Revista Agrária Acadêmica
doi: 10.32406/v8n4/2025/91-104/agrariacad
Cães de trabalho militar avaliados na 7° Competição Sul-Americana (2024) em Santa Catarina. Military working dogs evaluated on the 7th South American Competition (2024) in Santa Catarina.
Sandra Márcia Tietz Marques
1, Júlio César Saldanha Gonçalves
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1- Médica Veterinária, Dra., PhD., Departamento de Patologia Clínica Veterinária, Faculdade de Veterinária, Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre – RS. E-mail: santietz@gmail.com
2- Advogado, Agente Policial Civil, Prof./Instrutor da Academia de Polícia Civil (ACADEPOL). Secretaria de Estado de Segurança Pública. Florianópolis – SC. E-mail: julio-goncalves@pc.sc.gov.br
Resumo
O uso de cães para detecção de odores é uma das mais relevantes aplicações da capacidade olfativa canina em atividades de segurança pública e salvamento. Estudos indicam que cães treinados podem identificar determinados odores em concentrações de 1.000 a 1.000.000 de vezes menores que a capacidade humana, o que os torna ferramentas excepcionais em operações de busca, detecção de substâncias e controle de ambientes de risco. Este artigo tem como objetivo relatar a realização da 7ª Competição Sul-Americana de Cães de Trabalho, ocorrida entre 14 e 18 de outubro de 2024, na Academia de Polícia Civil de Santa Catarina (ACADEPOL), em parceria com a Associação Sul-Americana de Cães de Trabalho (ASACT). A metodologia consistiu na observação direta das provas técnicas realizadas por binômios (cão e condutor), com registro de desempenho e análise das condições de bem-estar dos animais. Os resultados demonstraram elevado nível técnico das equipes, diversidade de habilidades testadas e a importância da preparação física e emocional dos cães. Conclui-se que eventos dessa natureza fortalecem a qualificação profissional, promovem o bem-estar animal e aproximam a sociedade das instituições de segurança.
Palavras-chave: Canis familiaris. Olfato canino. Cão de detecção. Provas caninas. Bem-estar.
Abstract
The use of dogs to detect odors is one of the most relevant applications of canine olfactory capacity in public safety and rescue activities. Studies indicate that trained dogs can identify certain odors in concentrations 1,000 to 1,000,000 times lower than human capacity, which makes them exceptional tools in search operations, substance detection and control of risk environments. This article aims to report on the 7th South American Working Dog Competition, which took place between October 14 and 18, 2024, at the Santa Catarina Civil Police Academy (ACADEPOL), in partnership with the South American Working Dog Association (ASACT). The methodology consisted of direct observation of technical tests performed by pairs (dog and handler), with performance records and analysis of the animals’ welfare conditions. The results demonstrated a high technical level of the teams, a diversity of skills tested and the importance of the dogs’ physical and emotional preparation. It is concluded that events of this nature strengthen professional qualifications, promote animal welfare and bring society closer to safety institutions.
Keywords: Canis familiaris. Canine sense of smell. Detection dog. Dog trials. Well-being.
Introdução
Cães de trabalho são destaques em nossas sociedades, auxiliando pessoas em diversos contextos, desde detecção de explosivos e pastoreio de gado até parceiros de terapia. Priorizar o bem-estar animal na pesquisa e na prática será fundamental para garantir o relacionamento contínuo entre cães e pessoas como colegas de trabalho (COBB et al., 2021). A não observância desses princípios fundamentais de criação dos plantéis caninos afetará a disponibilidade energética e rendimento dos mesmos nas atividades a eles exigidas, pois a seleção artificial, gerida pelo homem causou as mais diferentes raças, implicando não necessariamente na qualidade de vida ou na utilidade de cães. A seleção intencional de determinadas características pode ser acompanhada por diversos danos indesejados, incluindo doenças e deformidades hereditárias (AGOSTINI, 2020).
Os cães operacionais, identificados pela sigla K9 principalmente na Europa e Estados Unidos, abrangem uma população única de cães laborais que atuam em variadas atividades de interesse público, a exemplo de operações de aplicação da lei, uso diferenciado da força, busca e salvamento, além de auxiliarem em operações humanitárias (FERREIRA; MARQUES, 2022). A sigla K9 é um homófono da palavra inglesa canine (pronuncia-se kei-náin), que significa “canino”. A grafia combina a letra “K” com o número “9”, simulando a pronúncia da palavra inglesa, e consolidou-se internacionalmente como referência aos cães empregados em funções operacionais, especialmente por forças policiais, militares e equipes de resgate. Atualmente, todos os países possuem unidades caninas policiais ou militares operacionais, para além de mais de uma centena de grupos voluntários de cães de busca e detecção em redor do mundo (GOMES; MARQUES, 2022).
Os cães vivem em ambientes diversos de cheiros e, com o sentido olfativo, eles coletam informações que os auxiliam na adaptação e na navegação em seu ambiente. O olfato é utilizado para distinguir informações do ambiente, encontrar comida e o companheiro certo, comunicando-se socialmente com indivíduos da mesma espécie ou não e criar vínculos com os membros da família (BERNS et al., 2015; NIELSEN, 2017).
Em comparação com os humanos, os cães podem detectar quantidades significativamente menores de odores devido ao alto número e densidade de neurônios olfativos, à maneira como o fluxo de ar circula na cavidade nasal e como a informação é processada centralmente (ALVITES et al., 2023). O nariz canino possui cerca de 250 milhões de células olfativas, além das células de suporte e células basais, no epitélio olfativo que cobre cerca de 18 a 150 cm2 (BROWNE et al., 2006; SJAASTAD et al., 2016). O nariz do cão é úmido, o que ajuda a capturar moléculas de odor do ar. Quando um cão exala pelas fendas nas laterais do nariz, ele cria redemoinhos de ar que ajudam a capturar moléculas odorantes.
O sistema olfativo do cão tem conexões fortes e amplas com diferentes partes do cérebro. Cinco principais rotas da substância branca mielinizada do processamento periférico do odor do cão até o córtex foram recentemente descritas. O trato do bulbo olfatório via sistema límbico para o lobo frontal conecta odorantes às estruturas cerebrais que envolvem emoção, afetando ainda mais o comportamento do cão através do lobo frontal. O trato do bulbo olfatório ao tronco cerebral conecta odorantes com comportamento instintivo e respostas comportamentais rápidas, enquanto o trato do bulbo olfatório ao córtex entorrinal (área do cérebro que se encontra no lobo temporal medial) e conecta odorantes à formação da memória (ANDREWS et al., 2022).
Olfato é um processo de respiração inconsciente, sem esforço e não cognitivo, onde o ar tem apenas um leve contato com o epitélio olfativo, enquanto farejar é uma produção de respirações curtas e agudas de 4 a 7 Hz em cães (CRAVEN et al., 2010). Os cães farejam a uma frequência de até 200 vezes por minuto (SJAASTAD et al., 2016), que é dez vezes mais rápido que os humanos. A rápida cheirada cria turbulência nas passagens nasais e, portanto, melhora o transporte de moléculas odoríferas para os receptores na cavidade etmoidal. A cheirada induz oscilação no bulbo olfatório, conduzindo o córtex piriforme no lobo temporal na frequência da cheirada (GAZIT; TERKEL, 2003). Durante a inalação, o ar vai direto para o córtex olfativo através do caminho de fluxo superior (SJAASTAD et al., 2016). Com cada respiração, aproximadamente 12–13% do ar inalado flui pelo caminho superior e o restante flui pelo caminho inferior para a faringe e os pulmões. O ar também usa esse caminho ao expirar, mas a turbulência garante a exposição prolongada do ar inspirado às regiões olfativas. Durante a inalação, o ar é inalado pela frente e exalado para o lado e cada narina coleta o ar separadamente, permitindo a comparação bilateral da intensidade do estímulo e da localização da fonte do odor (CRAVEN et al., 2010).
A capacidade de um cão farejador reconhecer adequadamente os odores depende da umidificação, aquecimento e trajeto do ar inalado, e do direcionamento de uma parte dele em direção ao epitélio olfatório (JENKINS et al., 2018). Devido ao grande tamanho da cavidade nasal, os cães têm excelentes capacidades de localização de odores. Entretanto, existem vários fatores que afetam a capacidade do cão de cheirar e detectar um odor: por exemplo, fatores ambientais como temperatura, pressão do ar, umidade, pressão de vapor composto e vento afetam a eficiência da detecção de odores (LAZAROWSKIET et al., 2021; KOKOCIŃSKA-KUSIAK et al., 2021) o movimento do ar pode afetar a volatilidade e a propagação do odor, afetando também a detecção do odor.
Além de uma genética de aptidões para execução de determinado trabalho, um cão depende de um manejo correto, da manutenção de um ambiente tranquilo que lhe proporcione condições mínimas de bem-estar e conforto, para que este indivíduo esteja motivado e disposto para a execução correta dos exercícios de seu treinamento, bem como na execução do trabalho real no teatro de operações (BICCA; MARQUES, 2024).
Os treinos com os cães de guarda e proteção, obediência e faro são protocolados por normas cinotécnicas (LOPES; MARQUES, 2022). Todas as rotinas de trabalho e lazer são baseadas na Declaração Universal dos Direitos dos Animais e, em especial, no artigo sétimo (UNESCO, 1978). Trabalha-se com a liberdade comportamental, psicológica, ambiental, sanitária e nutricional. Para contextualizar o trabalho das duplas cão/adestrador, este artigo descreve pela primeira vez as modalidades competitivas das quais os cães de trabalho são submetidos na competição mais importante da América Latina.
Histórico e importância de competições para marketing de cães
Nos Estados Unidos da América, o Westminster Kennel Club (WKC), estabelecido em 1877, é a mais antiga organização americana dedicada ao esporte de cães. Ele sedia o Westminster Kennel Club Dog Show, de todas as raças, o segundo evento esportivo mais longo e realizado continuamente nos EUA e, desde 1948, o mais longo show canino ao vivo televisionado nacionalmente. A exposição anual de cães – uma competição de conformação para cães de raça pura – e o Masters Agility Championship e o Masters Obedience Championship– onde cães de todas as origens são elegíveis para competir – fazem da Westminster Week com seus quase 3.000 cães dos EUA e de todo o mundo uma experiência de ponta para qualquer amante de cães. A missão do clube, que melhora a vida de todos os cães, celebra o companheirismo dos cães, promove a posse responsável e a preservação da raça (WKC, 2024).
Sete anos depois, em 1884, um grupo de doze esportistas dedicados, representante ou “delegado” de um clube de cães criaram um novo “Clube dos Clubes” denominado de The American Kennel Club, com a criação de uma Constituição e Estatutos. E, em 1888, veterinários passaram a ser necessários em todos os eventos e entre 1905-1907 foi estabelecido um sistema de pontos para exposições de cães de todas as raças (AKC, 2024).
Em 1911 era fundada a Federação Cinológica Internacional (FCI, 2024) com sede na Bélgica e se destaca como a maior em termos numéricos. Participam desta federação 94 membros em diversos países e contratantes que expedem, cada um, seus próprios pedigrees e formam seus juízes. Os países “proprietários” das raças escrevem o padrão dessas raças, em cooperação com as Comissões de Padrões e Ciências da FCI. A FCI garante o reconhecimento mútuo dos juízes e pedigrees dentro e entre seus países membros. No Brasil o representante oficial da FCI é a Confederação Brasileira de Cinofilia – CBKC, entidade que organiza diversas competições de cães no Brasil, como exposições gerais, exposições nacionais e exposições internacionais. A história das competições de cães para trabalho no Brasil não é documentada, porém as mais relevantes são World Dog Show (WDS), as provas de agility e a Competição Sul-Americana de Cães de Trabalho. A WDS é considerada a maior e mais importante exposição mundial de cães, baseada nos padrões raciais, com a escolha dos melhores exemplares de cada raça, com sua versão no Brasil. As provas de agility tem reconhecimento mundial; é uma competição de habilidade, baseada na velocidade e na transposição de diversos obstáculos, com provas de salto, passarela, túnel, rampa, etc. no menor tempo possível e com o menor número de faltas. A Prova Internacional de Cão de Utilidade, regulamentada pela CBKC, coordena grupos de competições com cães de faro, obediência e proteção.
A Competição Sul-Americana de Cães de Trabalho é o maior evento do gênero na América Latina. O evento reúne cinotécnicos de todo o Brasil e do exterior, incluindo treinadores civis, forças policiais, corpos de bombeiros e forças armadas. As provas, abertas gratuitamente para acompanhamento do público, visam promover a integração entre a comunidade e as forças de segurança, fortalecendo a confiança mútua e a cooperação para um ambiente mais seguro. Entre as dez modalidades, destacam-se detecção de drogas e explosivos, seguimento de rastro com indicação de evidências, capacidade física homem/cão, busca de pessoas, busca de tecidos humanos, obediência funcional, guarda e proteção, entre outras.
Material e métodos
a. Modalidades de competições
Para este campeonato participam cinotécnicos de instituições públicas de segurança e resgate incluindo treinadores civis, forças policiais, corpos de bombeiros e forças armadas.
As modalidades de provas, seu princípio (P), as habilidades (H) e o regramento (R) criterioso da competição são mostrados na Tabela 1.
Tabela 1 – Habilidades e regramento da competição por modalidade em outubro de 2024, na Polícia Civil de Santa Catarina, em Florianópolis.



*Um mesmo cão não poderá participar das provas de detecção de explosivos e detecção de drogas. Fonte: elaborada pelos autores.
b. Período das provas competitivas
As provas desta competição foram executadas entre 14 e 18 de outubro de 2024, na Academia de Polícia Civil de Santa Catarina (ACADEPOL), em parceria com a Associação Sul-Americana de Cães de Trabalho (ASACT), portanto durante cinco dias, distribuídas de modo a não forçar o cão na tarefa competitiva de cada modalidade. As provas individuais não ocorrem com mais de 15 minutos e sempre é respeitado um intervalo entre as provas.
Os leigos desconhecem as atividades de treinamento com cães militares durante suas jornadas de aprendizado e quando estão habilitados para tal, que é conhecida como Certificação para desempenho de seu trabalho, conduzido por seu parceiro cinotécnico ou treinador. Durante toda a vida do cão as atividades laborais e de recreação são pautadas pelas normas de bem-estar animal. Cada cinotécnico sabe melhor do que qualquer leigo como manter seu parceiro feliz. Durante a semana de competições há os descansos necessários e brincadeiras em áreas destinadas para tal. Durante os descansos, os cães optam por ficar em suas caixas de transporte ou no piso junto ao seu companheiro humano (Figura 1).
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Figura 1 – Cães no descanso (ao ar livre ou nas caixas) durante a competição sul-americana, na sede da Acadepol, Polícia Civil, em Florianópolis, SC.
c. Saúde plena do cão para se habilitar em competições
O cão precisa estar com o documento vacinal em dia e algumas vacinas são obrigatórias (V8 ou V10) que protegem contra cinomose, parvovirose, leptospirose, adenovírus, hepatite e coronavirose) e a vacina da raiva. Depois de completar o primeiro ciclo vacinal, será preciso dar uma dose de cada vacina anualmente. Se certificar que diversas doenças como gastroenterites, gripe, doenças do aparelho respiratório, otites, cistites, dermatopatias, doenças periodontais e displasia coxofemoral, as que mais acometem os cães sejam objeto de visitas regulares ao médico veterinário. Os exames de check-up mais importantes para os cães são: parasitológico de fezes, para descartar verminoses, exames de urina e de sangue para detectar anemias, inflamações e infecções e até dosagem de cálcio. Para cães de alta performance como os que exercem atividades laborais e exercícios constantes é recomendada a inclusão do ecocardiograma e do eletrocardiograma na lista de exames anuais do cão, a partir do quinto ano de vida. Raio X de membros pode ser aconselhado, além de avaliação óssea.
Uma boa nutrição à base de ração super premium é importante para compensar o desgaste das atividades diárias laborais, fornecida na quantidade recomendadas para a idade e o porte de cada cão. Água de boa qualidade e à vontade. Manter o cão em ambiente limpo e higienizado diariamente. Recolher fezes e trocar a água com frequência são funções obrigatórias. Combater insetos, pulga e carrapato evitando proliferação de doenças, mau odor ambiental, mantendo o bem-estar do animal e das pessoas que convivem com ele. Banhos regulares são recomendados. Os cães dever ser exercitados e treinados evitando situações estressantes se ficarem apenas alojados no canil. Os cães precisam de exercícios e de brincadeiras para fortalecer a musculatura, proteger as articulações e interagir com seu cinotécnico ou treinador.
Resultados e discussão
A 7° Competição Sul-Americana (2024) de cães de trabalho aconteceu em Florianópolis (SC) de 14 e 18 de outubro de 2024, na Academia de Polícia Civil de Santa Catarina (ACADEPOL), em parceria com a Associação Sul-Americana de Cães de Trabalho (ASACT), através de projeto de extensão com o objetivo de promover a integração e o aperfeiçoamento técnico dos profissionais que atuam com cães de trabalho, com ênfase especial nos integrantes dos Núcleos de Operações com Cães (NOCs) da Polícia Civil de Santa Catarina (PCSC). A competição contou com a participação de cinotécnicos de todo o Brasil e do exterior, incluindo treinadores civis, forças policiais, corpos de bombeiros e forças armadas (ACADEPOL/SC, 2024).
A competição, já na sétima edição, está sendo descrita pela primeira vez com as características de um artigo científico proporcionando visibilidade do trabalho de cinotécnicos com atividades técnicas consolidadas na segurança pública.
Os cães treinados para responder a um determinado odor parecem ser capazes de detectá-lo em concentrações de 1000 a 1.000.000 de vezes menores do que os humanos (ALVITES et al., 2023). O sentido olfativo canino parece, portanto, mais sensível do que o dos humanos, possivelmente dando origem a sensações que nós, humanos, não experimentamos (KUJALA, 2017). Essa pode ser a razão pela qual é desafiador para nós, humanos, compreender exatamente como os cães vivenciam seu ambiente e como podemos cooperar melhor com eles e levar em consideração suas capacidades olfativas. Portanto o cão é a ferramenta mais eficiente no auxílio de trabalhos junto as instituições militares. Por isso, desde o início do treinamento, o cão deve ser percebido pelo treinador em todos os aspectos, desde a demonstração de sentimentos e qualidades importantes para o aprendizado, como a obediência. O ser humano precisa “ler” as atitudes do cão e interpretar os gestos e sinais para que a conexão ocorra. O treinador precisa demonstrar para o cão que ele está conectado, e que a dupla que eles estão formando está em sintonia total. Para o cão este trabalho de adestramento é uma brincadeira saudável. Para um cão que procura um odor específico, é essencial farejar com eficiência. No trabalho de faro, o cão está idealmente concentrado no odor, ignorando distrações externas. Este cão está se concentrando em farejar a parede de uma casa, procurando um odor específico. Na prática, os cães não conseguem obter informações olfativas úteis, a menos que farejem com eficiência. Baseando-se apenas no olfato passivo, sem farejar, os cães não conseguem localizar o dono a 18 m de distância assim, para cães que buscam ativa e cognitivamente um odorante específico, cheirar é crucial (BRÄUER; BLASI, 2021; THESEN et al., 1993).
As informações olfativas são processadas no cérebro canino de diferentes maneiras. Os odores podem afetar o comportamento do cão por vários meios inconscientes – o que significa que o cão não tem ideia do porquê de ter uma forte necessidade de se comportar de uma certa maneira, por exemplo, para encontrar um companheiro. No entanto, os odores também afetam a cognição do cão de várias maneiras – o que significa que o cão pode muito bem saber a que um certo odor está associado, por exemplo, a partir de dois aromas diferentes, o cão sabe qual é uma correspondência para o que está procurando (JENKINS et al., 2018).
A utilização humana da detecção e diferenciação de odores caninos em uma variedade de tarefas é uma das aplicações mais conhecidas da capacidade do cão de processar cognitivamente informações olfativas. Devido à alta sensibilidade e seletividade do sistema olfativo canino, e à relativa facilidade com que os cães podem ser treinados e manuseados, os cães de trabalho têm sido rotineiramente usados por décadas como o principal meio de detectar uma ampla gama de substâncias em ambientes que contêm odores de fundo complexos (SETTLE et al., 1994; SOMMERVILLE et al., 1993). Os cães foram treinados por humanos para realizar pelo menos 30 tarefas diferentes relacionadas a cheiros (LORENZO et al., 2003). O uso mais comum de cães farejadores por autoridades policiais em todo o mundo é para detecção de narcóticos e explosivos (JEZIERSKI et al., 2016). Os cães também foram treinados para procurar objetos específicos, como resíduos de líquidos inflamáveis, armas, vazamentos de oleodutos, minério de ouro e alimentos contrabandeados, dinheiro e alimentos em aeroportos, entre outras habilidades (FURTON; MYERS, 2001).
Os cães também contribuem significativamente para a busca e resgate de humanos ou animais desaparecidos e são usados no diagnóstico de diferentes doenças (BIJLAND et al., 2013). Estudos recentes mostraram que cães treinados podem até detectar casos de COVID-19 pelo cheiro de secreções corporais (SAKR et al., 2022), embora muitos cães fracassem em seus treinamentos (MAEJIMA et al., 2007).
O treinamento tem um grande efeito na capacidade do cão de usar suas habilidades no comportamento de rastreamento de odores (BRÄUER; BELGER, 2018). Cães treinados podem determinar a direção de um caminho humano em cinco passos (HEPPER; WELLS, 2006), enquanto cães não treinados às vezes têm problemas se o odor alvo estiver a um metro deles (POLGÁR et al., 2015). Além disso, programas de treinamento rigorosos levam a altas frequências de alertas de alvos corretos (GAZIT; TERKEL, 2003). Ao rastrear um alvo, os cães parecem desenvolver uma representação parcialmente olfativa do alvo rastreado. Além do nível de treinamento causar variação, grandes diferenças individuais ocorrem no comportamento de busca (BRÄUER; BLASI, 2021). Diferenças na discriminação de odores também existem entre raças (POLGÁR et al., 2015), e geralmente, os pastores alemães têm sido frequentemente superiores neste tipo de tarefas (JEZIERSKI et al., 2016). Portanto, os cães de detecção são criados seletivamente para capacidades olfativas e características comportamentais que estão correlacionadas com sua eficácia no campo (PRICHARD et al., 2021).
Um vínculo humano-cão que funciona bem e o cheiro do dono também parecem ser recompensadores para os cães. Quando os cães foram apresentados a cinco cheiros diferentes durante uma varredura de odores (próprio, humano familiar, humano estranho, cachorro familiar, cachorro estranho), o bulbo/pêndulo olfativo foi ativado por todos os cheiros de forma semelhante, mas o núcleo caudado – associado ao processamento de recompensa e expectativas positivas – foi ativado pelo humano familiar mais do que outras categorias. A maior parte do sucesso dos cães na nossa sociedade depende da sua atenção social para com os humanos (ALTERISIO et al., 2019; MONGILLO et al., 2015). Os cães de família geralmente usam inicialmente informações visuais em sua comunicação com os humanos (SZETEI et al., 2003) e para resolver tarefas básicas de escolha (POLGÁR et al., 2015).
A sinergia entre o cão e seu treinador é o pilar fundamental para o sucesso no trabalho conjunto. Esse vínculo, construído por meio da convivência diária e do aprendizado mútuo, fortalece a confiança e a complementariedade entre ambos, permitindo que atuem de forma eficiente em situações complexas e desafiadoras.
A relação entre o homem e o cão não é apenas técnica, mas também baseada em um entendimento profundo das necessidades e capacidades de cada um. Esse binômio reflete um equilíbrio entre o bem-estar do animal e a realização de tarefas que possuem uma elevada finalidade social, como a segurança pública, o resgate de vidas e a assistência humanitária.
Ao longo do tempo, essa conexão se torna indissolúvel, garantindo a eficácia das operações e reafirmando a importância dos cães de trabalho como parceiros indispensáveis para a sociedade. Essa complementariedade não apenas maximiza o desempenho em campo, mas também promove a valorização do papel dos cães como agentes de transformação e segurança em nossas comunidades.
Conclusão
Competição deste nível permite avaliar o trabalho do cão e de seu instrutor. Anualmente, à nível sul-americano, permite acessar inovações e troca de experiências entre os participantes das diferentes modalidades. Fortalece, também, a qualificação profissional, aproxima a sociedade das instituições de segurança pública e permite avaliar o bem-estar animal decorrente das modalidades competitivas.
Conflitos de interesse
Não houve conflito de interesses dos autores.
Contribuição dos autores
Sandra Márcia Tietz Marques – coleta de dados, interpretação dos resultados, redação do artigo e revisão crítica; Júlio César Saldanha Gonçalves – coordenou o projeto desde a sua elaboração, participou da coleta de dados, da redação do artigo e da revisão crítica.
Agradecimentos
As Polícias Civis dos Estados de Santa Catarina e do Paraná; Polícias Militares dos Estados de Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Mato Grosso do Sul; Corpo de Bombeiros Militar de SC; Polícia Rodoviária Federal; Polícias Penais dos Estados de SC, Rio Grande do Sul e Distrito Federal; Brigada Militar do Estado do Rio Grande do Sul; Força Aérea Brasileira (Base Aérea de Santa Maria); competidores civis do Uruguai e dos Estados do Rio Grande do Sul, Goiás e Mato Grosso do Sul.
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Recebido em 19 de abril de 2025
Retornado para ajustes em 24 de junho de 2025
Recebido com ajustes em 8 de julho de 2025
Aceito em 10 de julho de 2025





