Influência do escore de condição corporal sobre a taxa de concepção em vacas Nelore submetidas a protocolo de Inseminação Artificial em Tempo Fixo (IATF)

Revista Agrária Acadêmica

agrariacad.com

doi: 10.32406/v9n2/2026/1-10/agrariacad

 

Influência do escore de condição corporal sobre a taxa de concepção em vacas Nelore submetidas a protocolo de Inseminação Artificial em Tempo Fixo (IATF). Influence of body condition score on conception rate in Nelore cows subjected to a Fixed-Time Artificial Insemination (FTAI) protocol.

 

Wilton dos Santos Marinho1, Ádria Fernanda Ferreira de Moraes2, Charlene Karollaine de Castro Dourado3, Clender Freitas Araújo1, Allison Jordão Prado2, Yana Eliza Feitosa de Almeida1, Aline Pacheco4, Kedson Alessandri Lobo Neves4

 

1- Discente do Curso de Graduação em Zootecnia – Universidade Federal do Oeste do Pará – UFOPA , Campus Tapajós/PA – Brasil.
2- Discente da Pós-Graduação em Ciência Animal – Universidade Federal do Oeste do Pará – UFOPA , Campus Tapajós/PA – Brasil.
3- Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Biociências – Universidade Federal do Oeste do Pará – UFOPA , Campus Tapajós/PA – Brasil.
4- Docente do Curso de Graduação em Zootecnia – Universidade Federal do Oeste do Pará – UFOPA , Campus Tapajós/PA – Brasil. E-mail: aline.pacheco@ufopa.edu.br

 

Resumo

 

O estado nutricional das vacas de corte no pré e pós-parto é um dos principais indicadores de eficiência da estação de monta, pois do ponto de vista reprodutivo, a baixa taxa de serviço e concepção está diretamente ligada a condição corporal que esses animais se encontram. O objetivo deste estudo foi avaliar a influência do escore de condição corporal (ECC) sobre a taxa de concepção em vacas Nelore submetidas a protocolo de Inseminação Artificial em Tempo Fixo (IATF). Foram utilizadas 272 fêmeas da raça Nelore, classificadas em três grupos de acordo com o ECC: alto (>3,5), médio (3,0-3,25) e baixo (2,25-2,75). Todas as fêmeas foram submetidas ao mesmo protocolo hormonal de IATF. Os resultados demonstraram que o ECC exerce influência significativa (p<0,001) na taxa de concepção, sendo que vacas com ECC médio (3,0-3,25) apresentaram as maiores taxas de prenhez (41,2%), seguidas pelo grupo de ECC alto (25,7%) e, por fim, o grupo de ECC baixo (15,8%). Além disso, a categoria animal também impacta os resultados, com vacas multíparas apresentando taxas superiores (52,2%) em relação às primíparas (25,9%) e secundíparas (21,9%). Conclui-se que o ECC é um fator determinante no desempenho reprodutivo, sendo essencial seu monitoramento associado a estratégias nutricionais e de manejo, visando maximizar os índices de concepção e a eficiência dos programas reprodutivos que utilizam IATF.

Palavras-chave: ECC. Nutrição animal. Prenhez.

 

 

Abstract

 

The nutritional status of beef cows before and after calving is one of the main indicators of breeding season efficiency, since from a reproductive point of view, low service and conception rates are directly linked to the body condition of these animals. The objective was to evaluate the influence of body condition score (BCS) on conception rate in Nellore cows submitted to a Fixed-Time Artificial Insemination (FTAI) protocol. Two hundred and seventy-two Nellore females were used, classified into three groups according to BCS: high (>3.5), medium (3.0-3.25), and low (2.25-2.75). All females underwent the same FTAI hormonal protocol. The results demonstrated that BCS exerts a significant influence (p<0.001) on conception rate, with cows with medium BCS (3.0-3.25) showing the highest pregnancy rates (41.2%), followed by the high BCS group (25.7%) and, finally, the low BCS group (15.8%). Furthermore, the animal category also impacts the results, with multiparous cows showing higher rates (52.2%) compared to primiparous (25.9%) and secundiparous (21.9%) cows. It is concluded that BCS is a determining factor in reproductive performance, and its monitoring, associated with nutritional and management strategies, is essential to maximize conception rates and the efficiency of reproductive programs.

Keywords: BCS. Animal nutrition. Pregnancy.

 

 

Introdução

 

O Brasil ocupa uma posição de destaque no cenário global da pecuária. De acordo com a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (ABIEC, 2023), o país detém o segundo maior rebanho bovino do mundo, destacando-se com 27,7% das exportações mundiais, mantendo-se na posição de maior rebanho de interesse comercial. Estima-se que o país possua 238,6 milhões de cabeças, um crescimento de 1,6 % em relação ao ano anterior (IBGE, 2024). Em 2024, o Brasil registrou um recorde histórico no abate de bovinos, totalizando 39,27 milhões de cabeças, um aumento de 15,2% em relação a 2023. Esse crescimento foi impulsionado pela alta de 19,0% no abate de fêmeas, acompanhando as exportações de carne bovina in natura, que atingiram 2,55 milhões de toneladas (IBGE, 2025).

Em 2024, a produção de carne bovina em peso carcaça alcançou 10,2 milhões de toneladas, um aumento de 14,2% em relação ao ano anterior (IBGE, 2025). Esse desempenho expressivo pode ser justificado pelo vasto território com extensas áreas de pastagem, o que favorece a criação de gado com menor custo. Além disso, a pecuária brasileira tem investido em tecnologias de produção, melhoramento genético e práticas sustentáveis para aumentar a produtividade e a qualidade da carne bovina.

A pecuária a pasto no Brasil, em especial na região Amazônica é uma atividade praticada por grandes, médios e pequenos produtores e tem grande importância para manutenção e desenvolvimento da economia regional (NEVES et al., 2014). Atividade esta que contribui para alavancar e colocar o rebanho amazônico ao posto de maior rebanho bovino do Brasil, com atuais 93 milhões cabeças de gado (IBGE, 2024).

Nesse contexto, a fertilidade do rebanho bovino assume um papel econômico crucial, principalmente na fase de cria, onde a produtividade está diretamente relacionada à eficiência reprodutiva das fêmeas, garantindo a produção de um bezerro por ano (PFEIFER, 2021). No entanto, a baixa eficiência reprodutiva é um dos principais desafios nos sistemas de produção pecuário da região Amazônica (BARUSELLI et al., 2004; MINERVINO et al., 2019). Para superar essa limitação, torna-se essencial a adoção de técnica voltadas para o monitoramento do estado nutricional e o desempenho reprodutivo dos rebanhos.

Compreender a relação entre nutrição e reprodução é essencial para tomar decisões estratégicas que visam melhorar a eficiência produtiva de um rebanho. O conhecimento dessas interações possibilita o desenvolvimento de estratégias para a otimização dos programas de melhoramento genético e o aumento na eficiência reprodutiva dos animais (FRANCO et al., 2016).

Visto que a condição física do animal exerce uma influência significativa na fisiologia da função reprodutiva (TAROUCO et al., 2020; SANTOS, 2016), o escore de condição corporal (ECC) surge como uma ferramenta simples e prática que pode ser muito útil para a avaliação dessas reservas corporais em vacas de cria (LIMA; FONTOURA JÚNIOR, 2020). Esse método subjetivo permite estimar as reservas energéticas e massa muscular através da avaliação visual e palpação de determinadas regiões no corpo do animal (SILVEIRA et al., 2015).

Embora diversos fatores ambientais possam interferir na reprodução bovina, o uso de biotecnologias reprodutivas tem apresentado resultados positivos em propriedades de cria (TAROUCO et al., 2020). Entre essas biotecnologias, a Inseminação Artificial em Tempo Fixo (IATF) tem se consolidado como uma ferramenta promissora que pode melhorar significativamente os índices reprodutivos de vacas de corte, desde que aliada a um planejamento nutricional que mantenha boas condições corporais para otimizar seus resultados (FERREIRA et al., 2013).

Partindo dos pressupostos supracitados o presente estudo teve como objetivo avaliar o efeito do escore de condição corporal sobre as taxas de concepção de vacas da raça Nelore submetidas à Inseminação Artificial em Tempo Fixo, em Mojuí dos Campos, no estado do Pará, Brasil.

 

Material e métodos

 

O experimento foi realizado em uma propriedade no município de Mojuí dos Campos, Pará, Brasil (2º 41’ 14’’ S e 54º 37’ 32’’ W). O clima de Mojuí dos Campos é zonal equatorial úmido e possui um índice pluviométrico, com uma média anual em torno de 2.000 mm, com alta umidade do ar em quase todo o ano e com três meses secos, as temperaturas são elevadas e conta com médias anuais em torno de 30º C, para as máximas de 36° C e para mínimas de 22,6º C (FAPESPA, 2023).

O período experimental foi conduzido nos anos de 2024 e 2025, utilizando 272 fêmeas da raça Nelore (Bos taurus indicus) com ausência de sinais clínicos de doença infecciosa ou metabólica, e de alterações dos órgãos genitais ao exame ginecológico. Como rotina de manejo sanitário as fêmeas passaram por exames de Brucelose e Tuberculose, conforme as diretrizes do Programa Nacional de Controle e Erradicação da Brucelose e Tuberculose Animal (PNCEBT) do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA, 2006), sendo todas negativas para ambas as doenças.

As fêmeas aptas a participar do experimento foram classificadas de acordo com a categoria reprodutiva em: primíparas (fêmeas que estão no seu primeiro parto); secundíparas (fêmeas que estão no seu segundo parto); e multíparas (fêmeas que já tiveram mais de duas crias). Simultaneamente, também foi realizada a avaliação do escore de condição corporal (ECC), por um único avaliador treinado, para isso, utilizou-se a escala de 1 a 5 (sendo 1 animal Caquético ou emaciado e 5 Obeso), de acordo com Machado et al. (2008). Todas as fêmeas foram mantidas em regime de alimentação a pasto, em áreas com Brachiaria brizantha cv. Marandu e Panicum maximum cv. Mombaça. Além disso, foi fornecido suplementação mineral e água ad libitum.

Os animais foram previamente vermifugados e identificados no início do experimento por meio de brincos nas orelhas e marcação a ferro quente para controle zootécnico. Durante todo o experimento, o manejo sanitário foi mantido, e todas as atividades foram conduzidas com foco no bem-estar animal. Para minimizar o estresse, o manejo foi realizado de forma tranquila, sem gritos ou violência, considerando que a liberação do hormônio cortisol pode reduzir a taxa de prenhez.

A avaliação do ECC foi realizada por apenas um técnico no início do protocolo (D0) de acordo com os critérios descritos por Machado et al. (2008), conforme Tabela 1. Os animais foram divididos em três grupos experimentais de acordo com o ECC: A (Alto), B (Médio) e C (Baixo). Como critério de estratificação dos grupos a serem avaliados utilizou-se o ECC, com incremento de 0,25 de intervalo. Foram incluídas no grupo A: fêmeas com ECC maior que 3,5 (77/272), grupo B: fêmeas com ECC entre 3,0 e 3,25 (143/272), grupo C: fêmeas com ECC entre 2,0 e 2,75 (52/272).

Antes do início do protocolo de IATF, foi administrado 2 mL da vacina reprodutiva (VR) (Vacina Vac-Cherry®, GlobalGen, São Paulo, Brasil). Todos os grupos foram submetidos ao mesmo protocolo de sincronização para IATF conforme representado na Figura 1.

No dia 0 (D0), foi inserido um implante intravaginal de progesterona (Repro one® 0,5 g, GlobalGen, São Paulo, Brasil) e 2mg de benzoato de estradiol (BE) (Syncrogen®, GlobalGen, São Paulo, Brasil) administrado por via intramuscular (IM) profunda, usando agulha 18G e seringas de 5mL. Ainda no D0 foi administrado a segunda dose da VR, 2mL (Vacina Vac-Cherry®, GlobalGen, São Paulo, Brasil).

No dia 8 (D8) às 08h ocorreu a retirada do implante intravaginal de progesterona, em seguida realizada aplicação de 1,0mg de cipionato de estradiol (Cipion®, GlobalGen, São Paulo, Brasil), 300UI de Gonadotrofina Coriônica Equina – ECG (eCGen®, GlobalGen, São Paulo, Brasil) e 0,53mg de Prostaglandina (PGF2α) (Induscio®, GlobalGen, São Paulo, Brasil) ambos por via IM profunda usando agulha 18G e seringas de 5mL; além disso, também foi feita a marcação dos animais na região entre a tuberosidade sacral e a inserção da cauda com spray de tinta colorida para determinação da expressão do estro.

No D10 as fêmeas foram inseminadas, a partir das 14 horas, 48 a 54 horas após a retirada do dispositivo intravaginal (D8). Nos animais que não apresentarem manifestação de estro foi aplicado 2,5ml de GnRH (Gonaxal®, Biogénesis Bagó, Curitiba, Brasil). No momento da inseminação, o descongelamento do sêmen foi realizado a 37ºC por 30 segundos, com o auxílio do descongelador. Os animais foram inseminados com sêmen congelado de diferentes touros da raça Nelore provenientes de centrais de inseminação e com qualidade espermática comprovada.

 

Tabela 1 – Classificação de escore de condição corporal em vacas.
Classificação
Descrição
Escore 1
Os processos transversos e os processos espinhosos proeminentes e visíveis. Há total visibilidade das costelas, a cauda está totalmente inclusa dentro do coxal e os íleos e os ísquios mostram-se expostos. Há atrofia muscular pronunciada.
Escore 2
Os ossos salientes, com certa proeminência dos processos dorsais e dos íleos e dos ísquios. As costelas têm pouca cobertura, os processos transversos permanecem visíveis e a cauda está menos inclusa nos coxais, pele firmemente aderida ao corpo.
Escore 3
Há suave cobertura muscular com grupos de músculos à vista. Os processos dorsais estão pouco visíveis; as costelas, quase cobertas; e os processos transversos, pouco aparentes. Ainda não há camadas de gordura; a superfície do corpo está macia e a pele está flexível.
Escore 4
Há boa cobertura muscular, com alguma deposição de gordura na inserção da cauda. As costelas e os processos transversos estão completamente cobertos. As regiões individuais do corpo ainda são bem definidas, embora as partes angulares do esqueleto pareçam menos identificáveis.
Escore 5
Todos os ângulos do corpo estão cobertos, incluindo as partes salientes do esqueleto, onde aparecem camadas de gordura. As partes individuais do corpo ficam mais difíceis de serem distinguidas e o animal tem aparência arredondada. Este estado só é aceitável para animais terminados, prontos para o abate.

 

O diagnóstico de gestação (DG) foi feito 30 dias após a IATF (D30) por meio da ultrassonografia transretal utilizando-se um transdutor linear (DP-50 Vet, Mindray, China), considerando como diagnóstico positivo de gestação a presença de uma vesícula embrionária viável, com a presença de batimentos cardíacos. Neste momento, as fêmeas diagnosticadas como vazias foram ressincronizadas com o mesmo protocolo utilizado na primeira IATF, culminando em um intervalo de 40 dias entre as inseminações. Foi realizada uma segunda ressincronização, fazendo com que em um intervalo de 80 dias, fossem realizadas três IATFs.

As informações individuais de cada matriz como ECC, categoria, sêmen e DG foram planificados no Excel, para controle e análise. As análises estatísticas foram realizadas utilizando-se o teste do Qui-quadrado e Wilcoxon, ao nível de significância de 5%, utilizando-se o SAS studio. As taxas de gestação foram expressas em frequências absolutas e percentuais simples.

Figura 1 – Protocolo de sincronização feito no estudo. BE: benzoato de estradiol; CE: cipionato de estradiol; DG: diagnóstico de gestação; ECG: gonadotrofina coriônica equina; IATF: inseminação artificial em tempo fixo; P4: progesterona; PGF2α: prostaglandina; VR: vacina reprodutiva; GnRH: hormônio liberador de gonadotrofinas.

 

Resultados e discussão

 

Os resultados obtidos nesse trabalho demonstram que houve diferença significativa (p<0,001) pelo teste qui-quadrado para a taxa de prenhez de acordo com o ECC, apontando que o ECC tem influência sobre a taxa de prenhez em vacas submetidas ao protocolo de IATF, assim como relatado nos trabalhos de Ferreira et al. (2013), Torres et al. (2015), Costa et al. (2019) e Padilha e Guerios (2023). Como demonstrado na Tabela 2, as fêmeas do grupo B com o ECC médio (3,0 a 3,25) apresentaram uma maior taxa de concepção (41,2%), seguido pelas fêmeas do grupo A de ECC (>3,5) com uma taxa (25,7%) e as fêmeas do grupo C (2,25 a 2,75) que tiveram a menor taxa de concepção (15,8%).

 

Tabela 2 – Taxa de prenhez em função do ECC em vacas Nelore submetidas ao protocolo de IATF.
Grupos de ECC
Nº de vacas prenhas
% de vacas prenhas
Nº de vacas vazias
% de vacas vazias
Alto (A) (>3,5)
70
25,7%
7
2,6%
Médio (B) (entre 3,0 e 3,25)
112
41,2%
31
11,4%
Baixo (C) (entre 2,25 e 2,75)
43
15,8%
9
3,3%
Total
225
82,7%
47
17,3%

 

Observou-se também que a distribuição das prenhezes demonstrou a ocorrência de uma curva de resposta em sino, ou seja, o desempenho reprodutivo tende a cair nos extremos de condição corporal. Vacas com ECC inferior a 2,75 e superior a 3,75 apresentaram taxas reduzidas de prenhez, assim como vacas com ECC próximo a 3 apresentaram percentuais maiores de prenhez (Gráfico 1).

Esses resultados corroboram com o descrito por Oliveira et al. (2022), onde observaram que vacas com ECC ≤ 2,75 apresentaram uma taxa 5,74% maior de animais vazios após a IATF. Já aquelas com ECC > 2,75 tiveram uma taxa de prenhez 25% superior em relação ao número de vacas que não emprenharam. O aumento na taxa de concepção associada ao ECC próximo de 3 relatada no presente trabalho, concordam com os resultados obtidos em estudo realizado por Ouverney et al. (2020), que constataram que vacas com ECC ≥ 2,75 apresentaram melhores taxas de prenhez.

Essa relação é fisiologicamente justificável, visto que vacas muito magras apresentam maior risco de anestro, enquanto vacas excessivamente gordas podem sofrer distúrbios metabólicos e hormonais que comprometem a ovulação.

 

Gráfico 1 – Distribuição da taxa de prenhez (P) e de vacas não gestantes (V) segundo o ECC.

 

Quando se avalia a ordem de parto das fêmeas estudadas observa-se que vacas multíparas apresentaram uma taxa de prenhez significativamente maior (52,2%) em comparação com primíparas (25,9%) e secundíparas (21,9%) no protocolo de IATF, corroborando a hipótese de que a categoria reprodutiva influência na concepção de vacas Nelore. Essa diferença foi estatisticamente significativa (p < 0,001) pelo teste chi-quadrado, reforçando a robustez dos dados.

O ECC, embora variando pouco entre os grupos (3,06 a 3,21), também apresentou diferença significativa (p = 0,015), sugerindo que um melhor estado corporal pode estar associado ao maior sucesso reprodutivo das multíparas. Esses resultados estão alinhados aos encontrados por Medalha et al. (2014) que puderam observar que fêmeas multíparas apresentaram uma maior taxa de gestação em relação às primíparas. Da mesma forma, Marques et al. (2012) observaram que as taxas de prenhez à ressincronização de vacas primíparas e secundíparas (34,9%; 136/390) comparadas a taxa de vacas pluríparas (52,7%; 1.346/2.554) e novilhas (52,6%; 90/171), também foram influenciadas pela categoria animal (Tabela 3).

O índice de concepção observado nas vacas primíparas e secundíparas, pode estar relacionado ao fato destes animais ainda estarem em desenvolvimento e demandarem mais energia para o seu crescimento e mantença, e também pelo estresse ocasionado pela presença do bezerro. No entanto, há poucos trabalhos que comparam separadamente o efeito da categoria animal sobre as taxas de concepção. Tais evidências reforçam a importância de considerar a categoria animal no manejo reprodutivo, especialmente em programas de IATF, para otimizar os resultados.

 

Tabela 3 – Taxa de prenhez de acordo com a categoria das vacas Nelore submetidas ao protocolo de IATF.
Categoria
Número de vacas Prenhas
ECC
% de prenhez
Primíparas
58
3,12 ± 0,34
25,9%
Secundíparas
50
3,06 ± 0,20
21,9%
Multíparas
117
3,21 ± 0,39
52,2%
P valor
0,015
0,001

 

A análise da distribuição do ECC em função da categoria animal e do diagnóstico reprodutivo evidencia que as multíparas apresentam maior média e variabilidade de ECC, tanto para vacas prenhes quanto vazias, com valores concentrados entre 3,0 e 3,5 (Gráfico 2), o que reflete sua maior maturidade fisiológica e capacidade de manter reservas corporais adequadas para atender às demandas de manutenção, lactação e reprodução, resultando em melhores taxas de concepção.

O boxplot (Gráfico 2) ainda revela que, embora as multíparas apresentaram mediana de ECC levemente superior (3,21) comparado às primíparas (3,12) e secundíparas (3,06), há significativa sobreposição dos intervalos interquartis (caixas) entre os grupos, corroborando a diferença estatística marginal (p=0,015) observada na Tabela 2. Essa variação compartilhada indica que, embora significativo, não é um fator determinante isolado para a superioridade reprodutiva das multíparas. Sugerindo que outros fatores como adaptação uterina, eficiência metabólica ou histórico reprodutivo, podem atuar em sinergia para explicar a diferença observada.

 

Gráfico 2 – Boxplot do ECC em primíparas, secundíparas e multíparas em protocolo de IATF.

 

Conclusão

 

Dentre várias causas de subfertilidade em vacas de corte, o ECC exerce grande influência sobre a vida reprodutiva de vacas de corte, sendo um dos principais fatores associados à subfertilidade, como evidenciado no presente estudo. A avaliação do ECC é uma ferramenta fundamental para monitorar o estado nutricional dos animais, sendo indispensável adotar práticas de manejo alimentar adequadas, que garantam bons escores e, consequentemente, melhores índices reprodutivos. Nesse contexto, o correto manejo alimentar aliado a estratégias reprodutivas, como a adoção de uma estação de monta, contribui diretamente para a melhoria dos resultados produtivos e reprodutivos na propriedade.

 

Conflitos de interesse

 

Não houve conflito de interesses dos autores.

 

Contribuição dos autores

 

Wilton dos Santos Marinho – instalação do experimento, coleta dos dados, redação; Ádria Fernanda Ferreira de Moraes, Charlene Karollaine de Castro Dourado, Clender Freitas Araújo, Allison Jordão Prado, Yana Eliza Feitosa de Almeida – manejo dos animais e coleta de dados; Aline Pacheco, Kedson Alessandri Lobo Neves – análise estatística, revisão do manuscrito.

 

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Recebido em 27 de janeiro de 2026

Retornado para ajustes em 5 de março de 2026

Recebido com ajustes em 9 de março de 2026

Aceito em 12 de março de 2026

Efeito da época de poda na produção e tamanho de fruto do Caqui Kyoto comum e do Caqui Kyoto chocolatão (Diospyros kaki L.)

Revista Agrária Acadêmica

agrariacad.com

doi: 10.32406/v9n1/2026/66-74/agrariacad

 

Efeito da época de poda na produção e tamanho de fruto do Caqui Kyoto comum e do Caqui Kyoto chocolatão (Diospyros kaki L.). Effect of pruning time on the production and fruit size of common Kyoto persimmon and chocolate Kyoto persimmon (Diospyros kaki L.).

 

Marco Aurélio de Freitas Fogaça1, Renato André Benvenutti2

 

1– Professor Doutor em Produção Vegetal – Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul – IFRS  – Campus Bento Gonçalves. Av. Osvaldo Aranha, 540 – Bento Gonçalves – RS, Brasil, CEP 95700-206. E-mail: marco.fogaca@bento.ifrs.edu.br
2– Tecnólogo em Horticultura – Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul – IFRS  – Campus Bento Gonçalves. Av. Osvaldo Aranha, 540 – Bento Gonçalves – RS, Brasil, CEP 95700-206. E-mail: renatobenvenuti5@gmail.com

 

Resumo

 

O objetivo do trabalho foi avaliar a produção e tamanho de frutos do caqui Kyoto comum (Kc) e Kyoto chocolatão (Kch), em Bento Gonçalves – RS. O experimento foi realizado ao longo do ciclo 2023, com plantas adultas, enxertadas sobre caqui comum (Diospyrus kaki), com 666,7 plantas.ha-1, conduzidas em taça. Tratamentos: Duas variedades de Caqui (Kc e Kch), e dois tipos de para Kyoto chocolatão (floração e dormência). O Delineamento foi blocos ao acaso com 3 tratamentos e 5 plantas por tratamento, e um total de 15 plantas avaliadas. Variáveis analisadas: número de frutos, produção por planta e ha, peso e classificação de fruto (extra grande – EG, grande – G, Médio – M e pequeno – P). A variedade Kc, apresentou maior produção que a variedade Kch, independente da época de poda, considerando produção por planta e hectare e número de frutos. Com relação a peso de frutos, a variedade Kch chocolatão apresentou maior calibre de frutos, sendo 77,18% EG, 18,12% G e 5,47 P a Kch, que atingiu 60,9% frutos G, 25% frutos M e 401% P. A poda tardia realizada no Kch, não aumentou da produção nas condições em que foram realizados o experimento, no entanto, a esta variedade por ser precoce e produzir frutos de elevado calibre e boa coloração, não ter custo com o raleio e menor custo com a colheita, atinge valores de rentabilidade similares a variedade Kc.

Palavras-chaves: Fruticultura. Sistemas de condução. Qualidade de fruto. Floração.

 

 

Abstract

 

The objective of this study was to evaluate the production and fruit size of common Kyoto persimmon (Kc) and chocolate Kyoto persimmon (Kch) in Bento Gonçalves, Rio Grande do Sul, Brazil. The experiment was conducted throughout the 2023 growing season with adult plants grafted onto common persimmon (Diospyrus kaki) rootstock, totaling 666.7 plants ha⁻¹, trained in a goblet system. Treatments: Two persimmon varieties (Kc and Kch) and two types of chocolate Kyoto persimmon (flowering and dormancy). The experimental design was a randomized block design with 3 treatments and 5 plants per treatment, for a total of 15 plants evaluated. Variables analyzed: number of fruits, production per plant and hectare, fruit weight and classification (extra large – EG, large – G, medium – M, and small – P). The Kc variety showed higher production than the Kch variety, regardless of the pruning time, considering production per plant and hectare and number of fruits. Regarding fruit weight, the Kch “chocolatão” variety presented a larger fruit size, with 77.18% large (EG), 18.12% large (G), and 5.47% small (P) compared to Kch, which reached 60.9% large fruits, 25% medium (M), and 4% small (P). Late pruning performed on Kch did not increase production under the conditions in which the experiment was conducted; however, this variety, being early-maturing and producing fruits of large size and good color, having no thinning costs and lower harvesting costs, achieves profitability values ​​similar to the Kc variety.

Keywords: Fruit growing. Training systems. Fruit quality. Flowering.

 

 

Introdução

 

A cultura do caquizeiro (Diospyros kaki L.) tem origem na Ásia continental, nativo da China que possui 71,88% da produção mundial, primeiro país a produzi-lo de forma comercial no mundo, sendo o país que possui a maior área plantada e produção (FAO, 2020). Espécie de frutífera rústica que em climas adequados pode atingir até 10m de altura, sendo adaptada ao clima tropical e temperado (GIORDANI et al., 2015).

Introduzida no Brasil no final do século XIX (PENTEADO, 1986) fato que provavelmente está relacionado à excelente adaptação, planta o clima subtropical e boa ao clima temperado, entretanto, a expansão da cultura no Brasil só foi possível em 1920, com a chegada de imigrantes japoneses com outras cultivares e técnicas adequadas de manejo (SATO; ASSUMPÇÃO, 2002).

Atualmente o Brasil possui 8160 has, na safra 2024 produziu 177,110 t, com média nacional de 21.900 t.ha-1 (IBGE, 2024), sendo o quarto maior produtor mundial, ficando atrás apenas da China, Coreia e Japão.

Neste mesmo ano, o caqui obteve um aumento nas exportações no estado de São Paulo, maior produtor do Brasil, com a produção de 71.550 t (Instituto de Economia Agrícola da Secretaria de Agricultura e Abastecimento (SAA). No tocante às exportações, houve um incremento de 31,3%, em relação ao ano de 2023, obtendo uma receita de US$ 805 mil. Os principais países importadores são o Canadá, Estados Unidos e Países Baixos (SANTOS, 2025).

O estado do RS é o segundo maior produtor, com uma área de 2458 has e produção de 41.659 t e rendimento médio de colheita de 18.458 kg.ha-1, sendo Caxias do Sul o município com maior produção no estado (IBGE, 2024).

De acordo com Brackmann et al. (1997), a colheita de caquis nas regiões tradicionalmente produtoras (Sul e Sudeste do Brasil) ocorre nos meses de fevereiro a maio, aumentando a oferta no mercado e reduzindo o valor da fruta. Nos últimos anos vem sendo cultivado subespécies do cultivar Kyoto no Rio Grande do Sul.

Quanto ao tipo de fruto, temos os taninosos, também chamados de caqui moles, que apresentam taninos independente da presença de semente ou não (Kakimel, Taubaté, Coração de Boi, Pomelo), os Caquis doces não apresentam taninos, mesmo com sementes, a doçura é sua característica mais marcante (Fuyu, Fuyu Hana, Jirô), e temos os Caqui variáveis que sua adstringência está relacionada com a presença ou não de sementes, apresenta polpa escura, sendo café ou chocolate, por isso seu nome, quando possui sementes e amarela e taninosa, sendo essa coloração da polpa variou em função do número de sementes, sendo a coloração escura pode se concentrar apenas ao redor da semente sendo as cultivares que apresenta estas características o Rama-Forte, Giombo e o Kyoto (BIASI, 2020).

Dentre as várias subespécies do Kyoto o que se destaca o Chocolatão, que tem como pontos negativos a floração irregular o que reduz a produção, no entanto, por ser uma fruta de ciclo precoce, com polpa de alta firmeza e níveis de tanino variáveis e elevado tamanho de fruto (Figura 1b e 1c), o que lhe confere boa comercialização, compensando em parte sua baixa produtividade.

Várias práticas de manejo são empregadas ao longo do cultivo das frutíferas como, adubação, tratamento fitossanitário, controle de plantas concorrentes, raleio de frutos, sendo que nas frutíferas caducifólias como o caqui, a poda seca, feita no período de dormência, é uma das mais importantes. Esta prática tem a função adequar o número de produtores a capacidade da planta, e selecionar os ramos com maior capacidade produtiva (vigor, comprimento, diâmetro, nível de maturação) (GIORDANI et al., 2015).

 


Figura 1 – Fruto do Caqui Kc (a) e Kch (c), maduros (maturação tecnológica) e Kc (b) colhidos na maturação fisiológica (ponto de colheita para armazenamento na câmara fria) na mesma data do Kch colhidos na maturação tecnológica. Pinto Bandeira/RS, safra 2023. Fonte: autor.

 

Segundo Campos et al. (2015), as características reprodutivas do Caqui são muito complexas, plantas monoicas (apenas flores femininas na planta), dioicas (flores femininas e masculinas) e hermafroditas (flores completas). Em uma mesma árvore é possível encontrar somente flores femininas, femininas e masculinas e os três tipos de flores, esse complexo floral afeta a quantidade, qualidade e o tipo de fruto produzido (GIORDANI et al., 2015).

Botelho et al. (2006) cita que a necessidade de frio invernal pouco afeta as características de produção do Caqui e que atingiram boas produções do Caqui com número baixo de horas de frio (HF), variando entre 162 e 169. Mowat (1995) cita que o caquizeiro pode superar a dormência (iniciar a brotação) sem a ocorrência de horas de frio. No ciclo 2023, obteve-se 225 horas de frio entre os meses de maio e setembro (EMBRAPA, 2023), valor abaixo da média da Serra Gaúcha que é de 410,20 HF (CZERMAINSKI; ZAT, 2011).

Considerando as características fisiológicas e morfológicas, o caqui é uma planta exigente em poda, tendo a sua produção nas gemas formadas no ciclo anterior (Figura 2a), no mesmo momento que temos o desenvolvimento da frutificação e da estrutura vegetativa, essas gemas se diferenciam em menor ou maior grau, de acordo com o nível de carboidratos fornecidos pela área cortina foliar (GIORDANI et al., 2015). O manejo inadequado, como, raleio deficiente ou intempéries climáticas (como estresse hídrico), podem reduzir a diferenciação floral para o próximo ano, por consequência a frutificação.

Outro fator a considerar, é o sistema gemário do Caqui, que apresenta gemas vegetativas e mistas, desenvolvidas no final da primavera do ciclo anterior à produção. Quando as condições não forem adequadas (excesso de carga, nutrição, deficiente, estresse hídrico) ao crescimento e desenvolvimento da planta, podemos ter mais gemas vegetativas do que mistas afetando a produção (GEORGE et al., 1997).

A variedade Kyoto chocolatão apresenta irregularidade na emissão de gemas floríferas, atingindo percentuais muito baixos de frutificação, o que dificulta o processo de poda, pois, o fruticultor no momento da poda, estágio de dormência (Figura 3a), não consegue identificar os ramos de um ciclo, com gemas mistas (gema vegetativas e floríferas), que apresentam capacidade de emitir frutos, diferente das demais variedades de Kyoto, que apresentam um alto índice de floração nos ramos. Esta condição gera necessidade de pesquisa em estratégias para sanar esse problema, sendo a época de poda uma das opções, pois, esse problema reduz a produtividade na planta (BIASI, 2020).

 

Figura 2 – Época de poda do caqui T1 e T2 ramos com gemas dormentes e T3 – ramos em estágio de floração. Pinto Bandeira 2024. Fonte: autor.

 

Figura 3 – Distribuição da produção dos frutos de Caqui Kyoto chocolatão (Kch) e de Caqui Kyoto comum (Kc), segundo o % de produção dentro das classes de tamanho EG, GG, M e P. Pinto Bandeira/RS, safra 2023.

 

O objetivo do trabalho foi avaliar duas épocas de poda, na dormência e na floração, na produção e qualidade Kyoto Chocolatão e comparar com as características produtivas desta variedade Kyoto comum, na Serra Gaúcha, Bento Gonçalves – RS.

 

Material e métodos

 

O experimento foi realizado na safra 2023/2024, no município de Pinto Bandeira/RS, Serra Gaúcha, em uma propriedade rural com área de 41 has de caqui, de coordenadas geográficas 29°04’23.6″S e 51°26’30.2″E, a 640 metros de altitude, com “clima subtropical e pluviosidade média anual de 1696 mm, 410, horas de frio e temperatura média de 18 °C” (EMBRAPA, 2021). No ano de 2023, ocorreram 225 horas de frio e a precipitação foi de 2025 mm (EMBRAPA, 2023). As variedades utilizadas foram a Kyoto e Kyoto Chocolatão, com plantas com 15 anos de idade, uniformes em vigor e desenvolvimento, enxertadas sobre porta enxerto caqui comum (Diospyros kaki), com espaçamento de 5m x 3m, formando uma densidade de 666,7 plantas.ha-1, conduzidas em sistema de taça, com aproximadamente 65 ramos produtores por planta. Os tratamentos consistiram avaliar duas épocas de poda, na dormência (T2a) e na floração (T2b), na produção e qualidade Kyoto Chocolatão e comparar suas características produtivas com a variedade Kyoto comum (T1).

A poda de inverno foi realizada em 2 de agosto para T1 e T2a e em 10 de outubro de 2023 para T2b (Figura 3). Na poda seca foram deixados em média 65 ramos frutíferos por planta e alguns ramos do ano sem frutificação, para produção de produtores para próxima safra.

A poda verde em ambos o tratamento se realizou a partir do início de dezembro e o raleio no dia 15 de dezembro, quando os frutos atingiram cerca de 2cm, a variedade chocolatão em função da baixa capacidade de fixação de frutos não foi necessário realizar raleio.

Os frutos foram colhidos na maturação fisiológica de forma manual e levados para o packing house, para seleção e classificação o Kyoto chocolatão foi colhido em 10 de fevereiro e o Kyoto comum em 21 de março.

O delineamento experimental foi blocos acaso, com 2 tratamentos com parcelas subdivididas (T1 – variedade Kyoto comum e T2a – variedade Kyoto chocolatão poda em agosto e T2b – Kyoto chocolatão podado na floração e 5 plantas por tratamento, e um total de 15 plantas avaliadas. As variáveis analisadas: o número de frutos estimado por planta (contados diretamente na planta em 15 de dezembro), número de frutos colhidos por planta (contados na colheita), a produção.planta-1 (pesado em balança eletrônica de precisão), a massa média dos frutos (produção.planta-1, dividido pelo número de frutos), produção.ha-1 (produção.planta-1 (kg) multiplicado pelo número de plantas.ha-1.

A classificação dos frutos foi feita, segundo o peso individual de cada fruto, realizado pelo classificador de frutos da marca “de Rossi”, código MFCR, no momento da colheita, com 4 classes de tamanho: extra grande (EG), grande (G), médio (M) e pequeno (P). Sendo, respetivamente, EG acima de 220g, G entre 150 a 220 g, M de 120 a 150g e P abaixo de 120g. Valores médios de preço por kg do caqui pago ao produtor por atacadistas, para T1, temos para classificação G, M e P, valores do kg de fruto: 5,0 a 6,0 R$, 3,0 a 4,0 R$ e 1,5 a 1,0 R$, respetivamente, e para T2, classificação EG, GG, M: 8,0 R$, 6,0 R$ e 4 R$ e 2,0 R$, respetivamente.

Excetuando a aplicação da poda em diferentes épocas e variedade analisadas todas as demais práticas de manejo foram realizadas da mesma maneira e na mesma época em ambos os tratamentos. Dados foram submetidos à análise de variância, e as médias comparadas pelo teste Tukey, a 5% de significância, utilizando o programa SASM – Agri (CANTERI et al., 2001).

 

Resultados e discussão

 

As análises estatísticas dos dados demonstraram, que os tratamentos de poda na dormência e na floração, realizadas no Kyoto chocolatão, não deferiram entre si, baseado nesse resultado, analisou-se mais especificamente os aspectos produtivos e qualitativos obtidos entre as variedades, considerando a média dados obtidos para T2a e b, comparando-se com T1 (Tabela 1).

 

Tabela 1 – Dados de produção e classificação de frutos da variedade Kyoto comum e Kyoto chocolatão, submetida a diferentes épocas poda: Kyoto comum (T1) e Kyoto chocolatão poda na dormência (T2a) e Kyoto chocolatão (T2b) poda na plena floração. Pinto Bandeira/RS, safra 2023.
Variáveis analisadas
T1
T2a
T2b
CV* %
Número de produtores
Massa média dos frutos.planta-1 (kg)
Massa de fruto (g)
Número de frutos por planta – estimado
Número de frutos por planta – real
Produção por ha (t)
Renda bruta por ha (R$ 1.000)
69a
74,03a
144,05b
516a
509,02a
46,53a
186,13a
61a
19,11b
216,88a
143b
89b
21,21b
148,46a
65a
20,06b
211,23a
118,8b
75,8b
17,14b
119,65a
9,15
24,62
12,69
39,2
39,22
23,41
21,94
Médias seguidas de mesma letra na linha letra com minúscula e na coluna com letra maiúscula, não diferem estatisticamente pelo teste Duncan, com 5% de significância.
*CV: coeficiente de variação.

 

O Kc (T1), apresentou uma produção de 46,5 t.ha-1, em detrimento dos médios 19,17 t.ha-1 para T2ab, produtividade similar à média da cultura do caqui no Brasil, que atinge 22,4 t ha-1, pouco superior à média da safra 2023 do RS de 18,6 t.ha1 (IBGE, 2024) e abaixo da média do maior produtor do país, o estado de São Paulo, que apresenta a maior produtividade (28,5 tn/ha), resposta da alta tecnologia adotada no cultivo dessa frutífera (TECCHIO et al., 2019). A produção por planta atingiu 70 kg, para T1 e 19,58 kg para média de T2ab, que não se diferenciam entre para a variáveis produtivas (massa de fruto, de planta e t.ha-1), independente da época de poda utilizada (Tabela 1).

Em comparação com T1, o fator qualidade, do caqui Kch apresentou peso de fruto superior, atingindo 214,06g em média, distribuídos em três tamanhos, sendo 77,18 classe EG, 18,12% G e 5,47% Médio, em detrimentos do Kc que apresentou peso médio e fruto de 144g, sendo classificados em 60,90% G, 25% M e 15.01% como pequeno (Figura 3). A competição entre os frutos pelos fotoassimilados da fotossíntese é menor nas plantas que apresentaram menor número de ramos floríferos, e por consequência apresentam baixa frutificações (PETRI et al., 2017; LINK, 2000). Além desta questão, o tamanho de fruto é favorecido, pois, a planta já inicia o crescimento do fruto com baixa carga, antes do término da divisão celular, que ocorre nas plantas nas primeiras semanas (semana 5-6) após a floração, no período de fixação dos frutos jovens (DAL CIN et al., 2009). Redução da competição até esta fase, que torna mais eficiente o aproveitamento dos fotoassimilados, propiciando um número de células maior por fruto, aumentando o seu calibre (PETRI et al., 2001).

Esse alto % de frutos extra grande e grande, propicia melhor retorno financeiro para o produtor (GIOVANAZ et al., 2016). Essas afirmações são corroboradas pelos resultados, onde o tratamento T1, que apresenta alta taxa de fixação de frutos, 516 frutos.planta-1, em detrimento dos 130,9 frutos.planta-1 de T2ab, mesmo sofrendo raleio, não atingiu os mesmos valores de peso de fruto que T2, mas altos % de frutos EG e G, importante em frutos comercializados in natura. (Figura 1a). Outro fator a considerar é o valor estimado do número de frutos.planta-1, que foram avaliados na mesma época que foi realizado o raleio do Kyoto (15/12), demonstra que esta variedade, continuou dispensando frutos, com perda média de 37,3%, entre a avaliação realizada em dezembro e a feita na colheita, acentuando a diferença de frutificação entre as variedades (Tabela 1).

A alta fixação de frutos de Kyoto comum, gera necessidade de raleio, uma das grandes limitações de muitas culturas que possuem alta taxa de fixação de frutos, como no caso do Kyoto comum. Para Raseira et al. (2022), o raleio manual de um grande número de plantas demorado, exigindo muitas horas de trabalho em um curto período de tempo, e de custo elevado, representando cerca de 30% das despesas anuais (DUNCAN, s.d.), um dos fatores é a grande dificuldade de obtenção de mão de obra qualificada para sua realização.

No entanto, essa prática permite ajustar a carga, a capacidade de planta possibilitando colheitas regulares e com qualidade de frutos ao longo das safras, como demonstra os valores de peso de fruto e produção por ha do Kyoto comum.

No caso do Kch, é comum algumas plantas não apresentarem produção, mesmo com a poda em diferentes épocas, mostrando que os outros fatores influenciam no processo de fixação de frutos, sendo uma limitação ao aumento das áreas de produção desta variedade. Um dos fatores que se relacionam com essa dificuldade, seria a complexidade estrutural de floração do Caqui, bem como a ausência da produção de pólen ou viabilidade de algumas espécies (CAMPOS et al., 2015, GIORDANI et al., 2015). Outro fator que influencia na fixação do fruto é temperatura onde valores dia/noite situando-se 17 ºC e 12 ºC, atingem bons níveis de polinização e valores com temperaturas diurnas de 27 e noturnas de 22 reduzem drasticamente a polinização (GEORGE et al., 1997).

Tetsumura et al. (2019) obteve resposta para a fixação e desenvolvimento de frutos estudando dois porta enxertos na variedade Japonesa Tiushuu, no caso dessa cultura, a enxertia é feita no porta enxerto propagados clonalmente no Caqui comum, demonstrando que apenas a mudança na maneira de produzir o porta enxerto pode aumentar a eficiência da fixação de fruto para o Kch.

A técnica usada de podar tardiamente, foi feita com objetivo de visualmente identificar os ramos de produção, que estavam com florescimento (Figura 2), diferente da poda em gema dormente, porém, os resultados mostraram que essa prática não resultou em aumento da frutificação (Tabela 1), observou-se também, que algumas plantas do experimento não apresentaram frutificação, o que demonstra o alto nível da alternância do Kyoto chocolatão, demonstrando a pouca adaptação a cultivar a região.

Considerando a lucratividade média, o Kc, atingiu uma renda bruta em reais por hectare, superior em 30,11% a do Kch, no entanto, essa diferença é reduzida se consideramos, o custo menor da colheita (menor produção), na redução dos tratamentos fitossanitários por ser colhido 4 antes do Kc, que somado ao custo da não realização do raleio, vem a equilibrar a relação custo-benefício, além de estender o período de colheita que não se concentra em uma única variedade.

A produção e efetividade de floração parece estar ligada a fatores fisiológicos da planta, que afetam a emissão de gemas floríferas, responsáveis pela frutificação, como foi citado pela bibliografia, vários fatores interferem na efetividade da fixação e desenvolvimento dos frutos, alguns intrínsecos às condições do meio como temperatura, luminosidade, fotoperíodo, disponibilidade hídrica e outros relacionados com fatores internos da planta como balanço hormonal, nível de carboidratos, minerais, método e tipo de propagação e a genética da planta que ao que parece, apresenta pouca adaptabilidade às condições em que ocorre o cultivo. Portanto, mais pesquisas devem ser realizadas para minimizar a questão, pois, a variedade apresenta boa aceitação no mercado pelas características qualitativas e pela precocidade de entrada no mercado (Figura 1c).

 

Conclusão

 

As épocas de poda não tiveram efeito sobre fixação de frutos e por consequência na produção e qualidade de frutos para variedade Kyoto chocolatão. A variedade Kyoto comum apresentou valores superiores de produção, mas menor tamanho de fruto que a variedade chocolatão. Considerando o tamanho do fruto, o Kyoto chocolatão atingiu média de 75,5% de frutos extra grande e 24,5% grande, o Kyoto comum, atingiu 70% tamanho grande, 26% médio e 4% pequeno. Os valores atingidos e rentabilidade foram similares entre as duas variedades.

 

Conflito de interesses

 

Não houve conflito de interesses entre os autores.

 

Contribuição dos autores

 

Marco Aurélio de Freitas Fogaça e Renato André Benvenutti – proposta do projeto, instalação do experimento, coleta e interpretação dos dados, redação e revisão do manuscrito.

 

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Recebido em 16 de dezembro de 2025

Retornado para ajustes em 3 de fevereiro de 2026

Recebido com ajustes em 24 de fevereiro de 2026

Aceito em 2 de março de 2026