Ação de extensão universitária na disciplina de Forragicultura – diagnóstico local e intervenção sobre a utilização de plantas forrageiras na pecuária urbana

Revista Agrária Acadêmica

agrariacad.com

doi: 10.32406/v8n2/2025/15-23/agrariacad

 

Ação de extensão universitária na disciplina de Forragicultura – diagnóstico local e intervenção sobre a utilização de plantas forrageiras na pecuária urbana. University extension action in the discipline of Forage Farming – local diagnosis and intervention on the use of forage plants in urban livestock farming.

 

Juliana Karla Quirino Ramalho1, Anuska Alves Coutinho Lins1, Beatriz Cantalice de Melo1, Jacyara de Souza Fernandes1, Janine Miranda de Oliveira Tillmann1, Luís Fábio Barbosa Botelho1, Sara Morais Pordeus1, Henrique Melo de Oliveira2, Maíza Araújo Cordão3, Sebastião André Barbosa Junior3*

 

1- Discente do Curso de Medicina Veterinária – Centro Universitário UNIESP – Cabedelo/PB – Brasil. E-mails: julianaquirino410@gmail.com, anuska.coutinho@hotmail.com, biacantalice07@gmail.com, jacyara.vetjp@gmail.com, janinetillmannmedvet@gmail.com, fabinhobot@hotmail.com, sarapordeus89@gmail.com
2- Graduação em Zootecnia – Universidade Federal da Paraíba – UFPB – Campus Areia/PB – Brasil. E-mail: henriquedeflavio@gmail.com
3- Docente do Curso de Medicina Veterinária – Centro Universitário UNIESP – Cabedelo/PB – Brasil. E-mail: maizacordao@hotmail.com, sebastiaoandre.ater@gmail.com

 

Resumo

 

Objetivou-se com o presente relato, descrever e refletir sobre uma experiência de extensão universitária na disciplina de Forragicultura e Plantas Nativas realizada em uma pecuária urbana no município de Cabedelo-PB. A ação de extensão foi desenvolvida em duas etapas: a primeira de diagnóstico local e a segunda de intervenção. O diagnóstico local foi realizado através de uma visita, na qual foi verificado que o criador mora e trabalha com sua esposa, tendo como principal atividade a bovinocultura de leite. O sistema de criação desenvolvida na prorpiedade foi o intensivo, principalmente por limitação do espaço na propriedade e falta de local para os animais pastarem.Na propriedade tem plantações de quatro cultivares do capim elefante, sendo eles: Roxo, BRS Capiaçu, Mineirão e Gramafonte, e o criador também utiliza alguns resíduos orgânicos para alimentar seus animais. Foi verificado a realização da escrituração zootécnica a partir de anotações em um caderno, sobre a produção de leite, montas controladas e nascimento de todos os animais. O criador relatou que não tem acesso a asistência técnica ou a acompanhamento da defesa agropecuária. A intervenção foi realizada através da produção de um vídeo de uma entrevista com um profissional zootecnista, no qual foram abordados os principais aspectos do diagnóstico local. Na entrevista foi dada ênfase a utilização do cultivar BRS capiaçu, por ser uma planta de maior produção, sendo indicada para o contexto urbano e com pouco espaço. Também foi sugerido a implantação de leguminosas, a gliricídia e a moringa. Conclui-se que a pecuária urbana sofre impactos com a urbanização e o manejo alimentar é prejudicado. O diálogo e as informações construídos com a visita e apresentação do vídeo ao criador foram importantes para melhorias na criação.

Palavras-chave: Agricultura Familiar. Curricularização da Extensão. Bovinocultura Urbana.

 

 

Abstract

 

The objective of this report was to describe and reflect on a university extension experience in the discipline of Forage Culture and Native Plants carried out in an urban livestock farm in the municipality of Cabedelo-PB. The extension action was developed in two stages: the first was a local diagnosis and the second was an intervention. The local diagnosis was carried out through a visit, in which it was verified that the breeder lives and works with his wife, and that their main activity is dairy cattle farming. The breeding system developed on the property was intensive, mainly due to the limitation of space on the property and the lack of place for the animals to graze. The property has plantations of four cultivars of elephant grass, namely: Roxo, BRS Capiaçu, Mineirão and Gramafonte, and the breeder also uses some organic waste to feed his animals. It was verified that zootechnical records were carried out based on notes in a notebook, on milk production, controlled matings and birth of all animals. The breeder reported that he does not have access to technical assistance or monitoring by the agricultural defense. The intervention was carried out through the production of a video of an interview with a professional zootechnician, in which the main aspects of the local diagnosis were addressed. The interview emphasized the use of the BRS capiaçu cultivar, as it is a plant with greater production and is suitable for urban contexts with limited space. The implementation of legumes, gliricidia and moringa, was also suggested. It was concluded that urban livestock farming is impacted by urbanization and that food management is impaired. The dialogue and information constructed through the visit and presentation of the video to the breeder were important for improvements in livestock farming.

Keywords: Family Farming. Extension Curriculum. Urban Cattle Farming.

 

 

Introdução

 

A pecuária urbana se caracteriza em criações de animais agrícolas em perímetros urbanos, muito próximos a bairros popularizados, cenário observado em grandes centros, devido ao crescimento acelerados de novos bairros e verticalização dentro das grandes cidades. No entanto, alguns dos desafios da pecuária urbana em João Pessoa-PB e cidades vizinhas vem sendo acompanhados há alguns anos em ações de extensão universitária e recentemente atividades de pesquisa. Problemas sociais, escassez de políticas públicas, problemas sanitários e produtivos com os animais, além de problemas de saúde pública e saúde ambiental estão sendo observados. Mas também existem potencialidades a serem fortalecidas como oferta de produtos de origem animal para a população, geração de trabalho, geração de renda e auxílio para a segurança alimentar para os criadores e suas famílias. O desafio aqui em questão foi o da utilização de plantas forrageiras para a alimentação animal na pecuária urbana. Foi esta situação que instigou o desenvolvimento das atividades de curricularização da extensão universitária na disciplina de Forragicultura e Plantas Nativas.

Historicamente os primeiros aglomerados urbanos do Brasil foram formados principalmente por pessoas que vieram das áreas rurais, negros, trabalhadores rurais e indígenas. Mais recentemente, no início da segunda parte do século XX, aconteceu o processo conhecido como êxodo rural, no qual milhares de famílias de agricultores saíram do campo para a cidade devido ao processo de modernização agrícola que diminuiu os empregos e fez com o que muitos camponeses perdessem suas terras. O êxodo rural aumentou a densidade populacional das periferias (AGUIAR, 2011; PAPINI, 2012).

No Brasil, pelo fato de grande parte da população das periferias terem origem e descendência de áreas rurais o desenvolvimento da agricultura urbana ou periurbana é um fenômeno comum. A agricultura urbana pode ser definida de maneira simples como o cultivo de vegetais e(ou) a criação de animais domésticos dentro dos limites da cidade ou em sua periferia (MACHADO; MACHADO, 2005). A criação animal nas cidades não é um fenômeno novo, na verdade faz parte da origem dos aglomerados urbanos, não apenas nos trópicos, mas em todas as regiões do planeta (SCHIERE, TEGEGNE, VAN VEENHUIZEN, 2000). 

A Forragicultura é a ciência que estuda as plantas forrageiras, que são plantas que apresentam potencialidade para a alimentação animal. A utilização de plantas forrageiras para alimentação animal na forma de pastos e capineiras é importante por proporcionar uma alimentação mais próxima do comportamento natural dos animais e por ser mais econômica para a produção animal (SILVA, 2014).

O Brasil é um país que apresenta um grande território e um clima que favorece o crescimento de plantas herbáceas, principais plantas usadas nas atividades rurais. As pastagens naturais podem ser uma opção para a alimentação dos animais, no entanto, carecem de maior eficiência na produção, que se dá, principalmente, através cultivo de plantas mais adaptadas ao clima da região e melhoria nas condições da fertilidade do solo. Nesse sentido possibilita a introdução de plantas forrageiras mais produtivas, permitindo aumentar a produtividade do pasto ou campineira (ALMEIDA JUNIOR et al., 2014).

A importância da Educação e Extensão Universitária ganha muita força com a constituição de 1988, quando nela é declarada o direito universal à Educação, e sobre a estrutura indissociável na Educação entre Ensino, Pesquisa e Extensão (BRASIL, 1988). A Lei de Diretrizes e Bases da Educação, em seu artigo 43, coloca a Extensão Universitária como uma das finalidades da Universidade (BRASIL, 1996). A resolução do Conselho Nacional de Educação nº 07/2018, formaliza a importância da Extensão Universitária na formação profissional com a proposta de sua curricularização, na qual 10% da carga horária dos cursos de graduação terão que ser constituídos por projetos de Extensão Universitária (BRASIL, 2018).

Somasse ao exposto a escassez de estudos sobre a pecuária urbana e principalmente sobre as características da alimentação dos animais criados na cidade. Diante do exposto, objetivou-se com o presente relato de experiência, descrever e refletir sobre uma experiência de ação de extensão universitária vinculada a disciplina de Forragicultura e Plantas Nativas realizada em uma pecuária urbana na cidade de Cabedelo, Grande João Pessoa, Paraíba, Brasil.

 

Material e métodos

 

Contexto

 

O presente estudo trata-se de um relato de experiência sobre uma ação extensionista desenvolvida por um grupo de estudantes na disciplina de Forragicultura e Plantas Nativas. Esta disciplina foi ofertada no 3º período, no turno noturno, durante os meses de fevereiro à junho de 2024, no curso de Medicina Veterinária do Centro Universitário UNIESP, localizado no munícipio de Cabedelo, Paraíba.

A ação extensionista foi realizada no contexto da pecuária urbana, em uma criação de animais agrícolas no município de Cabedelo, Paraíba, Brasil. A ação extensionista foi dividida em duas etapas: a primeira composta por um diagnóstico local e a segunda por uma ação de intervenção.

 

Diagnóstico local

 

A realização do diagnóstico local foi desenvolvida com base no protagonismo do criador. Essa proposta é originada da perspectiva crítica de Paulo Freire sobre Extensão Rural, na qual o autor intitula de Comunicação Rural, criticando a ação de estender o conhecimento do técnico para o agricultor, e propondo a comunicação entre ambos, um reconhecendo a cultura e técnica do outro (FREIRE, 1979).

Outra técnica que foi utilizada durante a visita para o diagnóstico local foi a da Observação Não-Participante (MARIETTO, 2018), na qual permitiu que os estudantes observassem elementos sobre o contexto, pessoas, diálogos, animais, manejos, plantas forrageiras etc. presentes no território e na pecuária urbana visitada. 

A etapa do diagnóstico local foi iniciada com o processo de articulação com o criador, que ocorreu através de contato telefônico realizado no dia 06 de março de 2024, com o objetivo de apresentar ao criador o desejo de conhecer e sua propriedade e realizar o projeto de extensão na mesma. Em seguida foi realizada a visita a criação, no dia 10 de março de 2024, com a finalidade de desenvolver um diagnóstico sobre aspectos sociais e de aspectos produtivos, principalmente ligados ao manejo alimentar e utilização das plantas forrageiras.

Durante a visita para o diagnóstico, o criador foi o principal facilitador, sendo fundamental para os estudantes conhecerem mais detalhes da realidade social da família e manejos realizados na criação. A visita teve o seguinte roteiro: a) Diagnóstico social: história do criador e família, trabalho, renda e cultura; b) Diagnóstico produtivo: características do sítio, espécies de animais, quantidades etc.; e c) Diagnóstico alimentar e plantas nativas: características do manejo alimentar, capineiras, pastos e utilização de plantas forrageiras. 

No dia visita foi realizada a leitura e entrega ao criador de uma Carta de Apresentação contendo uma apresentação sobre a ação extensionista da disciplina de Forragicultura e Plantas Nativas.

 

Intervenção

 

Após o diagnóstico, foi construída uma proposta de intervenção a fim de propor sugestões e melhorias para o criador que possam ser aplicadas em sua propriedade para viabilizar a aumentar a quantidade e qualidade da forragem produzida, assim como informações voltadas à saúde e bem-estar dos seus animais. A proposta de intervenção escolhida pela equipe foi o desenvolvimento de um material de audiovisual com base na realidade encontrada durante o diagnóstico.

 

Resultados e discussão

 

O criador tem 54 anos e mora com sua esposa na área da criação, que fica no bairro do Renascer, município de Cabedelo, Paraíba, Brasil. O criador relatou que exerce a ocupação de agricultor e pecuarista há mais de 50 anos. Ele concluiu o ensino médio, se formando no curso de Magistério, trabalhando por alguns anos como professor da educação infantil. Atualmente, além da pecuária, o criador atua como porteiro de um residencial localizado na cidade vizinha, João Pessoa, Paraíba, Brasil.  O criador falou que considera o trabalho como porteiro sua principal atividade, e a pecuária sua atividade secundária.

Em relação aos aspectos sociais, Lima et al. (2023), em pesquisa sobre a caracterização de criadores urbanos de bovinos no município de João Pessoa-PB, identificaram que grande parte dos criadores tinham uma faixa etária entre 46 a 75 anos, a maioria também não era alfabetizada e tinham uma experiência de mais de 20 anos no segmento. Barbosa Junior et al. (2022) em pesquisa com criadores de ruminantes em assentamentos rurais em Pernambuco, verificaram uma faixa etária média de 52,3 anos e baixa escolaridade, com grande parte dos criadores possuindo ensino médio incompleto ou sem acesso a escola. Os dois estudos apresentam realidades semelhantes no quesito idade a condição do criador participante do presente relato, porém no quesito escolaridade os dois estudos são discordantes da realidade aqui apresentada, pois o criador do presente projeto apresentou ensino médio completo.  

O criador relatou ao grupo que a atividade da pecuária na área urbana é muito mais difícil por características da área, por não ter espaço para os animais viverem e se alimentar e pelo preconceito com a atividade. Relatou ainda que só permanece com a criação devido ao grande amor que tem pela atividade e pelos animais. Quem lhe ajuda no dia a dia com a criação animal é sua esposa. Ele e sua esposa acreditam que o custo supera a receita das vendas de leite, queijo e ovos, logo, ele não possui lucro efetivo com sua produção, mas permanece por gostar muito da lida com os animais.

O terreno da propriedade mede em torno de 3.000 m². A propriedade tem como segmento principal a bovinocultura de leite, com o rebanho composto por cinco vacas quatro bezerros e um macho reprodutor. A produção média de leite é de 40 litros por dia, sendo a ordenha realizada de forma manual. Na propriedade ainda tem três equinos para trabalho e lazer, além suínos e aves.

A cidade de João Pessoa, capital da Paraíba e cidades vizinhas cresceram e se desenvolveram com a presença dos bovinos, assim como as cidades do interior do estado. Duas características diferentes nesse processo: a primeira relacionada ao aspecto fundiário, nas cidades litorâneas as propriedades eram de pequenos e médios tamanhos, enquanto no sertão as propriedades eram de grandes proporções. E a outra questão era relacionada ao objetivo da criação, enquanto nas cidades litorâneas eram destinadas a produção leiteira, no sertão, a produção era de carne (MAIA, 2005).

A criação animal na cidade de João Pessoa-PB teve uma crescente na década de 1980 e 1990 com a migração de pequenos criadores do interior do estado para a capital. Esses criadores enfrentaram várias dificuldades para permanecer nas áreas, dentre elas: aumento do número de residências, diminuindo a área de pasto dos animais; construção de padarias e mercadinhos, dificultando a venda dos seus produtos; além disso, o constante aumento dos preços de ração e alimentos que suplementam a alimentação dos seus animais (MAIA, 2005).

A forte relação com os animais agrícolas também foi percebida no estudo de Barbosa Junior et al. (2020), no qual os autores analisam a relação de camponeses com a criação de bovinos, em assentamentos rurais no estado de Pernambuco. No estudo os principais motivos para os camponeses criarem os bovinos foram: renda, afeto, ciclagem de nutrientes, solidão, sobrevivência e permanência na terra. O criador que participou do projeto relatou que o que faz continuar com a criação de animais é o sentimento de “gostar”, “amar”, mas foi perceptível a importância do trabalho com os animais para enfrentar a solidão e para a sobrevivência do criador e de sua esposa durante a visita.

O problema enfrentado pela pecuária urbana com o avanço da urbanização foi descrito no estudo de Ruas et al. (2014), no qual realiza um estudo de caso de uma família que trabalha com a criação de animais agrícolas no município de Castanhal-PA. Os autores relatam a dificuldade que a família enfrenta na medida que o processo de urbanização avança na cidade. Na medida que cresce o número de casas, prédios e asfalto, aumenta o preconceito dos moradores em relação ao trabalho da família, como também a atuação autoritária do poder público com ordenação da retirada dos animais da área urbana e nenhum apoio para melhorias ou adequações da pecuária urbana.

Maia (2005) em estudo sobre a permanência da cultura rural no cenário da pecuária urbana de João Pessoa-PB, descreve uma situação na qual um criador precisou mudar de endereço devido a especulação imobiliária. Essas situações são semelhantes as vivenciadas pelo criador do presente relato de experiência, que já precisou mudar de um bairro para outro devido a crescente urbanização e aumento de conflitos com os moradores do endereço anterior.

O criador demostrou sua forma de realizar a escrituração zootécnica, que foi a partir de anotações em caderno sobre a produção de leite, montas controladas, nascimento de todos os animais, gastos com os suínos e produção de ovos pelas galinhas. O criador relatou que não tem acesso a programas de assistência técnica ou defesa agropecuária pelo poder público. O criador relatou que conseguiu adquirir a vacina de febre aftosa por conta própria.

O criador mostrou ao grupo uma área de implantação de capineiras com plantação de alguns cultivares do capim elefante (Pennisetum purpureum), sendo elas: Roxo, BRS Capiaçu, Mineirão e Gramafonte. Para complementar a alimentação dos animais, o criador compra abacaxi, mandioca e cana-de-açúcar. Também compra farelo de milho, farelo de soja, cevada, torta de algodão e núcleo proteico. A base da alimentação das aves e suínos da criação é proveniente de restos de comidas e de hortaliças, subproduto conhecido como “lavagem”, e milho em grãos, este último sendo comprado no mercado.

Com relação a assistência técnica, os resultados encontrados na literatura científica foram semelhantes ao do presente relato de experiência. Lima et al. (2023) verificaram que mais de 70% dos criadores urbanos de bovinos de João Pessoa-PB não recebiam nenhum tipo de assistência técnica. Resultado semelhante ao estudo de Barbosa Junior et al. (2022), no qual 65,9% dos criadores de ruminantes em assentamentos rurais de Pernambuco também não recebiam nenhum tipo de assistência técnica.

Maia (2005) verificou que as pecuárias urbanas em João Pessoa-PB estão localizadas principalmente em áreas intraurbanas, próximas a rios, e em áreas periurbanas, nas margens da cidade. A produção principal era da bovinocultura de leite, e de forma secundária existiam criações de equinos, suínos, aves, caprinos e ovinos. Realidade idêntica a observada na propriedade do criador urbano em Cabedelo-PB.

Lima et al. (2023) e Barbosa Junior et al. (2022) verificaram que a maioria dos criadores de seus estudos trabalhavam com o sistema de criação no modelo semi-extensivo, no qual o animal passa parte do dia solto em pastos e outra parte na cocheira, O manejo alimentar verificado no estudo de Barbosa Junior et al. (2022) tinha como base os capins braquiária (Brachiaria sp.), elefante (P. purpureum) e colonião (Panicum maximum) e utilização de casca de macaxeira, milho, farelo de milho, cana-de-açúcar, ração concentrada e farelo de biscoito.

Maia (2005) observou que em relação as plantas forrageiras existiam dois manejos principais: o primeiro era o manejo do pastoreio, no qual o criador levava seus animais para pastar em terrenos baldios ou pastagens em áreas no interior ou nas margens da cidade durante o dia; e o segundo que era baseado na apanha de capins em terrenos baldios ou em capineiras próprias, para serem cortados e fornecidas aos animais na cocheira durante a noite. Um manejo complementa o outro.

O acesso a pastos e capineiras em quantidades e qualidade é um dos principais desafios para a pecuária urbana, devido principalmente a aspectos de limites espaciais de áreas urbanizadas. Aquino e Monteiro (2005) apresentam como potencialidade para alimentação animal no contexto urbano a utilização de resíduos orgânicos provenientes de supermercados, feiras, restaurantes etc., constituídos principalmente por restos de alimentos domésticos, hortaliças, verduras e frutas.

O sistema de criação encontrado na literatura foi o semi-extensivo, diferente do implementado pelo criador urbano que era sistema de criação intensivo, no qual os animais passam todo o tempo na cocheira, principalmente por limitação do espaço na propriedade e falta de local para os animais pastarem. No manejo alimentar foi observado algumas espécies de gramíneas diferentes, braquiária e colonião, e a utilização do farelo de biscoito.

A proposta de intervenção foi produzir um material educativo, em formato de vídeo, focando na otimização das melhores plantas forrageiras específicas no contexto de sua criação, para que o proprietário possa fornecer mais nutrientes, sem elevar o custo da produção. A entrevista foi gravada no dia 22 de abril, contando com a participação de um profissional zootecnista e teve uma duração de aproximadamente 15 minutos.

Na entrevista foram abordados os tipos de plantas forrageiras mais indicados para a utilização do criador em seu contexto urbano e com pouco espaço. O profissional zootecnista destacou o cultivar BRS capiaçu, por ser uma planta mais volumosa e de maior produção do que as demais. Chamou a atenção para a adubação da capineira com o próprio adubo produzido na criação, com a finalidade de melhorar a produção do capim.

Durante a entrevista, o zootecnista, chamou a atenção para a implantação de algumas espécies de leguminosas, que são plantas forrageiras de alto valor proteico, que ajudariam dessa forma na qualidade da alimentação dos animais. As leguminosas sugeridas foram a gliricídia (Gliricidia maculata) e a moringa (Moringa oleífera). Podendo, inclusive, usá-las como cerca viva. Ele frisou, no entanto, que essas são plantas secundárias, nutritivas, mas não devem ser utilizadas como fonte primária de alimentação, e sim como suplementação.

Para os suínos, o zootecnista sugeriu que fosse realizado um balanço de preço, da venda dos animais e que eles fossem alimentados com ração comercial ou com farelos de milho e soja. Para que dessa foram os animais engordassem mais e mais rápido. A orientação em relação as aves foi uma alimentação baseada em milho, capim e leguminosas.

No dia 29 de abril de 2024 foi realizado a segunda visita ao criador, com o objetivo de apresentar de realizar a intervenção, com a apresentação do vídeo, entrega de sementes das plantas sugeridas no vídeo, Pennisetum purpureum cv. BRS capiaçu, gliricídia (Gliricidia maculata) e da moringa (Moringa oleífera).

A ação extensionista vivenciada concorda com os ensinamentos de Freire (1979) ao criticar o formato vertical da extensão rural tradicional. O diagnóstico local foi construído a partir de uma visita onde o criador urbano teve um papel de facilitador, apresentando sua história, sua cultura e suas experiências, e a partir dessa realidade apresentada e das demandas originadas é que foi construído o roteiro da entrevista. O diálogo construído com o profissional zootecnista e os estudantes foram baseadas no contexto histórico e social do criador e nas demandas de sua criação.

 

Considerações finais

 

Diante do exposto, foi observado, que devido ao crescimento acelerado da população, as cidades acabam absorvendo lugares que outrora eram considerados como zona rural e, assim, muitas propriedades rurais passaram a estar localizadas agora em zonas urbanas. Essas mudanças trazem prejuízos para o proprietário, diminuindo á área para a criação, para o pastoreio, cultivo das plantas forrageiras, o clima e o ambiente mudam ocasionando aumento do número de pragas e desfavorecendo o crescimento das plantações. Ademais, como observado em campo, a localidade não possui área de pastagem, sendo criados em confinamento intensivo, ou seja, confinados sempre, sem haver períodos do dia em que realizam a pastagem.

Portanto, observa-se que o criador urbano que participou da experiência não dispõe de recursos financeiros suficientes e muito menos de ajuda financeira e estratégias do poder público que o ajude em melhorias em sua propriedade. Testemunhamos as dificuldades, bem como, tristeza por tal situação. É necessário intervenções urgentes que objetive a melhoria de vida de criadores e criação em zonas urbanas, porém sem custo para o proprietário, e que sejam possíveis de serem realizadas.

 

Conflitos de interesse

 

Não houve conflito de interesses dos autores.

 

Contribuição dos autores

 

Juliana Karla Quirino Ramalho, Anuska Alves Coutinho Lins, Beatriz Cantalice de Melo, Jacyara de Souza Fernandes, Janine Miranda de Oliveira Tillmann, Luís Fábio Barbosa Botelho e Sara Morais Pordeus – articulação com o criador, visita para o diagnóstico local, produção da intervenção e escrita; Henrique Melo de Oliveira – auxílio no diagnóstico local, produção na intervenção e escrita; Maiza Araújo Cordão e Sebastião André Barbosa Junior – orientação para o diagnóstico local e intervenção, correções e escrita final.

 

Referências bibliográficas

 

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Recebido em 21 de novembro de 2024

Retornado para ajustes em 12 de março de 2025

Recebido com ajustes em 12 de março de 2025

Aceito em 17 de março de 2025

Anestesia em cesarianas caninas e felinas – desafios e perspectivas

Revista Agrária Acadêmica

agrariacad.com

doi: 10.32406/v8n2/2025/1-14/agrariacad

 

Anestesia em cesarianas caninas e felinas – desafios e perspectivas. Anesthesia in canine and feline cesarean sections – challenges and perspectives.

 

Otávio Henrique de Melo Schiefler1

 

1- Doutorando em Clínica Médica e Cirúrgica no Programa de Pós-Graduação em Medicina Veterinária (PPGMV) – Universidade Federal de Santa Maria – UFSM, Campus Santa Maria – RS. E-mail: vetotavio@gmail.com

 

Resumo

 

Cadelas e gatas gestantes apresentam alterações fisiológicas e metabólicas significativas que impactam a anestesia desses animais. A seleção e administração dos fármacos anestésicos requerem cautela, pois muitos ultrapassam a barreira placentária e podem causar depressão fetal. Durante a cesariana, seja eletiva ou distócica, os objetivos anestésicos são manter a estabilidade hemodinâmica, proporcionar analgesia de qualidade e garantir a viabilidade dos filhotes. Esta revisão aborda os principais cuidados no manejo anestésico e propõe o melhor protocolo anestésico para cesarianas em cadelas e gatas. Utilizando uma abordagem qualitativa, foram coletadas informações da literatura nacional e internacional dos últimos 20 anos, através de uma busca sistemática com descritores específicos. Os artigos selecionados fornecem embasamento para compreender os objetivos, riscos e particularidades da anestesia em cesarianas, fortalecendo a discussão dos cuidados e escolhas de protocolos dentro do contexto da anestesia obtétrica em cadelas e gatas.

Palavras-chave: Distocia. Anestesia multimodal. Barreira placentária. Parturiente. Depressão fetal.

 

 

Abstract

 

Pragnant bitches and queens exhibit significant physiological and metabolic alterations that impact the anesthesia of these animals. The selection and administration of anesthetic drugs must be carried out with caution, as many of these drugs cross the placental barrier and can cause fetal depression. During cesarean section, whether elective or dystocic, the primary anesthetic goals include maintaining hemodynamic stability, providing quality analgesia, and ensuring the viability of the offspring. This review addresses the main considerations in anesthetic management and proposes the best anesthetic protocol for cesarean sections in bitches and queens. Utilizing a qualitative approach, information was collected from national and international literature over the past 20 years through a systematic search using specific descriptors. The selected articles provide a foundation for understanding the objectives, risks, and particularities of anesthesia in cesarean sections, strengthening the discussion on care and protocol choices within the context of obstetric anesthesia in bitches and queens.

Keywords: Dystocia. Multimodal anesthesia. Placental barrier. Parturient. Fetal depression.

 

 

Introdução

 

Os procedimentos anestésicos associados à cesariana em caninos e felinos são uma ocorrência comum, podendo ser categorizados como urgentes ou emergenciais, quando há risco iminente à vida materna e sofrimento fetal, ou eletivos, também conhecidos como cesarianas programadas, que são planejadas e realizadas próximo ao início do trabalho de parto (PASCOE, MOON, 2001; CAIN, DAVIDSON, 2023).

Apesar da alta incidência em clínicas e hospitais veterinários, a literatura científica relacionada à anestesia em cadelas e gatas durante o trabalho de parto ainda é limitada, com estudos geralmente conduzidos de maneira retrospectiva (LUCIO et al., 2009; SCHIMIDT et al., 2021).

A administração de anestesia em animais sob estas condições apresenta desafios significativos devido às alterações fisiológicas e metabólicas induzidas pela gestação, que aumentam consideravelmente os riscos anestésicos (FOSSUM, 2023). Adicionalmente, a maioria dos agentes anestésicos utilizados rotineiramente atravessam facilmente a barreira placentária e podem causar algum grau de depressão fetal (CARREIRÃO, 2022). Portanto, a qualidade da anestesia tem um impacto direto no resultado da cesariana (CAIN, DAVIDSON, 2023).

O manejo perianestésico adequado da parturiente é uma etapa de extrema importãncia para garantir maior segurança, estabilidade cardiorrespiratória e analgesia suficiente para minimizar ou suprimir os estímulos nociceptivos da manipulação cirúrgica, além de garantir o mínimo de depressão fetal (CARREIRÃO, 2022). A estabilização pré-anestésica deve se realizada sempre que possível, especialmente nos casos de distocia, e a escolha do protocolo anestésico deve ser feita com cautela, levando em consideração a parturiente e os fetos (GRUBB, 2012).

Portanto, esta revisão tem como objetivo discutir os cuidados no manejo e estabelecer a escolha do protocolo anestésico mais adequado para cadelas e gatas submetidas a cesarianas eletivas e distócicas.

 

Desenvolvimento

 

Utilizando uma abordagem metodológica qualitativa, foram coletadas informações pertinentes ao manejo anestésico na obstetrícia de cadelas e gatas a partir de fontes de literatura nacional e internacional dos últimos 20 anos. A seleção dos artigos foi realizada através de uma busca sistemática em bases de dados reconhecidas, incluindo PubMed, Elsevier, Wiley Online Library, ScienceDirect e SciELO. Os descritores utilizados para a busca foram: “Canine and Feline Parturient Anesthesia”, “Dystocia in Dogs and Cats”, “Anesthetic Complications in Dystocia of Dogs and Cats”, “Perianesthetic Fetal Depression in Dogs and Cats”.

Os artigos científicos selecionados foram incorporados com o intuito de fornecer suporte aos principais tópicos relacionados ao tema em questão. Estes tópicos incluem: os objetivos da anestesia em cesarianas, os riscos anestésicos e as particularidades fisiológicas das parturientes, os riscos anestésicos para os filhotes e o embasamento para a escolha do protocolo anestésico. A inclusão desses artigos visa fortalecer a compreensão e a discussão desses tópicos dentro do contexto da anestesia obstétrica em cadelas e gatas.

 

Objetivos da anestesia em cesarianas

 

Durante a realização de um procedimento cesariano, a técnica anestésica implementada e a seleção de agentes anestésicos devem ser direcionadas para proporcionar condições ótimas para a parturiente e os fetos (RUIZ et al., 2016). No entanto, é importante notar que a maioria dos anestésicos gerais têm a capacidade de atravessar a barreira placentária e a barreira hematoencefálica fetal, o que pode resultar em complicações neurológicas, cardiorrespiratórias e depressão fetal, potencialmente levando a uma baixa taxa de sobrevivência (DOEBELI et al., 2013; CAIN, DAVIDSON, 2023).

A determinação da técnica e do protocolo anestésico mais apropriados é dependente de uma variedade de fatores fisiológicos, metabólicos e hemodinâmicos presentes na parturiente, particularmente em casos de distocia, bem como a viabilidade fetal no momento da avaliação (CARREIRÃO, 2022). Em geral, a preferência é dada à utilização de baixas doses de anestésicos gerais (tanto injetáveis quanto inalatórios) para a manutenção da anestesia até a remoção dos filhotes, e evita-se o uso de medicamentos como a cetamina e os benzodiazepínicos, que estão associados a uma maior depressão fetal (TRAAS, 2008; LOPATE, 2018; VILAR et al., 2018).

É uma ocorrência frequente que felinas e, em particular, caninas sejam admitidas em serviços de atendimento veterinário apresentando sinais de sofrimento fetal devido a um parto prolongado (AARNES, MURDOCK, 2021). Nesse contexto, a parturiente pode manifestar complicações que incluem exaustão extrema, desidratação resultando em hipovolemia, desequilíbrio hidroeletrolítico, hipoglicemia, dor e mortalidade fetal ou toxemia, sendo, portanto, classificada como um paciente anestésico de alto risco (MOON et al., 2000; SCHMIDT et al., 2021; FOSSUM, 2023).

O objetivo primordial na administração de anestesia para cesariana é assegurar a segurança e o conforto da mãe, com estabilização pré-operatória quando necessário, além de proporcionar relaxamento muscular adequado, analgesia eficaz, redução da ansiedade e recuperação anestésica rápida da fêmea para promover o comportamento materno (DE CRAMER et al., 2016). Adicionalmente, minimizar os riscos de complicações hemodinâmicas e priorizar medicamentos que causem o mínimo de depressão nos fetos são fatores determinantes para o sucesso do procedimento (CAIN, DAVIDSON, 2023).

 

Riscos anestésicos e particularidades na fisiologia das parturientes

 

As modificações anatômicas e fisiológicas que ocorrem na parturiente ao final da gestação têm um impacto direto na sua interação com a anestesia e o procedimento cirúrgico de cesariana. Mesmo quando a cesariana é eletiva, essas alterações tornam a parturiente propensa a complicações cardiovasculares e respiratórias (DOEBELI et al., 2013).

Estudos indicam que entre 60 e 80% das cesarianas realizadas em caninas e felinas são decorrentes de distocia (SMITH, 2012; VILAR et al., 2018). Adicionalmente, foi observado que animais que necessitam de cesariana apresentam uma maior incidência de complicações anestésicas e mortalidade neonatal (TRAAS, 2008; CORNELIUS et al., 2019). O risco de mortalidade anestésica durante cesarianas em caninas e felinas é de 1,2%, um valor significativamente superior ao risco anestésico geral para essas espécies, que é de 0,05% e 0,11%, respectivamente (MATTHEWS et al., 2017; PROCTOR-BROWN et al., 2019; SCHMIDT et al., 2021).

O período gestacional induz significativas adaptações fisiológicas e anatômicas na fêmea, as quais estão associadas ao incremento da demanda metabólica decorrente do aumento do volume abdominal, resultante do crescimento fetal e uterino (AARNES, MURDOCK., 2021). Os sistemas orgânicos primordiais adaptam-se a essa condição, com destaque para os sistemas cardiovascular e respiratório, os quais impactam diretamente na hemodinâmica materna com o intuito de assegurar uma maior vascularização na região uterina e otimizar sua perfusão, permitindo assim o desenvolvimento fetal adequado (BERGSTRÖM et al., 2006; ALMEIDA et al., 2017).

A circulação uteroplacentária desempenha um papel crucial na homeostase fetal e na sobrevivência neonatal (RYAN, WAGNER, 2006; ALMEIDA et al., 2017). Qualquer alteração cardiovascular que resulte em uma diminuição do débito cardíaco e, consequentemente, em uma menor oferta de oxigênio, terá um impacto negativo imediato no feto, uma vez que o fluxo sanguíneo fetal é incapaz de se autorregular (DE CRAMER et al., 2016).

O aumento do tônus uterino, causado pela liberação sistêmica de catecolaminas devido à atividade simpática durante situações de medo, ansiedade, dor e manipulação inadequada no pré-operatório, deve ser evitado, sempre que possível, pois alterações significativas na circulação uteroplacentária podem resultar em efeitos adversos ao feto (ROBERTSON, 2016).

As fêmeas gestantes apresentam menor capacidade de controlar a pressão arterial e responder autonomicamente a uma hipotensão arterial, mesmo que leve, através da vasoconstrição periférica (ROBERTSON, 2016). Isso ocorre devido ao aumento da complacência vascular e diminuição da resistência vascular causado pela gestação, juntamente com a baixa atividade da vasopressina, impedindo a atividade barorreceptora e impossibilitando a contração da vasculatura periférica (TAN, TAN, 2013; ALMEIDA et al., 2017).

A vasodilatação induzida por agentes anestésicos, juntamente com estados de desidratação e perdas volêmicas no transoperatório, pode predispor a uma hipotensão arterial materna durante a cesariana (FOSSUM, 2023). Esta hipotensão pode resultar em uma diminuição do fluxo sanguíneo uterino, potencialmente contribuindo para uma redução da viabilidade fetal (SILVA et al., 2021).

O posicionamento de cadelas e gatas gestantes em decúbito dorsal para o procedimento cirúrgico requer uma atenção especial, devido às significativas alterações cardiovasculares e respiratórias que podem ocorrer (ROBERTSON, 2016). A compressão intra-abdominal da veia cava caudal e da artéria aorta pode resultar em uma redução do retorno venoso (pré-carga), levando a uma queda significativa do débito cardíaco e do fluxo sanguíneo para o útero e fetos (TAN, TAN, 2013). Portanto, recomenda-se minimizar o tempo em que a parturiente permanece em decúbito dorsal antes do início do procedimento cirúrgico (ROBERTSON, 2016).

O desenvolvimento uterino ao longo da gestação pode causar compressão mecânica de várias estruturas abdominais, em particular, o músculo diafragmático (SILVA et al., 2021). O posicionamento em decúbito dorsal pode deslocar as vísceras abdominais em direção cranial e agravar a compressão diafragmática, reduzindo a complacência pulmonar e sua capacidade residual funcional de maneira significativa (ALMEIDA et al., 2017). Como resultado, esses animais têm uma alta predisposição ao desenvolvimento de atelectasia, hipoxemia e hipercapnia durante o procedimento (ROBERTSON, 2016).

A utilização de ventilação positiva controlada mecanicamente é fortemente recomendada para um controle adequado dos níveis de dióxido de carbono (EtCO2) e saturação de oxigênio (SpO2), além de prevenir a fadiga muscular (SILVA et al., 2021). A elevação da cabeça em relação ao restante do corpo pode minimizar a compressão diafragmática e melhorar a ventilação (ROBERTSON, 2016). A pré-oxigenação com máscara facial (100 ml/kg/min) por 3 a 5 minutos pode proporcionar induções anestésicas mais seguras e com menores chances de dessaturação (McNALLY et al., 2009).

A compressão mecânica das vísceras abdominais e os efeitos hormonais induzidos pela gestação podem predispor a refluxos gastroesofágicos, vômitos ou regurgitações, representando um risco potencial de aspiração no momento da indução anestésica e no pós-operatório imediato. A pneumonia aspirativa é bem documentada em mulheres submetidas à cesariana, portanto, a administração de antieméticos e antiácidos é recomendada, além da intubação orotraqueal obrigatória para proteção das vias aéreas (ROBERTON, 2016).

 

Riscos anestésicos para os filhotes

 

A mortalidade neonatal em cadelas e gatas é um fenômeno comum, com taxas superiores a 10% mesmo em partos naturais (VERONESI, 2016). Essa taxa pode aumentar para 20-40% nas primeiras quatro semanas de vida, considerando tanto a natimortalidade quanto a mortalidade neonatal (FOURNIER et al., 2017; MUGNIER et al., 2020; VERONESI, FUSI, 2023).

Em partos realizados por cesariana, com a devida atenção aos cuidados anestésicos e cirúrgicos, a taxa de mortalidade é menor, cerca de 8% imediatamente após a cesariana, 13% duas horas após o nascimento e 20% após uma semana (MOON et al., 2000; SCHMIDT et al., 2021). No entanto, a sobrevida neonatal em cesarianas de emergência é cerca de um terço daquela observada em cesarianas eletivas (MOON et al., 2000; GRUNDY, 2006), com cães e gatos apresentando três vezes mais chances de mortalidade neonatal em comparação com cesarianas eletivas (PROCTOR-BROWN et al., 2019).

A sobrevivência de cães e gatos recém-nascidos depende de vários fatores além das características do parto, incluindo genética, estado de saúde materna, condições ambientais, desenvolvimento fetal, viabilidade ao nascer, maturação dos sistemas vitais, cuidados maternos após o nascimento e a rapidez do processo de adaptação neonatal à vida extrauterina (VERONESI, FUSI, 2023).

No entanto, alguns fatores anestésicos estão associados a uma maior mortalidade e devem ser considerados, incluindo a escolha dos fármacos anestésicos, o tempo de preparação da parturiente para o procedimento cirúrgico, o tempo entre a indução anestésica e a retirada dos filhotes e o tempo entre o início do procedimento e a extubação (RUIZ et al., 2016).

De acordo com Schmidt et al. (2021), quando o tempo entre a indução anestésica e o início do procedimento cirúrgico é de até 15 minutos, a sobrevivência neonatal é favorecida, enquanto períodos superiores a 30 minutos se mostram menos favoráveis. No estudo de Proctor-Brown et al. (2019), observou-se que o tempo entre a indução anestésica e a extubação de menos de 45 minutos está associado a maiores chances de todos os filhotes nascerem vivos e de menos de 35 minutos para todos os filhotes permanecerem vivos até o sétimo dia.

Por outro lado, um período menor que 10 minutos entre a indução e a retirada dos filhotes não resultou em melhora na sobrevida neonatal (MOON et al., 2000). Procedimentos cirúrgicos superiores a 80 minutos resultaram em um aumento de 3 vezes no risco de mortalidade neonatal, enquanto anestesias superiores a duas horas resultaram em um risco 6,7 vezes maior (PROCTOR-BROWN et al., 2019; SCHMIDT et al., 2021).

Em distocias de emergência, tempos anestésicos superiores a 50 minutos e tempos cirúrgicos superiores a 15 minutos estão associados a uma maior mortalidade anestésica (DOEBELI et al., 2013; RUIZ et al., 2016).

Com relação ao uso de anestésicos, observou-se uma maior mortalidade dos filhotes com a utilização de cetamina em doses altas associada a xilazina (LUNA et al., 2004; DE CRAMER et al., 2016). Uma maior depressão respiratória e menor viabilidade também foram observadas com a associação de cetamina e midazolam ou diazepam (SMITH, 2012; DOEBELI et al., 2013).

Segundo Schmidt et al. (2021), protocolos utilizando propofol e isoflurano com um tempo de espera de 20 minutos entre a indução e a remoção dos filhotes resultaram em maior vitalidade e menor mortalidade em comparação com protocolos dissociativos.

De acordo com Veronesi (2016), o índice de APGAR score é um método simples e prático de avaliação da viabilidade do filhote após o nascimento. Aqueles que obtêm uma pontuação entre 7 e 10 apresentam viabilidade normal. No entanto, pontuações entre 4 e 6 indicam neonatos que necessitam de cuidados especiais, enquanto pontuações entre 0 e 3 são considerados críticos e necessitam de cuidados emergenciais e intensivos após o nascimento.

As melhores taxas de sobrevivência de filhotes recém-nascidos até o sétimo dia são observadas naqueles que se movimentam espontaneamente imediatamente após o nascimento (AARNES, MURDOCK, 2021). Todos os filhotes que vocalizam ao nascer apresentam respiração espontânea e estão associados a maiores chances de sobrevivência (GRUDY et al., 2006). No entanto, tempos superiores a 2 minutos para respiração espontânea estão associados a uma maior mortalidade após o nascimento (BATISTA et al., 2014; VERONESI, 2016).

Após o nascimento, as principais condições que dificultam a sobrevivência são asfixia, acidose, desequilíbrio glicêmico e hipotermia. No período neonatal, a hipoglicemia, hipotermia, desidratação e a suscetibilidade a infecções por falha na transferência imune passiva são os principais responsáveis pela mortalidade e compõem a tríade do neonato (VERONESI, FUSI, 2023).

 

Protocolos anestésicos

 

A seleção de fármacos para o protocolo anestésico em cadelas e gatas submetidas à cesariana é fundamentada na mitigação da ansiedade e desconforto materno, com o objetivo de facilitar a indução anestésica, diminuir a necessidade de anestésicos gerais, minimizar a probabilidade de complicações anestésicas e assegurar uma recuperação materna rápida e suave (CAIN, DAVIDSON, 2023).

No entanto, nem todos os fármacos anestésicos garantem a segurança fetal, pois podem causar depressão respiratória, cardiovascular e neurológica significativa após o nascimento. Portanto, alguns são contraindicados e outros são recomendados para uso com cautela em doses baixas (AARNES, MURDOCK, 2021).

Em geral, os fármacos anestésicos possuem alta lipossolubilidade, permitindo que atravessem facilmente a barreira placentária e atinjam a circulação fetal (PASCOE, MOON, 2001). No entanto, durante a fase fetal e neonatal, a capacidade de metabolização de drogas é extremamente ineficiente (THIGPEN et al., 2019), resultando em altas concentrações plasmáticas dos anestésicos no filhote após o nascimento. Isso torna o filhote incapaz de depurar e eliminar esses anestésicos, resultando em sedação profunda, depressão cardiorrespiratória significativa e maior mortalidade (VERONESI, 2016; ROBERTSON, 2016).

A escolha do protocolo anestésico mais adequado deve ser criteriosa, levando em consideração o estado de saúde materno, a viabilidade e o sofrimento fetal. Deve-se priorizar anestésicos com rápida metabolização, rápida eliminação e que possam ser revertidos (ROBERTSON, 2016; AARNES, MURDOCK, 2021). Para cesarianas, recomenda-se sedação mínima, indução com anestésicos de rápida eliminação, seguida de manutenção com baixas taxas de anestésicos inalatórios ou infusões, e analgesia transanestésica por meio de infusões e bloqueios locorregionais, quando possível (PASCOE, MOON, 2001; RYAN, WAGNER, 2006).

 

Medicação pré-anestésica

 

Vários protocolos anestésicos destinados à cesariana em cadelas e gatas sugerem a evitação de qualquer sedativo ou analgésico antes da remoção de todos os filhotes (CAIN, DAVIDSON, 2023). Contudo, está bem estabelecido que a administração de fármacos sedativos ou analgésicos pré-anestésicos pode aliviar o estresse materno e reduzir a necessidade de anestésicos gerais, tanto na indução quanto na manutenção do estado de hipnose (VILAR et al., 2018).

Nesses casos, é possível otimizar a recuperação da mãe e melhorar a recuperação do recém-nascido (ROBERTSON, 2016). No entanto, em cadelas e gatas debilitadas e em distocia, a medicação pré-anestésica com fármacos sedativos pode ser contraindicada, priorizando sua utilização apenas naqueles casos de extrema ansiedade ou agressividade (CAIN, DAVIDSON, 2023).

O uso de opioides pré-anestésicos em cesarianas é frequentemente evitado por muitos anestesiologistas veterinários devido à depressão respiratória neonatal. No entanto, vários estudos demonstraram que é possível utilizar esses fármacos de maneira segura, com mínima ou nenhuma depressão fetal após o nascimento, sendo fármacos importantes para a analgesia perioperatória materna, redução dos efeitos hipotensores e requerimento anestésico de agentes inalatórios (RYAN, WAGNER, 2006; SCHMIDT et al., 2021).

De acordo com o estudo de Romagnoli et al. (2019), o uso de metadona na dose de 0,3 mg/kg por via intramuscular e 0,1 mg/kg por via epidural resultou em pouca depressão respiratória, mantendo pontuações de APGAR score altas após o nascimento, sendo factível sua utilização em procedimentos de cesariana. O estudo de Plavec et al. (2022) demonstrou que a metadona na dose de 0,2 mg/kg é uma opção viável, com pouca depressão materna e neonatal. Olivia et al. (2018) e Vilar et al. (2018) descrevem que a utilização da morfina na dose entre 0,1 e 0,3 mg/kg por via intravenosa para cesarianas de cadelas e gatas devido à sua baixa solubilidade lipídica e maior dificuldade em ultrapassar a barreira placentária.

O fentanil, no entanto, por ser altamente lipossolúvel, possui alta transferência placentária e normalmente recomenda-se evitar sua utilização até que todos os filhotes tenham sido removidos (SCHMIDT et al., 2021). A buprenorfina e o butorfanol, por serem agonista parcial e agonista-antagonista, respectivamente, apresentam transferência placentária relativamente baixa, sendo opção principalmente em felinos (CAIN, DAVIDSON, 2023).

O remifentanil, por sua vez, demonstra-se uma excelente opção para analgesia transoperatória materna devido à sua rápida metabolização por esterases sanguíneas, ausência de efeito cumulativo e independência do sistema hepático, afetando minimamente o vigor neonatal (HILL, 2008; SCHMIDT et al., 2021). O sufentanil, por outro lado, apresenta alta ligação à alfa-1 glicoproteína ácida que nos neonatos sua concentração é baixa e, portanto, pode ter sua eliminação prolongada com maior fração livre na circulação, sendo associado a maior depressão fetal após o nascimento (THIGPEN et al., 2019).

É importante ressaltar que todos os opioides podem causar depressão respiratória tanto para a parturiente quanto para os filhotes. Por isso, a monitoração desses parâmetros deve ser constante e não pode ser negligenciada (CAIN, DAVIDSON, 2023). Quando identificada lentidão ou ausência de respiração espontânea nos recém-nascidos, a naloxona pode ser administrada como agente de reversão na dose de 0,002 a 0,02 mg/kg por via intramuscular ou subcutânea, com a opção de administração de uma gota (aproximadamente 0,1 mL) de solução sublingual de 1 mg/mL (WAHLER et al., 2019; SCHMIDT et al., 2021).

O uso de acepromazina (fenotiazínicos) e diazepam ou midazolam (benzodiazepínicos) não é recomendado para cesariana por provocarem sedação prolongada nos filhotes recém-nascidos e, consequentemente, menor vitalidade e ausência de movimentos respiratórios (PASCOE, MOON, 2021; CAIN, DAVIDSON, 2023).

Evidências encontradas no estudo de Groppetti et al. (2019) demonstram que o uso da dexmedetomidina, na dose de 2 µg/kg por via intravenosa, é seguro, analgésico e efetivo para cesariana eletiva de cães, proporcionando bem-estar materno pré e pós-operatório. Além disso, houve redução considerável da dose de propofol utilizada para indução, sem efeitos adversos na recuperação do recém-nascido, demonstrando que a barreira placentária impediu a transmissão efetiva de dexmedetomidina.

Apesar da dexmedetomidina apresentar segurança pela lenta passagem pela barreira placentária com efeitos mínimos nos fetos, sua administração por via intravenosa deve ser lenta e em doses baixas para não promover redução importante da perfusão uterina e, consequentemente, sofrimento fetal por hipoxemia (DE CRAMER et al., 2016). A xilazina está associada a maior mortalidade neonatal e, por isso, é contraindicada em cesarianas (DE CRAMER et al., 2016).

A reversão da dexmedetomidina pode ser considerada com atipamezole 20 a 50 µg/filhote subcutâneo ou sublingual, embora Groppetti et al. (2019) tenham relatado que isso não seja necessário. A reversão materna, se necessário para recuperação, pode ser obtida com atipamezole na dose de 10 a 20 µg/kg subcutâneo ou intramuscular, porém, o efeito analgésico também será removido (CAIN, DAVIDSON, 2013).

 

Indução anestésica

 

A indução anestésica em cadelas e gatas gestantes deve ser realizada com cautela, uma vez que todos os anestésicos gerais atravessam a barreira placentária e atingem o feto. Portanto, é recomendado priorizar doses baixas e associá-las a co-indutores quando possível (PASCOE, MOON, 2001). A escolha do indutor mais adequado baseia-se em fármacos com rápida distribuição e redistribuição da concentração plasmática, permitindo que, ao atingirem a circulação fetal, retornem rapidamente para a circulação materna para metabolização e eliminação (SCHMIDT et al., 2021).

O propofol é o principal agente indutor e é amplamente recomendado para cesarianas, pois permite uma indução rápida e uma intubação orotraqueal fácil. A dose recomendada é de 2 a 6 mg/kg, administrada por via intravenosa de forma titulada até obter o efeito desejado. Além disso, o propofol proporciona uma recuperação suave e um rápido retorno à consciência (AARNES, MURDOCK, 2021). O propofol também possui uma meia-vida curta, com sua concentração plasmática sendo rapidamente redistribuída da circulação materna para outros tecidos e metabolizada tanto hepática quanto extra-hepaticamente (CAIN, DAVIDSON, 2023).

Ademais, devido a essas características farmacocinéticas e farmacodinâmicas, o propofol é rapidamente eliminado da circulação fetal por redistribuição e não causa efeito cumulativo com doses repetidas (AARNES, MURDOCK, 2021). Para garantir que pouco propofol residual ainda esteja na circulação fetal e ocorra uma redistribuição adequada, recomenda-se que, após a indução anestésica materna, haja um intervalo de 15 a 20 minutos antes da remoção do feto (RYAN, WAGNER, 2006; SCHMIDT et al., 2021). Os escores de APGAR dos filhotes melhoraram 30 minutos após a indução com propofol associado à dexmedetomidina (GROPPETTI et al., 2019).

O uso de cetamina e barbitúricos para indução anestésica em cesarianas é contraindicado devido à associação com maior depressão neurológica neonatal (LUNA et al., 2004). A indução com agentes inalatórios através de máscaras ou caixas também não é recomendada, principalmente em felinos, devido ao estresse e à liberação de catecolaminas, altas concentrações plasmáticas do anestésico resultando em depressão cardiovascular e hipotensão que podem prejudicar severamente o fluxo sanguíneo uterino e a viabilidade dos filhotes, especialmente aqueles em sofrimento fetal (RYAN, WAGNER, 2006; CAIN, DAVIDSON, 2023).

 

Manutenção anestésica

 

A anestesia inalatória, utilizando isoflurano ou sevoflurano, é recomendada para a manutenção anestésica em cadelas e gatas gestantes, devido à sua rápida eliminação pulmonar, mínima metabolização hepática e ausência de efeitos cumulativos (VILAR et al., 2018). Concentrações baixas de anestésicos inalatórios são preferíveis, pois tendem a preservar o fluxo sanguíneo uterino e não comprometer a viabilidade fetal (MOON et al., 2000). Em geral, cadelas e gatas gestantes requerem uma concentração alveolar mínima (CAM) menor do que os animais não gestantes, com uma redução de até 40% devido à gravidez (SCHMIDT et al., 2021; CAIN, DAVIDSON, 2023).

No entanto, altas taxas de anestésicos inalatórios devem ser evitadas, especialmente em vaporizadores universais, pois níveis acima de duas vezes a CAM estão associados à redução da perfusão uterina e hipotensão arterial materna, podendo resultar em mortalidade fetal (AARNES, MURDOCK, 2021). O grau de depressão do recém-nascido está diretamente correlacionado com a profundidade anestésica materna (CAIN, DAVIDSON, 2023).

Em procedimentos de cesariana curtos, de até 30 minutos, a infusão contínua de propofol para manutenção anestésica tem se mostrado eficaz, onde não são encontradas concentrações clinicamente relevantes de propofol no sangue dos filhotes, não havendo diminuição ou prejuízo de vitalidade. No entanto, infusões acima de 30 minutos entre a indução e a retirada dos filhotes foram relacionadas a uma menor vitalidade dos fetos no nascimento (SUAREZ et al., 2012; RUIZ et al., 2016; VILAR et al., 2018).

 

Analgesia transoperatória

 

A analgesia transoperatória pode ser administrada por via intravenosa ou por bloqueio peridural (LUNA et al., 2004). A analgesia intravenosa sistêmica geralmente se baseia na infusão contínua de remifentanil até a retirada dos filhotes, podendo ser complementada posteriormente com lidocaína, dexmedetomidina e cetamina (VILAR et al., 2018). A taxa de infusão recomendada varia de 10 a 20 µg/kg/h, sem a necessidade de um bolus inicial (SCHMIDT et al., 2021).

A analgesia regional peridural lombo-sacra em cadelas e sacrococcígea em gatas é uma opção viável, contudo, sua implementação não deve atrasar o início do procedimento cirúrgico (ROBERTSON, 2016). O volume de administração deve ser calculado preferencialmente com base no comprimento da coluna, com um volume de 0,1 ml/cm (levando em consideração o comprimento da coluna entre o occipital e a primeira vértebra coccígea) ou para o peso ideal do paciente com volumes de 0,2 e 0,3 ml/kg (MARTIN-FLORES et al., 2019). Lidocaína e bupivacaína são os anestésicos locais mais utilizados (VILAR et al., 2018).

Outros bloqueios analgésicos, como o TAP block ou o quadrado lombar, guiados por ultrassonografia, devem ser reservados para o período pós-operatório imediato e destinados ao conforto pós-operatório. A distensão abdominal pode comprometer a segurança de sua execução e não contribui para a analgesia da parede uterina (PLAVEC et al., 2022).

 

Outras preocupações perianestésicas

 

A administração de suporte hídrico intraoperatório é imperativa, especialmente em fêmeas debilitadas em distocia. A solução de ringer com lactato é comumente recomendada, com uma taxa de infusão de 3 a 10 ml/kg/h em cadelas e 2 a 6 ml/kg/h em gatas (CAIN, DAVIDSON, 2023).

Episódios de hipotensão arterial durante o procedimento não são raros e devem ser prontamente identificados e corrigidos quando a pressão arterial média (PAM) for inferior a 65 mmHg. A terapia vasopressora com efedrina (0,05 a 0,2 mg/kg intravenoso) em bolus ou infusão contínua de norepinefrina (0,1 a 1 µg/kg/min), associada à reposição volêmica, deve ser empregada para a correção da hipotensão sem comprometer o fluxo sanguíneo uterino (ROBERTSON, 2016).

A prevenção de refluxo, regurgitação e aspiração, particularmente em raças braquicefálicas, pode ser alcançada através da administração de maropitant 30 a 60 minutos antes da cesariana, na dose de 1 mg/kg por via subcutânea (BOSCAN et al., 2011). O maropitant também oferece benefícios adicionais, como a redução da CAM de anestésicos inalatórios e o fornecimento de analgesia visceral (NIYOM et al., 2013). A ondansetrona é uma alternativa viável, especialmente em distocias de emergência, devido ao seu curto período de latência, em torno de 5 a 15 minutos, na dose de 0,5 a 1 mg/kg por via intravenosa ou intramuscular (ROBERTSON, 2016).

 

Controle da dor pós-operatória materna

 

A administração de anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) pode ser iniciada por via parenteral após o parto e, subsequentemente, mantida para o controle da dor domiciliar por um período de 24 a 48 horas. Recentemente, o grapiprant tem demonstrado eficácia no controle da dor pós-operatória, sendo considerado uma alternativa viável (CAIN, DAVIDSON, 2023). No entanto, são necessários mais estudos para validar sua segurança após cesarianas em cadelas e gatas.

O uso de tramadol como agente único para o controle da dor pós-operatória não é recomendado em cães, devido à baixa produção do metabólito 1 e à sua rápida metabolização. Como alternativa em cães, sugere-se a associação do tramadol com a dipirona na dosagem de 25 mg/kg. Para felinos, recomenda-se a administração de doses baixas de tramadol, entre 0,5 e 1 mg/kg (CAIN, DAVIDSON, 2023).

 

Considerações finais

 

A administração de anestesia em cadelas e gatas gestantes exige uma atenção especial por parte do anestesiologista veterinário, com o objetivo de minimizar o impacto hemodinâmico e os riscos associados à anestesia tanto para a mãe quanto para os filhotes. A prioridade reside em assegurar conforto, atenuar a ansiedade e inibir a nocicepção resultante da manipulação cirúrgica, sem induzir depressão respiratória e neurológica fetal, visando maximizar a sobrevida pós-natal.

 

Conflitos de interesse

 

Não houve conflito de interesses.

 

Contribuição do autor

 

Otávio Henrique de Melo Schiefler – ideia original, leitura e interpretação das obras e escrita, correções e revisão do texto.

 

Referências bibliográficas

 

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Recebido em 23 de abril de 2024

Retornado para ajustes em 30 de janeiro de 2025

Recebido com ajustes em 31 de janeiro de 2025

Aceito em 10 de março de 2025