticas inadequadas de produção e ao desconhecimento de técnicas adequadas de manuseio pós-colheita (SOUSA, 2021).

A demanda de mercado é determinada pela quantidade de produto que os consumidores estão dispostos a adquirir nos diferentes níveis de preço. Existem outros fatores que afetam a quantidade demandada de um bem além do preço: os preços dos bens substitutos, a renda e as preferências do consumidor, bem como a propaganda, podem influenciar diretamente a demanda por certo bem. Em determinados produtos, a demanda tende a ser mais elástica a preços, quando os gastos de um consumidor são elevados com determinado produto ou quando este possui grande número de bens substitutos. No caso de a demanda ser menos elástica a preço, o produto caracteriza-se por possuir poucos substitutos diretos e baixo valor de mercado (BERTOTTI; MASSUQUETTI, 2010).

 

Sugestões dos produtores

 

Os dados recolhidos mostram que os produtores sentem uma grande necessidade de implementação de uma indústria de processamento como uma prioridade para melhorar a cadeia de produção da cultura do tomate, estando representado com 45%, sendo a seguir sem muita diferença significativa da melhoria das vias de acesso e transporte, com apoio técnico e insumos mais acessíveis. Destaca-se que criação de uma cooperativa de produtores é representado por 5% (Figura 4).

Benguela é uma das províncias de Angola que tem grandes polos industriais no ativo e outras inativas, mas em termos de indústria de processamento do tomate, apenas existe uma, isso na Baía-Farta que se encontra inativa, e os agricultores e não só das duas comunas solicitam para que o governo giza esforço para reativar o mesmo.

A situação das estradas também continua ser um calcanhar de Aquiles para os produtores das duas comunas, vistos que as suas fazendas se encontram no interior da zona rural, e as estradas secundárias, terciarias encontram-se totalmente debilitadas, e que torna o processo de comercialização cada vez mais difícil. Facilitando assim para o deterioramento da cultura e baixo preço do produto.

O estudo aponta a necessidade também de criação de cooperativas, para fazer face as grande lutas que os mesmos produtores têm enfrentado. Tanto na questão quesito preço, comercialização e dificuldade em concessão de crédito, etc.

Cooperativas agrícolas podem assumir importante papel na coordenação de sistemas agroalimentares em complementação ao Estado. Essa capacidade coordenadora resulta da tendência de crescimento vertical das estruturas cooperativas e, “entender as cooperativas é entender os incentivos para a integração vertical” (ZYLBERSZTAJN, 1994).

 

Figura 4 – Medidas de melhorar a cadeia de produção.

 

Destaca-se também na Figura 4, o ponto da assistência técnica e acessibilidade nos insumos, dizer que a mesma província, em especial a Baía-Farta já foi beneficiada de projetos virado a extensão rural. Mas é de salientar que ainda não é suficiente em números e resultados.

A importância da assistência técnica na transformação das práticas agrícolas, argumentando que a adoção de tecnologias modernas e sustentáveis requer não apenas acesso a essas inovações, mas também a orientação e o suporte contínuo fornecidos pela assistência técnica (SOUSA; ANDRADE, 2024).

 

Recomendações

 

Dos dados recolhidos com o inquérito e visita de constatação, as recomendações para a implementação/ativação de uma indústria de transformação de tomate que beneficie a economia local e promova o desenvolvimento sustentável das comunas estudadas, passam por esses pontos:

  • Projeto de investigação:

Segundo os dados adquirido no inquérito feito, foi notório de forma unanime nas duas comunas, da perdas de produção devido a existência de pragas e doenças. Fazendo com que aumente o índice da redução da produtividade e consequentemente a redução do produto no mercado. O urge a necessidade de se reforçar projetos com instituições públicas e privadas para desenvolver sementes melhoradas, para fazer face a esse fenómeno natural.

O sucesso de qualquer empreendimento agrícola, necessita o uso de semente de grande qualidade, com potencial de produzir plantas vigoras e produtivas e de forma uniforme. E isso torna-se viável através de pesquisas, tanto das instituições públicas e privadas. E assim viabilizar a existência de uma indústria de processamento.

  • Fortalecer a cadeia de suprimentos local:

As linhas rodoviárias e ferroviárias centralizam os meus principais de movimento dos produtos que abastecem a cadeia produtiva da região. Além da indústria de processamento, deve se promover o desenvolvimento de outros elos da cadeia de valor, como o transporte, o armazenamento e a logística. Investir na infraestrutura de armazenamento. O sector dos transportes joga um papel de extrema importância no fortalecimento da cadeia produtiva.

  • Treinamento de produtores locais:

Os dados mostram também que o índice de escolaridade dos produtores de tomate, tem uma grande influência na maneira de gerir a sua atividade agrícola e bem como o maneio de produção. A grande preocupação é que dos produtores entrevistados, apenas um encontra-se a frequentar o ensino superior na especialidade de agropecuária.

Para garantir que a produção de tomate esteja com qualidade e suficiente para abastecer a indústria de processamento, é importante que os produtores das duas comunas recebam assistência técnica e capacitação. O Governo e ONGs podem colaborar com programas de extensão rural focados em boas práticas agrícolas, tais como MIP e uso sustentável de insumos.

  • Fusão e aquisição:

A fusão seria a combinação de dois ou mais negócios, em que há uma troca de ações ou valor monetário e assim compartilhar direitos e deveres. E aquisição está ligado a uma empresa que pode assumir a gestão total ou parcial de outra empresa. 

O Governo pode facilitar parcerias público-privadas para financiar a reativação e suas operações do polo indústrias de processamento de tomate existente na província de Benguela que se encontra em inatividade. Além disso, pode-se estabelecer contratos de fornecimento com produtores locais de tomate, garantindo que a indústria compre a produção local a preços justos, o que beneficia tanto os produtores quanto a indústria.

 

Conclusão

 

Com base nos dados recolhido e a análise feita, concluiu-se que do ponto de vista social ausência de uma indústria de processamento tem impacto na melhoria de vida das comunas, no aumento da produção local e bem como no desenvolvimento local. A produção local sofre uma grande influência com a falta de uma indústria de processamento, isso porque os produtores de tomate sentem uma limitação em aumentar o investimento e assim expandir a sua produção.

Do ponto de vista econômico o impacto ainda se torna maior devido que a maioria dos produtores sofrem uma perda de mais de 50% da sua produção, estando relacionado com a falta de uma indústria de processamento, ataques de pragas e doenças na fase de produção e pós-colheita e por outra, problema no escoamento para o mercado externo. Os grandes desafios ou dificuldades que os produtores enfrentam nas duas comunas, Perda de parte da produção devido a deterioração, dificuldade em armazenar o tomate, alto custos de transporte, baixo preço da venda do tomate.

 

Conflito de interesse

 

Não houve conflito de interesse do autor.

 

Contribuição do autor

 

Nsilulu Major Cuenda Quibula – ideia original, interpretação das obras, leitura, redação, correções e revisão do texto.

 

Referências bibliográficas

 

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Recebido em 10 de abril de 2025

Retornado para ajustes em 12 de junho de 2025

Recebido com ajustes em 16 de junho de 2025

Aceito em 28 de junho de 2025