Revista Agrária Acadêmica
doi: 10.32406/v8n5/2025/51-60/agrariacad
Avaliação de parâmetros andrológicos e sua correlação com predições genômicas de fertilidade em touros jovens da raça Holandesa mantidos em condições de semiárido. Evaluation of andrological parameters and their correlation with genomic predictions of fertility in young Holstein bulls raised in semi-arid conditions.
Danny Lapenda Fagundes
1, Sebastião Inocêncio Guido
2, Leonardo Fernandes de Alencar
3, Venézio Felipe dos Santos
4, Cláudio Coutinho Bartolomeu
5
1- Extensionista Rural. Instituto Agronômico de Pernambuco – IPA. E-mail: lapendaipa@gmail.com
2- Pesquisador em Reprodução Animal. IPA, Estação Experimental de São Bento do Una – PE, Brasil.
3- Assistente de Pesquisa. Instituto Agronômico de Pernambuco – IPA.
4- Pesquisador em Estatística Aplicada. Instituto Agronômico de Pernambuco – IPA.
5- Professor Associado. Universidade Federal Rural de Pernambuco – UFRPE.
Resumo
O desempenho reprodutivo depende da adaptabilidade dos animais às condições climáticas. Bovinos da raça Holandesa são de distribuição cosmopolita, todavia sua eficiência reprodutiva pode ser impactada pelo ambiente ao qual estão submetidos. Este estudo teve como objetivo avaliar o crescimento do perímetro escrotal (PE), os parâmetros seminais e sua correlação com as predições genômicas de fertilidade em touros jovens (n=102) da raça Holandesa criados no semiárido brasileiro. O estudo foi desenvolvido na Estação Experimental de São Bento do Una/IPA, localizada nas coordenadas GPS 83° 16’ 18” de latitude Sul e 36° 27’ 59” de longitude, altitude 625m e ITU médio de 69,21. Os animais foram avaliados dos 12 aos 24 meses de idade, sendo mantidos em sistema de semiconfinamento. A partir dos 12 meses de idade os animais foram submetidos mensalmente a mensuração do PE e a colheita de sêmen para análise imediata. Para avaliação da correlação dos parâmetros seminais subjetivos e no sistema CASA com as predições genômicas, houve a necessidade de distribuição dos touros em dois grupos (TG1 e TG2) de acordo com o genótipo, sendo TG1 (n=03 genótipo IPA e TG2 (n=03 genótipo IPA x Importado. A avaliação genômica foi realizada utilizando-se o perfil Clarifide®, sendo utilizados: Índice de Fertilidade (IF); Taxa de Prenhez das Filhas (TPF); Taxa de Concepção em Novilhas (TCN) e Taxa de Concepção em Vacas (TCV). Os dados foram submetidos à ANOVA, análise de regressão e teste F a 5%. Quanto ao PE foram registrados valores médios 31,40±0,27 cm, 38,40±0,11 cm e 42,24±0,11 cm aos 12, 18 e 24 meses (p<0,05). As concentrações espermáticas médias foram de 324 x 106, 727 x 106 e 1056 x 106 espermatozoides/mL (p<0,05) aos 12, 18 e 24 meses, respectivamente. A motilidade e morfologia seminal no CASA evidenciou 59,9% e 63,5% de CM, 40,5% e 42,0% de CP e 57,7% e 62,1% de CN, respectivamente para o TG1 e TG2. Quanto as predições genômicas apenas a TCV foi superior (p<0,05), no TG2, sendo 0,23. O fenótipo Células Normais apresentou correlação r=0,7994, r=0,6228 e r+0,7512 com TPF, TCV e IF, respectivamente. Portanto, conclui-se que touros jovens da raça Holandesa criados no semiárido apresentam curva de crescimento do PE e parâmetros seminais compatíveis com estimativa de fertilidade desejável. Todavia, apenas o parâmetro seminal CN apresentou forte correlação com as predições genômicas de TPF, TCV e IF, independente do grupo experimental TG1 e TG2.
Palavras-chave: Sêmen bovino. Qualidade espermática. Fertilidade.
Abstract
Reproductive performance depends on the adaptability of animals to climatic conditions. Holstein cattle are distributed throughout the world, but their reproductive efficiency can be impacted by the environment to which they are subjected. This study aimed to evaluate the growth of scrotal circumference (SC), seminal parameters and their correlation with genomic predictions of fertility in young Holstein bulls (n=102) raised in the Brazilian semiarid region. The study was developed at the São Bento do Una/IPA Experimental Station, located at GPS coordinates 83° 16’ 18” South latitude and 36° 27’ 59” longitude, altitude 625m and average THI of 69.21. The animals were evaluated from 12 to 24 months of age and were kept in a semi-confinement system. From 12 months of age, the animals underwent monthly PE measurement and semen collection for immediate analysis. To evaluate the correlation of subjective seminal parameters and the CASA system with genomic predictions, it was necessary to distribute the bulls into two groups (TG1 and TG2) according to the genotype, being TG1 (n=03 IPA genotype and TG2 (n=03 IPA x Imported genotype). The genomic evaluation was performed using the Clarifide® profile, using: Fertility Index (FI); Daughter Pregnancy Rate (TPF); Heifer Conception Rate (TCN) and Cow Conception Rate (TCV). The data were submitted to ANOVA, regression analysis and F test at 5%. Regarding PE, mean values were 31.40±0.27 cm, 38.40±0.11 cm and 42.24±0.11 cm at 12, 18 and 24 months (p<0.05). The mean sperm concentrations were 324 x 106, 727 x 106 and 1056 x 106 sperm/mL (p<0.05) at 12, 18 and 24 months, respectively. Seminal motility and morphology in CASA showed 59.9% and 63.5% of CM, 40.5% and 42.0% of CP and 57.7% and 62.1% of CN, respectively for TG1 and TG2. Regarding genomic predictions, only TCV was superior (p<0.05), in TG2, being 0.23. The Normal Cells phenotype presented correlation r=0.7994, r=0.6228 and r+0.7512 with TPF, TCV and IF, respectively. Therefore, it is concluded that young Holstein bulls raised in the semiarid present a PE growth curve and seminal parameters compatible with the desirable fertility estimate. However, only the seminal parameter CN showed a strong correlation with the genomic predictions of TPF, TCV and IF, regardless of the experimental group TG1 and TG2.
Keywords: Bovine semen. Sperm quality. Fertility.
Introdução
O desempenho reprodutivo depende da adaptabilidade dos animais as condições climáticas. Bovinos da raça Holandesa são de distribuição cosmopolita, todavia sua eficiência reprodutiva pode ser impactada pelo ambiente ao qual estão submetidos, além de na atualidade a seleção genômica de touros jovens exigir uma rápida estimativa de fertilidade (FAIR; LONERGAM, 2018). Neste contexto, a avaliação da fertilidade dos touros jovens é de importância econômica substancial, principalmente considerando que a qualidade do sêmen pode ser adversamente afetada por diversos fatores, principalmente, incluindo concentração e motilidade espermáticas que podem sofrer influência de fatores como, como raça, dieta, idade, enfermidades, estação climática e temperatura ambiente (MACIEL et al., 2015; FAIR; LONERGAM, 2018; LLAMAS-LUCEÑO et al., 2020). Ainda deve-se considerar que em condições de clima tropical touros Bos taurus tendem a serem mais susceptíveis aos efeitos deletérios do estresse térmico o que pode influenciar no seu desenvolvimento andrológico inicial (LEITE et al., 2021), sendo a baixa fertilidade frequentemente relatada durante o verão, especialmente, em condições tropicais ou subtropicais (RAHMAN et al., 2018). Neste contexto, a idade do touro constitui um dos fatores que mais que exercem influência nos parâmetros seminais (MACIEL et al., 2015). Em condições de clima temperado bovinos Bos taurus iniciam a produção de espermatozoides precocemente, que tende a aumentar com a idade, sob influência do desenvolvimento testicular pré-puberdade, atingindo sua plenitude com a maturidade sexual (GEBREYESUS et al., 2021). No entanto, foi demonstrado que as características de qualidade do sêmen apresentam alta variabilidade fenotípica em touros jovens (GEBREYESUS et al., 2021). Além disso, de acordo com Salimiyekta et al. (2023) avaliando touros da raça Holandesa com base nos efeitos estimados da idade, a maioria das características de qualidade do sêmen aumentou substancialmente a partir dos 12 meses de idade e atingiu o pico por volta dos 20 meses de idade, sugerindo, assim, que a utilização de touros desta raça no intervalo dos 12 aos 20 meses de idade para a produção de sêmen mais intensa pode resultar em uma maior qualidade e quantidade de sêmen. Deve-se também considerar que a avaliação da morfologia dos espermatozóides é fundamental para estimativa de fertilidade (SAACKE, 2008; CHENOWETH; LORTTON, 2022). Entretanto, algumas anormalidades podem ter limiares aceitáveis de acordo com a faixa etária do touros (O’MEARA et al., 2022). Anormalidades como as gotas citoplasmáticas proximais podem ser encontradas em percentual elevado no sêmen de touros pré-púberes, todavia em touros maduros impacta as características de qualidade do sêmen (CARREIRA et al., 2012). Embora, como sugerem O’Meara et al. (2022) a avaliação da morfologia espermática pelo “Computer Assisted Sperm Analysis” (CASA) deve ser obtida com maior confiabilidade quando são aplicadas configurações padronizadas, independentemente da idade do touro. Sendo sugerido uma abrangência de utilização do CASA com ênfase a análise espermática multivariada (AZEVEDO et al., 2024).
Na avaliação fenotípica da fertilidade de touros leiteiros a taxa de concepção a campo evidencia a sua eficiência. Todavia, a taxa de concepção de touros ou “sire conception rate” (SCR), que tem como base as taxas de concepção do touro e das filhas, além do índice de fertilidade estimado, compondo um banco de dados de controle de prenhezes confirmadas (KUHN; HUTCHISON, 2008). Sendo, portanto, evidenciada uma variação na SCR superior a 10% na taxa de concepção entre touros de alta fertilidade e baixa fertilidade (PEÑAGARICANO et al., 2012; REZENDE et al., 2019). Fica evidente que a fertilidade de touros para servirem como doadores de sêmen deve ser estimada quando se pretende implementar a IA como estratégias de reprodução em rebanhos leiteiros. Entretanto, na estimativa da fertilidade do macho bovino deve-se buscar a aplicação de metodologias mais apropriadas para avaliação das variáveis envolvidas (MURPHY et al., 2018). As variáveis podem ser divididas em: competência das células espermáticas com base na sua morfologia, em bioensaios ou na taxa de concepção (MURPHY et al., 2018). Neste contexto, o sistema computadorizado de avaliação seminal “Computer Assisted Sperm Analysis” (CASA) apresenta elevada precisão para estimar os parâmetros seminais de bovinos (UTT, 2016; O’MEARA et al., 2022).
Algumas metodologias têm sido propostas para a estimativa dos efeitos genéticos e a predição dos fenótipos utilizando informações genômicas (MISZTAL et al., 2009). Além disso, várias estratégias com a seleção de marcadores moleculares têm sido sugeridas para reduzir o número de variáveis avaliadas e melhorar a precisão das provas genômicas, como a seleção de marcadores com amplos efeitos (WEIGEL et al., 2009). Portanto, a adoção das provas genômicas em bovinos leiteiros duplicou as taxas anuais de ganho genético para características de produção, bem como, houve um aumento de 3 a 4 vezes para herdabilidade de características de saúde e fertilidade das fêmeas (WELLER et al., 2017). Porém, a mesma atenção deve ser dispensada com a fertilidade de touros jovens de raça leiteiras.
Nestes contexto, este trabalho teve como objetivo avaliar a influência da idade sobre os parâmetros andrológicos e as predições genômicas de fertilidade em touros jovens da raça Holandesa mantidos em condições de semiárido brasileiro.
Material e métodos
O trabalho foi desenvolvido na Estação Experimental de São Bento do Una – EESBU, pertencente ao Instituto Agronômico de Pernambuco – IPA, localizada no município de São Bento do Una, região Agreste Central de Pernambuco, coordenadas GPS 83° 16’ 18” de latitude Sul e 36° 27’ 59” de longitude, altitude 625m e ITU médio de 69,21 no período. A região é caracterizada como uma área de transição climática entre o tipo “A” tropical úmido e o “Bsh” semiárido. A temperatura máxima e a mínima atingem extremos de 30,1 e 16,8°C, respectivamente, com média anual de 23,7°C.
Foram avaliados a partir dos 12 meses de idade machos da raça Holandesa (n=102), mantidos em sistema de semiconfinamento em piquetes, recebendo uma dieta composta silagem de sorgo forrageiro (Sorghum bicolor) na proporção de 3% MS/100 kg de peso/animal, concentrado proteicos com 18% PB na proporção de 1kg/100Kg de peso/animal, além de suplemento mineral a água ad libitum. A partir dos 12 meses de idade os animais apresentando higidez sanitária e ausência de alterações morfológicas foram submetidos mensalmente a pesagem, mensuração do PE com fita métrica no terço médio dos testículos (Figura 1) e submetidos a coleta de sêmen pelo de método de eletro-ejaculador para obtenção de alíquota de sêmen, sendo imediatamente avaliadas a concentração espermática através de fotômetro (Accuread, IMV) e a motilidade individual progressiva (MIP) subjetivamente ao microscópio óptico de acordo com Guido et al. (2014). Os parâmetros de motilidade e morfologia espermáticas foram avaliados utilizando-se o sistema CASA (Ceros II, IMV) de acordo com O’Meara et al. (2022), sendo avaliada a motilidade através dos percentuais de Células Móveis (CM) e Células Progressivas (CP) e a morfologia através das Células Normais (CN).
Para avaliação da influência de fatores climáticos e associação com as predições genômicas, os touros selecionados como doadores de sêmen houve a necessidade de distribuição dos touros em dois grupos experimentais (TG1 e TG2) de acordo com sua composição genética, sendo TG1 (n=03 genótipo IPA e TG2 (n=03 genótipo IPA x Importado.
A avaliação genômica foi realizada através de marcadores moleculares utilizando-se o perfil Clarifide® (Zoetis, Brasil) para cada touro selecionado, totalizando 06 (seis) touros jovens no período de execução do projeto. Amostras de pelos de cada touro selecionado foram coletadas e processadas de acordo com recomendações da Zoetis.
Na avaliação genômica, foram utilizados, principalmente, os valores obtidos para Índice de Fertilidade e Prenhez das Filhas (TPF), Taxa de Concepção em Novilhas (TCN) e Taxa de Concepção em Vacas (TCV). Sendo também avaliada a correlação dos dados genômicos com a estimativa de fertilidade in vitro obtida no CASA.
Os dados foram submetidos ANOVA, análise de regressão linear simples, teste Tukey a 5% e correlação de Pearson.
Resultados e discussão
Quanto ao peso médio, os animais apresentaram 370kg, 525kg e 790kg aos 12, 18 e 24 meses de idade, respectivamente. Em relação ao PE foram registrados valores médios 31,40±0,27 cm, 38,40±0,11 cm e 42,24±0,11 cm aos 12, 18 e 24 meses (p<0,05) respectivamente. Apresentando uma taxa de crescimento diária de 2,53% e de 30,36% no período (Figura 1). Estes resultados de PE estão compatíveis aos limites médios registrados para touros Bos taurus por Maciel et al. (2015) em condições de semiárido e Chenoweth e Lortton (2022) em condições subtropicais. Sendo, portanto, compatíveis com touros bem alimentados e pós-púberes. Porém, os touros avaliados aos 18 e 24 meses apresentaram limites bem superiores aos observados por estes autores. Com base nestes achados pode-se inferir que não há interferência de fatores climáticos no

Figura 1 – Crescimento do perímetro escrotal em touros jovens da raça Holandesa mantidos em condições de semiárido. EESBU/IPA, Pernambuco, Brasil.
As concentrações espermáticas médias foram de 324 x 106, 727 x 106 e 1056 x 106 espermatozoides/mL (p<0,05) aos 12, 18 e 24 meses, respectivamente. Tendo uma taxa de crescimento de 18,08% ao dia e 216,97% nos 12 meses (Figura 2).

Figura 2 – Concentração espermática de touros jovens da raça Holandesa mantidos em condições de semiárido. EESBU/IPA, Pernambuco, Brasil.
Entretanto, quanto a concentração espermática, os achados deste estudo corroboram os relatos de Olsen et al. (2020) que associam o aumento da concentração e do volume do sêmen ao desenvolvimento do tamanho testicular do touro à medida que se aproximam da maturidade sexual.

Figura 3 – Motilidade Individual Progressiva (MIP) em touros jovens da raça Holandesa mantidos em condições de semiárido. EESBU/IPA, Pernambuco, Brasil.
A motilidade individual progressiva (MIP) foi superior (p<0,05) para os animais avaliados aos 24 meses de idade. Apresentando um incremento de 17,67% no intervalo dos 12 aos 24 meses de idade (Figura 3). Entretanto no presente estudo, mesmo aos 12 meses de idade os touros pós-púberes apresentaram MIP superior a 60%, sendo compatível com um bom potencial estimado de fertilidade. Ainda pode-se inferir que mesmo mantidos em condições de semiárido os touros não sofreram influência da temperatura ambiente, tendo em vista o aumento linear da motilidade (Figura 3). Porém, Murphy et al. (2018) observaram um decréscimo da motilidade quando mantiveram o sêmen de touros Holandeses a temperatura superior a 28ºC.
Considerando que a qualidade seminal de touros jovens pós-púberes sempre deixa a desejar, conforme relatam Chenoweth e Lortton (2022) que apenas 30% dos touros apresentam boa qualidade seminal aos 12 meses de idade, os resultados de anormalidades espermáticas, consideradas defeitos maiores, neste estudo foram inferiores a 30% nos animais com este perfil. Sendo observado um decréscimo pertinente à medida que os animais atingiam a maturidade sexual. Entretanto, os resultados de morfologia espermática apresentados neste estudo foram restritos a touros jovens de idade entre 12 aos 24 meses (Tabela 1).
Tabela 1 – Ocorrência de anormalidades espermáticas em touros jovens da raça Holandesa mantidos em condições de semiárido. EESBU/IPA, Pernambuco, Brasil.
Anormalidade Espermática (%) |
Idade (meses) |
||
12 |
18 |
24 |
|
Cauda Dobrada |
3,60a |
3,70a |
2,80a |
Cauda Enrolada |
0,37a |
0,60a |
0,70a |
Cauda Fortemente Enrolada |
2,30a |
2,20a |
1,60a |
Gota Citoplasmática Distal |
4,10a |
2,90a |
3,70a |
Gota Citoplasmática Proximal |
19,70b |
11,30a |
9,10a |
a,b Valores com sobrescritos diferentes na mesma linha são significativamente diferentes (P ≤ 0,05).
Estudos anteriores com touros da raça Holandesa demonstraram que as características de qualidade do sêmen têm alta variabilidade fenotípica na pós-puberdade e tendem a se estabilizar à medida que os touros atingem a maturidade sexualmente em torno dos 18 meses de idade de acordo com Gebreyesus et al. (2021). Todavia, apesar dos animais neste estudo terem sido avaliados em condições de clima semiárido com ITU médio superior a 69, as anormalidades espermáticas observadas estão dentro do limite aceitável para raça e idade. Ao contrário dos resultados registrados por Llamas-Luceño et al. (2020) que atribuem a elevação da temperatura e umidade o aumento de defeitos espermáticos e a redução da motilidade progressiva em touros da raça Holandesa criados em clima temperado.
A gota citoplasmática proximal (GCP) foi a anormalidade com ocorrência nos animais avaliados aos 12 meses de idade, sendo registrado 19,70%, estes resultados podem ser esperados para touros nesta faixa etária, conforme reportam Garcia-Deragon et al. (2021). Entretanto, estes autores relatam que mesmo em touros jovens a ocorrência de GCP persistente superior a 20% possa estar associada à queda na motilidade e no vigor espermático. Porém, na avaliação dos touros aos 18 e 24 meses houve um decréscimo desta anormalidade, todavia, sem demonstrar correlação com a motilidade espermática registrada (Tabela 2).
Tabela 2 – Correlação entre parâmetros andrológicos em touros jovens da raça Holandesa mantidos e condições de semiárido. EESBU/IPA, Pernambuco, Brasil.
P. Escrotal |
C. Espermática |
Motilidade |
Morfologia |
|
Perímetro Escrotal |
1 |
|||
C. Espermática |
-0,0178 |
1 |
||
Motilidade (%) |
0,0381 |
-0,0946 |
1 |
|
Morfologia |
-0,0564 |
-0,0568 |
-0,1159 |
1 |
Valores de coeficientes de correlação de Pearson entre 2 variáveis para os níveis de significação estatística de 5% e 1% de probabilidade. 5% de probabilidade GL= N – 2.
Todavia, de acordo com O’Meara et al. (2022) as GCP podem ser consideradas resquícios de citoplasma sob a membrana plasmática na região do pescoço dos espermatozoides e altos percentuais geralmente são encontrados no sêmen de touros pré-púberes (CARREIRA et al., 2012).
Quanto à avaliação da motilidade e morfologia espermática no sistema CASA não houve diferença (p>0,05) entre os grupos experimentais (Tabela 3).
Tabela 3 – Parâmetros seminais de cinética e morfologia de células espermáticas de touros jovens da raça Holandesa avaliados no sistema CASA. IPA, Pernambuco, Brasil.
Grupos |
n |
Células Móveis % |
Células Progressivas % |
Células Normais % |
TG1 |
3 |
59,93 |
40,50 |
57,70 |
TG2 |
4 |
63,57 |
42,00 |
62,08 |
(P > 0,05).
Entretanto, os resultados obtidos corroboram estudos anteriores que evidenciaram relações entre motilidade e fertilidade de touros a campo quando realizada a análise objetiva de sêmen no sistema CASA (O’MEARA et al., 2022).
Em relação às predições genômicas não houve diferença (p>0,05) para maioria das características avaliadas, porém a TCV foi superior (p<0,05) para os touros do G2 (Tabela 4).
Tabela 4 – Predições genômicas de Taxa de Prenhez das Filhas (TPF), Taxa de Concepção de Novilhas (TCN), Taxa de Concepção de Vacas (TCV) e Índice de Fertilidade (FI) de touros jovens da raça Holandesa criados em condições de semiárido. IPA, Pernambuco, Brasil.
Grupo |
n |
TPF |
TCN |
TCV |
FI |
TG1 |
3 |
-1,36a |
-1,00a |
-1,50b |
-1,00a |
TG2 |
3 |
0,23a |
0,20a |
0,23a |
0,40a |
a,b Valores com sobrescritos diferentes na mesma coluna são significativamente diferentes (P ≤ 0,05).
Quanto a correlação entre os parâmetros de predições genômicas de fertilidade e parâmetros de motilidade e morfologia das células espermáticas foi registrada uma forte correlação entre o percentual de células normais e as predições genômicas de índice de fertilidade (IF) e taxa de concepção em vacas (TCV), conforme Tabela 5.
Tabela 5 – Correlação entre predições genômicas de fertilidade e parâmetros de cinética e morfologia de células espermáticas de touros jovens da raça Holandesa criados em condições de semiárido. IPA, Pernambuco, Brasil.
TPF |
TCN |
TCV |
IF |
Cél. Móveis |
Cél. Progressivas |
Cél. Normais |
|
TPF |
1 |
||||||
TCN |
0,5586 |
1 |
|||||
TCV |
0,8852 |
0,6614 |
1 |
||||
IF |
0,9811 |
0,5742 |
0,8868 |
1 |
|||
Cél. Móveis |
-0,2972 |
-0,2886 |
-0,3518 |
-0,1369 |
1 |
||
Cél. Progressiva |
-0,0771 |
-0,2791 |
-0,2797 |
0,0565 |
0,9359 |
1 |
|
Cél. Normais |
0,7994 |
0,1924 |
0,6228 |
0,7512 |
-0,2247 |
0,0497 |
1 |
TPF: Taxa de prenhez das filhas; TCN: Taxa de concepção de novilhas; TCV: Taxa de concepção de vacas; IF: Índice de fertilidade.
Valores de coeficientes de correlação de Pearson entre 2 variáveis para os níveis de significação estatística de 5% e 1% de probabilidade. 5% de probabilidade GL= N – 2.
Corroborando assim as afirmativas de Potiens (2022) de que a cinética espermática obtida pelo sistema CASA associada as aferições de motilidade e morfologia espermática contribuem para o aumento da acurácia das análises laboratoriais para estimativa de fertilidade.
Conclusão
Portanto, conclui-se que touros jovens da raça Holandesa criados no semiárido apresentam curva de crescimento do PE e parâmetros seminais compatíveis com estimativa de fertilidade desejável. Entretanto, no início da atividade reprodutiva apresentam maior percentual da anormalidade espermática GCP.
Quanto às predições genômicas de fertilidade, os touros do TG2 apresentaram parâmetros positivos, entretanto sendo superior (p<0,05) ao TG1 apenas na TCV. Porém, as predições genômicas de TPF, TCV e IF apresentaram forte correlação com o fenótipo CN, independente do grupo experimental TG1 e TG2.
Conflitos de interesse
Não há conflitos de interesse no presente estudo.
Contribuição dos autores
Danny Lapenda Fagundes – análise, interpretação do material utilizado no trabalho, redação e formatação geral; Sebastião Inocêncio Guido – análise, interpretação do material utilizado no trabalho e formatação; Leonardo Fernandes de Alencar – coleta, análise e processamento do trabalho; Venézio Felipe dos Santos – análise estatística; Cláudio Coutinho Bartolomeu – análise, interpretação do material utilizado no trabalho e formatação.
Apoio financeiro
Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia do Estado de Pernambuco – FACEPE.
Referências bibliográficas
AZEVEDO, H. C.; BLACKBURN, H. D.; LOZADA-SOTO, E. A.; SPILLER, S. F.; PURDY, P. H. Enhancing evaluation of bull fertility through multivariate analysis of sperm. Journal of Dairy Science, v. 107, n. 12, p. 11774-11784, 2024. https://doi.org/10.3168/jds.2024-25163
CARREIRA, J. T.; MINGOTI, G. Z.; RODRIGUES, L. H.; SILVA, C.; PERRI, S. H. V.; KOIVISTO, M. B. Impact of proximal cytoplasmic droplets on quality traits and in-vitro embryo production efficiency of cryopreserved bull spermatozoa. Acta Veterinaria Scandinavica, v. 54, n. 1, p. 1-7, 2012. https://doi.org/10.1186/1751-0147-54-1
CHENOWETH, P. J.; LORTON, S. P. Manual of Animal Andrology. CABI Digital Library, 2022, 216p. https://doi.org/10.1079/9781789243505.0000
FAIR, S.; LONERGAN, P. Review: understanding the causes of variation in reproductive wastage among bulls. Animal, v. 12, Suppl. 1, p. 53-62, 2018. https://doi.org/10.1017/S1751731118000964
GARCIA-DERAGON, L. A.; SEVERO, N. C.; ALMEIDA, S. M.; ZANDONAIDE, J. P. B. Relações entre defeitos espermáticos e taxas de gestação. In: Reunião da Associação Brasileira de Andrologia Animal, 5., 2021. Anais… Campo Grande, MS: Associação Brasileira de Andrologia Animal, p. 113-123, 2021. https://www.researchgate.net/publication/354551097
GEBREYESUS, G.; LUND, M. S.; KUPISIEWICZ, K.; SU, G. Genetic parameters of semen quality traits and genetic correlations with service sire nonreturn rate in Nordic Holstein bulls. Journal of Dairy Science, v. 104, n. 9, p. 10010-10019, 2021. https://doi.org/10.3168/jds.2021-20403
GUIDO, S. I.; GUIDO, F. C. L.; SANTOS FILHO, A. S.; WISCHRAL, A. Correlation between spermatic concentration and vascular characteristics of testis using Doppler ultrasonography in young Holstein bulls. Animal Reproduction, v. 11, n. 3, p. 305-305, 2014. https://www.animal-reproduction.org/article/5b5a6040f7783717068b465f
KUHN, M. T.; HUTCHISON, J. L. Prediction of dairy bull fertility from field data: use of multiple services and identification and utilization of factors affecting bull fertility. Journal of Dairy Science, v. 91, n. 6, p. 2481-2492, 2008. https://doi.org/10.3168/jds.2007-0743
LEITE, R. F.; LOSANO, J. D. A.; ANGRIMANI, D. S. R.; SOUSA, R. G. B.; ALVES, A. M.; CAVALLIN, M. D.; KAWAI, G. K. V.; CORTADA, C. N. M.; ZUGE, R. M.; NICHI, M. Reproductive parameters of Bos taurus and Bos indicus bulls during different seasons in tropical conditions: focus on an alternative approach to testicular assessments using ultrasonography. Animal Reproduction Science, v. 225, 2021. https://doi.org/10.1016/j.anireprosci.2020.106668
LLAMAS-LUCEÑO, N.; HOSTENS, M.; MULLAART, E.; BROEKHUIJSE, M.; LONERGAN, P.; SOOM, A. V. High temperature-humidity index compromises sperm quality and fertility of Holstein bulls in temperate climates. Journal of Dairy Science, v. 103, n. 10, p. 9502-9514, 2020. https://doi.org/10.3168/jds.2019-18089
MACIEL, J. P. O.; SILVA, E. J.; NASCIMENTO, P. S.; GUIDO, S. I.; SANTOS FILHO, A. S.; BARTOLOMEU, C. C. Avaliação de parâmetros andrológicos de touros das raças Holandesa e Guzerá submetidos ao Semiárido. Scientia Plena, v. 11, n. 4, p. 1-5, 2015. https://www.scientiaplena.org.br/sp/article/view/2490
MISZTAL, I.; LEGARRA, A.; AGUILAR, I. Computing procedures for genetic evaluation including phenotypic, full pedigree, and genomic information. Journal of Dairy Science, v. 92, n. 9 p. 4648-4655, 2009. https://doi.org/10.3168/jds.2009-2064
MURPHY, E. M.; O’MEARA, C.; EIVERS, B.; LONERGAN, P.; FAIR, S. Optimizing storage temperature of liquid bovine semen diluted in INRA96. Journal of Dairy Science, v. 101, n. 6, p. 5549-5558, 2018. https://doi.org/10.3168/jds.2017-14205
OLSEN, H. B.; HERINGSTAD, B.; KLEMETSDAL, G. Genetic analysis of semen characteristic traits in young Norwegian Red bulls. Journal of Dairy Science, v. 103, n. 1, p. 545-555, 2020. https://doi.org/10.3168/jds.2019-17291
O’MEARA, C.; HENROTTE, E.; KUPISIEWICZ, K.; LATOUR, C.; BROEKHUIJSE, M.; CAMUS, A.; GAVIN-PLAGNE, L.; SELLEM, E. The effect of adjusting settings within a Computer-Assisted Sperm Analysis (CASA) system on bovine sperm motility and morphology results. Animal Reproduction, v. 19, n. 1, p. 1-13, 2022. https://doi.org/10.1590/1984-3143-AR2021-0077
PEÑAGARICANO, F.; WEIGEL, K. A.; KHATIB, H. Genome-wide association study identifies candidate markers for bull fertility in Holstein dairy cattle. Animal Genetics, v. 43, suppl. 1, p. 65-71, 2012. https://doi.org/10.1111/j.1365-2052.2012.02350.x
POTIENS, J. R. Análises computadorizadas da motilidade espermática (CASA): conceitos e possibilidades de padrões. Revista Brasileira de Reprodução Animal, v. 46, n. 2, p. 91-101, 2022. http://cbra.org.br/portal/downloads/publicacoes/rbra/v46/n2/p91-101
RAHMAN, M. B.; SCHELLANDER, K.; LUCEÑO, N. L.; SOOM, A. V. Heat stress responses in spermatozoa: mechanisms and consequences for cattle fertility. Theriogenology, v. 113, p. 102-112, 2018. https://doi.org/10.1016/j.theriogenology.2018.02.012
REZENDE, F. M.; NANI, J. P.; PEÑAGARICANO, F. Genomic prediction of bull fertility in US Jersey dairy cattle. Journal of Dairy Science, v. 102, n. 4, p. 3230-3240, 2019. https://doi.org/10.3168/jds.2018-15810
SAACKE, R. G. Sperm morphology: its relevance to compensable and uncompensable traits in semen. Theriogenology, v. 70, n. 3, p. 473-478, 2008. https://doi.org/10.1016/j.theriogenology.2008.04.012
SALIMIYEKTA, Y.; JENSEN, J.; SU, G.; GEBREYESUS, G. Age-dependent genetic and environmental variance of semen quality in Nordic Holstein bulls. Journal of Dairy Science, v. 106, n. 4, p. 2598-2612, 2023. https://doi.org/10.3168/jds.2022-22442
UTT, M. D. Prediction of bull fertility. Animal Reproduction Science, v. 169, p. 37-44, 2016. https://doi.org/10.1016/j.anireprosci.2015.12.011
WEIGEL, K. A.; CAMPOS, G.; GONZÁLEZ-RECIO, O.; NAYA, H.; WU, X. L.; LONG, N.; ROSA, G. J. M.; GIANOLA, D. Predictive ability of direct genomic values for lifetime net merit of Holstein sires using selected subsets of single nucleotide polymorphism markers. Journal of Dairy Science, v. 92, p 5248-5257, 2009. https://doi.org/10.3168/jds.2009-2092
WELLER, J. I.; EZRA, E.; RON, M. Invited review: a perspective on the future of genomic selection in dairy cattle. Journal of Dairy Science, v. 100, n. 11, p. 8633-8644, 2017. https://doi.org/10.3168/jds.2017-12879
Recebido em 30 de janeiro de 2025
Retornado para ajustes em 7 de junho de 2025
Recebido com ajustes em 10 de julho de 2025
Aceito em 25 de julho de 2025
