Revista Agrária Acadêmica
doi: 10.32406/v9n2/2026/29-47/agrariacad
Aspectos clínicos e terapêuticos do garrotilho em equinos – revisão narrativa de literatura. Clinical and therapeutic aspects of strangles in horses – narrative literature review.
Gilma Lindiana de Oliveira Silva1, Rennata Emylli Gomes da Silva1, Ubiratan Pereira de Melo
2, Cintia Ferreira
3
1- Graduanda do Curso de Medicina Veterinária, Centro Universitário Maurício de Nassau – UNINASSAU
, Campus Natal/RN, 59080-075, Brasil.
2- Docente do Curso de Medicina Veterinária, Centro Universitário Maurício de Nassau – UNINASSAU
, Campus Natal/RN, 59080-075, Brasil. E-mail: ubiratan_melo@yahoo.com.br
3- Docente do Curso de Medicina Veterinária, Centro Universitário Maurício de Nassau – UNINASSAU
, Campus Natal/RN, 59080-075, Brasil.
Resumo
O garrotilho equino é uma enfermidade bacteriana infectocontagiosa de ampla distribuição geográfica e elevada relevância sanitária para a equideocultura, causada por Streptococcus equi subsp. equi. A doença caracteriza-se principalmente por febre, secreção nasal mucopurulenta e linfadenite supurativa dos linfonodos submandibulares e retrofaríngeos, podendo evoluir para complicações sistêmicas, como abscessação metastática, púrpura hemorrágica e estabelecimento de portadores crônicos associados à persistência do agente nas bolsas guturais. Diante da importância epidemiológica da enfermidade, este estudo teve como objetivo realizar uma revisão narrativa da literatura científica sobre o garrotilho equino, abordando aspectos relacionados à epidemiologia, patogenia, manifestações clínicas, diagnóstico, prevenção e estratégias de controle. Para a elaboração do trabalho, foi conduzida uma revisão narrativa com base em artigos científicos publicados em periódicos indexados, livros especializados e documentos técnicos relacionados às doenças infecciosas de equinos, selecionados em bases de dados científicas da área biomédica e veterinária. Com o intuito de delimitar a questão norteadora da revisão foi utilizada a abordagem metodológica PICo. A análise da literatura demonstra que, embora o garrotilho seja frequentemente considerado uma enfermidade autolimitante em equinos jovens, a presença de animais portadores crônicos, associada à intensa movimentação de equinos e a falhas nas medidas de biossegurança, contribui para a manutenção e disseminação do agente em populações suscetíveis. Nesse contexto, o diagnóstico precoce, especialmente por meio de técnicas moleculares como a reação em cadeia da polimerase quantitativa (qPCR), aliado à implementação de medidas sanitárias adequadas, constitui estratégia fundamental para o controle da enfermidade.
Palavras-chave: Adenite equina. Linfadenite retrofaríngea. Púrpura hemorrágica. Streptococcus equi.
Abstract
Equine strangles is a contagious bacterial disease of worldwide distribution and significant sanitary relevance to the equine industry, caused by Streptococcus equi subsp. equi. The disease is primarily characterized by fever, mucopurulent nasal discharge, and suppurative lymphadenitis affecting the submandibular and retropharyngeal lymph nodes, and may progress to systemic complications such as metastatic abscessation, purpura hemorrhagica, and the establishment of chronic carriers associated with the persistence of the pathogen within the guttural pouches. Given the epidemiological importance of this disease, the present study aimed to conduct a narrative review of the scientific literature on equine strangles, addressing aspects related to epidemiology, pathogenesis, clinical manifestations, diagnosis, prevention, and control strategies. The study was developed through a narrative literature review based on scientific articles published in indexed journals, specialized textbooks, and technical documents related to infectious diseases of equids, selected from biomedical and veterinary scientific databases. In order to define the guiding question of the review, the PICo methodological approach was used. The analysis of the literature indicates that, although strangles is frequently considered a self-limiting disease in young horses, the presence of chronic carrier animals, combined with the intense movement of horses and failures in biosecurity measures, contributes to the maintenance and dissemination of the pathogen within susceptible populations. In this context, early diagnosis, particularly through molecular techniques such as quantitative polymerase chain reaction (qPCR), together with the implementation of appropriate sanitary measures, represents a fundamental strategy for disease control.
Keywords: Equine strangles. Retropharyngeal lymphadenitis. Purpura hemorrhagica. Streptococcus equi.
Introdução
A adenite infecciosa equina, conhecida internacionalmente como garrotilho (strangles), foi descrita pela primeira vez em 1251 por Jordanus Ruffus, em um dos registros mais antigos da medicina veterinária. Posteriormente, em 1791, Bourgelat introduziu a denominação strangles para descrever a enfermidade, em referência às manifestações clínicas associadas à obstrução das vias aéreas superiores decorrente da linfadenite cervical. No final do século XIX, com o avanço da bacteriologia, diversos estudos passaram a investigar a natureza infecciosa da doença, culminando na identificação do agente etiológico, Streptococcus equi subsp. equi, em 1888. Experimentos de inoculação com culturas bacterianas conduzidos por Lowenthal demonstraram de forma conclusiva o papel desse microrganismo como agente causal da enfermidade (LAKEW et al., 2016; WALLER, 2016).
O garrotilho constitui uma das enfermidades equinas mais antigas já registradas e se destaca não apenas por sua relevância clínica persistente, mas também pela manutenção de uma terminologia clínica marcadamente medieval e resistente à modernização. Os termos “garrotilho” (strangles) e “garrotilho bastardo” (bastard strangles) figuram entre os poucos exemplos de nomenclatura que sobreviveram por centenas de anos na literatura veterinária equina e permanecem em uso na era científica moderna (SLATER, 2003).
Os manuscritos veterinários europeus mais antigos preservados datam do século XIII, e o termo strangles (aparecendo no texto latino como strangulina) foi utilizado tanto por Giordano Ruffo em seu manuscrito De Medicina Equorum, datado entre 1251 e 1256, quanto por Albertus Magnus em sua obra monumental sobre zoologia, anatomia e doenças animais, De Animalibus, redigida entre 1258 e 1262. Em suas descrições da enfermidade, Ruffo — ferrador do imperador Frederick II — e Albertus, bispo dominicano, relatam o quadro clínico agudo da doença, porém não abordam suas sequelas. O termo “garrotilho bastardo” não foi empregado, embora De Animalibus sugira de forma indireta que sequelas crônicas, descritas como “efeitos tardios”, já fossem reconhecidas (SLATER, 2003).
A expressão “garrotilho bastardo” passou a aparecer na literatura veterinária europeia apenas no final do século XVII, período em que a medicina veterinária ainda se encontrava em estágio incipiente e era frequentemente exercida por ferradores e práticos sem formação formal. Naquela época, os termos “bastardo”, “falso” e “imperfeito” eram empregados de forma intercambiável para descrever manifestações atípicas de enfermidades. Originalmente, o termo “garrotilho bastardo” referia-se principalmente à linfadenopatia submandibular e retrofaríngea não supurativa, frequentemente observada em equinos adultos, e não à abscessação metastática como ocorre na terminologia contemporânea. Somente posteriormente o termo passou a ser utilizado para descrever formas disseminadas da doença, caracterizadas pela formação de abscessos em diferentes órgãos e tecidos (SLATER, 2003).
O garrotilho representa um problema de grande relevância para a equideocultura mundial devido à sua alta morbidade e aos prejuízos econômicos associados. As perdas financeiras derivam dos custos com tratamentos, da interrupção das atividades dos animais e das medidas de controle e isolamento necessárias. Sua natureza infectocontagiosa a torna uma preocupação constante em haras, centros de treinamento e qualquer ambiente com alta densidade populacional de equídeos, impactando diretamente a saúde e o bem-estar dos animais (MELO; FERREIRA, 2022; ANDRADE JÚNIOR et al., 2023).
Nas últimas duas décadas, surtos de garrotilho em equinos têm sido amplamente relatados em diferentes regiões do mundo, evidenciando a distribuição geográfica global da enfermidade. Na Europa, investigações epidemiológicas documentaram múltiplos surtos em países como Suécia e Reino Unido, frequentemente associados à circulação de diferentes genótipos do agente em populações equinas e à transmissão entre propriedades (RIIHIMÄKI et al., 2018). Na América do Norte, especialmente nos Estados Unidos, o garrotilho permanece como uma das infecções bacterianas mais frequentes em equinos, com registros recorrentes de surtos em centros de treinamento e estabelecimentos equestres (BOYLE et al., 2018).
Episódios também têm sido descritos na América do Sul, incluindo o Brasil, bem como em países asiáticos, como a Indonésia, demonstrando a ampla circulação do agente em diferentes continentes (ROTINSULU et al., 2023). Análises genômicas recentes indicam que muitas linhagens bacterianas associadas a surtos apresentam elevada similaridade genética entre países, sugerindo que o trânsito e a movimentação internacional de equinos desempenham papel importante na disseminação global da doença (MITCHELL et al., 2021).
A ameaça da resistência antimicrobiana e a necessidade de otimizar diagnósticos para o controle de portadores tornam crucial a síntese do conhecimento atual sobre o tema. Esta revisão de literatura tem como objetivo abordar sua etiologia, diagnóstico, tratamento e as implicações da resistência antimicrobiana no controle da doença.
Material e métodos
O presente estudo consiste em uma revisão narrativa da literatura, conduzida com o objetivo de reunir, sintetizar e discutir o conhecimento científico disponível acerca da adenite equina (garrotilho), com ênfase nos aspectos relacionados à etiologia, epidemiologia, manifestações clínicas, diagnóstico, tratamento e medidas de prevenção e controle da enfermidade.
A busca bibliográfica foi realizada em bases de dados científicas amplamente utilizadas na área biomédica e veterinária, incluindo SciELO, PubMed e Google Scholar. Adicionalmente, foram consultados livros-texto de referência na área de medicina interna e doenças infecciosas de equinos, com o propósito de complementar e contextualizar as informações provenientes da literatura científica indexada.
Para a estratégia de busca, foram utilizados descritores em português, inglês e espanhol, combinados entre si por meio de operadores booleanos, a fim de ampliar a sensibilidade da pesquisa. Os principais termos empregados incluíram “adenite equina”, “equine strangles” e “adenitis equina”, associados ao termo “Streptococcus equi”, bem como aos descritores relacionados ao manejo terapêutico da enfermidade, tais como “tratamento”, “treatment” e “tratamiento”.
Foram considerados elegíveis para inclusão artigos científicos publicados em periódicos indexados, artigos de revisão, relatos de caso e capítulos de livros que abordassem aspectos relevantes relacionados à adenite equina, incluindo etiologia, patogenia, epidemiologia, manifestações clínicas, métodos diagnósticos, abordagens terapêuticas e estratégias de prevenção e controle. Foram incluídas publicações redigidas em português, inglês ou espanhol. Foram excluídos estudos que não apresentavam relação direta com a temática proposta, publicações duplicadas entre as bases consultadas e trabalhos cujo conteúdo não contribuía para os objetivos desta revisão.
Após a seleção das fontes bibliográficas, os estudos foram analisados de forma descritiva e interpretativa, permitindo a integração das evidências disponíveis e a organização das informações de acordo com os eixos temáticos abordados ao longo do presente trabalho.
Com o intuito de delimitar a questão norteadora da revisão e orientar a estratégia de busca bibliográfica, foi utilizada a abordagem metodológica PICo (Population, Interest, Context), frequentemente empregada na formulação de perguntas de pesquisa em revisões narrativas e estudos de síntese qualitativa da literatura. Nesse contexto, a população (P) foi definida como equídeos, o fenômeno de interesse (I) correspondeu ao garrotilho equino (adenite equina) causado por Streptococcus equi subsp. equi, e o contexto (Co) referiu-se às abordagens terapêuticas e medidas de controle relacionadas ao manejo da enfermidade. A partir dessa estrutura conceitual, estabeleceu-se como questão norteadora do presente estudo: quais são as principais abordagens terapêuticas e estratégias de manejo descritas na literatura científica para o tratamento e controle do garrotilho equino? – conforme a estratégia metodológica proposta para formulação de perguntas de pesquisa baseada no modelo PICo (LOCKWOOD et al., 2015).
Revisão de literatura
Etiologia, epidemiologia e fatores de risco
O agente etiológico responsável pela doença é a bactéria Streptococcus equi subespécie equi, um coco Gram-positivo, beta-hemolítico piogênico e pertencente ao grupo C de Lancefield. Este microrganismo possui diversos fatores de virulência que contribuem para a sua patogenicidade, como a presença de cápsula de ácido hialurônico que o protege da fagocitose e a proteína M (SeM), que também possui ação antifagocitária e é fundamental para a adesão da bactéria às células do hospedeiro (SILVA; VARGAS et al., 2006).
Estudos genômicos indicam que cepas de S. equi isoladas em diversas localidades compartilham um ancestral comum datado do século XIX ou início do século XX. Esse período histórico coincide com uma fase marcada pelo uso intensivo de equinos como principal meio de transporte e por sua ampla utilização em conflitos militares de grande escala, especialmente durante a Primeira Guerra Mundial. A intensa movimentação e a mistura de animais provenientes de diferentes regiões geográficas nesse contexto teriam favorecido a disseminação global do agente etiológico e contribuído para a emergência e a evolução das linhagens contemporâneas de S. equi (LAKEW et al., 2016; WALLER, 2016).
S. equi é uma bactéria obrigatória de equinos, e todas as infecções são causadas por animais infectados. As fontes mais comuns de infecção são as secreções nasais e os exsudatos purulentos de abscessos provenientes de equinos infectados (RAO, 2019). Equinos que se recuperam da doença clínica podem manter infecção por S. equi na faringe e nas bolsas guturais por meses, e animais com doença clinicamente inaparente também são fontes de infecção (BOYLE, 2023). A sobrevivência ambiental de S. equi é limitada, mas a bactéria pode persistir em água e em superfícies úmidas por várias semanas a meses (WEESE et al., 2009).
Globalmente, o garrotilho apresenta comportamento epizoótico, manifestando-se em surtos quando populações livres entram em contato com animais portadores. Historicamente, a indústria equina considera S. equi subsp. equi um patógeno comum capaz de causar doença limitante (BOYLE, 2023). Contudo, surtos vêm se tornando mais frequentes, possivelmente em decorrência do aumento da movimentação animal, da imunidade insuficiente e de outros fatores. A doença tem ressurgido inclusive em países onde anteriormente era considerada rara (CHHABRA et al., 2023).
A enfermidade ocasiona perdas econômicas expressivas no setor equino, tanto de forma direta – devido à necessidade de tratamento prolongado, tempo estendido de recuperação e complicações – quanto de maneira indireta, pela restrição de movimentação dos animais e pelo cancelamento de eventos e atividades equestres (CHHABRA et al., 2023).
Equinos de diferentes idades podem ser acometidos, embora animais mais velhos e mais jovens estejam sob maior risco (BOYLE, 2023; MELO et al., 2021). Entretanto, potros com menos de quatro meses apresentam proteção passiva conferida pelo colostro, desde que suas mães tenham desenvolvido imunidade contra S. equi. Animais idosos com função imunológica reduzida tendem a desenvolver quadros mais severos e com maior duração. Por outro lado, alguns estudos indicam que animais mais velhos previamente expostos podem desenvolver imunidade, manifestando formas clínicas mais brandas. Aproximadamente 10% dos animais recuperados da fase aguda tornam-se portadores assintomáticos, raramente identificados em avaliações rotineiras, porém capazes de disseminar a bactéria e originar novos surtos (CHHABRA et al., 2023).
A sobrevivência ambiental de Streptococcus equi subsp. equi varia de acordo com as características da superfície e com as condições ambientais, havendo diferenças importantes entre resultados obtidos em condições laboratoriais controladas e aqueles observados em cenários mais próximos da realidade de instalações equinas (WEESE et al., 2009; DURHAM et al., 2018). Estudos experimentais demonstraram menor tempo de sobrevivência do agente em superfícies lisas, como vidro, em comparação à madeira, sugerindo que superfícies rugosas favorecem a persistência bacteriana por serem mais difíceis de higienizar (JORM, 1992). Entretanto, Weese et al. (2009) não observaram efeito do tipo de superfície seca sobre a sobrevivência de S. equi, embora tenham demonstrado maior persistência bacteriana em muco, provavelmente em razão da proteção física, umidade e disponibilidade de nutrientes. Esses achados indicam que a permanência do agente no ambiente depende não apenas do substrato, mas também da presença de matéria orgânica e das condições locais de exposição.
Fatores climáticos também exercem influência significativa sobre a persistência de S. equi no ambiente. A exposição à luz solar reduziu de forma expressiva a sobrevivência bacteriana, não sendo observada persistência superior a 24 horas em amostras expostas diretamente ao sol (WEESE et al., 2009), enquanto Durham et al. (2018) verificaram baixa sobrevivência em superfícies externas, como mourões de cerca, tanto no inverno quanto no verão. Em contrapartida, temperaturas mais baixas e elevada umidade favoreceram a sobrevivência e o crescimento do agente, especialmente no inverno, quando S. equi foi detectado em objetos como solados de calçados, sondas gástricas, baldes e superfícies de madeira, com mediana de sobrevivência entre 2 e 9 dias e permanência de até 34 dias em locais úmidos (DURHAM et al., 2018). Além disso, a bactéria pode sobreviver por pelo menos 24 horas em tecidos utilizados em vestimentas, o que reforça o potencial de disseminação indireta por fômites e a necessidade de medidas rigorosas de biossegurança, incluindo troca de roupas de proteção entre áreas e adequada higienização de materiais e instalações (FROSTH et al., 2018).
A transmissão de S. equi subsp. equi pode ser direta ou indireta (Fig. 1).
A transmissão direta envolve contato entre cavalos, contato nariz-a-nariz ou dispersão de secreções infectadas para baias adjacentes por meio da tosse (QUINN et al., 2002; BOYLE, 2023). Por outro lado, transmissões indiretas resultam do compartilhamento de instalações contaminadas, fontes de água, utensílios de alimentação ou o próprio alimento, equipamentos, cabrestos, e outros fômites menos comuns, como roupas e instrumentos de tratadores e médicos-veterinários. Animais aparentemente saudáveis podem transmitir a doença tanto durante o período de incubação quanto na fase de recuperação (ANDRADE JÚNIOR et al., 2023).

Figura 1 – Representação esquemática dos mecanismos de transmissão do garrotilho pelas vias diretas e indiretas: Transmissão direta – eliminação de aerossóis pela tosse, contato naso-oral e interação física direta entre equinos; Transmissão indireta – uso compartilhado de utensílios de alimentação, permanência em instalações contaminadas e consumo de água proveniente de fontes contaminadas. Adaptado de Chhabra et al. (2023).
Atualmente, reconhece-se que a transmissão oriunda de animais aparentemente saudáveis pode ter maior importância na ocorrência de novos surtos do que aquela proveniente de equinos doentes. Animais convalescentes, embora clinicamente recuperados, continuam a abrigar o patógeno (BOYLE, 2023; CHHABRA et al., 2023). As secreções nasais são a principal fonte de infecção nesses indivíduos. Portanto, todos os equinos recuperados devem ser considerados potencialmente contagiosos por pelo menos 6 semanas após o desaparecimento das secreções purulentas. A eliminação periódica de S. equi ocorre em equinos clinicamente saudáveis mesmo após uma recuperação aparentemente completa e não complicada. Esses animais são comumente denominados portadores subclínicos crônicos de S. equi, e há fortes evidências de que podem representar fonte de novos surtos ou recidivas da doença em grupos bem manejados de equinos (SILVA; VARGAS, 2006).
A prevalência de Streptococcus equi subsp. equi em equinos clinicamente sadios, ou seja, portadores assintomáticos, parece ser consistentemente baixa em diferentes regiões do Brasil. Estudos de prevalência conduzidos por Libardoni et al. (2016) no Rio Grande do Sul e Veiga et al. (2024) em Santa Catarina estimaram taxas de prevalência muito similares, de 2,37% e 2,38%, respectivamente. Pansani et al. (2026) também isolaram o agente da cavidade nasal de equinos hígidos em São Paulo, confirmando a circulação do patógeno em animais sem sinais clínicos.
Apesar de baixa, a prevalência individual pode ser enganosa. Libardoni et al. (2016) também mediram a prevalência em rebanhos, encontrando um valor significativamente mais alto de 5,86%. Isso sugere que a infecção está “agrupada” (clusterizada); embora poucos indivíduos em uma propriedade possam estar positivos em um determinado momento, o patógeno está presente e circulando em um número considerável de rebanhos. Este achado é fundamental, pois destaca o papel do portador assintomático, que pode albergar a bactéria nas bolsas guturais, como o principal reservatório para a persistência da infecção nos plantéis e a fonte de novos surtos (SILVA; VARGAS, 2006).
A transmissão da doença e a manutenção desses reservatórios estão diretamente ligadas às práticas de manejo, como demonstrado pela quantificação dos fatores de risco associados. O estudo de Libardoni et al. (2016) identificou que o fator de maior risco para a infecção foi o compartilhamento de cochos. Este dado é uma evidência quantitativa robusta da importância da transmissão indireta por fômites, validando as recomendações de biosseguridade que enfatizam a desinfecção de materiais e a separação de utensílios (MACHADO et al., 2022).
Outros fatores de risco significativos identificados por Libardoni et al. (2016) foram histórico da doença na propriedade (PR: 3,20) e a participação em eventos (PR: 1,06). O PR de 3,20 confirma a natureza endêmica e persistente da doença, provavelmente sustentada por portadores assintomáticos que não foram identificados ou tratados. O PR de 1,06 para participação em eventos, embora menor, confirma que aglomerações de animais facilitam a disseminação do agente entre diferentes propriedades, reforçando a necessidade de quarentena para animais que retornam de competições ou feiras (MACHADO et al., 2022; ANDRADE JÚNIOR et al., 2023).
Patogenia
Ao infectar um equino saudável, S. equi penetra pelas vias oral e nasal, aderindo-se às células das criptas das tonsilas palatina e lingual, bem como ao epitélio associado aos folículos das tonsilas faríngea (TIMONEY, 2004). O patógeno migra, então, para os linfonodos mandibulares e retrofaríngeos, onde a interação entre o peptidoglicano da parede celular bacteriana e o sistema complemento gera fatores quimiotáticos derivados do complemento. Esses fatores promovem o recrutamento de grande número de neutrófilos polimorfonucleares ao sítio de infecção (MUKHTAR; TIMONEY, 1988; TIMONEY, 2004).
A cápsula de ácido hialurônico, a proteína SeM com ação antifagocítica, a proteína Se18.9 ligante do fator H, a proteína Mac e outros fatores antifagocíticos ainda não determinados protegem a bactéria da opsonização e da fagocitose. Contudo, a intensa migração de neutrófilos para os linfonodos resulta em inflamação e formação de abscessos (MUKHTAR; TIMONEY, 1988; TIMONEY, 2004).
Na sequência, o patógeno pode metastatizar para outros órgãos da cavidade torácica e abdominal por vias linfática ou hematógena, induzindo a formação de abscessos em linfonodos desses locais. A disseminação ocorre após o rompimento dos linfonodos abscedados. A ruptura de um linfonodo retrofaríngeo pode invadir a bolsa gutural, permitindo o esvaziamento do conteúdo purulento por meio de descarga nasal contínua. Em alguns casos, o material purulento espessa-se e forma condróides na bolsa gutural, os quais podem armazenar patógenos viáveis e atuar como fonte de infecção para equinos suscetíveis (TIMONEY et al., 2008; RAO, 2019).
Na infecção natural, o inóculo bacteriano deve ser superior a 10⁷ unidades formadoras de colônias (UFC), pois cargas inferiores são eliminadas pelo sistema mucociliar. Entretanto, o inóculo de bactérias propagadas in vitro necessário para causar infecção é maior do que o requerido na infecção natural, uma vez que os fatores de virulência essenciais para a adesão inicial e penetração são mais intensamente expressos em bactérias propagadas in vivo. Tanto o período de incubação quanto a gravidade da infecção são diretamente proporcionais ao tamanho do inóculo (SHEORAN et al., 1997; TIMONEY et al., 2008; CHHABRA et al., 2023).
Rebanhos previamente expostos ao S. equi desenvolvem imunidade elevada devido à contínua exposição ao patógeno mantido por portadores com infecção persistente na bolsa gutural. Animais mais velhos com imunidade residual, jovens com diminuição da proteção conferida por anticorpos maternos e indivíduos vacinados apresentam menor suscetibilidade e podem manifestar uma forma leve da doença. Esses animais, apesar do quadro clínico brando, podem eliminar S. equi virulento capaz de causar doença grave em equinos jovens ou mais suscetíveis (GALAN; TIMONEY, 1987; HAMLEN et al., 1994).
Éguas convalescentes produzem imunoglobulinas, como IgGb e IgA, em seu leite, semelhantes às IgGs presentes no muco nasofaríngeo de equinos doentes (GALAN; TIMONEY, 1987). Dessa forma, potros lactentes recebem proteção imunológica passiva até o desmame. Anticorpos presentes no colostro ingerido nas primeiras horas de vida recirculam para a mucosa nasofaríngea, conferindo proteção adicional durante as primeiras semanas de vida (HAMLEN et al., 1994).
Na ausência de tratamento antimicrobiano, estima-se que aproximadamente 75% dos equinos desenvolvam imunidade protetora contra reinfecções. Contudo, essa imunidade diminui ao longo do tempo sem reexposição ao agente. Paradoxalmente, animais portadores crônicos contribuem para a manutenção da imunidade no grupo e reduzem a ocorrência de novos episódios clínicos, apesar de favorecerem a permanência endêmica da doença (GALAN; TIMONEY, 1987; HAMLEN et al., 1994).
Sinais clínicos
O garrotilho apresenta um espectro clínico amplo, cuja forma clássica e não complicada é descrita nas revisões de Silva e Vargas (2006) e Andrade Júnior et al. (2023). Os sinais prodrômicos envolvem febre alta, apatia, anorexia, tosse e secreção nasal inicialmente serosa, evoluindo rapidamente para mucopurulenta (Fig. 2). Esses sinais se mantêm, em média, por 3 a 4 semanas após um período de incubação de aproximadamente 3-8 dias (ANDRADE JÚNIOR et al., 2023; CHHABRA et al., 2023).

Figura 2 – Secreção nasal mucopurulenta em equino com garrotilho. Fonte: Autores.
A progressão da doença caracteriza-se por febre (>39 °C), tosse, anorexia e descarga nasal mucopurulenta (BOYLE, 2023; ANDRADE JÚNIOR et al., 2023; CHHABRA et al., 2023). O sinal clínico mais distintivo é a linfadenite acentuada (Fig. 3), com aumento de volume e formação de abscessos nos linfonodos submandibulares e retrofaríngeos (SILVA; VARGAS, 2006; ANDRADE JÚNIOR et al., 2023).

Figura 3 – Potro com garrotilho apresentação linfoadenopatia submandibular e retrofaríngea Fonte: Autores.
No garrotilho clássico, há acentuado aumento dos linfonodos que drenam a região faríngea, levando à tumefação submandibular característica (ANDRADE JÚNIOR et al., 2023; CHHABRA et al., 2023; VEIGA et al., 2024). Em casos mais graves, a inflamação pode comprimir laringe, faringe, esôfago e traqueia, causando dispneia severa, estridor e dificuldade para deglutir. O envolvimento dos linfonodos da entrada torácica pode levar à compressão traqueal, asfixia e morte (CHHABRA et al., 2023). Geralmente, abscessos do linfonodo retrofaríngeo rompe-se no teto da nasofaringe e drenam para a bolsa gutural, resultando em empiema de bolsa gutural (ANDRADE JÚNIOR et al., 2023; CHHABRA et al., 2023). Drenagem espontânea desses abscessos, seja pela pele ou para a faringe, ocorre usualmente após 1 a 2 semanas, e sua resolução clínica associa-se ao alívio da compressão e da dor (SILVA; VARGAS, 2006; BOYLE, 2023).
A patogenia de Streptococcus equi também permite a disseminação sistêmica do agente. A forma metastática, conhecida como “garrotilho bastardo”, resulta da disseminação hematógena ou linfática para diversos órgãos, incluindo pulmões, fígado, baço, rins e sistema nervoso central, sendo frequentemente fatal devido à dificuldade diagnóstica e terapêutica. Abscessos profundos tendem a passar despercebidos clinicamente e apresentam baixa penetração de antimicrobianos devido ao grande volume, podendo ultrapassar 30 cm de diâmetro (ANDRADE JÚNIOR et al., 2023; CHHABRA et al., 2023). Manifestação rara dessa forma disseminada foi relatada por Alonso et al. (2019), que descreveram osteomielite vertebral cervical em um equino adulto de 15 anos, com destruição lítica de C6–C7, dor cervical intensa, ataxia e prognóstico desfavorável, destacando o potencial invasivo do agente mesmo em animais adultos.
Complicações imunomediadas também podem ocorrer. A púrpura hemorrágica é uma das consequências mais graves da adenite equina e consiste em vasculite leucocitoclástica desencadeada por reação de hipersensibilidade do tipo III, ocorrendo 2 a 4 semanas após infecção natural ou vacinação (ANDRADE JÚNIOR et al., 2023). Essa condição envolve deposição de imunocomplexos IgA–proteína M nas paredes vasculares, levando a edema generalizado, petéquias, equimoses e alta mortalidade. Essa descrição é compatível com os achados clássicos da literatura internacional, que associam S. equi a vasculite imunomediada com hemorragias petequiais em mucosas, músculos e vísceras (ANDRADE JÚNIOR et al., 2023; CHHABRA et al., 2023), além de infartos em musculatura esquelética, pele, trato gastrointestinal, pâncreas e pulmões (CHHABRA et al., 2023).
A infecção por S. equi também acarreta alterações hematológicas e bioquímicas importantes. Relata-se redução da contagem de eritrócitos, diminuição da hemoglobina e do volume globular, além de leucocitose decorrente de neutrofilia. Essa anemia pode estar associada à indisponibilidade de ferro para eritropoiese, já que a liberação de íons ferrosos do sistema reticuloendotelial é inibida após a infecção. Entre as alterações bioquímicas destacam-se hiperglobulinemia, hipoalbuminemia, aumento de AST associado à miosite local e possíveis distúrbios hidroeletrolíticos, como hiponatremia e hipercalemia, que podem precipitar arritmias cardíacas. Redução dos níveis de zinco também é relatada, podendo comprometer a resposta imune (CHHABRA et al., 2023).
Infartos musculares, rabdomiólise com mionecrose aguda e rabdomiólise com atrofia progressiva após garrotilho são uma complicação imunológica localizada relativamente rara, que se apresenta como várias síndromes. Embora os infartos sejam uma manifestação grave da púrpura hemorrágica, os mecanismos da rabdomiólise não são conhecidos, mas cascatas inflamatórias, como na síndrome do choque tóxico estreptocócico, ou efeitos tóxicos diretos do S. equi no tecido muscular foram hipotetizados. Infiltrados inflamatórios linfocíticos disseminados com alterações marcantes mais evidentes em amostras de músculo atrófico foram relatados na avaliação histopatológica do tecido muscular. Cavalos com miosite devem ser tratados com corticosteroides; se houver sinais consistentes com infecção concomitante, antibióticos também são indicados (BOYLE et al., 2018).
Por fim, o espectro clínico da adenite equina é amplo e heterogêneo, variando desde portadores assintomáticos detectáveis apenas por métodos moleculares (ANDRADE JÚNIOR et al., 2023; CHHABRA et al., 2023) até quadros respiratórios agudos clássicos (SILVA; VARGAS, 2006). A evolução pode incluir formas metastáticas sistêmicas (“garrotilho bastardo”) (LIBARDONI et al., 2016) e sequelas imunomediadas graves, como a púrpura hemorrágica (ANDRADE JÚNIOR et al., 2023). Tal diversidade reforça a necessidade de elevada suspeição clínica e abordagem diagnóstica minuciosa para a adequada identificação e manejo da enfermidade.
Abordagens diagnósticas
A confirmação laboratorial do garrotilho é essencial para o manejo clínico e epidemiológico. O método considerado padrão-ouro é a cultura bacteriana, que permite o isolamento e a identificação do S. equi a partir de amostras de secreção nasal ou do pus obtido dos abscessos (SILVA; VARGAS, 2006; ANDRADE JÚNIOR et al., 2023).
No entanto, a cultura possui limitações significativas de sensibilidade, especialmente em animais cronicamente infectados (portadores) ou em estágios iniciais da doença (SILVA; VARGAS, 2006; BOYLE, 2023). Um desafio diagnóstico adicional e crítico é a diferenciação entre S. equi subsp. equi (o patógeno causador do garrotilho) e S. equi subsp. zooepidemicus (um comensal frequente da nasofaringe de equinos sadios, que pode atuar como patógeno oportunista) (SILVA; VARGAS, 2006; PANSANI et al., 2016). Os estudos de Pansani et al. (2016) e Veiga et al. (2024) demonstraram que S. zooepidemicus é, de fato, mais prevalente na cavidade nasal de animais hígidos. Isso significa que uma cultura positiva para Streptococcus grupo C pode ser enganosa se não houver a correta sub-especiação.
A principal vantagem da cultura, que se torna cada vez mais crítica, é a possibilidade de realizar testes de sensibilidade antimicrobiana (antibiograma). Diante dos crescentes relatos de resistência (VEIGA et al., 2024), o isolamento do agente é a única forma de guiar uma terapia antibiótica racional e evitar a falha terapêutica (ALONSO et al., 2019; MACHADO et al., 2022).
A Reação em Cadeia da Polimerase (PCR) tem se consolidado como uma ferramenta diagnóstica superior em termos de sensibilidade e especificidade (SILVA; VARGAS, 2006; ANDRADE JÚNIOR et al., 2023). O estudo de Patty e Cursons (2014), por exemplo, utilizou PCR (visando o gene seeI) para o diagnóstico, considerando-a mais sensível que a cultura para a detecção do agente. A alta sensibilidade da PCR a torna a ferramenta de eleição para a detecção de portadores assintomáticos, que frequentemente albergam a bactéria nas bolsas guturais, excretam uma baixa carga bacteriana e resultam em falso-negativos na cultura (SILVA; VARGAS, 2006; CHHABRA et al., 2023).
Paralelamente aos métodos de detecção direta, os métodos sorológicos como o Ensaio de Imunoabsorção Enzimática (ELISA) medem a resposta de anticorpos do hospedeiro e possuem grande valor clínico e epidemiológico. O estudo de Ribas et al. (2018) desenvolveu e avaliou um “Cell ELISA” como ferramenta auxiliar no controle da doença, demonstrando alta sensibilidade (100%) e especificidade (90%).
O “Cell ELISA” demonstrou ser capaz de diferenciar a infecção por S. equi de S. zooepidemicus, apesar da possibilidade de reação cruzada. O estudo de Ribas et al. (2018) mostrou que os valores médios de absorbância de animais positivos para S. equi foram 1,6 vezes superiores aos de animais com infecção por S. zooepidemicus. Isso confere ao ELISA aplicações distintas e complementares: é ideal para o monitoramento de rebanhos, para identificar portadores assintomáticos (que apresentaram absorbâncias médias superiores aos negativos) e para monitorar a resposta imune pós-vacinal (potros vacinados no estudo mostraram aumento significativo nos títulos.
Não há um teste único para todos os cenários. O controle eficaz da doença exige uma abordagem diagnóstica multimodal: a Cultura é necessária para o antibiograma; a PCR é a escolha para a detecção sensível de casos agudos e erradicação de portadores; e o ELISA é a ferramenta para vigilância de rebanho e monitoramento vacinal (PATTY; CURSONS, 2014; RIBAS et al., 2018; ANDRADE JÚNIOR et al., 2023).
Terapia antimicrobiana e suporte clínico
Streptococcus equi apresenta sensibilidade a diversos antimicrobianos, especialmente às penicilinas, embora evidências recentes indiquem a emergência de mecanismos de resistência que merecem monitoramento contínuo (BOYLE et al., 2018; JARAMILLO-MORALES et al., 2022). A penicilina permanece como o fármaco de escolha para infecções por S. equi, ainda que análises populacionais tenham identificado o surgimento de mutações associadas ao sítio de ligação da penicilina e potencialmente relacionadas à resistência, embora os achados ainda sejam conflitantes quanto à relevância clínica desse fenômeno (FONSECA et al., 2020; MORRIS et al., 2020).
A antibioticoterapia instituída no início da fase aguda, particularmente durante o primeiro pico febril, pode ser curativa, desde que o animal não seja novamente exposto ao agente. Em equinos com febre elevada, depressão acentuada, disfagia ou obstrução de vias aéreas, recomenda-se o emprego de antimicrobianos associados a anti-inflamatórios não esteroidais, como fenilbutazona ou flunixina meglumina, e, em situações de obstrução respiratória por aumento rápido de linfonodos retrofaríngeos ou edema local, pode ser necessária traqueostomia de emergência (MACHADO et al., 2022; ANDRADE JÚNIOR et al., 2023; CHHABRA et al., 2023). A administração imediata de penicilina procaína (22.000 UI/kg, IM, a cada 12 h) ou benzilpenicilina G (10.000 UI/kg, IM, a cada 24 h) costuma resultar em melhora clínica (MACHADO et al., 2022; ANDRADE JÚNIOR et al., 2023; CHHABRA et al., 2023).
Entretanto, a maioria dos equídeos com garrotilho agudo apresenta sinais inespecíficos de infecção respiratória generalizada e frequentemente responde satisfatoriamente apenas a cuidados de suporte e de enfermagem. O manejo clínico deve incluir ambiente que favoreça o repouso, dieta macia, energética e palatável, oferta de água em altura adequada para facilitar a deglutição, monitoramento regular dos parâmetros clínicos, protocolo de quarentena e atenção à evolução dos abscessos (RENDLE et al., 2021; WHITELEGG; SAUNDERS, 2021).
Em animais com linfadenopatia evidente, o cuidado deve priorizar a maturação e drenagem dos abscessos, podendo ser necessária drenagem cirúrgica quando não ocorre ruptura espontânea, seguida de lavagem com solução salina ou antisséptica e irrigação diária enquanto persistir secreção. Anti-inflamatórios não esteroidais podem ser utilizados para analgesia e controle da pirexia, e o paracetamol também tem sido recomendado por seu efeito antipirético e analgésico sem interferência direta sobre a inflamação (RENDLE et al., 2021). Apesar disso, a terapia antimicrobiana deve ser empregada com critério, pois, na maioria dos surtos, não é indicada nem necessária em equinos adultos, e seu uso em casos clássicos não complicados pode limitar o estímulo adequado à imunidade convalescente, além de não eliminar necessariamente microrganismos presentes no interior dos abscessos, favorecendo recidivas (TIMONEY; KUMAR, 2008; ANDRADE JÚNIOR et al., 2023; CHHABRA et al., 2023).
Nas infecções persistentes das bolsas guturais, o tratamento baseia-se principalmente na combinação de lavagem local com antimicrobianos tópicos, sendo a terapia sistêmica indicada apenas em parte dos casos (BOYLE et al., 2018; RENDLE et al., 2021). A administração sistêmica de penicilina associada à aplicação tópica, guiada por endoscopia, de mistura de gelatina com penicilina tem sido descrita como amplamente eficaz (VERHEYEN et al., 2000), e a utilização de gel termodinâmico reverso contendo benzilpenicilina constitui alternativa que permite maior retenção do antimicrobiano na bolsa gutural por mais de 72 horas (RENDLE et al., 2021). De modo semelhante, tem sido recomendada a lavagem repetida com solução fisiológica a 0,9% e a instilação de benzilpenicilina G em solução de gelatina a 5%, podendo a colocação de cateter Foley facilitar a drenagem e as lavagens subsequentes (ANDRADE JÚNIOR et al., 2023; CHHABRA et al., 2023).
A remoção de material purulento e de condróides é considerada essencial para eliminação do estado de portador, sendo preferível a intervenção endoscópica com o animal em estação em relação à abordagem cirúrgica sob anestesia geral, devido aos riscos anestésicos, à proximidade de estruturas vitais e ao potencial de contaminação ambiental. A aplicação tópica de acetilcisteína a 20% pode auxiliar na fluidificação do material mucopurulento não espessado, reduzindo sua viscosidade e favorecendo a drenagem (BOYLE et al., 2018). A retirada de condróides pode demandar o uso de cesta helicoidal transendoscópica (ANDRADE JÚNIOR et al., 2023; CHHABRA et al., 2023). Além disso, os métodos terapêuticos devem ser individualizados, visto que muitos portadores não apresentam empiema nem condróides e, em alguns casos, o estado de portador pode se resolver espontaneamente sem tratamento (PRINGLE et al., 2019).
Nos casos de abscessação metastática, ou garrotilho bastardo, especialmente quando localizada no tórax ou abdome, a resposta ao tratamento antimicrobiano é frequentemente limitada, possivelmente em decorrência de baixa penetração tecidual, inativação do fármaco pelo pus ou ambos. Nesses quadros, a infusão intravenosa contínua de antimicrobianos pode oferecer maior probabilidade de eficácia do que esquemas intermitentes (SILVA; VARGAS, 2006; ANDRADE JÚNIOR et al., 2023; CHHABRA et al., 2023). Assim, o manejo terapêutico do garrotilho deve considerar a fase clínica da enfermidade, a gravidade do quadro, a presença de complicações e o risco de manutenção de portadores persistentes, conciliando uso racional de antimicrobianos com medidas de suporte, drenagem de abscessos e tratamento direcionado das bolsas guturais.
Estratégias de prevenção e biossegurança
As medidas de biossegurança constituem componente central no controle de surtos de garrotilho, especialmente por meio da desinfecção criteriosa das instalações, do manejo adequado de equipamentos e da implementação de protocolos de isolamento e monitoramento clínico. A escolha do desinfetante deve considerar o tipo de superfície, a atividade bactericida frente a Streptococcus equi, a eficácia na presença de matéria orgânica e o custo de aplicação, uma vez que o agente é eliminado principalmente em secreções nasais e pode persistir em diferentes materiais do ambiente (JORM, 1992; DWYER, 1995; WEESE et al., 2009).
Embora estudos laboratoriais demonstrem capacidade de sobrevivência do microrganismo em solo, fezes, água e superfícies inertes por períodos variáveis, o garrotilho permanece potencialmente erradicável, em razão da elevada adaptação do agente ao hospedeiro, da limitada persistência ambiental em condições de campo e da eliminação do microrganismo pela maioria dos animais durante a convalescença (CHHABRA et al., 2023). Além disso, instalações previamente ocupadas por equinos acometidos podem ser repovoadas após período de descanso, embora em condições de congelamento S. equi possa sobreviver por tempo indeterminado nas secreções eliminadas (DURAN; GOEHRING, 2021). A sobrevivência do agente em água por até seis semanas também reforça a importância sanitária da higienização frequente de tanques e reservatórios, sobretudo durante surtos (DURAN; GOEHRING, 2021; CHHABRA et al., 2023).
O isolamento precoce de equinos febris e o monitoramento clínico frequente, especialmente da temperatura corporal, são estratégias fundamentais, uma vez que a eliminação de S. equi se inicia cerca de dois dias após o início da febre (BOYLE et al., 2017). Sistemas de segregação por zonas de risco, com codificação por cores para animais, áreas e equipamentos, têm sido recomendados para reduzir a disseminação do agente durante surtos (WALLER, 2014). Entretanto, a adoção dessas medidas depende da disponibilidade de baias e das condições estruturais da propriedade, podendo requerer alternativas, como a separação de animais em baias localizadas em extremidades do celeiro ou em piquetes distintos.
A prevenção da introdução de S. equi em plantéis livres da enfermidade é considerada crítica, sendo recomendado o isolamento de novos animais e daqueles com contato externo recente, com monitoramento de pirexia, linfadenomegalia craniana e secreção nasal, além de investigação por cultura bacteriana e PCR antes de sua introdução no rebanho (DURAN; GOEHRING, 2021). Também devem ser considerados como potenciais fontes de introdução e disseminação instrumentos veterinários contaminados, cercas compartilhadas entre propriedades e vetores mecânicos, como moscas, o que justifica medidas adicionais, incluindo cercas duplas e vigilância epidemiológica ativa em propriedades vizinhas (DURAN; GOEHRING, 2021; CHHABRA et al., 2023).
A identificação de portadores subclínicos e persistentemente infectados é etapa essencial para o controle sanitário, uma vez que esses animais podem permanecer como fontes silenciosas de reinfecção. Nesse contexto, a triagem sorológica por iELISA de antígenos A e C pode ser iniciada a partir de três semanas após a resolução do último caso clínico, especialmente nos grupos de menor risco aparente, nos quais animais previamente expostos sem sinais clínicos podem passar despercebidos (BOYLE et al., 2018; WALLER, 2014). Equinos com resultados positivos devem ser submetidos, idealmente, à endoscopia das vias aéreas superiores com avaliação das bolsas guturais e coleta de lavados bilaterais; quando isso não for possível, recomenda-se a obtenção de amostras por swab ou lavagem nasofaríngea, preferencialmente analisadas por qPCR para maximizar a sensibilidade diagnóstica (BOYLE et al., 2018; WALLER, 2014). De modo complementar, o uso combinado de cultura microbiológica e qPCR permanece relevante, considerando o padrão intermitente de eliminação bacteriana e o risco de resultados falso-negativos quando apenas a cultura é utilizada (MORRIS et al., 2020). Em conjunto, essas medidas aumentam substancialmente a probabilidade de interrupção da transmissão e de prevenção da reintrodução de S. equi em populações suscetíveis.
A vacinação como ferramenta de prevenção de surtos tem sido limitada por fatores relacionados à eficácia, segurança, praticidade, interferência com outros calendários vacinais, restrições geográficas, diferenças entre cepas circulantes de S. equi e adesão dos proprietários (BOYLE et al., 2018; MITCHELL et al., 2021). As vacinas contra o garrotilho devem proporcionar elevado grau de proteção contra S. equi, longa duração da imunidade, possibilidade de administração intramuscular segura e permitir a diferenciação entre animais infectados e vacinados (MCLINDEN et al., 2023).
As primeiras vacinas, à base de bactérias inativadas pelo calor, apresentavam proteção limitada e elevada frequência de reações adversas, enquanto formulações acelulares e vacinas contendo extratos com proteína M demonstraram alguma eficácia, porém sem superar plenamente os problemas de reatogenicidade e de diferenciação entre animais vacinados e infectados. Mais recentemente, vacinas vivas atenuadas passaram a ser utilizadas em diferentes regiões, mas também apresentam limitações importantes, incluindo ocorrência de eventos adversos, além de relatos de abscedação de linfonodo associada à replicação vacinal (MCLINDEN et al., 2023).
Considerações finais
O garrotilho equino permanece como uma enfermidade infectocontagiosa de grande relevância para a equideocultura, tanto pela elevada transmissibilidade quanto pelo impacto sanitário e econômico associado aos surtos, às complicações clínicas e à persistência de portadores subclínicos. Embora Streptococcus equi subsp. equi apresente limitada sobrevivência ambiental em condições de campo quando comparado a outros patógenos bacterianos, sua manutenção em populações equinas continua fortemente associada à introdução de animais infectados, à permanência de portadores crônicos e a falhas nas medidas de biossegurança, isolamento e monitoramento sanitário. Nesse contexto, o controle efetivo da enfermidade depende da integração entre diagnóstico precoce, detecção de portadores persistentes, higiene criteriosa de instalações e equipamentos, quarentena de animais recém-introduzidos e organização estrutural das propriedades para segregação de grupos de risco.
Do ponto de vista terapêutico e de controle, persiste a necessidade de aperfeiçoamento das estratégias atualmente empregadas, especialmente no que se refere à identificação mais sensível de portadores, e à padronização de protocolos sanitários aplicáveis a diferentes realidades de criação. Como perspectivas futuras, destacam-se o desenvolvimento e a validação de métodos diagnósticos mais acurados para triagem de animais subclínicos, o aprimoramento de programas de vigilância baseados em risco, a adoção de planos de biossegurança específicos para cada estabelecimento e a ampliação de estudos sobre desinfecção de superfícies, fômites e vestimentas em condições reais de campo. Adicionalmente, investigações voltadas à otimização das abordagens terapêuticas e ao refinamento das estratégias preventivas poderão contribuir para maior efetividade no controle de surtos e redução da circulação do agente. Assim, considerando sua dependência do hospedeiro, a limitada persistência ambiental em condições usuais e a disponibilidade de ferramentas diagnósticas e sanitárias cada vez mais sensíveis, o garrotilho configura-se como enfermidade potencialmente controlável, desde que seu enfrentamento seja fundamentado em vigilância contínua, diagnóstico assertivo e rigoroso cumprimento das medidas de biossegurança.
Na experiência clínica dos autores UPM e CF, embora a base do tratamento do garrotilho permaneça centrada no emprego da terapia antimicrobiana nos casos em que sua indicação é clinicamente justificada, as estratégias de prevenção e biossegurança exercem papel igualmente relevante na contenção da enfermidade e na redução da disseminação de Streptococcus equi subsp. equi entre equinos suscetíveis. Em animais com manifestações clínicas leves, a instituição de antimicrobianos nem sempre se mostra necessária, especialmente quando o quadro é autolimitante e passível de manejo com suporte clínico e acompanhamento evolutivo. Nesses casos, no entanto, medidas de isolamento são sempre adotadas, por constituírem conduta essencial para interrupção da cadeia de transmissão e proteção dos demais animais do plantel.
Na rotina de campo, o controle efetivo do garrotilho permanece desafiador, sobretudo em decorrência do intenso trânsito de equinos entre propriedades, centros de treinamento, exposições, vaquejadas e outros eventos equestres. Esse contexto favorece a introdução e a recirculação do agente em diferentes plantéis, dificultando a implementação de medidas dirigidas à erradicação. Como consequência, em muitas situações, a abordagem adotada restringe-se ao tratamento sintomático e ao manejo clínico dos casos manifestos, sem investigação sistemática de portadores persistentes nem adoção de protocolos sanitários rigorosos voltados à eliminação do agente no rebanho.
Conflitos de interesse
Os autores declaram que não possuem conflitos de interesse de ordem financeira, comercial, institucional ou pessoal que possam ter influenciado a concepção, condução, análise dos dados, interpretação dos resultados ou a redação do presente artigo científico.
Contribuição dos autores
GLOS e REGS foram responsáveis pela busca sistematizada dos dados científicos, análise inicial das informações e elaboração da versão preliminar do manuscrito. UPM e CF realizaram a revisão crítica do conteúdo intelectual, contribuíram para o aprimoramento científico do texto e foram responsáveis pela revisão final e formatação do manuscrito, assegurando sua adequação às normas editoriais e aos padrões científicos exigidos para publicação.
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Recebido em 20 de janeiro de 2026
Retornado para ajustes em 4 de março de 2026
Recebido com ajustes em 26 de março de 2026
Aceito em 13 de abril de 2026