Revista Agrária Acadêmica
doi: 10.32406/v7n1/2024/20-31/agrariacad
Bem-estar para cães de trabalho de uma penitenciária no Rio Grande de Sul. Well-being for working dogs in Penitentiary of Rio Grande do Sul.
Hugo Anael Gomes Bicca1, Sandra Márcia Tietz Marques
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1- Agente Penitenciário. Cinotécnico. Penitenciária Estadual de Arroio dos Ratos (PEAR), Arroio dos Ratos, Rio Grande do Sul. E-mail: hugo-bicca@susepe.rs.gov.br
2- Médica Veterinária, Faculdade de Veterinária (FAVET), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre, RS. E-mail: santietz@gmail.com
Resumo
O objetivo é descrever as atividades desenvolvidas com os cães de intervenção no canil setorial da Penitenciária Estadual de Arroio dos Ratos (PEAR/SUSEPE-RS) visando a manutenção da saúde física e mental, bem-estar e qualidade de vida dos cães. Aponta-se o manejo pelos cinotécnicos na rotina do canil, promovendo assim um melhor engajamento nas missões em que atuam, bem como uma convivência mais equilibrada e saudável, garantindo assim seu bem-estar, acarretando em melhor performance na atuação com seu parceiro cinotécnico, além de evidenciar nestas atividades, as cinco liberdades: comportamental, psicológica, ambiental, sanitária e nutricional.
Palavras-chave: Cães operacionais. Manejo canino. Cinotecnia. Sistema prisional.
Abstract
The objective is to describe the activities developed with the intervention dogs in the sectoral kennel of the State Penitentiary of Arroio dos Ratos (PEAR/SUSEPE-RS) aiming at maintaining the physical and mental health, well-being and quality of life of the dogs. The handling by the cynotechnicians in the kennel routine is pointed out, thus promoting a better engagement in the missions in which they work, as well as a more even and healthy coexistence, thus guaranteeing their well-being, resulting in better performance in working with your canine technical partner, in addition to demonstrating the five freedoms in these activities: behavioral, psychological, environmental, sanitary and nutritional.
Keywords: Operational dogs. Dogs’ management. Kinotechnics. Prison system.
Introdução
Cães de trabalho são predominantes em nossas sociedades, auxiliando pessoas em diversos contextos, desde detecção de explosivos e pastoreio de gado até parceiros de terapia. Na última década estudos sobre o bem-estar evoluíram bastante e são relevantes para sustentar as atividades laborais de cães, bem como os cinco domínios do bem-estar animal: nutrição, ambiente, interação comportamental, saúde física e o estado mental. Priorizar o bem-estar animal na pesquisa e na prática será fundamental para garantir o relacionamento contínuo entre cães e pessoas como colegas de trabalho (COBB et al., 2021). A não observância desses princípios fundamentais de criação dos plantéis caninos afetará a disponibilidade enérgica e rendimento dos mesmos nas atividades a eles exigidas, pois a seleção artificial, gerida pelo homem causou as mais diferentes raças, implicando não necessariamente na qualidade de vida ou na utilidade de cães. A seleção intencional de determinadas características pode ser acompanhada por diversos danos indesejados, incluindo doenças e deformidades hereditárias (AGOSTINI, 2020).
O sistema prisional é uma das áreas em que mais se pode empregar o cão, seja para a intervenção, faro, e operações para inibição do tráfico de drogas, armas, objetos ilícitos, celulares presentes dentro das celas, galerias e nos pátios. Sob a tutela da Superintendência de Serviços Penitenciários (SUSEPE) existe cerca de 300 cães de rede no estado do Rio Grande do Sul (SUSEPE, 2015). O cão treinado para este fim é uma ferramenta temida e persuasiva, desmotivando a agressão do detento.
Os 16 cães da Penitenciária Estadual de Arroio dos Ratos (PEAR) operam diuturnamente por demanda e em escalas de trabalho e descanso. A rotina diária dos cães em atividades físicas e brincadeiras permite que eles se mantenham em forma para atuarem condicionados e felizes, garantindo assim mais bem-estar e melhor performance na rotina da penitenciária.
Os cães operacionais, também chamados de K9 na Europa e Estados Unidos, abrangem uma população única de cães laborais que servem como multiplicadores de força em operações civis da aplicação da lei, proteção de força, busca e salvamento, além de auxiliarem em operações humanitárias (FERREIRA; MARQUES, 2022). Atualmente, todos os países possuem unidades caninas policiais ou militares operacionais, para além de mais de uma centena de grupos voluntários de cães de busca e detecção em redor do mundo (GOMES; MARQUES, 2022).
Os riscos ocupacionais são inerentes ao trabalho altamente exigente dos cães de trabalho. Os perigos comuns incluem lesões nos tecidos moles e nas almofadas das patas, doenças ambientais, desidratação, fadiga extrema, condições dermatológicas, problemas gastrintestinais e lesões músculo-esquelético, além de riscos toxicológicos (PALMER, 2021).
Além de uma genética de aptidões para execução de determinado trabalho, um cão depende de um manejo correto, da manutenção de um ambiente tranquilo que lhe proporcione condições mínimas de bem-estar e conforto, para que este indivíduo esteja motivado e disposto para a execução correta dos exercícios de seu treinamento, bem como na execução do trabalho real no teatro de operações. O objetivo desse trabalho é descrever as atividades desenvolvidas com os cães de intervenção no canil setorial da Penitenciária Estadual de Arroio dos Ratos (PEAR/SUSEPE-RS) visando a manutenção da saúde física e mental, bem-estar e qualidade de vida dos cães.
Revisão de literatura
Declaração Universal dos Direitos dos Animais
Com base no pensamento de que os animais também são seres passivos de direitos, em 27 de janeiro de 1978 foi proclamada pela UNESCO em sessão realizada em Bruxelas (Bélgica), a Declaração Universal dos Direitos dos Animais, positivando desse modo direitos fundamentais que norteiam as nações sobre a promoção de bem-estar e defesa aos animais. Elencando um rol de direitos que são indispensáveis aos animais enquanto seres vivos, evidenciando a proteção nos casos dos animais que vivem próximos ao homem, como os cães de trabalho, que pontuam a necessidade de observância em questões do manejo correto e guarda responsável. De acordo com o artigo 7º desta declaração “cada animal que trabalha tem o direito a uma razoável limitação do tempo e intensidade do trabalho e a uma alimentação adequada e ao repouso” (UNESCO, 1978).
Dessa forma, a proteção animal encontra embasamento para sua promoção e defesa de efetivação na sociedade bem como nas organizações que utilizam planteis de animais como recurso. Na sociedade atual o antropomorfismo cada vez toma mais força entre os criadores de cães, principalmente no “mundo pet”, porém o que a sociedade deve entender é que cães são animais que precisam de um manejo correto, que é preciso ver seus anseios e não na perspectiva do homem. A preocupação com o bem-estar dos animais chegou à relevância de ser vista pela humanidade como um bem jurídico a ser tutelado e respeitado, portanto, a observação desses princípios pelos operacionais que utilizam cães de trabalho, não é só uma questão meramente de humanidade para com os cães, como uma questão de legalidade formal e material, que se encontra calcada nas convenções das nações, dentre as quais se destaca a Declaração Universal dos Direitos dos Animais.
O bem-estar animal na sociedade contemporânea e as normas de proteção vigentes
Que o bem-estar e segurança contra abusos animais tem amparo legal já de longa data, não é nenhuma novidade. Recentemente, a opinião pública tem cobrado cada vez mais uma atuação mais forte das autoridades. A divulgação de imagens negativas sobre este tema em mídias sociais ganha vulto rapidamente, gerando repúdio automaticamente da opinião pública. A Constituição Federal descreve no inciso VII que é dever do Poder Público “proteger a fauna e a flora, vedadas, na forma da lei, as práticas que coloquem em risco sua função ecológica, provoquem a extinção de espécies ou submetam os animais a crueldade”.
A Lei de Crimes Ambientais – Lei Federal nº 9.605, de 12 de fevereiro de 1998 – também oferece proteção a todos os animais e em seu artigo 32 determina: Praticar ato de abuso, maus tratos, ferir ou mutilar animais (BRASIL, 1998). O Decreto 24.645 (10/06/1934), embora antigo, é ainda vigente e é a base legal que habilita o Ministério Público para atuar em nome da proteção animal, e regulamenta que todos os animais existentes no país são tutelados pelo Estado (BRASIL, 1934). Os animais são assistidos em juízo pelos representantes do Ministério Público, seus substitutos legais e pelos membros das sociedades protetoras de animais; tipifica os maus tratos contra animais como praticar ato de abuso ou crueldade, manter animais em lugares anti-higiênicos ou que lhes impeçam a respiração, o movimento ou o descanso, ou os privem de ar ou luz; obrigar animais a trabalhos excessivos ou superiores às suas forças e a todo o ato que resulte em sofrimento para deles obter esforços que razoavelmente não se lhes possam exigir senão como castigo; abandonar animal doente, ferido, extenuado ou mutilado, bem como deixar de ministrar-lhe tudo o que humanitariamente se lhe possa prover, inclusive assistência veterinária.
É notório que, com o avanço dos tempos, a sociedade acabou por tornar e reconhecer os animais domésticos como detentores de direitos fundamentais, para proteger aquelas espécies mais próximas ao homem de barbáries e maus tratos, considerando a tal relevância que o tema assumiu no meio social, podemos dizer que o bem-estar de um indivíduo é o seu estado em relação às suas tentativas de se adaptar a seu ambiente. As medidas que mostram quão ruim é o bem-estar quando os animais encontram problemas de curto ou longo prazo podem ser fisiológicas, comportamentais ou relacionadas à produção ou doença individual (BROOM, 1988).
O marco de todo movimento pró-defesa dos direitos universais dos animais teve início em 1964 com o lançamento do livro “Animal machines”, pela ativista e escritora inglesa de bem-estar animal Ruth Harrison e parceria (HARRISON; DAWKINS, 1964). Já no ano subsequente, o governo britânico formou o comitê Brambell, com a finalidade de sanar as dúvidas da sociedade, onde o relatório produzido inspirou a conceituação das cinco liberdades animais. Essas liberdades versam garantias mínimas de sobrevivência dos animais, garantindo que todos os animais têm o direito de viver, sendo a ele garantido, viver livre de dor e desconforto, de doença, de fome e sede, do medo e do estresse para expressar seu comportamento. Relevantemente com os cães de trabalho não é diferente, devendo as instituições que dispõem dessa modalidade de serviço, primar pela observância de todos os protocolos de promoção de bem-estar e proteção ao plantel canino que disponha.
A avaliação do bem-estar deve levar em conta a ampla variedade de sistemas e estratégias de enfrentamento usado. É necessária uma série de medidas de comportamento, fisiologia, função cerebral, função do sistema imunológico, danos, intensidade de preferências, entre outras. A facilidade ou dificuldade de enfrentamento deve ser interpretada de acordo com as habilidades e necessidades do animal. Decisões éticas sobre bem-estar animal geralmente envolvem uma abordagem deontológica, especificando ações que nunca devem ser tomadas, e uma abordagem consequencialista na qual custos e benefícios são equilibrados, mas nenhuma dessas abordagens é adequada por si só (BROOM, 2008).
Saúde dos cães de trabalho
Os cães são animais carnívoros por natureza, porém não são estritamente presos a essa ingestão alimentar, pois alimentos vegetais são bem aceitos pelos cães sendo facilmente absorvidos e digeridos. O processo de tomada de decisão nutricional talvez seja ainda mais desafiador em um canino de trabalho, não apenas por causa de suas condições de trabalho altamente variáveis, mas também pela evidência crescente de que todos os aspectos da nutrição podem afetar a qualidade desse trabalho, não apenas o impacto no músculo, trabalho e função, mas também sensibilidade olfativa e estabilidade do microbioma intestinal (ZORAN, 2021).
Salienta-se também a necessidade de disponibilidade de água aos cães, uma vez que a água é um nutriente essencial, talvez um dos mais importantes, uma vez que na ausência de ingestão os quadros de desidratação se instalam e em poucos dias a morte ocorre. Cães são muito dependentes de água e o acesso deve ser sempre livre.
A admissão correta da ração diária ao plantel de cães de trabalho é uma atividade de suma importância por parte do operador, pois a não observância da quantidade correta trará futuras alterações no escore corporal dos cães (caquético, desnutrido ou obeso).
Recomenda-se utilização de ração do tipo premium, pois além de apresentarem maior concentração de sais minerais e vitaminas essenciais aos cães de trabalho, trará benefícios até para a pele, pelo, além da digestibilidade e volume de fezes, proporcionando assim maior qualidade de vida aos mesmos.
Os cães de trabalho são atletas, mas têm uma grande variedade de tipos e durações de trabalho que afetam suas necessidades alimentares. Suas necessidades nutricionais básicas não mudam: todos os cães precisam de uma dieta completa e balanceada, alimentada em proporções adequadas para manter a condição corporal ideal. No entanto, com o aumento do trabalho muscular e da resistência, as quantidades de nutrientes específicos, como os macronutrientes, proteínas, gorduras e carboidratos devem ser ajustados (WAKSHLAG; SCHMALBERG, 2014; ZORAN, 2021).
Decisões nutricionais e seleção de dietas com os tipos e quantidades apropriados de nutrientes para qualquer animal são complicadas, mas são dificultadas pelo fato de que todos os seres vivos são únicos e suas necessidades nutricionais também. O processo de tomada de decisão nutricional talvez seja ainda mais desafiador em um canino de trabalho, não apenas por causa de suas condições de trabalho altamente variáveis, mas também pela evidência crescente de que todos os aspectos da nutrição podem afetar a qualidade desse trabalho, não apenas o impacto no músculo, trabalho e função, mas também sensibilidade olfativa e estabilidade do microbioma intestinal.
Atletas caninos usam proteína e gordura para energia e manutenção de trabalho de duração intermediária a longa, em contraste com outras espécies (humanos), que usam carga de carboidratos e armazenamento de glicogênio para manutenção de energia para a função muscular. Os cães de trabalho de proteção (polícia/proteção) normalmente trabalham em rajadas curtas e intensas de atividade, exigindo aumento de proteína para manutenção da massa muscular, porém mais carboidratos e menos gordura para obter energia para realizar sua missão. Os caninos de detecção geralmente devem realizar seu trabalho em áreas ambientalmente intensas, em níveis de intensidade moderada ao longo de vários dias, trabalho de intensidade intermediária e duração que requer aumentos significativos de proteína e gordura para manter a função muscular, acuidade mental e capacidades de detecção de olfato (TOLL; REYNOLDS, 2000; ZORAN, 2021).
A nutrição pode afetar o desempenho físico e mental, risco e suscetibilidade às doenças e recuperação de lesões, declínio associado à idade e longevidade. As proporções dietéticas de gordura, proteína e carboidrato influenciam a seleção de combustível durante o exercício. Uma preocupação comum entre os criadores é a dificuldade de manter a condição corporal de seus cães durante os períodos de trabalho pesado com as práticas alimentares atuais. Além disso, a manutenção de um balanço positivo de cálcio é necessária para a remodelação adaptativa em resposta ao exercício (WORTH; CAVE, 2018).
O tipo de trabalho que um cão de proteção, de uma unidade policial ou de segurança, provavelmente realizará está mais alinhado com um atleta de sprint, pois eles normalmente percorrem distâncias curtas para apreender e agarrar um alvo, usando força para concluir essa tarefa (BRAY et al., 2021).
O método de treino mais habitual é o condicionamento operante pois o animal aprende que a sua resposta a um comando tem consequências, isto é, aparecimento ou não de estímulo apetitivo ou aversivo. O treinamento puramente positivo é definido como um método de treinamento onde não são usados métodos aversivos (HAVERBEKE et al., 2008).
O sistema prisional é um ambiente que exige segurança e atenção extremas e por isso tenso, portanto, os cães empregados nesse ambiente para contenção de possíveis violências contra os operadores devem ser equilibrados ao ponto de suportar tal ambiente, não obstante que por todo o mundo moderno muitos repetem a idéia pouco original de que as prisões agem como escola da criminalidade (MILLER et al., 2022).
Cães de trabalho e de serviço estão sujeitos a doenças e lesões, dependendo das características de sua raça, atividades e ambiente em que trabalham. Existem dados limitados na literatura veterinária sobre as causas de perda e aposentadoria precoce de cães de trabalho. Muitas raças de cães de trabalho sofrem de formas hereditárias de doenças musculoesqueléticas.
Emprego e pausa para descanso dos cães de trabalho
A aplicabilidade dos cães em operações de garantia da lei e da ordem bem como cães de detecção deve respeitar suas especialidades, reservando aos mesmos momentos de descanso. Conforme disciplina o Decreto 24.645 de 10 de junho de 1934, obrigar animais a trabalhos excessivos ou superiores às suas forças e a todo o ato que resulte em sofrimento para deles obter esforços que razoavelmente não se lhes possam exigir, é tratado como castigo; dessa forma o tempo ideal de utilização do cão deve ser o suficiente para não lhe extenuar e causar sua exaustão (BRASIL, 1934).
Abrigo e local de descanso
O local onde os cães de trabalho devem permanecer no momento de descanso também deve ser observado na sua elaboração estrutural. Muito comum vermos nos canis institucionais estruturas que não colaboram com a saúde dos cães, pois em muitas construções a arquitetura e disposição dos boxes são feitas erroneamente, como locais com portas de boxes frente a frente ou voltada para local de grande fluxo de pessoas, outros cães, carros ou viaturas, causando, desse modo alto nível de estresse e comportamentos indesejáveis.
Comportamento dos cães de trabalho prisional
Os treinos com os cães de guarda e proteção, obediência e faro são protocolados por normas cinotécnicas (LOPES; MARQUES, 2022). Todas as rotinas de trabalho e lazer são baseadas na Declaração Universal dos Direitos dos Animais e, em especial, com o artigo sétimo, já descrito anteriormente (UNESCO, 1978). Trabalha-se com a liberdade comportamental, psicológica, ambiental, sanitária e nutricional.
Faz parte do manejo correto à seleção daqueles animais que mais apresentam equilíbrio, sociabilidade e aptidão para o trabalho (MILLER et al., 2022). Muitas vezes podem ocorrer comportamentos indesejados mesmo em cães de trabalho selecionados geneticamente, podendo tais comportamentos ser advindos do manejo incorreto do plantel ou falta de treinamento.
Os problemas comportamentais podem estar vinculados ao ambiente, que não permitem o descanso correto. São apontadas como maiores incidências de baixo nível de bem-estar: queda do desempenho, fobias, caçar o próprio rabo (tail chasing), andar em círculos (circling), agressividade excessiva descontrolada, latidos e/ou uivos excessivos e automutilação (BENETT; ROHLF, 2007).
É importante considerar os muitos estressores potenciais encontrados pelos cães de trabalho, como condições de alojamento, transporte e métodos de treinamento, e adaptação às práticas ao nível de excitação e excitabilidade dos cães. Isto é de particular relevância quando se considera a apresentação e as expectativas durante a avaliação clínica, como o uso de tons agudos normalmente usados em cães de estimação e a forma de manejo. Essas técnicas incluem falar com calma e em tom mais baixo, utilizar técnicas de manejo de baixo estresse e incentivar a participação ativa do manipulador, conforme razoável (LAZAROWSKI et al., 2021).
Enriquecimento ambiental
Caninos de trabalho devem ser capazes de trabalhar sob uma variedade de condições e sustentar esse esforço por horas ou dias. Isso requer não apenas aptidão física, mas também um peso corporal saudável, condição corporal ideal ou magra e excelente condição muscular. Cães que trabalham em condições de alto calor e alta umidade são menos tolerantes ao calor e menos capazes de sustentar o trabalho se estiverem carregando excesso de gordura corporal ou estiverem mal condicionados (LAFLAMME, 1997; BAKER; DAVIS, 2018).
O sucesso na rotina de cães exige que atendam a critérios comportamentais desafiadores e sejam submetidos a treinamento extensivo (HORWITZ; LANDSBERG, 2022). Portanto, melhorar o bem-estar, manter número de cães disponíveis e seu desempenho, tanto no nível individual quanto no plantel. Pesquisa de Lazarowski e colaboradores (2021) relataram que atividades específicas após o treino podem aumentar a aprendizagem e a retenção a longo prazo, como um período de brincadeira pós-treino ou exercício. O cão de trabalho tem um estilo de vida diferente do cão de estimação comum, por isso é importante considerar os ciclos de trabalho/descanso e as exigências de horário dos cães de trabalho sob cuidados veterinários.
Desenvolvimento
O padrão de trabalho com cães da PEAR
Os cães da PEAR/SUSEPE são vacinados anualmente, desparasitados trimestralmente, banhados semanalmente, abrigados em boxes individuais com pátio, próximo à arborização para proporcionar sombreamento, recebem água ad libitum e ração premium em vasilhas de metal ou inox, higienizadas diariamente, conjuntamente com os boxes.
Uma boa opção de pagamento da cota diária de alimentação é no treinamento, como é realizado na Penitenciária Estadual de Arroio dos Ratos, pois faz o cão solucionar uma atividade proposta para obter seu alimento, desenvolvendo assim ainda mais suas funções cognitivas. Trata-se de um importante tarefa para estimular a resolução de problemas por parte dos cães de trabalho com exercícios que estimulam a realização de alguma tarefa e ser recompensado (Figura 1).

Figura 1 – pausa para alimentação durante o treino. Fonte: Canil PEAR/RS.
O método de treino realizado é o condicionamento operante, pois o animal aprende que a sua resposta a um comando tem consequências, isto é, aparecimento ou não de estímulo apetitivo ou aversivo; e na totalidade deste aprendizado, acariciar e parabenizar os cães a ter um melhor desempenho, os faz aprender mais rapidamente exercícios simples, como se sentar, deitar ou dar a pata. Lembrando que exercícios físicos também são atividades de suma importância para os plantéis caninos, pois além de manter a forma física, liberam hormônios que causam bem-estar e queima de energia. Uma boa opção no mercado são esteiras feitas exclusivamente para caninos onde o cão terá um exercício cardiorrespiratório completo com segurança e demandando somente coordenação e fiscalização por parte de seu condutor (Figura 2).

Figura 2 – esteira projetada para exercicios de cães. Fonte: Canil PEAR/RS.
O tempo ideal de utilização do cão deve ser o suficiente para não lhe extenuar e causar sua exaustão. O operador faz a correta leitura da expressão corpórea do cão e disponibilidade para realização da função, principalmente no tocante a ventilação e o risco de intermação. É, portanto, importante que as sessões de treino sejam curtas e que os cães tenham oportunidades suficientes para descansar.
Abrigo e local de descanso dos cães da PEAR
É preciso que seja observada a correta construção dos boxes dos cães de trabalho nas instituições, atentando para escolha de um lugar sem poluição visual e sonora, evitar a disposição de portões um de frente para o outro, para que seja proporcionado realmente um local de descanso. Boxes com adequada exposição solar, abrigado da chuva com estrado para que o cão realmente esteja protegido das intempéries; vasilha de metal ou inox para água e ração, limpos corretamente (Figura 3). A área onde se localiza o canil é desprovida de poluição visual e sonora, evitando a disposição de portões um de frente para o outro, para que seja proporcionado realmente um local de descanso (Figura 4).
Aliado à observância desses princípios fundamentais soma-se a visita regular ao veterinário, exercícios físicos ao ar livre e condicionamento em esteira, além de passeios sem coleiras e sem cobrança alguma (métodos aversivos) somente permitindo que o cão seja cão, deixá-lo livre para expressarem seus comportamentos.
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Figura 3 – a. Entrada do box individual; b. Solário e bebedouro de inox. Fonte: Canil PEAR/RS. |
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Figura 4 – a. Limpeza diária dos canis; b. Pátio de treinamento e administração do canil. Fonte: Canil PEAR/RS. |
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É de suma importância que os cães de trabalho sejam constantemente treinados, pois sua genética indica serem cães que necessitam de manejo assíduo e de queima calórica, evitando estresse (Figura 5).

Figura 5 – treinamento para canalizar o gasto de energia. Fonte: Canil PEAR/RS.
O canil da PEAR trabalha com ambiente enriquecido e exercícios como retrivier (correr atrás de objetos, como bolinhas e brinquedos) para aliviar o estresse, com brincadeiras e animal com livre deslocamento. No exercício de retrivier com os cães, o condutor estimula que o cão vá atrás do brinquedo (jogando a certa distância) e traga-o para ganhar outro igual, e com isso exige-se do cão explosão e raciocínio para apanhar o brinquedo e no ambiente enriquecido colocasse: ração, petiscos, brinquedos, em uma sala com garrafas pets, bolinhas de plástico, para que o cão tenha que achar uma certa dificuldade para ter sucesso, exigindo raciocínio e persistência para alcançar seu objetivo. Estes exercícios ajudam a dar mais autonomia na resolução de problemas, além de queimar calorias e gastar energia.
Considerações finais
Podemos destacar a importância da preservação de um ambiente salutar aos cães de trabalho, bem como um manejo consciente que proporcione uma boa qualidade de vida aos nossos companheiros de operações.
Aliado à observância desses princípios fundamentais soma-se a visita regular ao veterinário, exercícios físicos e passeios sem cobrança alguma, deixá-lo livre para expressar seus comportamentos, logicamente em um ambiente controlado. Por isso, a importância de não só promover o bem-estar dos cães de trabalho, mas combater e denunciar os maus tratos faz-se necessário, para combater falsos e pseudo adestradores que criam cães em canis insalubres de fundo de quintal, fazendo o útero de cadelas de vaga de emprego, “vendendo a descoberta da roda” em seminários e workshops, e através de conhecimento errôneo e pessoal submetem cães a treinamentos degradantes e violentos.
Portanto, combater essa prática e essas pessoas que não podem ser classificadas como profissionais, e sim “charlatões” da cinotecnia, se faz uma luta importante, contra aproveitadores do antropomorfismo que a sociedade brasileira adotou, pois vivemos no segundo país que mais investe no mercado pet no mundo, porém não temos uma cultura correta de manejo de cães.
O conhecimento que se tem é de alguns nomes de treinadores e criadores dispersos por todo o território, e só. Não há no Brasil uma unidade de pensamento e de trabalho com cães. Contudo, sejamos a mudança que enfim nosso país precisa no trabalho e manejo de cães, treinando-os e melhorando os plantéis geneticamente, e sobretudo respeitando os cães como seres orgânicos detentores de direitos, limitados e que possuem necessidades para bem desempenharem suas funções como todo ser vivo.
Conflitos de interesse
Não houve conflito de interesses dos autores.
Contribuição dos autores
O primeiro autor escolheu a proposta de trabalho para apresentar no curso de Especialização em Cinotecnia Policial, Projeto K9 das Faculdades Integradas IPEP, SãoPaulo/SP, em 2020-2021. A segunda autora é sua orientadora Médica Veterinária. Ambos os autores foram responsáveis pelo referencial teórico, construção do texto, revisão e aprovação da versão final do artigo.
Agradecimento
Hugo Anael Gomes Bicca agradece ao colega e diretor da Penitenciária Estadual de Arroio dos Ratos (PEAR) do Estado do Rio Grande do Sul, Sr. Anderson Moraes Cardoso, que proporcionou a realização deste curso de especialização em cinotecnia, sabedor da minha responsabilidade como reponsável do canil desta unidade prisional.
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Recebido em 28 de outubro de 2023
Retornado para ajustes em 14 de janeiro de 2024
Recebido com ajustes em 21 de janeiro de 2024
Aceito em 5 de março de 2024



