Avaliações fisiológicas e comportamentais, pré e pós-atividades de socialização, de cães militares de policiamento e faro de entorpecentes da Força Aérea Brasileira

Revista Agrária Acadêmica

agrariacad.com

doi: 10.32406/v8n1/2025/133-144/agrariacad

 

Avaliações fisiológicas e comportamentais, pré e pós-atividades de socialização, de cães militares de policiamento e faro de entorpecentes da Força Aérea Brasileira. Physiological and behavioral evaluations, pre and post socialization activities, of military police and drug detection dogs of the Brazilian Air Force.

 

Elissandra da Silveira1, Sandra Márcia Tietz Marques2, Silvana Bellini Vidor3, Carlos Afonso de Castro Beck4

 

1- Médica Veterinária – Dra., Tenente na Força Aérea Brasileira, chefe no setor de Faro e Policiamento. Base Aérea de Canoas, Canoas – RS. E-mail: elissandramvet@gmail.com
2- Médica Veterinária – Dra., Faculdade de Veterinária – Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. Av. Bento Gonçalves, 9090, Bairro Agronomia, CEP: 91540-000, Porto Alegre – RS. Autor para correspondência. Fone: (51) 3308-6136. E-mail: santietz@gmail.com
3- Médica Veterinária, Dra., Docente, Instituto Farroupilha – Campus Frederico Westphalen, Frederico Westphalen – RS. E-mail: silvana.b.vidor@gmail.com
4- Médico Veterinário – Prof. Dr., Faculdade de Veterinária – Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. E-mail: carlos.afonso@ufrgs.br

 

Resumo

 

Cães são utilizados por forças armadas principalmente para farejamento e policiamento. O objetivo deste estudo foi avaliar o efeito da inserção de práticas de enriquecimento ambiental, reforço positivo e atividades para redução de estresse em cães de emprego de trabalho do Canil de Segurança de Defesa de Canoas (GSD-CO) da Força Aérea Brasileira (FAB). Para descartar a presença de doenças concomitantes, foi realizada previamente ecodoplercardiografia, ultrassonografia de abdome, exame qualitativo de urina, hemograma e bioquímica sérica. Foram avaliados os parâmetros fisiológicos: Pressão Arterial Sistólica, Frequência Cardíaca, Frequência Respiratória e temperatura retal. Houve diferença estatística significativa entre os momentos iniciais e finais em seis variáveis comportamentais de um total de oito: treinamento e obediência (p=0,036), agressão (p=0,004), medo e ansiedade (p=0,008), comportamentos relacionados à separação (p=0,008) e diversos (tentativas de fuga, rolar ou comer próprios excrementos ou de outros animais) (p=0,003) sugerindo que práticas de bem estar, socialização com pessoas e com outros cães melhoram a qualidade de trabalho e de vida dos cães militares.

Palavras-chave: Cães policiais. Avaliação clínica. Bem-estar animal.

 

 

Abstract

 

Dogs are used by armed forces mainly for detection and policing. The objective was evaluating the effect of inserting environmental enrichment practices, positive reinforcement, and stress reduction activities in working dogs of the Canil de Segurança de Defesa de Canoas (GSD-CO) of the Brazilian Air Force (FAB). To rule out the presence of concomitant diseases, echocardiography, abdominal ultrasound, qualitative urine analysis, hemogram, and serum biochemistry were previously performed. Physiological parameters were evaluated: Systolic Blood Pressure, Heart Rate, Respiratory Rate and rectal temperature. There was a statistic significant difference between the initial and final moments in six behavioral variables out of a total of eight: training and obedience (p=0.036), aggression (p=0.004), fear and anxiety (p=0.008), behaviors related to separation (p=0.008) and various (attempts to escape, roll or eat their own or other animals’ excrement) (p=0.003), suggesting that well-being practices, socialization with people and other dogs improve the quality of work and life of military dogs.

Keywords: Police dogs. Clinical assessment. Animal welfare.

 

 

Introdução

 

Os cães policiais são reconhecidos como parte vital da força da lei e seu uso tem crescido rapidamente nos últimos anos. Cães são utilizados na atividade de polícia para o faro de explosivos e de narcóticos, captura e policiamento em geral. Os cães são habilitados para a aplicação do uso da força, sendo de forma persuasiva e/ou ativa.  O cão de polícia hoje já é utilizado como tipo de força, entretanto o uso de força é determinado pela administração pública e de interesse da coletividade e sua utilização nas atividades policiais é determinada por parâmetros legais inseridos na legislação brasileira. O cão pode ser entendido como um instrumento de menor potencial ofensivo, termo usado na Portaria Interministerial nº 4.226, de 31 de dezembro de 2010, sobre a forma de emprego do cão, ou seja, o uso da forma mais adequada ao nível de resistência necessária a situação (MIRANDA, 2011).

Os instrumentos de menor potencial ofensivo (IMPO) mais utilizados pelas forças policiais brasileiras são: bastões policiais; espargidores de agentes químicos; munições químicas, englobando granadas de mão outdoor e indoor, bem como as ampolas e projeteis de gases químicos; espingarda calibre 12; lançador de munições não-letais; munições de impacto controlado (elastômero/borracha); pistola de emissão de impulsos elétricos (PEIE); cães policiais e algemas (FERREIRA; MARQUES, 2022).

Considera-se que mesmo as máquinas mais complexas não são capazes de duplicar a eficiência operacional de uma equipe formada pelo Homem e o Cão. O binômio homem-cão devidamente treinado possui capacidades únicas para atuarem na segurança de instalações e propriedades, na aplicação das leis e aumento da eficácia do apoio nas atividades executadas por policiais, proporcionando uma economia de efetivo, tempo e ainda fornecem impacto psicológico, que impede potenciais infratores de cometerem delitos.

Determinar os níveis de estresse a que são expostos os cães de trabalho militar é importante para manter seu bem-estar e desenvolvimento nas atividades de rotina. Isso porque o uso de cães para funções de trabalho requer uma intensidade de esforço diferente quando comparados a animais de estimação, exposição ou atividades de laboratório (ROONEY et al., 2016). Portanto, esses animais podem ser mais suscetíveis ao estresse, o que leva a alterações comportamentais negativas, hormonais (PETERSSON et al., 2017) e reprodutivas (KUMAR; SINGH, 2015). Como consequência, o estresse crônico influencia o comportamento desses animais, os processos fisiológicos e celulares; faz com que fiquem mais suscetíveis a doenças; reduz o tempo de vida útil na atividade de trabalho; afeta a operacionalidade, a qualidade do trabalho e, sobretudo, impacta diretamente na qualidade de vida destes animais. Por isso, a necessidade de estudos sobre os efeitos fisiológicos e psicológicos em cães de trabalho militar, buscando preservar a ética e o bem-estar, necessários ao convívio interespécies (ROONEY et al., 2016; COBB et al., 2021).

Para analisar o estresse, alguns parâmetros fisiológicos são geralmente aceitos, como frequência cardíaca (FC), frequência respiratória (FR), temperatura retal (TR) e pressão arterial sistólica (PAS). No entanto, Yamamoto e colaboradores (2012), realizaram um estudo com nove cães terapeutas (oito da raça Labrador Retriever e um Golden Retriever), realizando observação comportamental e avaliação das variáveis TR, PAS, FR e FC, além da dosagem de cortisol sérico e salivar em quatro momentos distintos. Apenas o parâmetro de temperatura retal apresentou variações durante o estudo, e as alterações observadas foram atribuídas à contenção, ao transporte e à manipulação dos animais.

Diante do exposto, o objetivo deste estudo foi avaliar a fisiologia, o comportamento e o efeito diante da inserção de práticas de enriquecimento ambiental, reforço positivo e atividades para redução de estresse em cães de emprego de policiamento e faro de entorpecentes do Canil de Segurança de Defesa de Canoas (GSD-CO) da Força Aérea Brasileira (FAB), com aferição de parâmetros fisiológicos (FC, FR, TR e PAS).

 

Material e métodos

 

Esta pesquisa foi aprovada pela Comissão de Ética no Uso de Animais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS, Brasil, sob protocolo número 41.843 e os responsáveis pelos animais dos canis militares assinaram o termo de consentimento livre e esclarecimento. Foram incluídos, no estudo, todos os cães hígidos, machos ou fêmeas, castrados ou não, com emprego em farejamento, policiamento ou de duplo emprego do GSD-CO. Foram excluídos do estudo os cães com doenças sistêmicas que alterassem os parâmetros fisiológicos e comportamentais a serem avaliados.

Para isso, foi realizada ultrassonografia abdominal total, ecodoplercardiografia, exame qualitativo de urina e colheita de sangue. Essa colheita foi realizada pela punção da veia jugular externa com sistema scalp Vacuteiner® 23 G safetylok® (Becton Dickinson Indústrias Cirúrgicas S.A., Curitiba, Brasil) em tubo com EDTA K2 e em tubo seco. Foi colhido um volume de 4mL de sangue por paciente durante o exame clínico, para realização de hemograma, contagem de proteína plasmática total (PPT) e de plaquetas, tempo de atividade de protrombina (TTPA), tempo de protrombina (TP) e concentração sérica de albumina, creatinina, cobalamina e folato, e atividade sérica da alanina aminotransferase (ALT), fosfatase alcalina (FA) e gama glutamil transferase (GGT).

Os cães do estudo foram previamente imunizados com vacina polivalente (vírus da cinomose canina, da hepatite infecciosa canina, da parainfluenza canina, da coronavirose canina, da parvovirose canina, Adenovírus canino Tipo 2, e Leptospira canicola, L. grippotyphosa, L. icterohaemorrhagiae e L. pomona (Vanguard plus®, Zoetis Indústria de Produtos Veterinários Ltda., São Paulo, Brasil) e vacina antirrábica (Defensor®, Zoetis Indústria de Produtos Veterinários Ltda, São Paulo, Brasil). Além disso, passaram por controle de endoparasitos com medicação anti-helmíntica de milbemicina oxima e praziquantel (0,5 mg/Kg e 5 mg/kg, por via oral – Milbemax®, Elanco Animal Health, São Paulo, Brasil) e controle de ectoparasitos com coleira à base de Imidacloprida 10 g + Flumetrina 4,5 g/ 100g (Seresto®, Elanco Animal Health, São Paulo, Brasil).

O ambiente dos canis foi higienizado quinzenalmente com deltametrina (Butox® MSD Saúde animal Ltda., São Paulo, Brasil) e diariamente com cloreto de belzalcônio 20,0 g/ 100mL (Hysteril®, União Química Farmacêutica Nacional S/A, São Paulo, Brasil) após lavagem e remoção de matéria orgânica.

Os animais, no momento de descanso e entre as atividades, permaneciam em canis individuais, de alvenaria (12 m2), com ambiente climatizado e água ad libidum. A ração (Royal Canin – LHN Sport Life Energy 4300®, São Paulo, Brasil) foi calculada (três vezes por semana) de acordo com o peso (três pesagens por semana) e com a atividade de cada animal e, fornecida em duas porções por dia. Durante as rotinas de treinamento os animais eram recompensados com o uso de petiscos diversos.

Foram avaliados, no momento inicial e no momento final, os parâmetros fisiológicos: Pressão Arterial Sistólica (PAS) pelo método ultrassônico de Doppler (Doppler Veterinário Ultrassônico 841A – Parks®, Parks medical, EUA); temperatura retal (TR) em graus celsius (°C) com termômetro digital (Termômetro Geratherm Rapid, Geratherm®, Alemanha); frequência cardíaca (FC) em batimentos por minuto (bpm) e frequência respiratória (FR) em movimentos por minuto (mpm) por auscultação indireta sempre realizada pela mesma Oficial Médica Veterinária responsável pelo canil. A PAS foi aferida três vezes em cada momento, sendo considerada a média aritmética das três mensurações, com adaptação do manguito no membro anterior direito, respeitando-se uma relação de 0,4 entre a largura do manguito e a circunferência do membro. Foram considerados fisiológicas em cães de grande porte: PAS de 100-140 mmHg; FC de 60 – 140 bpm; FR de 10 – 35 mpm (NOTOMI et al., 2020).

As atividades de socialização foram inseridas no manejo de todos os cães do GSD-CO; realizadas diariamente de acordo com um protocolo do setor de cães e incluíam desde socialização em diversos locais, como parques, shoppings e outros canis militares; realização de treinamento físico diário com caminhadas ao ar livre; treinamento em transposição de curso de água; treinamento de troca-retriever para obediência e concentração; rotina diária de escovação de pelos e de dentes; musicoterapia no repouso entre treinos e silêncio noturno; acupuntura semanal; inspeção diária de saúde; socialização na casa dos condutores nos finais de semana, de acordo com um quadro de trabalho semanal avaliado e instituído pela Oficial Médica Veterinária em conjunto com a equipe de condutores de cães de guerra. É importante ressaltar que todos os treinamentos desse trabalho usaram exclusivamente métodos baseados em recompensa, ou seja, por reforço positivo (BLACKWELL et al., 2008). As variáveis de manejo e bem-estar estão descritas na Tabela 2, em duas avaliações: inicial e 90 dias após.

Para o teste de normalidade das variáveis foi utilizado o teste de Shapiro-Wilk. Para análise das variáveis com duas amostras emparelhadas (momentos inicial e final) dos parâmetros fisiológicos foi utilizado o teste estatístico de Wilcoxon para as variáveis não paramétricas e Teste t de Student para amostras pareadas não paramétricas. Foi considerando-se um nível de confiança de 95% (p < 0,05). As análises estatísticas foram realizadas com o software SPSS® v.22 (IBM Software, Armonk, Nova York, EUA), e as análises descritivas, com o software Microsoft Excel® do pacote Office 365 (Microsoft corporation, Redmond Washington, EUA).

 

Resultados e discussão

 

Com os exames iniciais de ecodoplercardiografia, ultrassonografia abdominal total, exame qualitativo de urina, hemograma, bioquímica sérica e exame clínico geral sem alterações, todos os 11 cães do canil do GSD-CO foram classificados como adultos hígidos e puderam ser incluídos no estudo. Consequentemente, foram descartadas possíveis doenças que pudessem causar alteração de FC, FR, TR e PAS (NOTOMI et al., 2020). Quanto ao sexo e status reprodutivos, dos 11 animais, seis (54%) eram machos não castrados, e apenas uma das cinco fêmeas era castrada. A média de idade foi de dois anos, com variação entre nove meses e cinco anos. Quanto ao perfil de trabalho, nove (81%) eram de emprego de faro, e dois (19%), de duplo emprego, ou seja, faro e policiamento.

Com relação aos parâmetros fisiológicos (Tabela 1), no início do estudo, dois cães (20%) apresentaram aumento de FC, e dois cães (20%), aumento de PAS. Ao final do estudo, os mesmos parâmetros permaneceram dentro dos valores de referência para a espécie em todos os animais. Contudo, no Teste t de Student para amostras pareadas, apenas os valores de FR iniciais e finais apresentaram diferença estatisticamente significativa (p=0,012), porém ainda dentro do intervalo considerado como fisiológico para a espécie, provavelmente atribuída à excitação pela manipulação no exame clínico. Esses dados corroboram com achados de Yamamoto e colaboradores (2012), que não encontraram diferença entre os parâmetros em quatro momentos de avaliação da PAS, FR e FC. Apenas o parâmetro de temperatura retal apresentou variações durante o estudo de observação comportamental de nove cães terapeutas (oito da raça Labrador Retriever e um Golden Retriever), quando foram dosados cortisol sérico e salivar, e foram aferidos temperatura retal, PAS, FC e FR em quatro momentos distintos. Nessa ocasião, os autores atribuíram as alterações observadas à contenção, ao transporte e à manipulação dos animais (YAMAMOTO et al., 2012), o que provavelmente ocorreu neste estudo também. É importante destacar que a hipertensão situacional é causada por alterações do sistema nervoso autônomo decorrentes dos efeitos da excitação ou da ansiedade, que podem levar a um diagnóstico errôneo de hipertensão sistêmica primária (NOTOMI et al., 2020).

 

Tabela 1 – Parâmetros fisiológicos dos cães de trabalho do GSD-CO avaliados antes (inicial) e depois (final) da inserção de atividades de manejo e bem-estar no período de 90 dias.
Cães de trabalho do GSD-CO
Variável
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
p value
Raça
Pastor Alemão
Rottweiler
Pastor Belga Mallinois
Pastor Alemão
Pastor Alemão
Australian catledog
Australian catledog
Pastor Belga Mallinois
Pastor Alemão
Pastor Alemão
Pastor Belga Mallinois
Idade
5 anos
3 anos
3 anos
3 anos
2 anos
2 anos
2 anos
1 ano
1 ano
1 ano
9 meses
Emprego
Faro
Duplo
Duplo
Faro
Faro
Faro
Faro
Faro
Faro
Faro
Faro
Sexo
Fêmea
Macho
Macho
Macho
Fêmea
Macho
Fêmea
Fêmea
Macho
Macho
Fêmea
FC i
140 bpm
100 bpm
140 bpm
100 bpm
100 bpm
100 bpm
120 bpm
100 bpm
80 bpm
160 bpm
160 bpm
FC f
120 bpm
100 bpm
120 bpm
100 bpm
120 bpm
100 bpm
110 bpm
100 bpm
100 bpm
130 bpm
130 bpm
–
FR i*
20 mpm
15 mpm
15 mpm
14 mpm
20 mpm
22 mpm
20 mpm
25 mpm
25 mpm
20 mpm
20 mpm
FR f*
12 mpm
15 mpm
15 mpm
12 mpm
12 mpm
16 mpm
20 mpm
16 mpm
18 mpm
18 mpm
19 mpm
0,012
PAS i
180 mmHg
170 mmHg
130 mmHg
120 mmHg
120 mmHg
120 mmHg
120 mmHg
120 mmHg
150 mmHg
110 mmHg
110 mmHg
PAS f
130 mmHg
130 mmHg
120 mmHg
120 mmHg
120 mmHg
120 mmHg
120 mmHg
120 mmHg
130 mmHg
120 mmHg
120 mmHg
–
TR i
37,2º C
37,6º C
38,1º C
38,0º C
38,3º C
37,9º C
38,1º C
38,7º C
38,1º C
38,5º C
38,3º C
TR f
37,3º C
37,5º C
38,1º C
38,3º C
38,4º C
37,7º C
38,3º C
38,6º C
37,9º C
38,2º C
38,2º C
Parâmetro k
* de FR com diferença estatisticamente significativa no Teste t de Student para amostras pareadas; Fci = Frequência cardíaca inicial; FCf = Frequência cardíaca final; FRi = Frequência respiratória inicial; FRf= Frequência respiratória final; PASi= Pressão arterial sistólica inicial; PASf= Pressão arterial sistólica final; bpm = batimento por minuto; mpm = movimento por minuto; mmHg: milímetros de mercúrio; TRi =temperatura retal inicial; TRf = temperatura retal final; °C = graus celsius.

 

Os domínios físicos (nutrição, ambiente e saúde) do canil de trabalho do GSD-CO já estavam garantidos, com um ambiente propício para treinamento; canis de alvenaria com espaço para se movimentar e correr, com boa ventilação, climatização; presença de grandes extensões de área de grama e terra; bem como lago para que os cães pudessem ter comportamentos semelhantes aos de animais na natureza. Para a nutrição, era utilizada uma ração considerada de boa qualidade e de acordo com a demanda energética dos animais, que não apresentavam perda de escore corporal, nem perda de escore muscular. Havia fornecimento adequado de água tanto no canil, quanto nas atividades de campo, e os animais não apresentavam sinais de desidratação durante as avaliações clínicas diárias. Ainda, o calendário vacinal e de everminação era cumprido de acordo com o estabelecido na literatura. Segundo Zanghi et al. (2018) e Niedermeyer et al. (2020), cães de trabalho apresentam maiores demandas energéticas quando se envolvem em ambientes adversos e apresentam tendência a grandes perdas de escore corporal e desidratação pela alta atividade física.

Todavia, com relação aos domínios comportamental e mental, havia a necessidade de melhorar as práticas de manejo dos animais. Os cães passavam por treinamentos diários de 20 a 40 minutos, duas vezes ao dia e após eram soltos na pista, sem inserção de atividades planejadas. Não havia interação regular com as pessoas por meio de brincadeiras ou treinamento ou com outros cães para atender as suas necessidades sociais. Não havia nenhum tipo de enriquecimento ambiental, como brinquedos, mastigar ou exercício, nem vida fora do canil, correndo livremente ou caminhando em áreas gramadas. As interações humanas eram quase que exclusivamente com o condutor e apenas nos momentos de alimentação e de treinamento. Também não havia a atenção e a percepção dos condutores quanto às necessidades psicológicas e à estimulação mental dos cães, considerando normal o descanso no canil (COBB et al., 2021). O problema começou a ser percebido pelo oficial responsável e pelos condutores após um curso sobre comportamento e estresse em cães de trabalho em um simpósio sobre cães de guerra que ocorreu no GSD-CO. A partir disso, uma médica veterinária comportamentalista começou a prestar consultorias mensais ao canil. Viu-se então a necessidade de fazer com que os condutores, bem como a organização militar não enxergassem os cães de guerra como armas, mas sim como profissionais que estão desempenhando suas funções e então, foi aplicado um questionário para avaliar as alterações comportamentais dos cães. É importante ressaltar que seis (54%) dos cães com idades entre dois e três anos inseridos no plantel do GSD-CO após o desmame, passaram pelo período de pandemia do COVID-19, quando os treinamentos e rotinas de socialização foram restritas, pois os militares trabalhavam por escala e as atividades fora do ambiente do canil eram limitadas. Em um estudo sobre as consequências da socialização insuficiente em cães filhotes durante a pandemia de COVID-19, os animais sem interações sociais com pessoas e com outros animais, antes das 16 semanas de vida (janela de aprendizado), apresentaram problemas comportamentais (BRAND et al., 2022). Sabe-se que experiências iniciais positivas são cruciais para criar cães adultos seguros, capazes de lidar com suas necessidades e com o ambiente, sendo primordiais na formação do comportamento posterior (STOLZLECHNER et al., 2022). Não foram encontrados estudos na literatura consultada, associando o período da pandemia e a socialização deficiente em animais de trabalho (cães militares).

Ainda sobre socialização, Stolzlechner e colaboradores (2022) realizaram um estudo utilizando 83 filhotes de raças variadas divididos em grupo tratamento e controle. Ambos os grupos passaram por situações adversas com desafios importantes para suas idades (3 a 6 semanas), como exposição a ruídos, pessoas, objetos e resolução de tarefas. No grupo controle os animais tinham interações positivas e estímulos amigáveis com o treinador, enquanto no grupo tratamento os animais apenas realizavam as tarefas, sem receber os mesmos incentivos. Foi demonstrado a influência positiva na capacidade de enfrentamento do estresse em filhotes de seis semanas de idade, principalmente quando estimulados positivamente (STOLZLECHNER et al., 2022). A capacidade de se habituar a diversos estímulos sem medo e de superar situações desafiadoras durante o período de socialização, é o ponto chave na construção de animais bem formados. Assim, é importante expor os filhotes a uma variedade de estímulos diferentes: visuais, sensoriais, interações sociais com humanos e com outras espécies de animais durante esse período de desenvolvimento neurológico e emocional (MCEVOY et al., 2022).

A totalidade das variáveis analisadas apresentou melhora em seus escores finais (Tabela 2). No entanto, houve diferença estatisticamente significativa entre os momentos iniciais e finais em seis de um total de oito variáveis, sejam elas: treinamento e obediência (p=0,036), agressão (p=0,004), medo e ansiedade (p=0,008), comportamentos relacionados à separação (p=0,008) e diversos (tentativas de fuga, rolar ou comer próprios excrementos ou de outros animais) (p=0,003). Quanto ao treinamento e obediência, todos os animais já apresentavam bons escores, considerando o ponto de corte estabelecido. Contudo, dois apresentavam notas acima do ponto de corte desejado em agressividade; seis, em medo e ansiedade; e nove, em comportamento relacionado à separação. Além disso, todos apresentaram altos níveis em excitabilidade e em comportamentos de chamar a atenção; e todos receberam escores máximos nas alterações de comportamentos diversos, como tentativas de fuga, rolar ou comer próprios excrementos ou de outros animais.

 

Tabela 2 – Variáveis avaliadas em cães de trabalho do GSD-CO avaliados antes (inicial) e depois (final) de 90 dias da inserção de atividades de manejo e bem-estar.
Cães de trabalho do GSD-CO
Animal
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
p value
Raça
Pastor Alemão
Rottweiler
Pastor Belga Mallinois
Pastor Alemão
Pastor Alemão
Australian catledog
American
Pastor Belga Mallinois
Pastor Alemão
Pastor Alemão
Pastor Belga Mallinois
Emprego
Faro
Duplo
Duplo
Faro
Faro
Faro
Faro
Faro
Faro
Faro
Faro
Treinamento e obediência i,
3,375
3,375
3,5
3,625
3,625
3,75
3,5
3
3,25
3,25
3,25
Treinamento e obediência fa
3,5
3,5
3,5
3,75
3,625
3,75
3,625
3,5
3,625
3,625
3,75
0,036
Agressividade ib
2,5
3,5
3,5
2,5
2
2
1
2
2
2
1,5
Agressividade fb
1,5
2
2
2
1
1
1
1
1
1
1
0,004
Medo e ansiedade ic
3
4
4
4
3
3
2
2
2
2
2
Medo e ansiedade fc
2
3
3
3
2
3
2
2
2
1
1
0,008
Comportamento relacionado à separação id
4
5
3
3
4
4
4
3
3
2
2
Comportamento relacionado à separação fd
3
4
3
3
3
3
3
2
3
2
1
0,008
Excitabilidade i
4
5
3
3
3
3
3
3
3
3
3
–
Excitabilidade f
3
4
3
3
3
3
3
3
3
3
3
–
Comportamento chamar
4
5
4
4
4
4
4
4
4
5
4
Comportamento chamar
4
5
4
4
4
4
4
4
4
4
4
Diversos ie
5
5
5
5
5
5
5
5
5
5
5
Diversos fe
3
3
2
2
1
1
2
2
3
2
1
*i= momento inicial; f= momento final; 1= nunca; 2= raramente; 3= às vezes; 4= quase sempre; 5= sempre. Todos as variáveis foram testadas com teste de Wilcoxon.

 

Dos fatores avaliados e levados em consideração nas análises de treinamento obediência, as variáveis com diferença estatística foram: quando o cão está solto na guia responde imediatamente (p=0,014), obedece ao comando de “senta” imediatamente (p=0,046), obedece ao comando de “fica” imediatamente (p=0,014), parece escutar ou atender prontamente tudo que diz ou faz (p=0,014) e é devagar para aprender novos truques ou tarefas (p=0,046). Todas as variáveis tiveram melhora nos parâmetros, corroborando com dados de que animais menos estressados apresentam melhor concentração, com melhor desempenho de suas atividades (COBB et al., 2021).

Com relação à agressividade, notou-se melhora na avaliação final quando os animais eram abordados por adultos desconhecidos ou crianças; quando banhados ou escovados na rotina diária; quando uma pessoa diferente do condutor se aproximava durante a alimentação; quando uma pessoa diferente acariciava ou brincava; quando encarado diretamente nos olhos; ou quando outro cão rosnava/latia/mostrava os dentes. Outro fator importante é que ambos os cães de duplo emprego apresentavam maior agressividade e a mudança dos escores entre momento inicial e final foi mais sutil, devido aos treinamentos e trabalhos de rotina, já que a função de trabalho depende de agressividade e pronta resposta ao ataque. Conforme já descrito por alguns trabalhos, a agressividade pode ser resultado de uma má socialização e ao estresse de ficar longos períodos em confinamento. Todavia, alguns comportamentos agressivos apresentados pelos cães nem sempre são resultados de uma má socialização, podem ser apenas estabelecimento de posição social ou defesa, justamente por alguns animais desempenharem funções de guarda e proteção, como apresentado no nosso estudo, onde cães de duplo emprego mantiveram características marcadas de agressividade e excitabilidade (COBB et al., 2021; LOPES; MARQUES, 2022).

Na seção medo e ansiedade, houve melhora principalmente nas respostas ao barulho, visitas de pessoas desconhecidas ao canil, movimentações de carro (inclusive em trajetos com congestionamento), resposta a objetos desconhecidos próximos, tempestade, medo de outros animais como cavalos, vacas e outros cães, medo de vento (ventiladores, secadores, ar-condicionado). É sabido que o reforço positivo tem sido associado à melhor resposta aos comandos do que o negativo, redução de ansiedade, melhora na obediência, com capacidade de resposta melhor e mais rápida aos comandos e redução do medo, resultados desejáveis para cães que serão utilizados em serviços de policiamento e farejamento, porque o medo, a distração e a agressão estão entre as causas mais comuns de fracasso (BATT et al., 2008). Outro fator importante é a habituação de um animal ao barulho, por exemplo, ao disparo de uma arma de fogo, à turbina de avião em funcionamento, a pessoas desconhecidas, a animais, com exposição aos estímulos diversos inserida durante a fase de crescimento do cão, causando uma dessensibilização e adaptação, reduzindo o medo e a ansiedade (LOPES; MARQUES, 2022).Quanto à melhora dos comportamentos relacionados à separação e tentativas de fuga cães militares, quando terminam o dia de trabalho, tendem a exibir comportamentos estereotipados, como comportamento repetitivo de caminhada e comportamentos orais, que podem ser um sinal de inquietação (FOYER et al., 2016). Os principais comportamentos apresentados com relação à ansiedade de separação dos animais do estudo foram compatíveis com o relatado na literatura. Eram eles: tremores intensos; correr ou tentar pegar a própria cauda; salivação excessiva, inquietação, agitação, latidos, uivos; arranhadura de piso; mastigação de caixa de transporte; lambedura ou mordiscar excessivo de patas ou de alguma parte do corpo (COBB et al., 2021).

Os animais do canil do GSD-CO ficaram mais relaxados, com maior concentração e desempenho nos treinamentos e atividades de trabalho com a inserção de rotina de acordo com escala, alternância de treinos, interação social com outras pessoas e animais, momentos de relaxamento e passeio, o que corrobora com achados de Demant et al. (2011). Nesse outro estudo, a alta frequência e a maior duração das seções de treinamento afetavam negativamente a aprendizagem dos cães, confirmado por outros autores, de que treinos uma a duas vezes por semana são mais eficientes se comparados a treinos diários (COBB et al., 2021; MCEVOY et al., 2022). Além disso, períodos curtos de treinos são preferíveis, da mesma forma que a combinação de treinos diferentes em uma sessão é mais eficiente (DEMANT et al., 2011).  Adicionalmente, Clark e Boyer (1993) verificaram os efeitos da interação cão e treinador sobre a condição de bem-estar dos animais em um canil policial na Bélgica e constataram que caminhadas diárias de apenas 20 minutos reduziam a incidência de comportamentos agressivos indesejáveis nos cães (CLARK; BOYER, 1993). Contudo, um canino de duplo emprego da raça Rottweiler do GSD-CO, mesmo reduzindo comportamentos estereotipados (lambedura da própria cauda, lambedura de patas), agressividade, medo de pessoas e de outros cães e ansiedade, não conseguia ser manejado por todos os membros da equipe, ter rotina de socialização na casa do condutor ou fora do canil. Optou-se, para este caso, pelo tratamento farmacológico com cloridrato de fluoxetina (1 mg/kg, VO, Cloridrato de Fluoxetina, Eurofarma® 20mg, São Paulo, Brasil), após análises comportamentais do momento final, com resposta favorável após três semanas de tratamento.

Em relação à ética moderna, à interação humana e aos cinco domínios do bem-estar animal, embora sejam assuntos de grande relevância, são pouco discutidos pelos médicos veterinários militares. Os modelos de instalações, rotinas de treinamento e manejo de cãe utilizados na atividade policial são fatores que podem limitar os bons níveis de bem-estar desses animais e de operacionalidade em seu trabalho. Por isso, há necessidade de conscientização das organizações militares sobre o impacto de atividades mal manejadas na vida dos cães de trabalho. Por muitos anos, a padronização do que é importante para o bem-estar dos cães que vivem em canis foi negligenciada. Cobb e colaboradores (2022) avaliaram a percepção da comunidade sobre a importância do gerenciamento de canis, abordando a saúde canina, o design e a rotina das instalações, as interações sociais e o enriquecimento ambiental através de um questionário on line respondido por 2.000 pessoas. Concluíram que as atitudes e os comportamentos das pessoas que interagem com cães alojados em canis determinam o bem-estar destes.

Poucos trabalhos foram realizados avaliando o bem-estar em cães de trabalho e sua relação com a operacionalidade. Um estudo de 60 dias realizado no Canil da Polícia Militar localizado em Campinas, São Paulo, Brasil utilizando oito cães machos de quatro raças (Pastor Alemão, Pastor Belga Malinois, Doberman e Rottweiler) realizou dosagem de cortisol em amostras de saliva, observação do comportamento de estereotipagem (observação visual e anotação de comportamentos estereotipados, comportamentos de repouso e de movimento) e análise de sêmen. Nesse estudo, concluíram que os cães militares apresentaram sinais de maior estresse durante os períodos de trabalho com comportamentos estereotipados, mas os níveis de cortisol e a qualidade do sêmen não foram afetados (ARCURI et al., 2022). No presente trabalho, optou-se por não avaliar os níveis de cortisol, pois os seus níveis aumentados também podem refletir agitação eexcitaçãopositiva,nãosendoumparâmetrofidedigno (COBB et al., 2021).

Atualmente os cães de trabalho do GSD-CO fazem faro e guarda/proteção em aeronaves, prédios e carros; entram em contato com tripulantes militares ou civis, adultos ou crianças, e com animais pets transportados nas aeronaves. Participam de feiras, exposições e atividades não vinculadas ao trabalho de faro e proteção. Um animal com medo, pouco sociável e com traumas pode incorrer em acidentes, redução da operacionalidade, e consequentes gastos da instituição em formar um cão de guerra que será aposentado precocemente por problemas comportamentais. A inclusão de treinamentos de sociabilidade na rotina dos cães, como também a inclusão do controle da agressividade, estão entre os requisitos básicos dos cães policiais e reflete as demandas oriundas das novas formas de interação entre polícia e sociedade (OLIVEIRA NETO, 2021; ACIERNO et al., 2018).

Como limitações do presente estudo, foram desafiadoras a inserção de atividades de socialização em uma organização militar e a mudança dos pensamentos dos militares que atuam diretamente com os animais e, de atitudes já empregadas há muitos anos, especialmente com relação à troca do uso do reforço negativo pelo reforço positivo. Além disso, seria importante filmar e registrar os comportamentos estereotipados em mídias digitais para comparação e análise de expressões que a observação visual muitas vezes não permite, pois sabe-se que os animais apresentam mais nitidamente as alterações comportamentais longe dos condutores. Por fim, seria muito proveitoso inserir mais canis militares no estudo, a fim de buscar obter padronização de ambientes, de alimentação e de atividades, pois os dados demonstraram que as alterações de manejo podem ser promissoras se replicados em outros canis militares.

 

Conclusão

 

Com relação aos parâmetros fisiológicos, as alterações apresentadas não parecem ter relevância neste estudo, pois podem estar associadas à manipulação e não necessariamente aos fatores estressores. O enriquecimento ambiental e a inserção de atividades diversas durante os 90 dias das avaliações contribuíram positivamente para o bem-estar dos animais de trabalho do GSD-CO. Dessa forma, sugere-se a realização de mais estudos sobre o estresse crônico e a necessidade de conscientização das organizações militares sobre o impacto de atividades mal manejadas na vida dos cães de trabalho.

 

Conflitos de interesses

 

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

 

Contribuição dos autores

 

Elissandra da Silveira – idéia original, coleta de dados, interpretação dos resultados e escrita; Sandra Márcia Tietz Marques – interpretação dos resultados, escrita e revisão do texto, formatação; Silvana Bellini Vidor – coleta de dados e interpretação dos resultados; Carlos Afonso de Castro Beck – orientação e correções.

 

Agradecimentos

 

Ao GSD-CO pelo apoio no estudo, em especial aos soldados e sargentos do canil, ao Tenente Coronel Moura, Major Mafra, Capitão Blener e Tenente Topan. À clínica Pet Center Canoas, RS. Ao Lab Vetcenter Canoas, RS. À equipe Joice Peruzzi comportamento animal.

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Recebido em 2 de setembro de 2024

Retornado para ajustes em 20 de janeiro de 2025

Recebido com ajustes em 6 de março de 2025

Aceito em 12 de março de 2025

Diretrizes para o tratamento da hipotensão arterial intraoperatória de cães e gatos

Revista Agrária Acadêmica

agrariacad.com

doi: 10.32406/v8n1/2025/116-132/agrariacad

 

Diretrizes para o tratamento da hipotensão arterial intraoperatória de cães e gatos. Guidelines for the treatment of intraoperative hypotension in dogs and cats.

 

Otávio Henrique de Melo Schiefler1

 

1- Doutorando em Clínica Médica e Cirúrgica no Programa de Pós-Graduação em Medicina Veterinária (PPGMV) – Universidade Federal de Santa Maria – UFSM, Campus Santa Maria – RS. E-mail: vetotavio@gmail.com

 

Resumo

 

A hipotensão arterial intraoperatória é a principal intercorrência anestésica de cães e gatos, mesmo em cirurgias eletivas. Caso a hipotensão arterial intraoperatória não seja identificada ou corrigida, hipoperfusão tecidual e o desenvolvimento de disfunções orgânicas poderão ocorrer no período pós-operatório. Portanto, este trabalho tem como objetivo auxiliar médicos veterinários anestesiologistas e estudantes de graduação em medicina veterinária a estabelecerem um diagnóstico assertivo e a determinarem a terapia ideal em casos de hipotensão arterial intraoperatória em diferentes cenários, padronizando o fluxo de tratamento com base na sua etiologia, a fim de aumentar a segurança do ato anestésico, minimizar o impacto hemodinâmico da hipotensão arterial e proporcionar melhor prognóstico pós-operatório para cães e gatos.

Palavras-chave: Anestesia. Débito cardíaco. Inotrópicos. Vasopressores. Pressão arterial.

 

 

Abstract

 

Intraoperative hypotension is the main anesthetic complication in dogs and cats, even in elective surgeries. If intraoperative hypotension is not identified or corrected, tissue hypoperfusion and the development of organ dysfunctions may occur in the postoperative period. Therefore, this study aims to help veterinarians, anesthesiologists and undergraduate students in veterinary medicine to establish an assertive diagnosis and determine the ideal therapy in cases of intraoperative hypotension in different scenarios, standardizing the treatment flow based on its etiology, in order to increase the safety of the anesthetic act.  minimize the hemodynamic impact of hypotension and provide better postoperative prognosis for dogs and cats.

Keywords: Anaesthesia. Cardiac output. Inotropes. Vasopressors. Blood pressure.

 

 

Introdução

 

A pressão arterial é um dos parâmetros fisiológicos mais importantes a ser monitorado durante o período perioperatório (AWAD et al., 2022). Variações entre quadros de hipotensão e hipertensão podem resultar em complicações severas a saúde do paciente, portanto, a mensuração da pressão arterial deve ser constante e é indispensável em todo e qualquer procedimento anestésico (DUKE-NOVAKOVSKI, CARR, 2015).

A hipotensão arterial intraoperatória é considerada uma complicação cardiovascular comum observada na rotina de pequenos animais (CHEN et al., 2007; SINCLAIR, DYSON, 2012). Estima-se que sua incidência varie entre 7 e 46% (COSTA et al., 2015), podendo chegar até 60% em animais anestesiados, mesmo quando hígidos e durante procedimentos cirúrgicos eletivos (KOJIMA et al., 2021). Quadros de hipotensão arterial estão associados a desfechos clínicos negativos pela redução do fluxo sanguíneo e hipoperfusão tecidual, predispondo ao desenvolvimento de lesão de órgão-alvo, falência orgânica e mortalidade no pós-operatório (FUTIER et al., 2017; AWAD et al., 2022).

Embora existam poucos estudos veterinários investigando o real impacto da hipotensão e o prognóstico pós-operatório de cães e gatos anestesiados, seu reconhecimento e tratamento imediatos são fundamentais na prevenção de complicações ou agravo de condições pré-existentes relacionadas a diminuição da oferta de oxigênio tecidual (CHEN et al., 2007; DIXON, FAUBER, 2017).

Desse modo, este trabalho objetiva auxiliar médicos veterinários anestesiologistas a diagnosticar, estabelecer a melhor escolha terapêutica e minimizar a incidência e a duração da hipotensão arterial intraoperatória em diferentes cenários, além de padronizar as técnicas e o fluxo de tratamento conforme a etiologia da hipotensão, aumentando a segurança do ato anestésico e o prognóstico pós-operatório.

 

Metodologia

 

Através da metodologia de pesquisa qualitativa, realizou-se o levantamento de informações confiáveis embasadas em revistas e jornais nacionais e internacionais sobre o reconhecimento e tratamento da hipotensão arterial intraoperatória em cães e gatos. As plataformas utilizadas para coleta de dados foram: PubMed, Elsevier, ReseachGate, ScienceDirect e SciELO.

As palavras-chaves utilizadas na busca textual foram os termos de indexação contendo: “Blood pressure”, “Sympathomimetics”, “Hypotension in bitches”, “Hemodynamics”, “Systolic arterial pressure”, “Vasopressors”, “Inotropic agents” “Intraoperative hypotension”, “Intraoperative complications”, “Intraoperative monitoring”, “Perioperative fluid therapy”, “Fluid responsiveness” e “Cardiac output”.

 

Hipotensão perioperatória e perfusão tecidual

A hipotensão arterial em cães e gatos é definida quando a pressão arterial média (PAM) é inferior a 60 mmHg (GRUBB et al., 2020), equiparando-se a uma pressão arterial sistólica (PAS) abaixo de 80 mmHg para cães e 90 mmHg para gatos (CHEN et al., 2007; GREGORY et al., 2021). Majoritariamente, classifica-se a hipotensão arterial intraoperatória em leve quando a PAM encontra-se entre 50 e 60 mmHg e severa quando inferior a 50 mmHg ou quando a PAS estiver abaixo de 70 mmHg (KOJIMA et al., 2021; AWAD et al., 2022).

Pressões arteriais abaixo desses valores estão relacionadas à prejuízos na perfusão tecidual de órgãos vitais, como cérebro e rins, os quais perdem a capacidade de autorregulação do fluxo sanguíneo predispondo ao desenvolvimento de insuficiência, isquemia e morte celular (SESSLER, SHORT, 2021). Além disso, presume-se que a hipoperfusão seja proporcional à redução da pressão arterial (DUKE-NOVAKOVSKI, CARR, 2015), assim como a extensão do dano celular seja proporcional a duração da hipotensão arterial intraoperatória (WEESSELINK et al., 2018; ETEMADI, HOGUE, 2020).

Em humanos, quadros de hipotensão arterial intraoperatória superiores a 10 minutos foram correlacionados a lesões orgânicas isquêmicas, com risco aumentando à medida que a pressão arterial reduz e associado a um aumento da taxa de morbidade perioperatória (SÜDFELD et al., 2017. WEESSELINK et al., 2018). Situações em que a PAM se apresentou severamente baixa (< 50 mmHg) foram observadas lesões renais agudas e miocárdicas mesmo durante períodos inferiores a 5 minutos, estabelecendo-se, portanto, um prognóstico desfavorável (WALSH et al., 2013).

Em pacientes veterinários, entretanto, não há uma definição precisa entre a gravidade da hipotensão arterial intraoperatória e sua duração para o estabelecimento de lesões teciduais ou desenvolvimento de disfunções orgânicas (HATTERSLEY et al., 2020). De acordo com os estudos de Youn et al. (2018) e Hattersley et al. (2020) não foram observados aumento da taxa de mortalidade ou maior incidência no desenvolvimento de complicações pós-operatórias associadas a quadros de hipotensão arterial intraoperatória com PAM inferior a 60 mmHg e PAS inferior a 80 – 90 mmHg de pelo menos 10 minutos de duração.

Todavia, é preciso considerar que existe uma grande variação entre indivíduos, sobretudo quanto às doenças concomitantes, idade e condições clínicas, sendo variável a suscetibilidade do paciente às lesões provocadas pela hipotensão arterial intraoperatória com redução do débito cardíaco (DUKE-NOVAKOVSKI, CARR, 2015; VALVERDE, 2021). Animais com doença renal, desidratados ou com idade avançada apresentam maior predisposição ao desenvolvimento de lesão tecidual em consequência de quadros de hipotensão arterial intraoperatório quando comparados à animais jovens e saudáveis (SÜDFELD et al., 2017).

Por este motivo, mesmo quadros de hipotensão arterial intraoperatório leves durante curtos períodos são capazes de aumentar os riscos de lesões orgânicas e, em pressões arteriais severamente baixas, é correto afirmar que menos tempo é necessário para o desenvolvimento de isquemia tecidual (GREGORY et al., 2021; SESSLER, SHORT, 2021). Sendo assim o início do tratamento para quadros hipotensivos intraoperatórios deve ser imediato assim que é feita sua identificação, especialmente quando potenciais fatores de risco pré-operatórios estão presentes (COSTA et al., 2015; GRUBB et al., 2020).

 

Mensuração da pressão arterial

De acordo com a American Society of Anesthesiologists a monitoração da pressão arterial naqueles pacientes submetidos à anestesia deve ocorrer de maneira seriada, com intervalos de no máximo 5 minutos (ASA, 2020). Além disso, sua mensuração é considerada indispensável para o reconhecimento precoce e tratamento imediato de hipotensão arterial intraoperatório (DUKE-NOVAKOVSKI, CARR, 2015; AWAD et al., 2022), minimizando complicações pós-operatórias e desfechos desfavoráveis (FELISBERTO et al., 2022).

A monitoração da pressão arterial durante o período intraoperatório compreende técnicas invasivas e não invasivas, também chamadas de método direto e indireto, respectivamente (BARTELS et al., 2016). A escolha do método de avaliação baseia-se no estado hemodinâmico e porte do procedimento cirúrgico (AWAD et al., 2022; FELISBERTO et al., 2022). Em animais com algum grau de instabilidade hemodinâmica, comorbidade sistêmica significativa, procedimentos cirúrgicos de longa duração ou com alto risco devem receber monitoração invasiva através da canulação de uma artéria periférica (DUKE-NOVAKOVSKI, CARR, 2015).

As principais artérias periféricas utilizadas em animais são: artéria podal dorsal (Figura 1A e 1B), artéria caudal, artéria auricular (Figura 2A e 2B) e artéria radial, as quais são acessadas e conectadas a um transdutor de pressão no monitor multiparamétrico, mensurando PAS, PAD e PAM, além de fornecer uma curva pletismográfica, ou a um circuito fechado com manômetro aneroide (SAUGEL et al., 2020).

 

Figura 1 – Canulação da artéria podal dorsal direita em um cão. 1A) Introdução do cateter em sentido do fluxo arterial com inclinação de 30º, seguido pelo reposicionamento em ângulo entre 0º e 15º em relação ao metatarso para inserção do cateter em direção a artéria. 1B) Após observado o retorno do sangue arterial em um fluxo adequado, desliza-se suavemente o cateter para dentro do vaso, sem retirar o mandril assegurando no mínimo 1 cm de cateter dentro da artéria puncionada. Fonte: O autor, 2024.

 

Figura 2 – Canulação da artéria auricular direita em um cão. 2A) Introdução do cateter em sentido do fluxo arterial com inclinação entre 0º e 15º em relação à porção posterior do pavilhão auricular.  2B) Após observado o retorno do sangue arterial em um fluxo adequado, desliza-se suavemente o cateter para dentro do vaso, sem retirar o mandril, assegurando no mínimo 1 cm de cateter dentro da artéria puncionada. Fonte: O autor, 2024.

 

Embora o método de monitoração invasiva seja considerado o “padrão-ouro” (FELISBERTO et al., 2022), sua utilização nem sempre é possível, pois demanda treinamento e experiência para obtenção de um acesso arterial patente, principalmente em animais de pequeno porte (< 5 kg) ou hemodinamicamente instáveis hipovolêmicos e hipotensos (TRIM et al., 2017). Nessas situações, a monitoração da pressão arterial intraoperatória deve ser realizada de forma não-invasiva por meio do Doppler vascular (RUFFATO et al., 2015) ou por método oscilométrico de pulso incorporado ao monitor multiparamétrico (BARTELS et al., 2016; FORTIN et al., 2021).

A monitoração da pressão arterial de forma não-invasiva em pacientes anestesiados é o método que mais apresenta variabilidade durante o período intraoperatório entre diferentes marcas (CUNHA et al., 2016). Comumente há perda de sensibilidade e confiabilidade em animais hipotensos, principalmente pelo método oscilométrico de pulso, demonstrando valores superestimados (SKELDING, VALVERDE, 2020).

De maneira geral, a utilização da forma não-invasiva pelo método oscilométrico de pulso em pacientes normotensos ou hipertensos é considerada mais confiável para leitura de valores (BOSIACK et al., 2010). A PAM é a medida que sofre menor viés de alteração quando comparada à PAS e PAD, apresentando maior precisão para orientar e direcionar a necessidade de tratamento durante o período intraoperatório (DUKE-NOVAKOVSKI, CARR, 2015).

Naqueles pacientes com resultados variáveis entre as mensurações oscilométricas ou com hipotensão severa sem a possibilidade do método invasivo, recomenda-se a substituição do método oscilométrico de pulso com Doppler vascular (SHIH et al., 2021), considerado mais confiável de mensuração indireta da pressão arterial em pacientes anestesiados hipotensos, principalmente em animais abaixo de 5 kg (KENNEDY, BARLETTA, 2015; KOO, CARR, 2022).

 

Definição da causa da hipotensão arterial intraoperatória

As causas de hipotensão arterial intraoperatória são multifatoriais e podem ocorrer em qualquer procedimento anestésico, com qualquer paciente, inclusive, durante cirurgias eletivas (KOJIMA et al., 2021). Não é incomum os próprios agentes anestésicos serem responsáveis pela queda no débito cardíaco (DC), gerando hipotensão arterial (SAUGEL et al., 2020). A redução do DC pode ser secundária a diminuição da frequência cardíaca (FC), volume sistólico (VS), resistência vascular sistêmica (RVS) ou a combinação destes fatores (FANTONI, SHIH, 2017; FORTIN et al., 2021). Com a queda na pressão arterial e, consequentemente no DC, às demandas teciduais de oxigênio e nutrientes não são supridas, dando início a atividade anaeróbica (RIVERS et al., 2001; VALVERDE, 2021).

A pressão arterial é um produto do DC e da RVS, ou seja, quedas na pressão arterial estão relacionadas a diminuição do DC ou diminuição da RVS ou redução de ambos (RIVERS et al., 2001). O DC por sua vez, é um produto calculado pela FC multiplicada pelo VS, ou seja, quedas na FC ou no VS ou em ambos significam queda no DC (CONTI-PATARA et al., 2012). O VS por sua vez depende de três fatores: contratilidade cardíaca, pré-carga e pós-carga (RIVERS et al., 2001), portanto alterações hemodinâmicas que resultem em depressão do miocárdio, redução do volume intravascular (pré-carga) e vasodilatação arterial e venosa excessiva (pós-carga) vão culminar na diminuição do VS e, consequentemente no DC e na pressão arterial (Figura 3) (SINGER et al., 2016; EVANS et al., 2021).

Apesar de existirem diversos mecanismos fisiológicos compensatórios para manutenção da pressão arterial e do DC, alguns anestésicos podem inibir esse processo, impedindo a correção autonômica mesmo em casos de hipotensão arterial leves (DUKE-NOVAKOVSKI, CARR, 2015). Estes anestésicos incluem acepromazina (RANGEL et al., 2021), isoflurano (SINCLAIR, DYSON, 2012), pós-indução com propofol (HENAO-GUERRERO, RICCÓ, 2014) e altas doses de opioides potentes (LIZUKA et al., 2013).

A acepromazina é um dos anestésicos mais utilizados em cães e gatos como medicação pré-anestésica, porém, comumente resulta em vasodilatação periférica e reduz a pressão arterial devido ao seu efeito bloqueador de receptores α-1 adrenérgicos (GRUBB et al., 2020). Quando utilizada em doses terapêuticas e em animais normovolêmicos o impacto na pressão arterial é baixo, reduzindo em torno de 10 a 15% a pressão arterial basal (KOJIMA et al., 2021). Contudo, quando administrada em conjunto com outros agentes anestésicos vasodilatadores há potencialização desse efeito e não é incomum o desenvolvimento de quadros de hipotensão arterial intraoperatório (RANGEL et al., 2021).

O isoflurano é o anestésico inalatório mais comumente utilizando na anestesia geral em cães e gatos (LIZUKA et al., 2013) e pode induzir hipotensão arterial de forma dose-dependente devido aos seus efeitos vasodilatadores periféricos e depressores do miocárdio, reduzindo de forma significativa o DC (SINCLAIR, DYSON, 2012). Por não apresentar efeitos analgésicos, a sua associação com opioides como fentanil e remifentanil é comumente empregadas nos procedimentos cirúrgicos (DYSON, 2008). Segundo Lizuka et al. (2013) a combinação entre anestésicos inalatórios e opioides potentes pode ter efeito vasodilatador sinérgico e resultar em hipotensão arterial intraoperatória prolongada.

Apesar do propofol apresentar maior estabilidade hemodinâmica quando comparado aos agentes inalatórios, a redução da pressão arterial após a indução anestésica é um achado comum, podendo reduzir em até 40% o DC em animais hígidos (HENAO-GUERRERO, RICCÓ, 2014). Seus efeitos depressores estão associados a administração rápida, sem respeitar seu tempo de equilíbrio com a biofase ou quando administrado em grandes volumes, resultando em marcante redução da RVS, do retorno venoso pela redução da pós-carga e, consequentemente, hipotensão arterial e inotropismo negativo (CATTAI et al., 2018).

Outras causas importantes e comuns que podem resultar em hipotensão arterial intraoperatória incluem hipoxemia severa (SpO2 < 80%), hipercapnia (EtCO2 > 70 mmHg), bradicardias por reflexos vasovagais, comorbidades sistêmicas, desequilíbrios eletrolíticos e ácidos-bases, hipotermia (< 36,0ºC), ventilação excessiva com pressão positiva, erros de profundidade anestésica, arritmias supraventriculares ou ventriculares prematuras, redução súbita do retorno venoso por perda sanguínea ou hipovolemia por desidratação moderada a severa (CHEN et al., 2007; DUKE-NOVAKOVSKI, CARR, 2015; FORTIN et al., 2021).

 

Tratamento da hipotensão arterial intraoperatória

A partir do momento em que a hipotensão arterial é identificada no transoperatório, determinar a(s) causa(s) primária(s) é fundamental para que o tratamento seja direcionado e eficaz a fim de minimizar seu impacto hemodinâmico e duração (ETEMADI, HOGUE, 2020). A hipotensão arterial intraoperatória pode ser tratada de diversas maneiras, porém, etiologias diferentes requerem tratamentos diferentes (SESSLER, SHORT, 2021). É improvável que o manejo incorreto da hipotensão arterial intraoperatória resulte em melhora da pressão arterial (AWAD et al., 2022).

Comumente, a correção de erros na profundidade anestésica é suficiente para que o sistema nervoso autônomo seja capaz de compensar e melhorar a pressão arterial em quadros de hipotensão arterial intraoperatória leves e em animais hígidos (SINCLAIR, DYSON, 2012). Contudo, alguns anestésicos podem dificultar ou inibir a resposta autonômica resultando na inatividade simpática, tornando necessária a intervenção farmacológica (VALVERDE, 2021).

As estratégias para melhorar a pressão arterial e, consequentemente, o DC, envolvem o aumento da força de contração do miocárdio ou da RVS por meio da administração de fluidos, inotrópicos, vasopressores e anticolinérgicos (AWAD et al., 2022). A escolha do tratamento ou a associação de diferentes métodos para correção é determinada com base na causa primária (Figura 3), principalmente hipovolemia por desidratação ou perdas sanguíneas, inotropismo negativo por ação anestésica, redução da pré-carga ou deficiência na contratilidade cardíaca, vasodilatação excessiva por ação anestésica, hipotermia ou hipercapnia grave e bradicardia por ação vasovagal ou depressão causada por ação anestésica (DUKE-NOVAKOVSKI, CARR, 2015; WEESSELINK et al., 2018).

 

Figura 3 – Abordagem sugerida para o tratamento da hipotensão arterial intraoperatória em cães e gatos baseada na etiologia. Adaptado de Grubb et al., 2020.

 

É importante ressaltas que valores de pressão arterial mais baixos são aceitos em animais anestesiados comparados aos conscientes, tendo em vista a redução do metabolismo celular proporcionado pelos anestésicos gerais (GRUBB et al., 2020). De maneira geral, a pressão arterial em cães e gatos sob estas condições devem ser mantidas acima de 70 – 80 mmHg para PAM e 100 mmHg para PAS (VALVERDE, 2021). No entanto, o aumento da pressão arterial não necessariamente garante melhora da perfusão tecidual (HATTERSLEY et al., 2020). Aumentos excessivos na RVS (pós-carga) não elevam o DC e podem ocasionar no aumento do consumo de oxigênio, principalmente pelo miocárdio, prejudicando ainda mais a perfusão de órgãos apesar da elevação da pressão arterial (RIVERS et al., 2001; SESSLER, SHORT, 2021).

 

Fluidoterapia

A administração de fluidos durante a anestesia é necessária para melhorar o retorno venoso (aumento da pré-carga) e melhorar o DC, além de manter o volume circulante ou repor o volume de líquido perdido por sangramento e evaporação de água das cavidades corporais expostas e dos pulmões (DUKE-NOVAKOVSKI, CARR, 2015; FANTONI, SHIH, 2017). Trata-se de um método terapêutico importante na prevenção e tratamento da hipotensão arterial (GRUBB et al., 2020). Recomenda-se a utilização de cristaloides de reposição isotônica na taxa de 2 a 3 mL/kg/h para gatos e 2 a 6 mL/kg/h para cães hígidos para controle das perdas regulares (FANTONI, SHIH, 2017).

A reposição volêmica em animais hipotensos e fluido-responsivos, principalmente quando a causa é redução da pré-carga, deve ser corrigida por meio da administração de bolus de fluido intravenoso, especialmente de Ringer com Lactato, em volumes de 10 e 20 mL/kg por um período entre 10 e 20 minutos e repetido até que haja melhora da pressão arterial ou diminuição da FC (VALVERDE, 2021). Se após a reposição volêmica o animal ainda se mostrar fluido-responsivo e a meta da pressão arterial ainda não foi atingida, a administração de 4 mL/kg de solução NaCl 7,5% é recomendada (FANTONI, SHIH, 2017).

Cuidados devem ser tomados para evitar a administração excessiva de fluidos, principalmente naqueles animais que não são fluido-responsivos, sob risco de prejudicar a perfusão tecidual por meio do aumento da distância entre o oxigênio e as células além de causar edema intersticial em pulmões, cérebro, rins e trato intestinal, lesão do glicocálix celular, desarranjos eletrolíticos e acidobásicos, exacerbação da hemorragia e coagulopatias por hemodiluição (MONNET et al., 2016; FANTONI, SHIH, 2017).

Felinos hipotensos e hipotérmicos dificilmente responderão a fluidoterapia agressiva e as chances prejudicar ainda mais o DC são altas (KELM et al., 2015). Uma vez que a pressão arterial tende a responder ao aquecimento corporal, recomenda-se retirar o felino do estado de hiportermia antes de iniciar a reposição volêmica para evitar sobrecarga hídrica e vasoconstrição (KELM et al., 2015).

A fluido-responsividade pode ser determinada pelo desafio volêmico, frequentemente indicado para o tratamento da hipotensão perioperatória (MONNET et al., 2016). Outras técnicas também podem ser utilizadas para avaliar a fluido-responsividade, como a variação da pressão de pulso (∆PP) ou variação de pressão sistólica (∆PS) mensuradas a partir da monitoração da pressão arterial invasiva com transdução da informação ao monitor multiparamétrico e sob ventilação com pressão positiva controlada mecanicamente, sendo considerados fluido-responsivos aqueles animais que apresentarem o ∆PP acima de 15% ou ∆PS acima de 10% (SANT’ANA et al., 2012; FANTONI, SHIH, 2017). O DC pode ser mensurado rotineiramente pela ecocardiografia ou fluxo da veia cava, auxiliando na avaliação de fluido-responsividade (ORSO et al., 2020).

 

Anticolinérgicos

Os agentes anticolinérgicos, como a atropina, escopolamina e glicopirrolato, são utilizados para reversão de bradicardia colinérgica, ou seja, bradicardia mediada por estimulação vagal (DUKE-NOVAKOVSKI, CARR, 2015). São fármacos que atuam bloqueando receptores muscarínicos na junção pós-sináptica ganglionar nas áreas do coração inervadas pelo nervo vago (BISHARA, 2023).

Durante os períodos de bradicardia exagerada, o tempo diastólico apresenta-se extensivamente elevado e, por consequência, a PAD e PAM reduzem significativamente enquanto a PAS pode permanecer dentro de valores aceitáveis, uma vez que o tempo de sístole e a contratilidade permanecem regulares (BEST, 2001; BROCK, 2001). Todavia, uma PAS normal com PAM e PAD diminuídas podem indicar que a FC do animal anestesiado esteja fisiologicamente muito baixa (DUKE-NOVAKOVSKI, CARR, 2015).

Indica-se a utilização de agente anticolinérgico para tratamento da hipotensão quando a PAM e a FC encontram-se extremamente baixas (BROCK, 2001). Apesar da FC de animais anestesiados ser mais baixa quando comparada à animais acordados, estes normalmente encontram-se normotensos ou até hipertensos (DUKE-NOVAKOVSKI, CARR, 2015). Isso ocorre tanto pela redução do requerimento metabólico quanto pela vasoconstrição após o uso de α-2 adrenérgicos e opioides (DUKE-NOVAKOVSKI, CARR, 2015). Nesses casos, a bradicardia que não está acompanhada pela redução da PAM, na maior parte das vezes, não precisa ser tratada ou corrigida (BEST, 2001).

A bradicardia reflexa pode ocorrer com o aumento do tônus simpático ocasionado por estímulos nociceptivos transoperatórios ou hipercapnia excessiva (DUKE-NOVAKOVSKI, CARR, 2015). Nesses casos, após a administração de um anticolinérgico, não é incomum o animal sair da bradicardia para uma taquicardia e hipertensão de forma muito rápida e, após um período de aproximadamente 15 minutos, retornar ao quadro de bradicardia (ARAUJO et al., 2011; DUKE-NOVAKOVSKI, CARR, 2015).

O sulfato de atropina é o agente anticolinérgico mais utilizado para o tratamento de hipotensão secundária a bradicardia pelo seu rápido início de ação e duração de aproximadamente 20 a 40 minutos (BROCK, 2001; DUKE-NOVAKOVSKI, CARR, 2015). Doses de 0,02 (dose baixa) a 0,04 (dose alta) mg/kg por via intravenosa são comumente indicadas (VÉZINA-AUDETTE et al., 2019).

Quando a bradicardia transanestésica é secundária a vasoconstrição causada por anestésicos, como α-2 adrenérgicos, na maioria das vezes sua utilização é contraindicada uma vez que pode resultar em hipertensão intensa e taquicardia excessiva, sendo extremamente prejudicial ao DC (BEST, 2001). A dose baixa de atropina deve ser evitada no tratamento de bloqueios atrioventriculares de qualquer grau secundários ao α-2 adrenérgicos sob o risco de efeito paradoxal e aumento na frequência dos bloqueios (BROCK, 2001).

Nessas situações, a escopolamina nas doses de 0,1 a 0,2 mg/kg por via intravenosa pode ser utilizada, uma vez que apresenta efeito menos intenso e mais curto, podendo ser incluída no protocolo de tratamento da hipotensão secundária a bradicardia (ARAUJO et al., 2011). O glicopirrolato também apresenta efeito menos intenso no aumento da FC comparado a atropina, porém, por um período maior, podendo durar de 1 a 2 horas. A dose recomendada é de 0,005 a 0,01 mg/kg por via intravenosa (DUKE-NOVAKOVSKI, CARR, 2015; HOWARD et al., 2017).

 

Simpatomiméticos

Drogas simpatomiméticas tem como objetivo melhorar a perfusão tecidual através de efeitos inotrópicos (aumento na força de contratilidade), vasopressores (vasoconstrição) ou ambos (CHOW et al., 2020; VALVERDE, 2021). Raramente há indicação do seu uso de forma isolada e comumente recomenda-se estar associado a outras terapias para o tratamento de hipotensão arterial, especialmente a fluidoterapia e reposição volêmica (CAMPBELL, SMRCKA, 2018; VALVERDE, 2021).

As catecolaminas apresentam ação rápida com duração de apenas 2 a 3 minutos, sendo raramente administradas na forma de bolus, dando preferência no uso por infusão contínua intravenosa (DUKE-NOVAKOVSKI, CARR, 2015). Em casos de hipotensão grave o bolus pode ser utilizado para resolução rápida do quadro enquanto a infusão contínua é preparada para dar sequência ao tratamento (KOJIMA et al., 2021). Entretanto, a utilização em bolus deve ser realizado sob extrema cautela e monitorada a todo momento sob risco de efeitos vasoconstritores excessivos, disritmias e taquiarritmias, isquemia de órgãos, acidose metabólica e insuficiência cardíaca congestiva direita (DUKE-NOVAKOVSKI, CARR, 2015; ANNANE et al., 2018).

 

Inotrópicos e vasopressores mistos

Drogas simpatomiméticas de ação mista são frequentemente utilizadas no período perioperatório (DUKE-NOVAKOVSKI, CARR, 2015). Além de fornecerem aumento inotrópico, dependendo da dose utilizada é observado também efeito cronotrópico positivo e ação vasoconstritora (GREGORY et al., 2021).

A dopamina é uma catecolamina endógena precursora da adrenalina e noradrenalina. Seus efeitos dopaminérgicos estimulam receptores dopaminérgicos, α-adrenérgicos e β-adrenérgicos de acordo com a taxa de infusão utilizada, podendo ser utilizada como inotrópico ou vasopressor (CHEN et al., 2007). São recomendadas taxas de infusão entre 1 e 15 µg/kg/min, sendo considerada dose baixa entre 1 e 4 µg/kg/min (efeitos dopaminérgicos com vasodilatação renal), dose intermediária entre 5 e 10 µg/kg/min (efeitos β1-adrenérgicos com inotropismo e cronotropismo positivo) e dose alta entre 10 e 15 µg/kg/min (efeitos α1-adrenérgicos com vasoconstrição periférica) (WEESSELINK et al., 2018; SKELDING, VALVERDE, 2020).

Apesar dos seus evidentes efeitos no aumento do DC, RVS, FC e PAM, ao longo dos anos a dopamina vem sendo substituída pela noradrenalina, dobutamina e vasopressina, deixando de ser um simpatomimético de primeira escolha para o tratamento da hipotensão perioperatória (CAMPBELL et al., 2018). Estudos também apontam que a acepromazina pode reduzir o efeito vasopressor da dopamina quando associada a isoflurano (MONTEIRO et al., 2007).

A efedrina estimula a liberação de noradrenalina endógena, produzindo efeitos simpatomiméticos em ambos os receptores α e β adrenérgicos, isto é, produzindo tanto ação vasoconstritora quanto inotrópica, melhorando a pressão arterial e aumentando o DC (VALVERDE, 2021). É considerada a droga ideal para correção de hipotensão leve durante o transoperatório, principalmente aquelas causadas pela associação de acepromazina e isoflurano (CHEN et al., 2007; SINCLAIR, DYSON, 2012). Sua utilização pode ser na forma de bolus, na dose de 0,02 a 0,2 mg/kg por via intravenosa. É possível, embora não seja necessário, utilizar a efedrina em infusão contínua na taxa de 1 a 5 µg/kg/min (DUKE-NOVAKOVSKI, CARR, 2015). A eficácia da efedrina é reduzida conforme as reservas de noradrenalina vão esgotando, tendo seu efeito de bolus subsequentes diminuídos (GREGORY et al., 2021).

A noradrenalina é o simpatomimético de ação mista mais útil para o tratamento da hipotensão arterial perioperatória, atuando predominantemente como agonista dos receptores adrenérgicos α-1, α-2 e β-1 (KOJIMA et al., 2021). É uma droga que não tem indicação de uso em bolus, restringindo-se apenas a infusões contínuas. Taxas de 0,1 a 1 µg/kg/min estimulam receptores β-1, promovendo aumento do DC por ação inotrópica sem efeito cronotrópico (DUKE-NOVAKOVSKI, CARR, 2015; SÜDFELD et al., 2017). Taxas mais altas entre 1 e 2 µg/kg/min promovem potente vasoconstrição por ação α-1 adrenérgica, podendo reduzir a perfusão de fígado, rins, músculos e pele, reservando-se para quadros de hipotensão grave ou choque distributivo (GREGORY et al., 2021).

Segundo Kojima et al. (2021) na hipotensão grave causada por concentrações excessivas de anestésicos inalatórios, a vasoconstrição gerada pela noradrenalina não é exagerada, podendo ser utilizada como método de correção da pressão arterial. A noradrenalina aumenta o DC e a PAM sem causar excessiva vasoconstrição e aumento do consumo de oxigênio ou do lactato, sendo assim, pode ser considerada o simpatomimético de primeira escolha para o tratamento da hipotensão perioperatória associada à reposição volêmica (SÜDFELD et al., 2017; SHABANA et al., 2020; KOJIMA et al., 2021).

 

Inotrópicos

Os inotrópicos são especialmente eficazes para o tratamento da hipotensão perioperatória quando acompanhados de fluidoterapia e reposição volêmica (KOJIMA et al., 2021). Diversos agentes anestésicos promovem inotropismo negativo e podem levar a hipotensão arterial. Nesses casos, a utilização de inotrópicos positivos é útil para incrementar a contratilidade miocárdica perioperatória (SHABANA et al., 2020). Além do mais, há evidências que indicam o uso de inotrópicos em pacientes que apresentam diminuição da fração de ejeção e fração de encurtamento, avaliados por ecocardiografia durante o período pré-anestésico (CAMPBELL, SMRCKA, 2018).

Drogas exclusivamente inotrópicas são frequentemente indicadas para animais com diagnóstico prévio ao procedimento cirúrgico de contratilidade miocárdica insuficiente (HUUSKONEN et al., 2022). A dobutamina é o principal fármaco inotrópico utilizado para promover aumento imediato da contração do miocárdio, elevando a fração de ejeção e de encurtamento através da estimulação de receptores β-1 adrenérgicos (SHIH et al., 2021). É utilizada exclusivamente sob infusão contínua nas taxas de 2 a 10 µg/kg/min para correção do volume sistólico de animais com alterações na função cardíaca ou pela ação de anestésicos (DUKE-NOVAKOVSKI, CARR, 2015; AMADO et al, 2018).

A dobutamina raramente promove aumento da FC e vasoconstrição, inclusive, melhora a perfusão cardíaca por causar vasodilatação coronariana (AMADO et al., 2018). Além disso, em associação com a noradrenalina, demonstra benefícios no aumento do DC sem elevar o consumo de oxigênio pelo miocárdio e com poucos riscos de arritmias cardíacas (SILVERSTEIN, BEER, 2015; GREGORY et al., 2021). Animais que respondem à dobutamina com taquicardia podem ser sensíveis aos seus efeitos, portanto, recomenda-se a utilização em taxas de infusão menores (DUKE-NOVAKOVSKI, CARR, 2015).

Uma desvantagem do uso da dobutamina é sua possível dependência para manutenção do DC no período pós-operatório e, por conta disso, sua retirada deve ocorrer de forma gradual e lenta, muitas vezes iniciada no próprio procedimento cirúrgico (TARIQ, ARONOW, 2015). Reduções na taxa de infusão em escalas de 2,5 µg/kg/min podem ser realizadas de forma gradativa e se a pressão arterial for mantida por um período de 10 minutos, nova redução pode ser realizada (HUUSKONEN et al., 2022).

Por isso a dobutamina é mais indicada quando sua utilização for fundamental para doentes cardíacos ou naqueles animais que serão encaminhados para unidade de terapia intensiva ou semi-intensiva após o procedimento cirúrgico. Animais com diminuição de contratilidade cardíaca pela ação de anestésicos, possivelmente terão mais benefícios com o uso da noradrenalina (WEESSELINK et al., 2018).

 

Vasopressores

Os vasopressores aumentam a RVS por vasoconstrição e, por consequência, aumentam a pressão arterial (SILVERSTEIN, BEER, 2015). Entretanto, apesar do aumento da pressão arterial, na maioria das vezes o DC diminui em consequência da constrição extrema, especialmente em doses elevadas (THIELE et al., 2011). Comumente os vasopressores aumentam o metabolismo celular e, portanto, o requerimento de oxigênio. Dessa forma, os vasopressores tendem a não oferecer tantos benefícios na relação entre o DC e o consumo de oxigênio (SHABANA et al., 2020).

Por este motivo, são drogas indicadas exclusivamente em choques distributivos, principalmente quando refratários aos tratamentos com inotrópicos e vasopressores mistos, priorizando sua administração pelo menor período possível (CHOW et al., 2020). Para proporcionar maior segurança e melhor resultando, a combinação de vasopressores e fluidoterapia deve ser instituída simultaneamente (VALVERDE, 2021).

Nos casos em que o animal permanece durante infusões prolongadas com vasopressores, a retirada deve ocorrer de forma lenta e gradual. Isso acontece por conta de pressão arterial excessivamente elevadas, forçando a saída de líquido do meio intracelular para o compartimento extracelular, exacerbando o estado hipovolêmico. Por conta disso, o animal torna-se dependente de vasopressores e pode ser prejudicial (TRUSE et al., 2019). Nessa situação, aumentar a fluidoterapia é fundamental para que a redução gradativa de vasopressores aconteça (DUKE-NOVAKOVSKI, CARR, 2015; CHOW et al., 2020).

A vasopressina atua em receptores específicos de vasopressina e, por este motivo, pode ter efeito mesmo quando o tratamento com catecolaminas é insuficiente para manutenção da pressão arterial em animais com choque distributivo (SILVERSTEIN, BEER, 2015). Em contrapartida, seu potente efeito vasoconstritor pode prejudicar a perfusão das extremidades de membros e das vísceras. Portanto, a vasopressina deve ser utilizada na taxa de infusão efetiva mais baixa e pelo período mais curto possível (DUKE-NOVAKOVSKI, CARR, 2015).

Uma vantagem da vasopressina é que pode ser utilizada em combinação com a dobutamina em animais extremamente debilitados (ANNANE et al., 2018). A dose em bolus é de 0,2 a 0,6 UI/kg e sua taxa de infusão contínua varia de 0,002 a 0,006 UI/kg/min (BACKER, SCOLLETA, 2012). Devido às suas ações se concentrarem em receptores V1, a vasopressina não resulta em arritmias e pode aumentar a pressão arterial mesmo na presença de acidemia grave (HOLT, HASPEL, 2010).

 

Considerações finais

 

A hipotensão arterial intraoperatória é uma intercorrência anestésica que requer intervenção imediata. Para isso, a utilização de meios de monitoração da pressão arterial são fundamentais para o reconhecimento precoce. Diversas causas podem levar à queda da pressão arterial e, consequentemente, do débito cardíaco. Portanto, é necessário entender que diferentes etiologias causadoras de hipotensão arterial necessitam diferentes abordagens terapêuticas e, por sua vez, entendimento amplo do organograma envolto na manutenção do débito cardíaco e da pressão arterial.

 

Conflitos de interesse

 

O autor declara não haver conflito de interesses.

 

Contribuição do autor

 

Otávio Henrique de Melo Schiefler – ideia original, leitura e interpretação da literatura e escrita.

 

Referências bibliográficas

 

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Recebido em 24 de setembro de 2024

Retornado para ajustes em 7 de fevereiro de 2025

Recebido com ajustes em 10 de fevereiro de 2025

Aceito em 11 de fevereiro de 2025